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DJ Shadow: Master at work

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Hoje celebram-se os 20 anos da edição de Endtroducing, obra decisiva do universo hip hop que tornou DJ Shadow num dos nomes obrigatórios da sua história. Recuperamos um texto de Rui Miguel Abreu a propósito de The Private Press, o sucessor de Endtroducing, mas onde também se olha com especial atenção para o legado do álbum de estreia…

 

The Private Press, o último álbum de DJ Shadow, está nas ruas há pouco mais de um ano. Tendo em conta o limite de atenção da indústria musical nos últimos anos – exceptuando os geradores incessantes de singles no topo das charts – é uma proeza que ainda existam motivos para evocar o nome do criador de Endtroducing sem que, na verdade, haja um novo álbum nas ruas. Mas Josh Davis (nome verdadeiro de DJ Shadow) é, provavelmente, o herdeiro do título em tempos atribuído a James Brown – “The Hardest Working Man On Showbusiness” – e não conhece o significado da expressão “pausa para o café”.

Além do novo single (um duplo A Side que inclui remisturas com assinaturas tão distintas como Z-Trip, Soulwax e Unkle e ainda – na versão CD – um DVD com dois excelentes vídeos para “Walkie Talkie” e “Mashin’ On The Motorway” da autoria do premiado Ben Stokes) há que contabilizar a edição exclusiva para o Japão de Private Repress, um CD com 14 faixas de remisturas/revisões da matéria dada no último álbum de originais de DJ Shadow (e que qualquer pessoa com ligação à net e um cartão de crédito pode encomendar) e o cobiçado exercício de estilo que é Diminishing Returns Party Pak, um duplo CD de edição limitada (e de legalidade comprometida…) que fixa digitalmente um set de Shadow para um programa de rádio de John Peel na BBC. Mal foi anunciada a edição limitada a mil exemplares de Diminishing Returns no site oficial do autor de “Midnight in a Perfect World” – www.djshadow.com – uma reacção em tudo semelhante às míticas corridas ao ouro foi imediatamente desencadeada com os fãs de todo o mundo a acotovelarem-se em intermináveis filas virtuais à porta do site de Shadow para conseguirem garantir a aquisição dessa preciosa peça de colecção. Como seria de esperar, pouco tempo depois havia exemplares deste luxuoso CD – numerado individualmente e embalado numa bolsa especial onde se inclui, além das duas rodelas digitais, alguns Coasters personalizados para bebidas e autocolantes criados especialmente para o efeito – a trocarem de mãos no Site da Ebay por quantias em tudo semelhantes ao nosso ordenado mínimo.

 


 

[SHADOW E A INDÚSTRIA]

Entretanto, DJ Shadow faz já saber nos Digests e F.A.Q.s disponibilizados no seu website que se encontra a trabalhar em novo material. O que não espanta nada quem tem acompanhado a carreira deste workaholic e percebe que Shadow não consegue estar parado muito tempo sem se envolver em projectos paralelos, sejam eles a gestão da sua editora Quannum (um colectivo que controla juntamente com os Blackalicious e a dupla Latyrx), as cuidadas e constantes digressões ou, como aconteceu no passado, ligando-se a aventuras com outros visionários com quem partilha ideias semelhantes – aconteceu com James Lavelle no caso do ambicioso álbum de estreia dos UNKLE, Psyence Fiction, ou com Cut Chemist nos já históricos Brainfreeze e Product Placement. Se por um lado, parte do output de Shadow se pode atribuir ao seu espírito criativo irrequieto, por outro há aqui um óbvio elemento de rebeldia contra a indústria em que se viu obrigado a alinhar depois da venda da Mo’Wax de James Lavelle à A&M há uns anos. DJ Shadow, obviamente, pertence ao domínio das independentes. Não apenas porque produz música não alinhada e desafiadora de convenções pop mais ou menos instituídas, mas porque entende a gestão de carreira como uma sucessão de impulsos editoriais que não têm obrigatoriamente que se traduzir na edição do único formato que realmente interessa à indústria – o CD. Ao longo dos anos, e na Mo’Wax original com que assinou o seu primeiro contracto discográfico, Shadow pontuou os passos da sua carreira com múltiplas edições em 12”, 10” e 7”, explorando toda a amplitude que a rodela de vinil pode assumir. Dividiu edições com gente como DJ Krush, editou material exclusivamente em formato promocional, e até lançou, imagine-se, material em K7. Pelo que, como é óbvio, reduzir o legado de Shadow a Endtroducing, Psyence Fiction e Private Press é um erro crasso.

