DJ Marfox: “Esta é a música que as pessoas querem ouvir”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu/Alexandre Ribeiro [FOTOS] RIcardo Miguel Vieira

 

DJ Marfox é, inegavelmente, um dos porta-estandartes da Batida de Lisboa e um dos nomes mais requisitados para mostrar o som que tem emergido de forma supersónica entre a elite da música de dança. Chapa Quente é vo seu mais recente trabalho e mais uma prova de que a sua evolução leva-o para outros caminhos da música electrónica, mesmo que o filtro do kuduro esteja sempre presente.

O Rimas e Batidas esteve à conversa com Marfox e falou sobre temáticas como o Boiler Room em Portugal, as viagens que tem feito para tocar e a diversidade que existe dentro da Batida de Lisboa.


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DJ Marfox apresenta-se já no próximo sábado no âmbito do evento Les Plages Eletroniques, na Praia do Rei, Costa de Caparica, logo depois da apresentação de Pete Rock. O festival arranca amanhã com actuações de Magazino, Danny Daze e Jimmy Edgar, entre outros. Informação adicional e bilhetes aqui.

 

Tu acabaste de editar um maxi na Príncipe. É o teu regresso ao catálogo de Príncipe, depois de o teres inaugurado há cinco anos. O que é que este maxi representa no conjunto da tua obra?

Este maxi acaba por ser um tributo ao bairro que me viu nascer, à Quinta da Vitória. Tentei explorar todas as influências que tive desde pequeno. Desde influências indianas, música que eu ouvia na rádio nos anos 90, música electrónica… Depois com o ritmo de kuduro, um kuduro mais primórdio, que serviu de base de inspiração para este EP.

Como é que tu vês a tua evolução como produtor? Tu hoje estás a usar, por exemplo, ferramentas diferentes das que usavas como quando começaste? Tens alguma abordagem diferente quando começas um tema?

Neste EP nota-se uma evolução dos sons. Já é um som muito mais trabalhado e isso deve-se também à maturidade. Tu cresces, falas com produtores à volta do mundo e isso faz-te pensar na maneira como vais construir o teu som. Mas claro que continuo a trabalhar da mesma maneira que trabalhava há uns anos. Implemento é novas coisas que, se calhar, há 5 ou 6 anos eu não ia achar piada em ter no meu som e que agora para mim fazem todo o sentido. Tem a ver com a maturidade, com o momento, com o facto de viajar e de ouvir muita música à volta do mundo. Depois sento-me no estúdio e tento conectar tudo isso que se aprende nas viagens, seja a ver DJ sets ou a ouvir música. Eu acho que é um misto destas duas coisas que estão neste disco. Sem perder a minha identidade.

Quem é que tu dirias que te está a influenciar mais neste momento? Referes as tuas viagens e os produtores que vais conhecendo, houve assim algum que te tivesse marcado de forma mais directa?

Eu tive em 2014 nos EUA e foi-me dada a oportunidade de estar com o pessoal do footwork. Tivemos em estúdio um dia e vi o processo deles de criação artística e eles viram o meu processo. A partir daí, tu percebes que a tua música pode evoluir para muitas outras coisas. Este EP acaba por ser uma evolução daquilo que eu vivi nos EUA com aquele pessoal do footwork. Ou seja, a tua música pode ganhar outras viagens e ter outras influências sem perder a tua identidade e isso eu vi naquele som cru que eles têm que é muito parecido com o nosso som. Achei engraçado, tipo, o facto de eles terem muitos samplers e de terem muito por onde beber. Nós quando estamos em Lisboa, às vezes, acabamos por ter uma limitação: temos indústria musical, mas é sempre copy-paste de tudo o que é feito lá fora. A única coisa que nos identifica enquanto país é o fado, não tens muito mais. Não tens outro estilo a ser feito em Portugal, a não ser a música que chamamos como ‘pimba’, que tem outro nome mas pronto. A não ser essa música não tens muito mais. Tudo o que tu ouves é influência de outras coisas e estar com aqueles gajos que estão a criar uma cena que tu também estás a criar. É aí que começas a ver para onde é que eles querem evoluir e trocas ideias e eu acho que foi essa troca de ideias que me fez repensar e dizer: “vamos ver que sonoridade é que eu ouvia quando era muito novo”. Havia música indiana, havia aquele kuduro do primórdio, havia a tal música dos 90’s… Como é que tu vais juntar isso tudo sem perder a actualidade? Ou seja, juntares isso tudo mas sem perderes também o teu know how. E isso foi o maior desafio. Construir este EP foi o maior desafio da minha vida até agora.

 



Acabaste também de referir o facto de viajares com a música que fazes e mencionaste o exemplo do footwork. Um dos fenómenos que eu acho interessantes na música electrónica hoje em dia é que há uns anos tu ouvias um disco e não sentias uma diferença entre Detroit e Berlim. Mas hoje percebes que há música electrónica que está a ser produzida em Londres, outra que está a ser produzida em Paris, outra em Chicago ou no Rio de Janeiro ou em Lisboa. E cada uma tem uma identidade muito particular. O que é que tu sentes que o público internacional ouve nesta batida que está a ser produzida em Lisboa? Como é que tu achas que eles identificam esse carácter singular da música que se faz cá?

A coisa mais fantástica é eles terem essa precisa noção de que este é um som de Lisboa. E é engraçado porque muitas das pessoas que falam comigo e das que seguem esta linha de som feito na Príncipe dizem que não conheciam Lisboa. Tipo, passaram a conhecer Lisboa e a ter interessa em vir a Lisboa por causa deste som. Tive no Brasil e em muitos sítios onde as pessoas dizem o mesmo. Essa música específica não consegues reproduzir em mais lado nenhum, não se ouve em mais lado nenhum. Há pessoas que até dizem: “Vimos as tuas entrevistas quase todas e tu falas sempre que Angola é o pai. Nós vamos ouvir um som de Angola e depois quando ouvimos o teu som encontramos algumas semelhanças. Mas quando começamos a descer mais fundo vamos a Nigga Fox e já não tem nada a ver. Vamos a CDM e já não tem nada a ver. Vamos à Nidia [Minaj] e é fora, completamente fora. Vocês conseguiram criar um som totalmente diferente e único dentro de Lisboa.” E o que faz ainda mais confusão é o facto de que se olhares para o footwork, o funk do Brasil tu vais ver que na base de construção sonora há sempre instrumentos que estão lá, são comuns. Mas quando olhas para a música do Nigga Fox são construções e maneiras de ver a pista de dança diferentes. E isso é que lhes faz mais confusão, do tipo “como é que vocês estão todos no mesmo colectivo e, sendo tu o gajo que criou, porque é que os outros gajos não fazem música parecida à tua?”. Mas não, eles criam um estilo novo. E isso é a cena que os deixa ainda mais doidos. “Mas vocês têm muros de Berlim? Porque cada um parece que está segregado na sua cena a construir um som diferente um do outro. Isso é uma forma de se inspirarem uns nos outros? Como é que é o vosso processo de criação?”. Se me dissesses que o Nigga Fox faz este som e o Marfox faz este som, mas lhes desses outros nomes tipo João e Pedro, eu nunca os ia relacionar um com o outro. Porque não tem nada a ver. E isso é fixe em Lisboa, os putos querem ter uma identidade, querem ter um som característico diferente de tudo o que é feito. Agora o porquê eu não sei. Não consigo explicar isso, parte das pessoas em si. Parte, se calhar, do facto de ver que se o Marfox faz aquilo que faz com os 140 bpm’s, eu não vou competir, vou criar. Então eu acho que é mais por ai. Há o Nigga Fox com outro estilo mas eu nem vou entrar por aí, nem vou copiar, vou criar. E passa muito por ai. Acho que o maior power desta música vem dessa capacidade dos artistas entenderem que devem ter uma sonoridade única. E isso é que é incrível.

 


 

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Como é que reages a todo o debate que se está a gerar agora nas redes sociais, inclusivamente, acerca da batida de Lisboa. Houve agora, e estás de certeza a par disso, toda aquela discussão em torno do cartaz do novo Boiler Room. Se isto é ou não o som que representa Lisboa e há, obviamente, resistências a isso. Resistências que, como eu até escrevia, acabam por mascarar um sentimento de algum racismo. O que é que tu sentes acerca deste debate? Faz sentido, não faz sentido?

