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Publicado a: 26/03/2015

DJ Mustard: 10 instrumentais essenciais

Publicado a: 26/03/2015

[TEXTO] Inês Coutinho

 

No que toca à produção, DJ Mustard passou 2014 a mandar no hip-hop. Com aparições regulares no Billboard Hot 100 (muitas vezes com direito a várias entradas em simultâneo), veio a amontoar colaborações com 2Chainz, Young Jeezy, Tyga, Kid Ink ou YG, o seu parceiro de crime mais antigo. Destronou Mike Will Made-It (no shade, obrigada pela “Move That Dope” e pela “Pour It Up“) e tornou-se no beatmaker favorito do mainstream americano.

Devolveu às rádios um som menos trap e mais hip-hop. Menos Atlanta, mais West Coast. Mas para conseguir esse feito hercúleo, não optou por ser revivalista: preferiu pegar numa matriz que notoriamente ama e usou-a para moldar o seu próprio som. Deu-lhe o nome de ratchet music. Toda 808s e melodias-de-poucas-notas, é simultaneamente refrescante e catchy; simples, mas rica; de fórmulas, mas original; minimalista, mas viciante. Tornou-se num standard: um dos maiores hits do ano passado, “Fancy” de Iggy Azalea, já é um claro produto-reflexo. Não foi escrito por ele, mas tem DJ Mustard escrito na testa. E a tagMustard on the beat, hoe!“, apesar de me tocar num nervo anti-sexismo, é completamente icónico (e, para além disso, todos sabemos que os homens também são hoes).

DJ Mustard não parece estar a abrandar, mas mesmo que lhe desse para isso (não faças isso, Dijon; sim, ele chama-se Dijon; sim, é daí que vem o nome artístico dele), o legado deste produtor de LA já tem massa crítica para fazer história. E para criar um marcador no arquivo – seja o único ou, mais provável, o primeiro de muitos – aqui fica uma lista não-oficial, 100% subjectiva, mas 200% apaixonada, dos dez melhores instrumentais do homem mais requisitado do hip-hop mais hollywoodesco. Sem ordem particular.


KID INK – “ROLLIN”

Se houvesse um manual DJ Mustard (há de certeza, se não houver quero escrevê-lo), esta faixa era a Figura 1. Baixo gordo, coro de “Hey, Hey”, bleeps, palmas crocantes. Ninguém não quer ouvir isto no carro num dia de sol. Nin-guém.


 

YG – “DO IT TO YA”

Todo o álbum de YG podia facilmente estar nesta lista, se ela tivesse sido feito noutro dia. Hoje parece bem variar, por isso (spoiler alert) só tem três sons. Esta é talvez a mais musical no sentido convencional,
com um sintetizador todo G-Funk sempre a espreitar debaixo de uma pianada à Neptunes circaI Gotcha” do Lupe Fiasco. A batida, normalmente super saturada, aqui é despida a um kick rítmico e estalar
de dedos e palmas a servir só de apontamento. É romance ao estilo de Compton. E digamos que o YG faz um bom trabalho na faixa. Não fosse ele o YG. Simbiose pura.


 

BIG SEAN FEAT. E-40 – “IDFWU”

Transporta-nos para o arquétipo da malha de hip-hop comercial-mas-street. Emocional mas durão. Claro: é uma break-up song em formato diss. Samples de voz, phat bass, uma letra que repete vezes
embaraçosas a frase “I don’t fuck with you“. Teclas cheias de reverberação, em tensão constante numa escala repetitiva. Sim, Mustard. Sim.


 

MILA J FEAT. TY DOLLA $IGN – “My Main”

A Mila J é corajosa e certeira por cantar sobre a sua melhor amiga e não um interesse amoroso num hit. E é irmã da Jhené Aiko, o que também não magoa. O instrumental, que é o tema aqui, tem tudo: pianos R&B,
balanço para o club, até a programação de pratos fechados que o trap popularizou. É uma espécie zeitgeist nesse sentido, tem tudo o que faz um standard para ondas de rádio do agora. Mais o feeling.


 

2CHAINZ – “I’M DIFFERENT”

Nos idos de 2012, ano em que lançou o seu primeiro grande êxito, “Rack City” com Tyga, DJ Mustard também arranjou tempo para criar este portento da pop moderna com 2Chainz, que acabou por se tornar o
primeiro êxito nacional do rapper de Atlanta. Arranjos simples de cordas sintetizadas apoiam uma estrutura já de si super económica: beat todo 808 e gancho melódico esparso, curto e repetitivo – mas
totalmente viciante. He’s different.


 

TY DOLLA $IGN FEAT. WIZ KHALIFA – “OR NAH”

Só por si, o sample de uma cama a ranger emprestado da “Somecut” dos Trillville já faria desta faixa um destaque. Mas depois há a novidade do tempo mais lento a adicionar sensualidade (como se fosse preciso), a poupança nos drums a dar espaço às melodias oníricas e texturadas. E o carisma de Dolla $ign é inegável, apesar da letra pouco ortodoxa (“Miúda, vais deixar-me comer-te ou népia?” é a ideia mais inocente deste hino à peer-pressure sexual).


 

YG FEAT. DRAKE & GAME – “WHO DO YOU LOVE”

Textbook DJ Mustard, mas com a melodia mais emocionalmente carregada que se podia pedir, feita de quatro notas e um piano. De resto, tem tudo: o baixo a rolar com calma e a transpirar estilo, os coros à G, as palmas lixadas. Leva a ideia de clássico para o nível seguinte. A dupla YG/Mustard não beneficiou de um co-sign com alguém como o Drake por mero acaso.


 

YG FEAT. LIL WAYNE, RICH HOMIE QUAN, MEEK MILL, NICKI MINAJ – “MY NIGGA” (Remix)

Nesta posse cut à antiga podia entrar um instrumental só de bombo e tarola que o pessoal se babava na mesma. Mas estamos no mundo de DJ Mustard, onde êxtase e cor são ingredientes chave. Sacou o baixo mais catchy de todos os tempos, fê-lo sobressair com uma textura ácida e, não contente, compôs bleeps esparsos e misteriosos para puxar o lustro ao beat. Mais uma mão cheia de rappers lendários a dizer que dão a vida pelo seu amigo. Bem-vindos ao céu do hip-hop, em sentido literal e figurado.


 

TINASHE FEAT. SCHOOLBOY Q – “2 ON”

O groove no ponto óptimo da elegância. Cordas, rhodes, claps e fingersnaps esparsos ou multiplicados, mas sempre na dose certa. Nas imensas camadas de perfeição que compõem esta faixa, há escola Aaliyah (obrigada eterno, baby gurl), há R&B de inspiração 1990s e orientação futurista. Há, sobretudo, a prova da versatilidade e sensibilidade de Mustard. Não, ele não tem um só truque. E esta faixa não é só uma das suas melhores produções; é uma das melhores faixas produzidas em 2014. Em todos os estilos. Extra kudos para a Tinashe por citar Sean Paul e por se tornar aqui numa espécie de activista pelo direito à alteração de consciência.


 

KID INK FEAT. CHRIS BROWN – “SHOW ME”

Usar a melodia do clássico de house comercial “Show Me Love” da Robin S é coisa de uma criança dos 1990s (também o fez com o “Rhythm Is A Dancer” dos Snap). É uma ideia original? Não. Mas Dijon fê-lo com talento, honestidade e sem demasiado aparato. A melodia já é perfeita, e ele sabe disso – e também confiou que os vocalistas fariam a sua alquimia. Há coragem e visão neste instrumental e, embora o conteúdo valha quase sempre mais que a forma, aqui o conceito leva a taça – e não é que o instrumental não tenha o seu quê de divinal.

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