DJ Ride: “Sinto que estou a inspirar uma nova geração”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Rita Carmo

 

Em 2007, Tomás Oliveira já era um DJ teimoso. Tocava e fazia as suas produções com a enorme convicção de que podia fazer algo diferente no universo do djing em Portugal, para lá dos clássicos artistas que eram residentes nas grandes discotecas nacionais e internacionais, grandes figuras nos registos do house e techno. Sem medo de correr riscos, DJ Ride, de olho no hip hop, editou o seu primeiro trabalho há oito anos – Turntable Food -, mas rapidamente começou a expandir os seus gostos e a saber posicionar-se nos mais variados registos da música electrónica. O hip hop, sim, sempre: seja pelos beats, seja pelas colaborações com os mais variados MCs do país; Mas também cresceu a espalhar as bombas nas festas, a pôr o pessoal a dançar à séria, em discotecas, semanas académicas ou festivais, de Norte a Sul.

Oito anos depois, três discos editados – conte-se ainda Psychadelic Sound Waves (2010) e Life In Loops (2012) – um título de campeão do mundo de scratch/turntablism (juntamente com Stereossauro, nos Beatbombers), DJ Ride ocupa o lugar de proa na cena da música electrónica urbana em Portugal, sempre com olhos postos no além-fronteiras. Hoje edita o seu quarto trabalho, From Scratch, e sentou-se a conversar com o Rimas e Batidas sobre o novo disco e sobre as suas ambições.

 


Vem aí o novo álbum, já é o quarto disco na tua conta pessoal. Para um DJ em Portugal é um caso completamente atípico, não me estou a lembrar de nenhum outro caso semelhante. E a tua discografia já vai com um tamanho bastante considerável.

Sim, por acaso ontem estava a reunir os meus discos e às vezes esqueço-me do que faço, o que é normal, são vários anos [de trabalho] e começa a ser muito material. Estava a ter aquela sensação de orgulho pelo discos que tenho. É atípico até porque não sou propriamente um DJ de música de dança, a maior parte das vezes a minha produção nem é nada dança. Tens casos do pessoal do house e do techno que editam regularmente singles, mas o álbum é algo que está a cair em desuso, o pessoal já não edita álbuns com tanta frequência. Ainda assim, é o formato que mais me desafia porque tens que contar uma história do início ao fim, tens de fazer uma pesquisa muito grande e de ficar fechado no estúdio a gravar durante meses e meses. É sempre muito complicado fazer um álbum, principalmente quando misturas convidados, torna-se ainda mais difícil. É um desafio que ainda me excita bastante e que quero continuar a fazer. Quem sabe, se no próximo ano não há um novo álbum. Veremos.

 

Passaste por um processo de procura de uma editora para este disco. O que se passa de errado com a indústria em Portugal para não repararem num DJ que tem uma carreira como a tua e que todas as semanas está a tocar para muita gente? Aquilo que seria normal de esperar era teres a Universal e a Sony a disputar-te no catálogo e não acontece. Porquê?

Sem dúvida. Tem que ver com a falta de conhecimento da música electrónica, porque a música electrónica é muito abrangente e não é só o house e o techno e, hoje em dia, o EDM. O know how é fundamental, a falta desse elemento por parte dessas majors e mesmo doutras labels torna cada vez mais difícil estabelecer uma comunicação.

 

Mas eles ainda não aprenderam nada com os casos de A-Trak e Diplo? Esse tipo de DJs que lá fora têm carreiras super-sólidas.

Não porque, por exemplo, tu falas do A-Trak e a maior parte dos A&R não sabem quem é. Falas do Diplo, que alguns já reconhecem por via de [uma colaboração com] Major Lazer, mas se calhar há uns anos também não o conheciam. Então acaba por ser sempre uma questão de know how, não querem arriscar. Depois é também uma coisa que falo muito com o meu manager e com outras pessoas que é: os representantes das editoras não estão na rua, não estão na estrada, não vão aos festivais, e se vão, vão ouvir os headliners, vão ouvir o pessoal que tem mais buzz e hype porque alguém escreveu sobre eles e publicou numa revista. Não veem quem faz o warm up ou quem fecha a noite porque três ou quatro da madrugada já é muito tarde para eles, então é uma coisa muito diferente do que se passa no estrangeiro. Lá fora tens pessoas e, das poucas vezes que tenho tocado no exterior, sinto sempre que há um conhecimento completamente diferente. As pessoas conhecem desde o artista mais underground ao artista mais mainstream e tratam com tanto respeito ou mesmo com mais respeito o artista underground que tem mil followers no SoundCloud do que o que tem um milhão. Isso é a grande diferença, aqui as pessoas não querem arriscar e também ainda estamos muito presos a muitos dogmas.

