DJ Ride: pulsações entre pratos e beats


 

[FOTOS]: Ricardo Miguel Vieira

 

Tomás Oliveira aka DJ Ride raramente sai à noite. É um paradoxo, é certo, mas no dia em que nos encontramos, algures em Olaias numa tarde quente de Abril, a primeira coisa que me dispara, assim que nos cumprimentamos, é que no dia anterior teve uma noite à antiga e que há imenso tempo não descontraía com os amigos na noite. Fico perplexo: como é que o beatmaker/turntablist/DJ/produtor natural das Caldas da Rainha pode afirmar que raramente desbunda na noite se está presente em tudo quanto é cartaz de festas universitárias ou de clubbing ou festivais, em Portugal e mundo fora?

Assentando na mente a constatação de Ride, a verdade é que o paradoxo logo se torna numa previsibilidade. A agenda do rapaz tem poucas linhas desocupadas, entre produções colaborativas, showcases e até o seu próximo álbum, com edição marcada para Setembro. É trabalho que não acaba e, mais à frente, enquanto partilhamos uma imperial e uma coca-cola num café local, acaba por brincar com o facto de haver dias em que só dorme duas horas.

Mas regressemos à noite anterior: conta-me que começou com uma actuação numa universidade lisboeta, seguindo-se uma passagem por diferentes pontos de concentração nocturna em Lisboa – juntamente com o irmão, o beatmaker Holly, e uns amigos – e terminando de copo na mão no Lux Frágil. Uma madrugada carrossel que bem pode servir de metáfora ao percurso de Ride: há 12 anos começou a brincar com as agulhas e há sete conquistou o título mundial de turntablism da IDA enquanto membro de Beatbombers (juntamente com Stereossauro). Caminha para dois pares de discos lançados e incontáveis produções e colaborações com artistas portugueses e internacionais dos mais diferentes géneros. A tudo isto somam-me as actuações ao vivo e frutíferas integrações em plataformas como a Red Bull Music Academy. Se antes me causou estranheza Tomás Oliveira asseverar que não saía à noite, agora indago como poderá dormir sequer duas horas.

Ou como terá encontrado um furo no calendário para me receber e reflectir sobre o que mudou na sua carreira e música ao longo da última década e o que está para vir no próximo disco. Rematamos as bebidas de um só trago e seguimos até à sua casa-estúdio na capital, onde esta história se conta.

 

[DJ Ride]: Um gajo é DJ mas também toca [piano] (risos). Tive aulas de piano [quando era mais novo]. Na altura não era bem piano, era teclados electrónicos, estás a ver? Agora saquei uns tutoriais muito fixes no YouTube. Estás a ver a cena do Guitar Hero, que tu vês as notas a aparecer? É isso, mas com as notas todas do piano. Então, se tu puseres o iPad à frente, é mais fácil tu veres em vez de estares a ler a escala. Sei ler a pauta, mas em vez de estares a ler, estás a ver o gráfico. É muito fixe para aprender e agora estou com pica.

Isso é excelente, no fundo demonstras uma veia auto-didacta. Que mais instrumentos queres aprender?

Sim, sim. Dentro da música electrónica aprendi tudo sozinho e na altura nem sequer havia YouTube, era complicado. Hoje em dia vais à internet e há montes de tutoriais e é muito fácil. Às vezes há coisas que não sei, então vou ler softwares na net, tirar dúvidas e por aí fora. Quando era puto preferia jogar futebol e jogos de computador do que ir às aulas de piano. Mas agora que tenho o Rhodes, já me deu aquele bichinho de ir ao YouTube e sacar uns tutoriais, sem dúvida quero aprender piano. Tenho algumas bases, sei alguns acordes, mas é uma coisa que quero aprender mais nos tempos livres, até para relaxar.

Um complemento ao scratch portanto, porque suponho que nunca será uma substituição…

O quebra-cabeças é o scratch, continuo a treinar todos os dias. No outro dia fiz um post [no Facebook] a falar disso: mesmo passado tantos anos – comecei no scratch há 12 -, continuo a ter aquela coisa… Às vezes, eu e o Stereossauro vimos cansados de um gig, de directa, e chegamos aqui a casa e em vez de irmos dormir fazemos umas jams de scratch. Mais amor do que isso…

Mas ainda há pouco no café disseste que mal tinhas tempo para sair, como é que encontras tempo para conciliar tudo: turntablism, produções, gigs?