Com a muito badalada entrega da Mo’Wax à A&M por, supostamente, um milhão de libras, os problemas de Josh Davis começaram… Em primeiro lugar aconteceu o desaparecimento da A&M, consequência inexplicável da fusão das multinacionais Polygram e MCA no gigante Universal. Depois disso, a Mo’Wax regressou ao circuito independente, mas uma consequência incontornável do negócio original de Lavelle com a A&M foi a manutenção de Shadow nos catálogos da Universal. Agora, Josh torna públicas as suas preocupações com o futuro da companhia a que se encontra ligado, manifestando nas F.A.Q.s do seu site o seu completo desconhecimento em relação ao futuro, uma vez que a MCA se encontra à deriva há vários meses, sem membros-chave na direcção. Nas entrelinhas do seu discurso, e por baixo da clara insatisfação com o destino da sua carreira dentro de uma multinacional, Shadow deixa escapar a ideia de que provavelmente é melhor assim e que a sua necessidade de liberdade de movimentos – artísticos, editoriais, etc. – irá ser satisfeita com um regresso aos mesmos circuitos independentes que viram a sua carreira nascer. Um dado acrescido para esta insatisfação, prende-se com o seu envolvimento com o ex-vocalista dos Rage Against The Machine, Zack De La Rocha, a quem produziu cerca de metade de um álbum que parece não querer ver a luz do dia. Josh explica aos seus fãs que perdeu o controlo sobre o destino do material que gravou com Zack e que nem sequer consegue garantir que os temas, que descreve como “irrequietos, futuristas e crus”, conheçam algum dia uma edição oficial.

Esta insatisfação de Shadow poderá compreender-se melhor analisando o seu perfil e os diversos passos da sua carreira. Como se ilustra para lá de qualquer dúvida no filme Scratch (disponível em DVD com selo Lusomundo), DJ Shadow é um arquivista compulsivo e obsessivo da história da música impressa em vinil. A sua colecção é lendária, profunda e carregada do tipo de obscuridades que lhe permitem o luxo de num álbum feito exclusivamente de muitas centenas de excertos “samplados” de discos haver apenas meia dúzia de samples creditados. Perguntem o porquê dessa obsessão a Josh Davis e ele dissertará durante horas sobre as descargas de adrenalina que uma expedição de procura de vinil a uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos pode gerar. Para Shadow é uma questão de respeito. Pelos códigos originais do hip hop, pelos fundadores, pelo espírito de procura do beat perfeito inaugurado logo na alvorada do hip hop por gente como Bambaataa ou Jazzy Jay.

Nas F.A.Q.s do seu site, Shadow conta um caricato, mas exemplificativo episódio da falta de respeito pela música existente actualmente no seio da Indústria. Refere o DJ que entrou recentemente numa loja de discos e pegou num CD que compilava glórias passadas da dupla Eric B & Rakim apenas para receber um enorme choque quando virou o disco ao contrário e descobriu que na contracapa desse mesmo CD se encontrava uma foto de Eric B &… Chuck D (o homem do leme dos Public Enemy). “Estas editoras nem sequer reconhecem a cara dos seus próprios artistas”, desabafa. Por coincidência, tratava-se de uma compilação de Eric B & Rakim editada pela MCA…

 


 

[NOVOS TERRITÓRIOS]

Independentemente da via editorial que venha a ser escolhida no futuro, DJ Shadow já assegurou, por mérito das suas afirmações estéticas lançadas até ao presente, um lugar de destaque na história da música. Monumentos de abstracção expressionista como What Does Your Soul Look Like ou Endtroducing reequacionaram de forma radical o território musical do hip hop, abrindo espaço para a expressão musical mais pura, liberta do peso narrativo da palavra enunciada pelo MC. As colagens minuciosas de excertos aurais retirados de discos quase sempre impossíveis de identificar são possíveis em Shadow apenas porque ele gasta incontáveis horas a procurar – um pouco por todo o mundo, mas principalmente nos Estados Unidos – o disco certo e a batida perfeita para submeter ao jugo do seu sampler. Esta “ética” particular fez de Shadow um dos maiores arquivistas de música negra e derivados do mundo. E reconhece-se abertamente que a sua colecção – de muitos milhares de discos – é tão funda que só os esforços combinados de comunidades de fãs organizadas através da Internet foram permitindo ao longo dos anos mapear as relíquias originais usadas na discografia de DJ Shadow (há uma página que lista os samples originais usados por Shadow nas suas composições que muda de URL todas as semanas para manter esse secretismo). Em várias entrevistas ao longo dos anos, Shadow explicou que para ele, a actividade de beat digging é já composição. “Não considero estar a compor apenas quando entro no meu estúdio e ‘samplo’ um break de um qualquer disco para usar numa música. Para mim, a composição começa quando saio ao sábado de manhã de casa para ir comprar discos. Faz tudo parte de um processo…” clarificou DJ Shadow, há uns anos, a uma publicação online. Invariavelmente, Shadow começa cada novo disco seu com uma expedição meticulosamente planeada de beat digging a uma qualquer remota cidade dos Estados Unidos, onde mergulha em caves como aquela que nos é mostrada no filme Scratch de Doug Pray para depois emergir com a matéria prima que vai usar nas suas composições. Esta “ética” de Shadow tocou fundo nas mentes de muitos seguidores dos princípios do hip hop, que usam as mesmas técnicas. Criou uma escola, portanto. E aí já se pode começar a medir a importância do legado de Shadow.