 

Vamos regressar ao início da história. O teu primeiro disco, Turntable Food data de 2007. Olhando para trás, qual é a imagem que reténs de ti mesmo em 2007. Quão diferente eras tu nessa altura?

Era um ganda puto. Ainda sou um puto, mas na altura era um ganda puto e sabia muito pouco de produção. Já tinha alguns meios, mas nada que se compare com os dias de hoje. Mas foi engraçada essa cena naive que vejo no álbum, é muito bom ouvir esse disco hoje em dia e sentir essa cena pura. O pouco que eu conseguia fazer é o que está nesse disco. Saiu bem, saiu com uma grande alma, a produção era muito minimal e estava a descobrir as cenas, ainda não percebia nada de compressores e de distressors, de exciters e de compressão paralela, material analógico. Lembro-me de aprender muito com o Armando Teixeira, que foi a pessoa que me ajudou com a masterização na altura. Mesmo a nível técnico, em Portugal, a música era completamente diferente, mesmo o circuito clubbing. Então eu era um puto que estava a começar a sair mais para Lisboa e para o Porto, a deixar o ninho das Caldas [da Rainha] com o Stereossauro. Mesmo a nível nacional as coisas estavam muito diferentes, era praticamente impossível eu tocar nos sítios onde toco hoje, por exemplo. A maneira como hoje as pessoas vêem a música de dança e a música electrónica e o hip hop – que na altura ainda era uma cena muita pequena, tinhas o Sam [The Kid], o Valete, o Regula – é diferente. A cena explodiu completamente.

 


 


Quando eu era miúdo lembro-me que havia nos jornais diários uma secção muito curiosa: a “descubra as diferenças” – duas imagens parecidas mas com ligeiras diferenças. Se nós fôssemos meter uma fotografia do DJ Ride em 2007 e outra em 2015 e tivéssemos que identificar as diferenças, o que encontrávamos?

Fisicamente estou mais bonito. Continuo a usar chapéu. Não, agora a sério, eu passo exactamente o mesmo tipo de música que há dez anos. Às vezes há aquelas pessoas que me encontram num festival ou num club mais comercial a passar R&B, hip hop ou algum clássico e dizem-me que eu dantes não passava assim tanto R&B e hip hop. Eu penso para mim que não é verdade, sempre passei estes discos. Às vezes as pessoas, pela hora ou pelo contexto, gostam de mandar umas bocas aos DJs. Passo a mesma música, faço a mesma música, tenho outros meios, graças a deus a cena evoluiu e consigo tocar muito mais do que na altura porque a música urbana evoluiu e explodiu. O hip hop  era uma cena alternativa e underground e hoje em dia todos os miúdos com 13 ou 14 anos estão cheios de hip hop  no telemóvel. Já não é no discman nem no iPod, é no telemóvel. Todos os telemóveis têm leitor de MP3 e o que se passa hoje em dia, que me ajudou bastante a mim e a outros artistas, é que o miúdo ouve Skrillex, Major Lazer, Diplo, Regula , Joey Bada$$, Tyler, The Creator, Sam The Kid, Valete, DEAU ou Mundo Segundo. Há 10 anos atrás só ouvias ou hip hop ou drum ‘n’ bass ou eras do house ou do techno, agora a nova geração ouve tudo. Isto está muito mais open minded e quem não é open minded está um bocado tramado, porque mais do que nunca tem de se adaptar e não se pode fechar numa cena mais formatada. Mesmo lá fora, quem se fecha pode ter um nicho, mas a dica está na parte híbrida da música, de tentares fundir várias abordagens e de sair dali algo novo.

 

É mais ou menos óbvio o que ganhaste nos últimos anos: notoriedade, uma carreira, talvez até estabilidade financeira na tua vida. Mas se tivesses que olhar para este percurso, conseguias identificar alguma coisa que tenhas perdido?

Sim, o que mencionei antes: a cena naive. Eu digo ao meu irmão [Holly]: puto, tu não percas essa cena pura e genuína que tens à medida que te dás mais com o pessoal da noite, com os promotores e com as agências. E também porque há aquele grande cliché de que as editoras querem sugar o dinheiro aos artistas. No fundo continua a haver pessoas muito más e tendenciosas, há muitos vícios na noite, porque a música de dança e a electrónica vivem da noite. Faltam pessoas que trabalhem by the book e que estejam na música pela música. Em noventa por cento das reuniões que tenho com promotores ou labels, falamos de tudo menos de música. Isso entristece-me e é isso que eu digo ao meu irmão e aos putos novos: que nunca percam essa cena genuína e pura que têm pela música. Não é que eu tenha perdido, mas deixem o dirty work para os mais velhos. Às vezes falam-me em dinheiro: pessoal não falem em cachê, arranjem um manager, arranjem alguém que fale porque a partir do momento em que misturas tanta coisa, parte da magia, principalmente das actuações, perde-se. Faço um enorme esforço para não perder isso.