A partir do momento que qualquer artista tenha uma carga mediática grande ou toque bastante, o pessoal cria sempre uma ilusão que aquele artista é um rockstar ou que no backstage é sexo, drogas e rock n’ roll. Mas, no fundo, a maior parte das coisas é uma grande seca. Temos de ser muito profissionais, porque isto é o nosso ganha-pão. Nunca dei em drogas sequer, venho das bicicletas, faço desporto, raramente bebo. Isto sem querer estar a ser moralista, mas a partir do momento em que tens a oportunidade de fazer disto vida, tens mesmo de a agarrar e não podes falhar. E eu tento sempre – tal como a minha equipa – encarar as coisas da maneira mais profissional possível, não podes ir para o palco e estragar o equipamento ou derramar um copo ou estares ali com uma postura não profissional. Tens de ser focus ao máximo e é complicado arranjar tempo livre. Há amigos meus que perguntam se não gostaria de ter um estúdio fora de casa, mas aquele feeling de acordares e estares ainda meio ensonado e vires para aqui comer cereais ainda de boxeurs e ligares as máquinas e começares a produzir é priceless. Isto é um vício, é um lifestyle, nunca encarei isto como um trabalho. Não consigo estar um dia sem vir para aqui. Durante a semana estás a treinar, estás a comprar música, estás a pesquisar, tens reuniões, tens ensaios, e depois ao fim-de-semana, quando pisas o palco, consegues desanuviar e estar com os teus amigos e vais viajar e por aí fora.


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Certamente não dirias isso há uns anos. O factor pressão está sempre presente nas performances ao vivo, só a experiência pode permitir-te usufruir realmente da oportunidade de estar no palco.

Sim, sem dúvida. Eu fico ansioso, mas nervoso já não fico. Uma pessoa tem sempre aquela ansiedade para que as coisas corram bem, mesmo a nível técnico e com o público e o promotor do festival ou do club, que seja um evento que corra bem para toda a gente, porque queres que seja uma win-win situation. Não queres ir a um sítio só buscar o teu cachê e borrifar para o resto. Não, queres que as pessoas saíam de lá contentes com a tua prestação. O placo é o sítio onde estou mais calmo, porque acho que é uma coisa que sonhei desde puto. Sinto-me muito bem em palco, não fico assim muito nervoso. Quando piso o palco, é talvez uma espécie de terapia também, é um ciclo que se fecha após estar aqui a semana toda a ensaiar.


Às vezes, eu e o Stereossauro vimos cansados de um gig, de directa, e chegamos aqui a casa e em vez de irmos dormir fazemos umas jams de scratch. Mais amor do que isso…


É uma questão também de maturidade, todos passamos por isso, sejamos músicos ou whatever. Como é que dirias que mudaste nos últimos anos? Em que é que te sentes diferente, comparando por exemplo com a época pré-Life in Loops?

Já pensei bastante nisso. A nível de carreira e música não mudou muito, porque, para quem me acompanha desde início, aquilo que faço neste momento e aquilo que eu fazia há 10 anos é muito parecido a nível de estilos. A minha onda sempre foi o hip hop e o scratch, mas também sempre misturei tudo – o drum n’ bass, coisas mais grimmy, mais pesadas, mais electrónicas, mais leves, R&B. Sempre fiz essa fusão de estilos desde o início. Tenho discos que são tanto Beastie Boys ou Public Enemy ou El-P até Jay-Z, Kanye West e se calhar até Beyoncé, porque também ambicionava esse circuito mais de clubbing, que é uma coisa que faz parte da história dos DJs de hip hop. O DJ de hip hop sempre foi muito eclético, passava sempre todos os estilos e temos essa generosidade, de ver coisas válidas em muitos estilos. E isto também se aplica a produções. Por isso, a nível de estilo não mudou muito, porque sempre fui uma pessoa que tentou manter-se actualizada, é um bocado a minha imagem de marca e tenho a inteligência de estar atento e estar a par do que se está a passar e tentar sempre beber de várias fontes, porque isso é hip hop. A nível de carreira, o que mudou é que quando comecei estava sozinho. Depois veio Beatbombers, entrámos nos campeonatos, começámos a ser mais conhecidos, o que mudou é que tenho uma estrutura mais profissional. Tenho um manager, tenho assessoria de imprensa, posso investir, fazer um vinil, uma edição sozinho, sai uma máquina e posso comprar essa máquina a pronto, tenho outro poder económico face à 10 anos. Agora tenho outra estrutura e toco mais, também tenho mais liberdade para fazer coisas e tenho mais contactos também.

