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DJ Kronic: das mixtapes pioneiras à estrada com Regula e Bezegol

[TEXTO] Ricardo Farinha [FOTO] Miguel Vaz

Já são quase 20 anos de carreira de Kronic, um DJ e produtor versátil e histórico no hip hop nacional, que fez parte de projectos muito diferentes, mas igualmente relevantes. Dedicou-se recentemente a criar Rockaz, um álbum de música reggae, um género, que, a par do rap, “ouve desde sempre”, conta ao Rimas e Batidas. Mas a sua escola vem do cerne da cultura hip hop.

Ricardo Farinha traçou o perfil e conversou com DJ Kronic sobre o passado, presente e futuro. O DJ toma conta dos pratos todas as quintas-feiras no PARK e antecipou o que irão poder ouvir, prometendo seguir os passos dos fundadores da cultura hip hop. A não perder. 

 


A história começa em 1991 quando Carlos Dias, um português, então com 19 anos, nascido e criado em Paris, capital francesa, imigra para Nova Iorque e descobre a cultura hip hop. O futuro DJ Kronic foi estudar música para a cidade norte-americana, berço do hip hop, e começou a trabalhar no The Pipeline, um club emblemático em Newark, Nova Jérsia, onde assistiu a concertos de grupos míticos como os The Artifacts, Das EFX, Group Home e Beatnuts.

Em 1997, Kronic muda-se para Lisboa e forma o colectivo Raska, juntamente com Mr Cheeks e Selecta Lexo. É no mesmo ano que os Da Weasel lançam 3º Capítulo e os Mind Da Gap Sem Cerimónias que Kronic começa a tocar como DJ e a conceber mixtapes amadoras (mas pioneiras) com vários MCs da Grande Lisboa (e com DJ Sas). No ano seguinte, e a convite do director do Rimas e Batidas, Rui Miguel Abreu, Kronic já participava regularmente em “Hip-Hop Don’t Stop”, programa dedicado ao hip-hop na Rádio Marginal.

Kronic esteve presente de forma activa e assistiu ao boom do rap em Lisboa, com a ascensão de nomes como Sam The Kid, Valete, Micro, Chullage, Xeg ou Regula, apesar de considerar que naquele tempo “era uma cena pequena”. Foi com o seu próprio grupo, os TWA, uns dos pioneiros no rap crioulo feito em Portugal, que esteve mais envolvido no movimento, com a edição do icónico álbum Miraflor, em 2002 — quando, além dos cortes, Kronic já assinava instrumentais.

 



“Agora há novas bandas e artistas, mas, durante muito tempo, os que estavam naquele tempo foram os que se mantiveram”, diz ao Rimas e Batidas, apesar de destacar um nome importante que surgiu entre esta e a nova geração, Allen Halloween.


O nome de Kronic tornou-se mais conhecido com os dois volumes de Projecto Inoxidável, trabalhos editados em 2002 e 2004, onde convidou vários rappers para participarem em temas inéditos. O primeiro volume tratava-se de uma mixtape à antiga, que era oferecida aos ouvintes como se se tratasse de um DJ set e também incluía faixas de nomes sonantes do outro lado do Atlântico como Wu-Tang Clan ou Mos Def. O segundo volume só tinha rappers portugueses e instrumentais criados por si, era um álbum de originais.

Alguns dos temas que saíram desses discos tornaram-se autênticos clássicos. Falamos de, por exemplo, “Do Lumiar para Vocês”, de Bónus, e “6ª Feira”, de Sam The Kid. Nos anos seguintes, Kronic começou a colaborar regularmente com artistas como Chullage, Regula, Xeg e co-fundou os Madvision, super-grupo do hip hop lisboeta com Sam The Kid, Kacetado, Tekilla e DJ Link. O único disco do colectivo foi editado em 2005.

Kronic já conhecia Regula, que também tinha participado no álbum homónimo dos Madvision, e daí até chegarem as mixtapes Kara Davis e Lisa Chu foi um instante. Antes do rapper do Catujal atingir um outro nível de popularidade com Gancho, Kronic foi o responsável por misturar as mixtapes, e desde aí que ganhou um lugar nas costas de Regula, enquanto seu DJ oficial, nas centenas de concertos que deram nos últimos anos.

 



Ao mesmo tempo, acontecia outra história em paralelo. A antiga paixão pelo reggae renasceu quando Kronic foi convidado por Bezegol para produzir Rude EP, lançado pela Optimus Discos, em 2009. Kronic já tinha colaborado com o antigo membro dos Matozoo em Rude Bwoy Stand (primeiro disco de Bezegol em nome próprio, ainda lançado pela mítica Matarroa, em 2007) e também passou a acompanhar Bezegol na estrada, outro artista que estava em clara ascensão no meio musical português, e cujo sucesso não tem dado descanso a DJ Kronic, que acha que o hip-hop em Portugal está actualmente num momento “incrível”.

“Não há queima das fitas que não tenha umas cinco bandas de rap. Ou festas em discotecas”, diz ao Rimas e Batidas, antes de salientar valores da nova escola como Dillaz, Piruka ou Kappa Jotta. “Antes lutávamos contra só haver techno nas discotecas, hoje quase só há rap. Está muito mais presente, faz parte da cultura global.”

No PARK, na Calçada do Combro, em Lisboa — o rooftop bar e restaurante onde o Rimas e Batidas tem uma residência artística mensal — DJ Kronic está responsável pelo som das noites de quinta-feira, sempre a partir das 22 horas. “Já não tinha residências há muito tempo, a última que tive foi com o soundsystem com o Bezegol. Há muito tempo que queria tocar aqui, é o que eu gosto, estar perto do público, tocar o que me apetece.” E o que é que Kronic passa, afinal, nestas noites no PARK? Música desde a sua origem, os anos 90, até 2016: rap, dancehall, R&B, reggae e os breaks clássicos do funk, tal como Kool Herc experimentava no início da cultura, no Bronx. “Hoje em dia toca-se mais rápido. Não tocas mais de um minuto e meio uma faixa.”

 



O novo disco, Rockaz, foi editado este verão, e tem temas compostos pelo próprio, com instrumentos reais e alguns convidados pelo meio. “Para mim foi um desafio fazer um álbum de reggae sozinho.” Em Abril escrevíamos no Rimas e Batidas sobre ele:

“Rockaz conta com participações de Veecious V – outra companheira da equipa de Regula -, TK Kilamba, um cantor de reggae e soul que entra em dois temas – um “artista pouco conhecido, mas alguém que escreve para gente muito conhecida (muitas vezes não creditado), um grande cantor de reggae ou de soul”, descreve Kronic; e Suku, vocalista dos Ward 21, conjunto jamaicano, que participa numa outra remistura já lançada – do tema “Step In Ya Face”, dosDirty Skank Beats – mas que teve uma nova versão mais elaborada para entrar no disco.

E foi precisamente a partir deste tema que a vontade para fazer este álbum surgiu. “[Tinha sido] o mais reggae a que eu alguma tinha ido ao nível da produção”, conta Kronic ao Rimas e Batidas. “Isto deu-me vontade de fazer um álbum completamente reggae apesar de eu na base ser um produtor de hip hop”. Aqui não há samples nenhuns – todas as músicas são compostas pelo próprio Kronic e a maioria dos instrumentos é tocada por si.

“É tudo original, nem as linhas de sopro… quando eu comecei estava um bocado verde porque apesar de eu ouvir reggae desde sempre, como produtor tive que ir ver aqueles [pormenores]… mas como é que eles sacam este som? Também tive de esquecer o tipo de produção que fazia antes e nota-se a progressão durante o disco. Por exemplo, a primeira faixa que eu fiz é a primeira do álbum e a última é o [remix de] ‘Toni do Rock’, com o Regula. E nota-se alguma diferença entre o início e o fim [risos]”. Em “quatro ou cinco faixas” de Rockaz participam também os Solid Movement – dupla de produtores – a tocar baixo e teclado”.

“Este álbum é um bocado a minha luta. Eu acho que é o melhor álbum que alguma vez fiz. E acho que tem várias emoções”.

E que a luta continue pelo menos por mais duas décadas repletas de música, scratch, beats, actuações ao vivo, tanto em nome próprio como no apoio a rappers e cantores da nossa praça. Avé, Kronic!

 


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