 

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“O que digo ao meu irmão e aos putos novos é que nunca percam essa cena genuína e pura que têm pela música. Não é que eu tenha perdido, mas deixem o dirty work para os mais velhos. Arranjem um manager. A partir do momento em que misturas tanta coisa, parte da magia, principalmente das actuações, perde-se.”
– DJ Ride

 


Essa estrutura que construíste à tua volta é uma defesa para o teu lado de artista?

É uma defesa e muitas vezes digo ao meu manager que não quero saber de negociações, que não me ponha nos e-mails que não quero saber. Quero é tocar, fazer música. O objectivo de qualquer músico e produtor é fazer música e estar no estúdio a scratchar. Fico mesmo muito contente porque, passado tanto tempo, continuo cheio de pica para fazer música. Tem que ver com a minha maneira de ser, com as pessoas com quem me rodeio. As coisas podem não estar muito boas no panorama, cada vez é mais difícil furar e um gajo tem que ter um single. Hoje em dia o pessoal das labels já não v as vendas do álbum, vê em caché. goraa e, novo ê as vendas do álbum, vê os likes que tu tens no Facebook e no YouTube, é um bocado triste. Eu tento abstrair-me disso tudo, apesar de às vezes ser um bocado complicado, mas cada vez tenho mais pica. Mesmo ao lado do Stereossauro, nós queremos entrar outra vez no DMC e no IDA. É super importante criares também as tuas defesas, no fundo não deixares levar-te pelo dark side da música. É um bocado aquelas conversas cliché dos haters e do pessoal que não curte da tua música, tens que te abstrair disso. A partir do momento em que sais de casa tens pessoas que vão com a tua cara e outras que não, fizesses ou não música. Imagina que o Kanye West se importava com os haters

 

Ganhaste inimizades sérias nestes anos pela posição que hoje ocupas? Sentes que ganhaste inimigos pelo caminho?

Não digo inimigos, mas sinceramente aprendi que em Portugal o sucesso incomoda muita gente. Sempre fui uma pessoa que meteu o próprio mérito à frente das outras coisas. Mas claro que tenho pessoas super importantes que passaram pela minha vida, do início até agora: o [Rui] Murka, o Pedro Santos da Lado B, que era uma agência com o Rodrigo Amado que me ajudou imenso no primeiro álbum, que saiu pela Loop; o pessoal da Loop que também me ajudou imenso nessa altura e que continuamos ligados. Só que, para mim, a cena sempre foi o mérito. Se eu não fizesse boa música não estava aqui. Ninguém me ajudou a ganhar campeonatos de scratch ou a ganhar o mundial [IDA] – exceptuando o Stereossauro, porque é metade dos Beatbombers -, isso sempre deixou bastante orgulhoso. Mas no fundo o sucesso incomoda as pessoas, principalmente os preguiçosos e Portugal tem muitos. Costumo dizer: falem menos e trabalhem mais, porque há muitos DJs que se queixam porque o telemóvel não toca e eu pergunto: “quando lançaste a última mixtape? Não fazes uploads no SoundCloud há quanto tempo? O teu Facebook de artista?” Tens que saber promover-te, ir à procura. Os putos novos do SoundCloud lançam músicas de 30 em 30 segundos, é uma cena esquizofrénica.

 

A internet veio revolucionar a música. De repente tens o Kendrick Lamar a escolher um produtor novo através do SoundCloud.

Tens o Kanye West com o Evian Christ. Aliás, nós convidámos o Evian Christ – e isto mostra como as coisas em Portugal estão um bocado lentas – e estavam 50 pessoas a vê-lo no Musicbox; a primeira vez que tivemos o Shlomo em Lisboa também foi pelas nossas mãos, pela Rock It, e tivemos 100 pessoas; o DJ Foot, um gajo histórico da Ninja Tune, teve 30 pessoas. É complicado, tu tentas oferecer mais às pessoas, mas não tens assim muito feedback. A revolução foi mesmo a internet, o Evian Christ fez o EP dele e o pessoal da Bootcamp do Kanye West convidou-o a ir a Paris. Há uns anos isso era impossível. Ele fez uma das melhores músicas de sempre, a “I’m In It”, eu oiço aquilo e parece ópera com trap com hip hop  com uma cena avant garde.

