DISCObrimentos com Capicua: Navegar no passado e questionar o futuro

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Carolina Lourenço

Entrar no complexo universo de um disco com os próprios autores é uma benção. Em muitos casos, é uma oportunidade raríssima de conseguir tanta informação privilegiada. Afinal de contas, quem melhor para nos explicar a obra do que o criador? DISCObrimentos, iniciativa da Associação Mutualista Montepio, arrancou ontem no atmosfera m, em Lisboa, e Capicua foi a primeira convidada para estar à conversa com Rui Miguel Abreu.

Sereia Louca, o segundo álbum de Ana Fernandes, faz quatro anos daqui a dois meses. O primeiro longa-duração “profissional” — lançou pela Valentim de Carvalho — foi gravado com Zé Nando Pimenta nos estúdios da Meifumado, em Vila Nova de Famalicão. O início de tudo foi diferente: o título surgiu-lhe num sonho e não a deixou descansar até ser materializado num conjunto de canções.

Antes de ir para o estúdio, Capicua assumiu que o processo criativo faz-se de várias formas: apontamentos nos cadernos; a escolha de instrumentais — gosta que os produtores a surpreendam –; a construção das canções e a gravação de demos com D-One, o seu DJ.

 


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“Não comer muito em Famalicão foi difícil porque se come bem. Ninguém canta rap a seguir a comer rojões”, afirmou, entre risos, revelando também que as passagens de Gisela João, M7 e Aline Frazão pelo estúdio trouxeram-lhe alguma alegria. A escolha das convidadas também mereceu uma justificação, ressalvando que são as canções que lhe dizem “quem é que faz falta ali”. As temáticas — a mulher, a água e a passagem do tempo — só poderiam, segundo a própria, ter o contributo de mulheres.

Quando questionada sobre a relação com as canções do álbum, Capicua foi peremptória: não se cansa de “Vayorken” e nunca vai tocar “Síndroma de Peter Pan” ao vivo.

“Não me arrependi das coisas que escrevi porque já as fiz com alguma maturidade”, revelou. Ainda sobre o disco, a autora de “Medo do Medo” destacou “A Mulher do Cacilheiro”. “Talvez seja uma das minhas melhores letras de sempre”, atirou.

“Vou ter que inventar esta coisa de ser mulher e envelhecer no rap”, desabafou depois de contar um episódio sobre um encontro afortunado com uma rapper veterana numa passagem pelo Brasil. A consistência e o trabalho feito tornaram Capicua na única MC do universo feminino português a alcançar alguma longevidade num nível alto, algo que a própria consegue reconhecer. “Como é que se veste uma rapper trintona?” ou  “Não sei como é que se continua a fazer rap aos 50 anos” foram algumas das dúvidas que a MC nortenha lançou durante a conversa com o director do Rimas e Batidas.

Para fechar, uma pergunta do público sobre as duas versões de “Alfazema”, a primeira com beat de DJ Premier e a segunda com instrumental de Xeg, que, palavras de Capicua, aconteceu porque a faixa “merecia um beat original”. Com uma sala composta e um ambiente descontraído, a primeira sessão de DISCObrimentos conseguiu satisfazer a curiosidade de saber mais.