DJ Kwan e DJ Kronic: “Já se justifica fazermos sets de hip hop tuga. Temos a responsabilidade de dizermos: olhem, isto foi o que se passou cá”

[TEXTO] Ricardo Farinha [FOTO] DJ Big

Kronic e Kwan são dois dos mais experientes DJs de hip hop em Portugal. O primeiro, que viveu vários anos nos EUA, foi um dos pioneiros das mixtapes no final dos anos 90, fez parte dos TWA, editou os seus álbuns e acompanhou Regula na estrada, entre tantos outros marcos. O segundo tornou-se mais conhecido como o DJ dos Mundo Complexo e, à medida que os anos foram passando e o colectivo foi diminuindo o trabalho em grupo, descolou-se e tornou-se um dos mais activos DJs na noite lisboeta virada para a música urbana.

Juntaram-se os dois nos pratos pela primeira vez no ano passado quando actuaram enquanto dupla na grande festa da Parkbeat Records no Capitólio, em Lisboa — a editora do bar PARK (onde o Rimas e Batidas também tem uma curadoria) trouxe o lendário Jazzy Jeff a Portugal. Esta semana voltam a partilhar os gira-discos no ID, o festival que vai ocupar o Centro de Congressos do Estoril a 29 e 30 de Março.

Para antecipar a actuação — que também contará com as presenças de Maze e Sir Scratch –, o ReB entrevistou Kwan e Kronic.



A última vez (e a única, na verdade) que vos vimos juntos foi na festa da Parkbeat Records no Capitólio, em Lisboa. O que é que vai mudar desta vez, no ID No Limits?

[Kwan] Não vamos ter os mesmos MCs convidados [Maze e Sir Scratch vão acompanhar os DJs], aquilo foi uma ocasião especial em que deu para nos juntarmos. Mas a actuação vai ser baseada em nós desta vez e por isso mesmo há de ser diferente, temos de arranjar outros pontos de interesse para colmatar a não presença daqueles MCs que foram tão importantes na primeira.

Olhando para trás, como foi o Parkbeat? Correu bem?

[Kwan] Eu tinha ideia de que iria correr bem, mas acho que superou as minhas expectativas. Claro que a reacção do público é que ditou isso. E nos ensaios não tivemos a presença dos MCs, isso só se viveu no momento. E percebe-se que já há espaço e já se justifica fazer sets daqueles, só de hip hop tuga. As pessoas conhecem os clássicos, cantam as músicas, ouvem outras que não estavam à espera de ouvirem ali por não serem tão óbvias e também reagem a isso… senti isso tudo. E senti que o Jazzy Jeff, que veio a seguir, não teve um papel nada fácil, para ser sincero. Se calhar estou a ser um bocadinho presunçoso, mas acho que correu tão bem que ele a seguir teve de puxar dos galões.

[Kronic] Não me tinha apercebido que nós com os rappers portugueses fosse tão importante. Porque para mim era a noite do Jazzy Jeff. Mas muita gente comprou bilhetes naquela de “ok, Jazzy Jeff, mas quero ver o Sam, o Carlão, o Mundo” e nós…

Há algum tipo de linha ou conceito que tenham preparado para este caso?

[Kronic] Em comparação com o outro, este set é muito mais livre. Porque não temos de nos preocupar com a entrada de quatro rappers e fazer a ponte para eles.

[Kwan] Mas vai ser na mesma um tributo ao hip hop tuga. O conceito base mantém-se, foi o desafio que nos deram. Vamos ter tempo para explorar mais músicas. Também ainda estamos a montar as ideias.

[Kronic] Vamos tentar não repetir algumas faixas, apesar de várias serem incontornáveis.

[Kwan] Vamos manter um bocadinho a linha e fazer uma ou outra alteração, mas também porque houve muita gente que não esteve no Capitólio e vai agora ao ID, os públicos são diferentes e não me choca nada agora fazermos uma coisa muito parecida. É a mesma coisa que um artista dar um espectáculo com o mesmo alinhamento um ano inteiro.

Sobre este festival, fazia falta um evento destes? Tem nomes fortes, de certeza que vocês querem ver o Madlib.

[Kwan] Claro, e a IAMDDB e outros nomes. Este festival vem um bocadinho na sequência do Lisboa Dance Festival, que já tinha cartazes bons. E acho que há aqui uma mudança na escolha dos artistas e também vai mudar o sítio, portanto muda um bocadinho a dinâmica do festival e estou curioso para ver como corre. Até porque não têm acontecido festivais e outras coisas do género ali naquela zona. E é uma pena, eu sou dali. Espero que as pessoas adiram e que o pessoal da linha [de Cascais] que não vem para Lisboa ver coisas porque são preguiçosas que vão ao Estoril porque o cartaz merece. É alternativo, mas tem nomes muito bons que nem sempre consegues ver nos grandes festivais de verão. E daí eu achar que o ID é uma boa alternativa. O Madlib vai fazer um DJ set, estou curioso para ver como será.

Vocês já conhecem aquele espaço?

[Kronic] Não faço a mínima ideia.

