DJ Legwarmer: “Gosto de estar isolado a fazer música”

[TEXTO] Vasco Completo [FOTO] Direitos Reservados

O terceiro lançamento da editora portuguesa No, She Doesn’t é o primeiro EP de DJ Legwarmer. Depois de uma compilação e de um EP de DJ Spielberg, é a vez de André Geada se chegar à frente com Full On, que saiu a 1 de Julho.

O projecto está claramente dividido entre os seus dois lados: um lado A mais movimentado, upbeat, com baixos mais possantes e melódicos ao mesmo tempo; um lado B mais sereno, contemplativo, atmosférico e até onírico. As cordas com aquele french touch de “Quandary”, e o kick mais agressivo, poderiam denunciar que André é parte da vaga de electrónica francesa pós-Daft Punk ou pós-Justice – o que não é o caso.

Caracterizado pelo típico four-to-the-floor do disco a segurar quase todos os momentos deste trabalho, Legwarmer dá descanso às pernas em momentos mais expectantes, como a meio da “Full On”, quando se ouve o sample desfragmentado e a ecoar pelo estéreo, ou na introdução do sample de voz em “Mar de Nuvens”, que começa menos visível e torna-se gradualmente no centro da canção.

O sample escondido de guitarra de “Emotion/Behaviour”, as cordas e o sample que seguram a faixa, a forma como o teclado se desconstrói, são parte dum processo criativo fechado num produtor que precisa de criar isolado – o que não deixa de ser curioso, visto que é um disco que se pode consumir numa qualquer pista de dança em que o aspecto de partilha comunal deve estar sempre em evidência. O disco e o lo-fi house que constituem Full On desafiam-nos a conseguir ouvir o EP sem bater o pé, mas também nos fazem atentar aos detalhes de produção bem trabalhada de André, bem como reforçar a diversidade estilística e composicional de que pode dispor um trabalho desta índole mais dançável.

O EP editado pela No, She Doesn’t, foi mencionado por rádios nacionais como a Oxigénio e a Antena 3 — o que “faz crer que o pessoal está bem atento e não é preciso ser reconhecido lá fora para nos darem valor em Portugal” – e por publicações de música electrónica internacionais como a Mixmag e a XLR8R.

Ao Rimas e Batidas, DJ Legwarmer falou um pouco sobre o seu processo criativo (que envolve sampling) e o panorama da música electrónica em Portugal.



Antes de mais, o que nos podes contar sobre este Full On?

Este EP surge como terceiro disco da editora No She Doesn’t. Apesar de seguir uma linha 4/4 e ter pontos bastante similares às músicas que já tinha lançado anteriormente, tentei mostrar alguns elementos do imaginário deste projecto que ainda não haviam sido representados. Acima de tudo tentei não levar o processo da produção demasiado sério ou metódico e acho que por isso diverti-me imenso a fazê-lo!

Que máquinas usaste para a produção do EP?

Todos os temas deste EP têm uma componente forte de sampling. Algumas das pistas foram processados por uma das minhas máquinas de eleição — Octatrack. É excelente para samplar criativamente de uma forma bastante instintiva. Algumas das percussões foram gravados também com o Tempest da Dave Smith. É claro que não podia deixar de usar também packs de samples da loopmasters. Bem trabalhados, nunca nos deixam ficar mal! Relativamente a máquinas virtuais usei uma ou outra da Arturia.

Quais foram as razões para escolheres estes quatro temas? Havia uma lista maior por onde escolher ou foi tiro e queda?

Havia uma lista maior. Tinha duas músicas que queria mesmo lançar no EP de estreia e que já estavam feitos há bastante tempo. Sobrava espaço para mais duas e foi um processo difícil de escolha. Algumas que tinha já prontas sentia que não casavam com as restantes do EP e por isso decidi não incluir imediatamente o que já tinha pronto. A “Quandary” foi a última a entrar e dei-lhe tanta volta que tive de arranjar um deadline para a concluir se não ainda agora lá andava às voltas. De qualquer modo, fiquei bastante [satisfeito] com a selecção final!

Apresentas aqui algum sampling muito interessante, mais upbeat em “Quandary” – parece vindo da electrónica francesa – mas também mais espaçoso e ambiental no segundo lado do EP. Como se dá o teu digging?

Confesso que nunca ouvi muito r&b nem disco, preferia psytrance. No entanto, desde novo que sempre gostei de alguns hooks de algumas músicas r&b; imaginava-os em loop até cansar…

Quando fiz os dois primeiros temas como Legwarmer, peguei em músicas que já conhecia. Desconstruí-as e não foi preciso grande digging para chegar ao produto final. Após ter sido surpreso com o feedback e ficado entusiasmado com o projecto, comecei a pesquisar mais sobre o assunto. Descubro muita coisa através de três ou quatro sites antigos blogspot.com que andam por aí cheios de hip hop e r&b dos 90s. Tenho também atenção redobrada a esses géneros musicais em algumas lojas de discos a que vou. Confesso que é divertidíssimo ouvir aquilo. Dos títulos às capas, encontro muitas surpresas, boas e más.

És muito individualista no teu processo criativo? Como se dá a tua produção?

No processo criativo sim. Gosto de estar isolado a fazer música. No entanto, quando já tenho algo mais sólido, mando sempre à malta da editora e ponho no carro para ouvir com amigos. Como ando sempre de um lado para o outro, uso bastante o computador para produzir mas tenho sempre o meu estúdio em casa onde obrigatoriamente faço a mixdown final. Neste EP em particular até fiz com ajuda de um amigo meu! Cheers, Óscar!

Consegues nomear-me músicos/artistas com quem gostavas de trabalhar futuramente?

Talvez duas cantoras. A dinamarquesa Erika de Casier e a australiana Maïa. Estilos similares, ambas com vozes e produção fresca para sonhar acordado com a nostalgia dos 90s. A Erika conheci através da música “Drive” do DJ Central. Lançou agora um disco pela Jeep Music que vale a pena pôr a rodar no final da tarde enquanto se bebe um daiquiri. A Maïa através da label Beats of no Nation de um produtor que também admiro bastante — Jad & The — e com qual também não me importava nada de colaborar!

Como vou atrás dos meus sonhos, acho que é tudo possível.

Tiveste alguma atenção com este EP: Mixmag, XLR8R, Maslow Unknown e Bolting Bits, todas a estrearem cada uma das faixas do lançamento, e ainda destaques por parte da Oxigénio ou da Antena 3. Era algo que esperavas?

Felizmente sempre contámos com o apoio das rádios portuguesas importantes. Algo que me agrada bastante e que me faz crer que o pessoal está bem atento e não é preciso ser reconhecido lá fora para nos darem valor em Portugal.

Relativamente à imprensa estrangeira, fiquei mais surpreso com a Mixmag. Apesar de trabalharmos para merecer um premiere no SoundCloud deles, não pensei que fosse no terceiro lançamento da editora. Fiquei contente, no geral! 

Como percepcionas o panorama da música electrónica nacional neste momento?

Se houvesse menos guestlists era mais sustentável. No entanto, acho que está bom e é uma referencia para muitos outros países! 


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