Daí que também passes música em locais de diferentes características e públicos. Tanto estás numa festa universitária como vais para um país do leste europeu tocar num festival. As coisas adquiriram outra carga, outra dimensão.

Sem dúvida. A partir do momento em que comecei a tocar mais e num circuito maior de clubs e de festivais e discotecas, ganhei noção da dimensão disto, é um mercado brutal para qualquer banda ou projecto musical, porque consegues também ter mais liberdade e poder económico. E o mais importante – porque o dinheiro pouco me interessa – é o partilhar música com o maior número possível de pessoas. Algo que me dá imenso prazer é o que fiz com Beatbombers: irmos à Polónia, ninguém nos conhecer, tocarmos um som com guitarra portuguesa e os polacos emocionarem-se e eles saberem que aquilo são raízes tugas, são raízes daqueles dois artistas que ali estão; ou então posso ir a uma Queima das Fitas e estar a passar Run The Jewels, a seguir um dubstep, um drum n’ bass, uma malha minha, um som de hip hop tuga e isso dá-me imenso prazer. Já houve miúdos que vieram ter comigo e disseram que compraram os pratos porque me viram actuar e decidiram ali ser DJ. Isso é a melhor recompensa que podes ter, é saberes que estás a plantar, a deixar a tua semente de norte a sul e lá fora também.

De norte a sul e em família. O teu irmão tem demonstrado uma forte presença na cena portuguesa, com beats produzidos por ele e com rappers internacionais a rimar por cima. Isso deve dar-te um gozo especial.

É muito bonito poderes partilhar o teu grande amor com o teu melhor amigo, com o teu irmão de sangue, porque uma pessoa tem muitos brothers, mas o teu irmão-irmão… Poder fazer música com ele é mesmo mágico, porque somos família. E foi uma coisa muito engraçada, que eu já falei muitas vezes com muitos amigos meus e com pessoal que às vezes tem essa curiosidade: ele não aprendeu comigo. Na altura que ele começou a produzir, eu já não vivia em casa dos meus pais, já não estava muito com ele, nós só nos víamos de vez em quando. A única dica que um dia lhe dei foi para experimentar o Fruity Loops – que foi o primeiro software que utilizei quando comecei a produzir mais a sério. Passado três dias já me estava a mandar beats, estás a ver? E eu vi que o puto tem o bichinho, aliás tem mais do que o bichinho ou mais do que eu ser uma influência: ele tem bom gosto. Nós vimos dos desportos radicais, ouvimos muita coisa, desde punk rock a hip hop, a drum n’ bass, a sonoridades electrónicas, e o bom gosto às vezes é mais importante que a parte técnica e isso é uma coisas que o meu irmão tem. E, no fundo, não lhe ensinei quase nada. Temos uma malha para o meu novo álbum e ele nem sequer usa o material que eu tenho, nem sequer usa o Ableton Live, que é um software onde gravo as músicas, por isso foi um evento à distância. Uma pessoa é sempre influenciada por tudo o que vê, o que ouve. Pela vida. Por isso, obviamente que sou uma influência para ele, mas ele também é uma influência para mim. É algo de que me orgulho bastante, nunca precisou das minhas dicas para fazer o faz e já está num nível brutal em apenas ano e meio. Ele faz cinco-dez beats por dia, está sempre a fazer sons, a trabalhar, e veres essa pica do sangue novo é uma grande inspiração.


O pessoal cria sempre uma ilusão que um artista é um rockstar ou que no backstage é sexo, drogas e rock n’ roll. Mas, no fundo, a maior parte das coisas é uma grande seca.


Alguma vez imaginaste que terias esta dimensão e que irias influenciar miúdos como o teu irmão e outros que te escutam e seguem?

Essa é sempre aquela pergunta awkward. Eu sabia que tinha algo de diferente que queria mostrar, que queria fazer e, no fundo, foi um bocado isso. No início, nada foi planeado, as coisas aconteceram naturalmente. Tocava de borla, ninguém aparecia, nem sequer os meus amigos iam às minhas festas. Passei pelo processo todo e, de um momento para o outro, senti que os astros se alinharam e as festas deixaram de estar vazias para estar cheias, sem que perceba porquê. Juntas o puzzle todo e isto acontece porque trabalhas todos os dias e isso é o mais importante. E eu não pensei muito nisso, sabia que inevitavelmente era uma coisa quase sobre-natural, sabia que a música me ia levar a algum caminho, desde criança. Não pensei que fosse assim tanto, porque é muito difícil furares em Portugal, mas, nos últimos anos, isto mudou muito e deixaste de ter só house e techno nas grandes discotecas, hoje em dia passam de tudo um pouco e o meu trabalho também beneficiou disso. É algo que tu não pensas, vem por acréscimo.


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Realmente essa mudança de paradigma nas discotecas em Portugal beneficiaram-te porque misturas muitos géneros e estilos. Começaste no hip hop, mas já deambulaste pelo rock e até pelo jazz e hoje é o que surgir para experimentar.

Foram fases. Quando era mais puto ouvia Fatboy Slim, Chemical Brothers, Daft Punk, Beastie Boys. Lembro-me de ouvir “Intergalactic” nas férias de Verão dos meus doze ou treze anos e não fazer a mínima ideia o que era aquilo, aquele som do Vocoder. Era um beat muito marado, foi dos sons que mais me influenciou. Tanto ouvia Fatboy Slim como Beastie Boys como Public Enemy como Offspring como Nirvana como sons mais electrónicos. Mais tarde, entre os 14 e os 16 anos, tive mesmo o clique mais forte do hip hop. Mais com o hip hop tuga até, com o álbum Microlandeses, foi um disco que me bateu bué. Até pelo uso naive de samples, tinha uma produção raw, minimal, mas foi com aquele álbum que percebi que não era preciso ter grandes meios para fazer grandes beats. Basta um grande loop de violino e piano e ter aqui um bass, um drum kick simples e depois as rimas. Adorava o D-Mars e o Sagas e o Nel’Assassin, foram grandes influências. Foi brutal passado uns anos poder trabalhar com eles e toquei muito com o D-Mars, com o Sagas, com o Nel’Assassin. Somos amigos e foi um dos discos que mais me influenciou. Eram fases também pela influencia dos amigos. Hoje em dia vais ao telemóvel dum puto de 16 anos e ele tem tudo, tem todos os estilos, se for preciso tem Skrillex, Wiz Khalifa, Dillaz, Valete e Regula. Hoje em dia é uma cultura muito crossover, a cultura hip hop está em todo o lado e já faz parte da cultura pop, está no mainstream. Sempre ouvi de tudo um pouco: jazz, funk, soul. Depois houve uma altura que era só hip hop e depois comecei a abrir horizontes outra vez e a ir ao funk, soul, krautrock, jazz experimental, noise, os Aphex Twins e Square Pushers e Fly Los e Shlohmos e Clams Casinos. Como produtor e como DJ, a arte vive muito dos estímulos. Sou uma pessoa super curiosa, tenho de estar sempre a par do que se está a passar, desde o som mais comercial ao som mais avant-garde. Na música tudo é válido, é pegares em inspiração vinda de coisas que não têm nada que ver. Há sempre alguma coisa válida.

Que desafio, então, representa para ti produzires para artistas de outros estilos? Recordo-me de colaborações com o Legendary Tigerman ou o Rodrigo Amado, assim à cabeça. É uma completa variação de estilos.

Considero-me músico, sou um músico experimental. Sou DJ, turntablist, beatmaker, mas no fundo também sou músico. Quando estás na música a 100% não há regras. Às vezes irrita-me quando o pessoal tenta pôr-te numa caixa – tu és um artista do estilo X, só podes fazer isso. Quero é experimentar. A nível de música tem que ver com as minhas raízes: tenho um lado também mais rock – toquei nos coliseus com o Paulo Furtado [Legendary Tigerman], uma das pessoas que mais adoro à face da terra; também com o Nel’Assassin; a parte do jazz com o Rodrigo Amado; e depois o hip hop, claro, que é mais inato, é o meu background. Mas faz tudo parte da big picture. Quando és produtor, o grande desafio é fazeres coisas diferentes e estares sempre a aprender com outras pessoas. Preciso sempre estar inspirado pelo que quer que seja. Também por isso é que aqui em casa tenho objectos de Star Wars, tenho ali o Madvillain, tenho ali um quadro do Vhils, outro do Miguel Januário. É estar sempre inspirado por arte, música, gajas, copos, noite, dia, desporto.


Sou uma pessoa super curiosa, tenho de estar sempre a par do que se está a passar, desde o som mais comercial ao som mais avant-garde. Na música tudo é válido.


Não sentes que há o perigo de as tuas produções caírem no convencional? Como é tentas evitar isso?