 

Alimentas secretamente a esperança de um dia o Kanye ou um desses nomes da primeira liga americana tropeçar no teu SoundCloud e receberes um telefonema?

A esperança é a última a morrer. Há pouco tempo ganhei a viagem ao Japão com o [Red Bull] Thre3Style e fui à final. Tirando os campeonatos de scratch, só há pouco tempo é que comecei a alimentar a minha carreira internacional. Também porque tenho tido muito trabalho em Portugal e a vida na estrada não permite teres tempo para tudo. Uma das minhas prioridades é continuar a entrar nos campeonatos, continuar a fazer esses contactos lá fora, o Thre3style e outras cenas que me têm ajudado imenso, arranjar labels pelo SoundCloud, sejam pequenas ou grandes. Uma das minhas inspirações é o meu irmão, que tem alimentado o SoundCloud dele quase diariamente. Ainda ontem o colectivo Livelab começou a segui-lo, e também o UZ, que é um dos maiores nomes do trap. Ao colocares coisas no SoundCloud consegues ter pessoal internacional de olhos postos em ti e no que estás a fazer no teu quarto. Por isso, passa muito por alimentar cada vez mais as páginas pessoais, tenho esperança de ser contactado no futuro por algum big fish.

 


 


Qual foi neste teu percurso de sete ou oito anos de carreira mais visível a coisa mais rock n’ roll que fizeste? Que te tenha feito sentir que és uma estrela.

Ser o headliner de festivais grandes é um poder brutal. Fechar festivais. Por exemplo, fui o primeiro português a fechar o Sudoeste, a seguir a Orelha Negra e Snoop Dogg. Teres esses highlights é brutal.

 

O que está no teu Hospitality Rider?

Muito pouco, sou um gajo modesto. Se calhar a cena mais fancy seja Grey Goose ou Jack Daniels, e muitas vezes nem tocamos no álcool. Prefiro que se concentrem no rider técnico, mas no fundo esse poder vem daí. Por exemplo, estar a tocar em sítios que estão vazios e passado cinco minutos estão cheios. Os highlights foram sem dúvida os festivais e sentir que estou a inspirar pessoas e uma nova geração. É a melhor cena.

 

Falava-se durante muito tempo, e eu na minha carreira profissional fui observando isso – aliás lutei contra isso – que Portugal era um país condenado ao rock. Eramos um País de rockers e de filhos do rock. Sentes que se inverteu alguma coisa, que hoje em dia a electrónica é dominante no nosso País?

Não digo dominante, mas hoje ligas-te a certas rádios, mesmo as mais mainstream, e ouves EDM, ouves R&B e hip hop. Até a Katy Perry tem beats trap.

 

Esta semana aconteceu uma coisa estranhíssima: a RFM ter feito a história do hip hop português com os HMB e um dos temas que interpretam é “Respeito” dos Micro. E eu pus-me a pensar: “Nunca na vida Micro teria sequer passado na porta da RFM”.

A mentalidade mudou. Tens Jack U, projecto Diplo com Skrillex, a passar na Mega Hits todos os dias. Mesmo o próprio AGIR que tem beats hip hop com electrónica. Tens mesmo pessoal desde a cena mais alternativa à cena mais mainstream, e por vezes cheesy, mas já com bases na electrónica, e há uns atrás era quase tudo rock ou acústico. Sinto, não que se tenha invertido, mas mudou completamente, é mais provável fazeres zapping na rádio e apanhares um beat electrónico do que rock ou uma cena ligeira ou pop ou acústica. Isso ajudou imenso a puxar a cultura urbana para cima e a abrir portas também para DJs como eu e outros para podermos passar drum ‘n’ bass e dubstep num festival ou num club mais mainstream. Hoje já não há tanto medo de arriscar.

 

Ainda tens margem de progressão no nosso País, ainda há território para explorar? Sítios novos onde ir tocar?

Sim, claro que sim. Já não há muitos sítios que sinta que ainda me falta ir. Há alguns festivais onde me falta ir tocar, mas há sempre margem de progressão e há sempre espaço lá fora, que é o que estamos a fazer cada mais. Exportar coisas para fora, a nossa música e os nossos live acts e os campeonatos de scratch e outros eventos que nos têm ajudado a fazer isso. Se eu for ver as estatísticas na nossa página de Facebook, temos mais pessoal internacional do que nacional e isso é brutal.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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