 


 

[PRIVATE PRESS REMIXES & DIMINISHING RETURNS]

As remisturas oferecidas no single que agora chega ao nosso mercado são um dado novo na carreira de Shadow que, com raras excepções, manteve o seu material hermético ao longo dos anos (consultar discografia). O exercício de Z-Trip, um pouco como a remistura de Cut Chemist para “Number Song”, acaba por soar mais como um tributo ao pioneirismo de DJ Shadow, dada a forma como ele integra excertos de temas centrais da discografia do criador de “Private Press”, quase desenhando um percurso aural da sua carreira. Já os Soulwax, em “Six Days”, resolvem colar a voz “samplada” de um disco de rock psicadélico inglês dos anos 60 (da autoria de uns esquecidos Colonel Bagshot) “descoberta” por Shadow a um tema dos B-52’s, prolongando no tempo a velha tradição hip hop de colagem via gira-discos de objectos discográficos opostos. A versão dos UNKLE de “GDMFSOB” recruta os talentos de Roots Manuva para, sobre um duro beat que cruza sonoridades electro e hip hop, redefinir completamente os propósitos do tema original. Nesta remistura dos UNKLE pode ler-se ainda uma mensagem para o mundo exterior: Shadow e Lavelle não estão tão zangados como se poderia pensar (afinal Shadow não participa no novo álbum de UNKLE…).

Além dos radio edits de “Walkie Talkie” e “Mashin’ In The Motorway”, podem encontrar-se ainda neste CD, num segundo disco extra em formato DVD, os vídeos para esses dois temas da autoria de Ben Stokes. E acabam por ser traduções visuais perfeitas das técnicas de colagem e subversão que DJ Shadow aplica na construção das suas músicas. No vinil, tal como na já referida versão japonesa de “Private Repress”, pode ainda encontrar-se uma remistura intitulada “Tokyo Ghetto Tech Remix” de “Right Thing” que, uma vez mais, usa as armas do Electro para dar início à revolução na pista de dança.

Já o cobiçado “Diminishing Returns”, o tal duplo CD de edição limitada que já foi “pirateado” e está hoje disponível um pouco por todo o lado (mas sem a embalagem original de Shadow e sem os stickers e coasters oferecidos nessa edição) evidencia a vertente turntablist de Shadow e o seu lado de coleccionador obsessivo. Trata-se de um set gravado para a BBC a convite de John Peel. No primeiro CD, Shadow conduz-nos numa alucinante viagem à golden age do Hip Hop, entre 88 e 93, alinhando raridades com a mestria de um DJ veterano e expondo assim as influências do seu período formativo. A música desse primeiro CD é extremamente rica: foi nessa época que o Hip Hop descobriu o sampler e começou a passar em revista todo o passado da música negra norte-americana.

O segundo CD deste “Pak”, por outro lado, é um objecto completamente diferente. Shadow tem apontado muitas direcções à comunidade internacional que faz da angariação de rodelas raras de vinil a sua forma de vida. A recente febre com os Funk 45s (singles de sete polegadas editados entre 68 e 73 por minúsculas editoras de remotas cidades americanas que assim ecoavam a revolução rítmica iniciada por James Brown), por exemplo, foi despoletada por Shadow e Chemist em “Brainfreeze”, o famoso set que conheceu uma edição limitada de 2 mil exemplares e que abalou o mundo do coleccionismo, ao apontar os faróis para o enorme manancial de Rare Funk americano. Com “Diminishing Returns”, Shadow volta a agitar essas mesmas águas, desviando agora a atenção dos coleccionadores para os territórios ainda pouco explorados do legado do Psych Rock norte-americano e britânico. Em nenhum destes dois CD’s é fornecida uma track listing o que em vez de funcionar como um elemento dissuasor da dedicação dos beat diggers mais convictos, só torna a busca mais interessante. No caso do beat digging, Shadow parece dizer, ao não fornecer todas as pistas, que o prazer está na viagem, tanto como na descoberta…

DJ Shadow vai continuar a surpreender-nos no futuro. A Muzik esteve atenta quando considerou “Endtroducing” como o melhor álbum de sempre nos domínios do que vagamente se identifica como Música de Dança. Mas mais do que repousar à sombra de antigas façanhas, Shadow parece querer continuar a desbravar novo território. No final do segundo CD de “Diminishing Returns”, há um inédito de Shadow. Chama-se “War is Hell” e é uma declaração sobre os dias do presente. Mesmo sem palavras, pode-se ainda ser político e interventivo. Algo que a música de DJ Shadow – poderosa, evocativa, dramática… – soube sempre ser. Aguarda-se, para breve, o futuro!

 


 

 

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