O mais importante é o que sentes em cima do palco e aquilo que sentes quando estás a criar e isso depende do mood. Quando estás mais depressivo, dá-te para fazer um som mais melancólico; quando estás mais feliz, dá para fazer uma coisa a pensar mais na pista ou mais pop. Mas, no fundo, passa por não me repetir. Quanto ao meu processo criativo, como DJ e beatmaker, é estar actualizado e ter sempre atenção às produções contemporâneas. Às vezes faço esse teste com amigos meus: no outro dia estávamos no carro e mostrei as últimas produções de James Blake e Cashmere Cat e Shlohmo e eles acharam muito experimental. Só que, para mim, eram os sons que estava a curtir mais naquela semana. Isso também depende de ti, como sou muito open-minded, estou sempre a ver os blogues, o que é que está a sair, os últimos releases, estou sempre atento aos documentários, o que fez o produtor X, a label Y. Mesmo filmes, adoro cinema, estou sempre a ver filmes marados, estou outra vez numa fase de revisitar o trabalho de [Quentin] Tarantino e Lars Von Trier, mesmo do [Alejandro González] Iñarritu. Absorves tanta coisa que isso vai influenciar-te. Tento estar sempre actualizado a nível de plugins, dessa parte técnica, também é muito importante e todas as semanas compro revistas de música e sei o que é que acabou de sair. Hoje em dia, se deixares o comboio partir, já não vais apanhar a carruagem.

Que mais sons tens ouvido ultimamente? O que é que tem andado na tua playlist?

Action Bronson, gosto imenso dele e dos vídeos que põe no YouTube; Shlohmo, eu trouxe-o a primeira vez a Portugal nas minhas noites RockIt, no Musicbox, e acabou de vir cá outra vez e tem um novo álbum; Tuxedo; o novo de Lapalux; Ivy Lab, que também é brutal; Joey Bada$$, Kendrick Lamar e essas coisas todas. Depois sons mais marados, tipo John Hopkins, coisas experimentais, Aphex Twin e tudo mais. Gosto de tudo um pouco, é uma grande salada russa, basicamente.

Há algum artista com quem realmente gostarias de colaborar e ainda não o fizeste ou algum género sobre o qual ainda não te tenhas debruçado?

Artistas há mesmo muitos. Em Portugal, para este próximo álbum, “matei” muitos com quem já queria colaborar. São treze convidados, ainda é muita fruta. Mas há muito pessoal com quem ainda quero colaborar e que infelizmente não deu para entrar no disco. Por exemplo, estive quase a conseguir a Andreya Triana neste álbum, que é uma das vozes que anda com Bonobo; também estive quase a conseguir a backvocal do D’Angelo, Kendra Foster, só que ela está em tour também. Há sempre muitos nomes com quem ainda quero fazer música e que estão em contacto. Já géneros, por exemplo, tenho uma faixa com MGDRV mais trap, mas também tem algumas influências grime. Neste álbum ainda abro mais o meu leque a nível de produção, mas sem dúvida que quero explorar mais sons de pista, nem que tenha de arranjar outro nome – continuar Ride com uma abordagem mais hip hop e arranjar outro nome para uma performance mais pista, independentemente do BPM. Para mim música não tem BPMs, um som hip hop pode ser dos 60 aos 200 BPMs, posso ouvir uma malha mais electrónica ou house e aquilo ter um toque hip hop. Venho de referenciais dos beats e agora gostaria de fazer uma coisa mais minimal e mais polished para funcionar na pista de dança.


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Se me perguntasses quantos turntablists conheço em Portugal, só conseguiria dizer uma mão cheia assim de cabeça. Como é que está esta cultura em Portugal?

O turntablism em Portugal teve um highlight e um pico bastante interessante com os campeonatos de scratch, com o DMC [World DJ Championships] e o IDA [DJ Championships], que é o antigo IDF. Só que, nos últimos anos, já ninguém organizou esses campeonatos, então houve uma estagnação. Os campeonatos eram bons para picar o pessoal de uma maneira saudável e as pessoas evoluíam. Tu notavas de ano para ano, dava-se um upgrade de skill e técnica sempre que havia um campeonato e isso é excelente. No hip hop tens os campeonatos de breakdance que ajudam a comunidade a evoluir; e as battles de MCs ajudam os rappers a arranjar dicas e punchlines novas. Por isso, dentro do hip hop, a competição saudável sempre nos ajudou imenso a evoluir. Infelizmente parte da comunidade estagnou, com algumas excepções. É uma comunidade muito pequena e fragmentada, não é muito unida. Há uns anos havia algumas jams e o pessoal convivia mais, neste momento é cada um para seu canto e não tem aparecido muito sangue novo. Espero que haja aí miúdos escondidos a treinar porque precisamos de sangue novo e espero que haja putos a começar a fazer scratch. Hoje em dia é mais fácil seres DJ de EDM ou electrónica, com um portátil e um controlador, do que comprares um prato e uma mesa de mistura para scratch, que é mais caro, tens de ter outro tipo de sacrifício e treino. Não é qualquer um que tem aquele clique e aquela vontade de fazer scratch.