As pessoas são livres. Eu, em 2014, disse que achava que Portugal precisava deste empurrão. Estamos a falar de artistas que tocam nos melhores clubs do mundo, elevam a bandeira de Portugal, são portugueses que nasceram cá. A maioria nasceu cá, eu nasci cá, eu sou um novo português, faço parte da nova Lisboa. Se calhar de uma Lisboa que, por motivos políticos, não se inseriu tão naturalmente como se inseriram outras culturas à volta de outras grandes capitais. O que aconteceu foi que, através da música, nós inserimo-nos. Se calhar é um inserir à bruta mas foi a inserção mais justa e correcta dentro da cidade. Eu hoje tenho espaço para respirar na cidade através da música. E uma música que esteve fechada nos bairros tem forma, tem vida e tem gente que segue essa música, que vive para esta música e que não tinha representação na cidade. E as pessoas sentem-se mais acomodadas porque vêm que a música que eles ouviam está a ter alguma representação na rádio, na televisão, na imprensa… Ou seja passamos a fazer parte das grandes capitais através da música, através da arte. A parte do racismo, eu compreendo mas como eu disse, é muito simples. Nós fazemos música em Lisboa, não faço música em Angola. Se eu faço música em Lisboa vou representar quem? Os meus pais até são de S. Tomé e Príncipe… Vou dizer que faço um kuduro de S. Tomé sediado em Lisboa? Não! Faço kuduro em Lisboa, foi aqui que eu aprendi tudo. É aqui que é a minha base, é aqui onde nasceu a minha identidade e a minha música. Essa é a nova Lisboa. Quer eles queiram quer não, é isto que se está a vender lá para fora. Nós não fazemos música porque nos queremos vender como um rótulo português porque é bom. Não. É assim que nos identificamos porque sabemos que há pessoas que se sentem em baixo por não terem essa representatividade. E nós fazemos parte dessa representatividade. Nós mostramos a essas pessoas, muitas delas na periferia, que nós estamos aqui. Nós fazemos música em Lisboa, vocês são nossos manos, estamos a ter aceitação na cidade. Tá a acontecer com a batida. Há dias vi também uma entrevista também sobre o hip hop crioulo. Em como há milhões de views no Youtube. Cada vez mais vão aparecer coisas dessas. Eu acho que o que deveriam de fazer é dizer “isto é de Lisboa, nós aceitamos.” Como eu aceito tudo o que é feito no centro da cidade, desde o techno ao minimal e drum and bass… Mas nada é mais original do que esta música. Porque isto é uma coisa que tem mais de 500 anos de história. Eu falo português, os meus pais falam português. Fomos colonizados por portugueses, então devia de haver uma maior aceitação e abertura mesmo da parte da comunidade portuguesa. Isto é a nova música. Esta é a música que as pessoas querem ouvir. As pessoas querem algo novo. O mundo pede coisas novas a todos os instantes. E isto, de momento, é o que está a bombar mais lá fora. As pessoas consomem esta música, consomem os discos, a minha história, tentam perceber, querem estar, querem viver… Por isso a critica faz sempre parte e vai sempre existir. Eu acho que as pessoas têm de começar a aceitar melhor a diferença, tal como eu aceito todos esses tipos de som, é igual. Estamos a fazer música simplesmente. Cada um está a puxar a sua cena. O mais importante é eu dizer que a música foi feita em Lisboa. Eu acho que é um motivo de orgulho para todos os portugueses saberem que têm uma música que está a viajar, que está a ir para fora, que está a representar Portugal… Eu, os Buraka, a Mariza, as bandas todas que temos a ir la fora. Nós vendemos Portugal. Cada um vende a sua Lisboa, somos o rosto de Lisboa. Há muita gente que me diz que nunca esteve em Lisboa mas veio à noite Príncipe. Acabas por trazer pessoas. As pessoas acabam por vir cá e perceber que as coisas estão a ser feitas e que Lisboa tem mais vida a não ser só o centro da cidade.

Para terminar, tens planos para os tempos mais próximos? Datas? Vais ao Les Plages Electroniques, tens outras coisas a acontecer… O que é que se passa na tua agenda?

Vou fazer uma tour na Asia. Na Europa estou sempre a tocar. Dentro de Portugal faço só o Lux e o Les Plages Electroniques, há outras coisas a serem negociadas mas ainda nada de oficial. Mas dentro da Europa tenho datas em Londres, Madrid, Paris… Em quase todas as capitais. Tenho também Itália, Alemanha, países nórdicos… Este EP veio trazer um novo público também para a minha própria música, o que eu acho fixe.


 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu