DJ Muggs & Mach-Hommy // Tuez-Les Tous

[TEXTO] Moisés Regalado

Loops de duas ou quatro barras, drums com mais tarolas que hi-hats e uns quantos baixos tão sujos quanto possível, samplados sabe-se lá de onde: a receita é velha mas Muggs insiste em repeti-la, sem no entanto se dar ao desleixo dos acomodados. Como um avôzinho que, sem nunca largar as caldeiradas ou açordas mais tradicionais, não deixa de inventar — e de se superar — na cozinha.

O que Muggs continua a fazer, numa velocidade constante e sem tirar os pés dos pedais, desperta o mesmo apetite e sensação de aconchego daquele prato caseiro, feito pelo tal avôzinho, que neste caso costuma trocar o chapéu de chef pelo cap de uma Los Angeles que lhe serve de inspiração constante. Em “NTM”, “Piotr”, “Lajan Jwif” ou noutros momentos cujo título só se pronunciará correctamente à segunda ou terceira tentativa, o DJ e produtor continua a brindar-nos com a bagunça sincopada que lhe tem caracterizado o traço na sua segunda vida, paralela à dos eternos — e activos — Cypress Hill.

Desta vez escolheu ladear-se por Mach-Hommy, depois de quase duas mãos cheias de projectos ao lado de rappers como Planet Asia, Roc Marciano ou Meyhem Lauren, que veio a Tuez-Les Tous relembrar as sessões de estúdio que fechou com Muggs para Gems from the Equinox e Frozen Angels. As influências de Conway e companhia no rap de Mach, natural do Haiti e sediado em Newark desde cedo, são notórias, mas o MC, que no passado chegou a andar no radar da turma de Buffalo, entrou em 2019 com as credenciais renovadas e pronto para brilhar ao lado do ícone de L.A. como se também fosse um consagrado a viver os seus melhores dias.

Veterano já é: a sua primeira mixtape, Goon Grizzie, saiu em 2004, embora tenha permanecido na sombra e em silêncio durante os largos anos que se seguiram. Só que o bom e velho flow nova-iorquino, influenciado pelas Caraíbas desde o berço (“Grammaton, gun kata/Shotter, it’s a don dada/Burrata with your plum father”), não tem prazo de validade, embalando e abanando as old heads até que mergulhem nas letras que Hommy vai construindo e debitando em inglês, francês e patois haitiano, numa aparente esquizofrenia que rapidamente se torna tão natural como sempre foi — pelo menos para ele.

Depois de Elephants on Acid, dos seus Cypress Hill, Kaos, com um insuperável Roc Marciano, e, já em 2019, Hell’s Roof, a meias com Eto, a longa vida de Muggs não deverá ficar por aqui, provando que qualidade e quantidade podem ser compatíveis quando o talento e o trabalho se abraçam sem dividir percentagens.



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