Regressemos às produções e vamos então ao novo álbum: o que podes revelar sobre o que aí vem?

Estou mesmo a fechar todos os pormenores do álbum. A nível musical está praticamente fechado, só há uma música que ainda estou a pensar se vou pôr uma voz. Vai chamar-se From Scratch. Inicialmente estava previsto sair antes do Verão, mas vamos fazer as coisas com mais calma. Vai agora sair o primeiro single com os HMB e depois o álbum em si sairá, se tudo correr bem, no final de Setembro. Estamos ainda a delinear pormenores e o que posso avançar desde já é que são 13 faixas com 13 produtores e pessoal com quem já trabalhei e já produzi – casos da Capicua, os HMB, o Valete, o Jimmy [P]. Tenho também uma das minhas maiores influências da cena de L.A. beatsFree The Robots – numa faixa mesmo incrível, com um toque Dilla e com o Lewis M, que também é um produtor tuga e que está aí a dar grandes cartas. Estou mesmo super orgulhoso, foi uma produção mesmo maluca, meti na cabeça que ia fazer um álbum em três meses. Cada faixa tem um convidado, é quase como um álbum com amigos. Sou suspeito ao dizer isto, mas sem dúvida que é o meu melhor álbum até agora. A nível de produção também estive a aprender durante muito tempo a arte da mistura, da masterização, comprei mais material para poder dar esse upgrade a nível sónico, que é muito importante. Não é só teres boas ideias, é também teres bom material para concretizar. Tive também a ajuda na masterização do Beat Laden, que é o técnico de som do Valete e grava muitos sons no seu estúdio – o Groundzero. E algumas faixas também foram masterizadas num dos estúdios de Thundercat e Run The Jewels – o Cosmic Zoo, em L.A.. Então é um álbum que tem participações, MCs, alguns temas com produtores e houve também esse cuidado da masterização e da mistura. Nota-se uma grande diferença na qualidade de som comparativamente aos meus outros trabalhos. Pelo menos eu noto, espero que as pessoas também notem.


Estou mesmo a fechar todos os pormenores do álbum. Vai chamar-se From Scratch. São 13 faixas com 13 produtores e pessoal com quem já trabalhei e já produzi.


Com tanta colaboração neste álbum, com produções arrojadas, masterização num estúdio de topo, actuações pelo mundo fora… O que te falta alcançar na tua carreira?

Há sempre muita coisa que vais a tempo de fazer. Às vezes o pessoal pensa que uma artista chega a um certo patamar e que já fez tudo. Falo muito com o meu manager e o Stereossauro e isto para nós é para aí 10% do nosso potencial. Nós já ganhámos um mundial, o IDA, e quem nos dera ganhar o DMC. Por isso, tens sempre margem para fazer mais e melhor e chegar mais longe. Claro que um dos meus grandes objectivos é começar a produzir para pessoal de fora. Por exemplo, neste álbum fiz uma faixa com a Sabira Jade que é uma das vozes que o DJ Vadim costuma usar nas suas produções; também nunca tinha feito um som com Free The Robots, um produtor de L.A.. Depende das tuas ambições, há sempre margem de progressão. Passa por nunca estares contente. Como somos inconformados, estamos sempre a treinar e mesmo que uma pessoa, tecnicamente, já seja boa – modéstia à parte – , há sempre uma técnica que podes evoluir e fazer melhor e é uma luta constante. Se parares e estagnares isto não tem piada nenhuma. Tem piada é evoluir e isso é o mote para o nosso trabalho.

Ricardo Miguel Vieira

Escrevo umas linhas em revistas e sites. Cultura, música, activismo, DIY, surfing são o meu universo. Se não me encontrarem por aí de headphones entre orelhas é porque estou algures no oceano.