[Kwan] Já lá estive nalgumas salas, mas não conheço o espaço todo. Mas acho que vai ser a música, o que vai acontecer lá e as pessoas que vão ao festival que vão fazer o espaço, não me parece que o espaço em si seja assim especialmente…



Esta é a segunda vez que vão tocar juntos. A ideia é começarem a tocar mais vezes enquanto dupla?

[Kronic] Não é um objectivo nosso. Porque fazer um set de hip hop português para mim é mesmo um acontecimento, não é uma coisa que faça noutros sítios, e gosto de o fazer com o Kwan. Esta é a segunda vez que nos convidam para fazer esse tipo de DJ set. Agora, se não houvesse convite, se calhar nós os dois nunca o teríamos feito. Foi uma boa oportunidade para trabalharmos juntos e foi muito fixe. Mas não é um projecto nosso de fazermos DJ sets de hip hop tuga. Quando há um convite e a cena faz sentido poderemos aceitar. Porque temos a responsabilidade de, de vez em quando, dizer: olhem, isto foi o que se passou cá. E o hip hop português está cada vez mais em altas.

E está a ser cada vez mais celebrado, como, por exemplo, n’A História do Hip Hop Tuga na Altice Arena.

[Kwan] E já consegues fazer eventos desses, só com hip hop tuga, que antigamente não era possível. Tal como fizemos no Parkbeat no Capitólio uma hora só com clássicos de hip hop tuga. É a prova de que as coisas cresceram, porque se não não era possível.

[Kronic] E fico muito feliz de haver estes acontecimentos que celebram o hip hop. E falamos de nomes que muitas pessoas mais novas não conhecem, é uma boa oportunidade para rappers que já foram muito importantes terem algum protagonismo em 2019. Muitos deles foram alicerces importantes. E fico contente que tenham estado presentes na Altice Arena ou, no nosso caso, se passarmos os sons deles. É uma responsabilidade e acho que temos de fazê-lo.

De que outras formas é que acham que o hip hop tuga devia ou merecia ser celebrado nos próximos tempos? Gostavam de ver mais documentários, exposições, o que é que gostavam?

[Kwan] Na verdade acho que ainda há uma grande resistência ao hip hop, em geral. Tem crescido tanto porque era impossível tapares os olhos àquilo que os miúdos ouvem, à maneira como falam, as festas. Era uma coisa que estávamos a ver há muito tempo a acontecer. Mas acho que ainda existe muita resistência ao hip hop, mesmo com tudo o que aconteceu, mesmo com os festivais que têm todos hip hop, as viagens de finalistas, os eventos…

As rádios… ou algumas rádios.

[Kwan] As rádios era um dos exemplos que eu queria dar. A rádio tem muita resistência ao hip hop ainda. Ouves muita coisa que pensas que é hip hop mas na verdade é uma coisa mais parecida com pop. Portanto, ainda há muita resistência, não só nas rádios, mas nas empresas e no meio corporativo, e noutros sítios onde outros géneros musicais fazem muito dinheiro. E só não há tanta porque através do YouTube e das redes sociais, sem intermediários, percebes o que realmente as pessoas querem ouvir. E a nova geração inegavelmente quer ouvir e consome muito hip hop. Essa é a única razão pela qual os promotores de espectáculos não têm outra hipótese. Se não fosse isso, de certeza que também iria haver resistência. E acho que Portugal não é um país racista, mas é um país que tem preconceito. Nem preciso de ser negro para perceber isso. E esse preconceito está vivo no meio corporativo e nos promotores que ainda vêem o hip hop como uma coisa marginal. E era isso que eu gostava que mudasse, essa mentalidade. E perceber que já há muita gente a viver do hip hop, que é mais do que pessoas a fazer música, tem muito mais do que pessoas em cima de um palco a tocar, é uma cultura. De resto, têm aparecido documentários de acordo com o cinema do nosso país, as exposições vão-se fazendo, as pessoas do street art mais credenciadas em Portugal todas têm uma ligação ao hip hop. Todas começaram por fazer graff e continuam ligados à cultura. O que existe ainda é uma resistência nas televisões, nas rádios, na própria imprensa, nalguns promotores, no meio corporativo e nas marcas, que se deviam associar mais ao hip hop e aos valores do hip hop que para mim são óptimos e que salvaram tanta gente pelo mundo fora, de uma vida de delinquência e pobreza. Ainda sinto que existe resistência e era isso que eu gostava que fosse mudado.

Como é que pensas que isso pode mudar?

[Kwan] É esta nova geração. É renovar as pessoas que estão à frente do marketing das empresas, que estão à frente das promotoras de espectáculo, que estão a trabalhar nas rádios e na imprensa. Só é possível com uma renovação e entrarem pessoas com a mente aberta e também um bocadinho com a noção do que se está a passar. E não fechar aos olhos a isso. Porque vejo imensos meios de comunicação que estão a passar completamente ao lado de um fenómeno que se chama hip hop português que, em termos de views no YouTube ou reach nas redes sociais, nenhum género consegue bater. Não gosto que a arte seja prisioneira dos likes e das views, mas são números que estão tão à vista que quem ignora só o pode fazer por má fé.


Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha