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Digging em Lisboa com A Boy Named Sue

[TEXTO E FOTOS] Amorim Abiassi Ferreira 

A Boy Named Sue foi criado em Coimbra e é DJ desde 2001. Colabora com The Legendary Tigerman desde 1998 e fez de si parte activa na cena de bandas e rádio da terra onde cresceu. Desde então, tocou em lugares como Cannes, Marselha, Oslo, Madrid e Macau. Já foi apelidado por alguns como a “máquina do tempo do rock n’ roll”. A cada tour que segue com o Tigerman, acaba por visitar lojas de discos e feiras para encontrar novos vinis e poder voltar ao circuito com um monte de surpresas. “Eu guardo flyers (de lojas de discos) e eu sei que se for a Lyon, terei aquela loja, se for a Paris, terei de ir aquela.”

Como os seus gostos são tão diversos, passando pelo r&b, soul, surf, 60s, grooves latinos, psych, garage, punk, – só mesmo para começar — é importante saber onde procurar novos discos sem ir à falência. “Gosto de procurar por discos de um certo género dentro de lojas que se especializam em outros. Se fores a uma loja punk, podes encontrar discos de música do mundo ou de hip hop incrivelmente raros a um preço baixo já que estes não importam assim tanto para os donos.”

Fazia todo o sentido pedir ao A Boy Named Sue para algumas dicas sobre onde vale a pena fazer digging em Lisboa. A capital pode ter muitos lugares onde gastar dinheiro, mas ter um guia com experiência pode ajudar a poupar tempo e recursos. Aqui estão as recomendações do DJ:

 


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[FEIRAS]

“Tens a famosa Feira da Ladra, mas, tirando uma ou outra pessoa, ninguém consegue tirar de lá grandes negócios. Os preços estão demasiado inflacionados para os turistas. Tens discos de 2 euros a serem vendidos a 10 euros. A não ser que vás às 5 ou 6 da manhã, claro, aí consegues apanhar os melhores negócios antes que desapareçam.

No entanto, acho mais provável conseguires apanhar bons discos em feiras aleatórias do que nas mais conhecidas. Há uma na Avenida da Liberdade (Feira na Avenida), onde já encontrei coisas interessantes a preços óptimos. Há sempre espaço para negociares em feiras e por vezes encontras coisas cujos vendedores não têm noção do valor.”

 


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[VINIL EXPERIENCE]

“A Vinil Experience é de um senhor velho, que é o J. Cunha, um fanático por psicadelismo e prog. A vantagem é que quando um disco de música psicadélica sai que ninguém conhece em Portugal ele terá três ou quatro cópias, só porque acredita mesmo no que ouviu. Ele também tem coisas mesmo raras, como originais dos anos 60, entre os 50-100 euros.

A loja tem rock na categoria hard, garage e clássico dos anos 60 e 70, mas também coisas mais recentes como folk. O dono também sabe muito sobre música. Gosto de passar tempo nestes sítios porque, se tiveres tempo, o dono vai dizer ‘ouve isto, ouve aquilo’ e mostrar-te coisas novas. É um bocado mais restrito a nível de género, mas lá podes encontrar coisas que não encontrarias em mais lado nenhum.”

 



[DISCOLECÇÃO]

“A Discolecção também é de um velho louco que é o Vítor. Ele realmente sabe muito sobre música e esta é uma das mais velhas lojas de discos de Lisboa. Já encontrei as coisas mais estranhas lá, como discos dos Lounge Lizards (banda do John Lurie) e outros que são mesmo raras de se ver.

É um lugar onde podes ouvir discos no sistema de som da loja ou num leitor de vinil separado. De pop rock ao alternativo, incluindo muito soul e jazz específico. O jazz tem uma secção experimental bastante grande e a parte de soul não tem só uma prateleira como nas outras lojas, há para aí umas dez.”

 


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[TWICE]

“A Twice é uma loja que quase ninguém conhece, perto do Príncipe Real. Já fui lá algumas vezes, o dono tem muita música experimental e concreta — coisas que não se encontram em outras lojas. Depois há os mais comuns blues, easy listening, música do mundo, música de dança, algum avant garde e discos com desconto.

É um bom lugar para ouvir discos ou conversar, um lugar onde se está confortável em passar tempo. Eu normalmente digo que não é preciso ir para o estrangeiro para se comprar discos. O que realmente gosto é de ter dinheiro e tempo para passar uma tarde numa destas lojas e depois acabas por encontrar coisas incríveis.”

 


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[GROOVIE RECORDS]

“A Groovie Records tem agora cerca de 13 anos. É uma das lojas mais completas. Os donos são diggers e a Groovie também é uma editora. Eles têm tudo: garage, rock, música brasileira (a mulher do dono é brasileira, ele vai lá frequentemente buscar discos), soul e psych. Eles têm a caixa dos discos a 1€ onde eu por vezes procuro, porque, claro, o disco poderá ter uns riscos e não valer 10 mil euros como a versão imaculada no eBay, mas as músicas ainda estão lá e podes passar a conhecê-las. E por vezes, não sabes nada sobre uma banda e pegas num best of barato para travar conhecimento.

A loja está mais virada para o rock, punk e 80s. Mas tão facilmente quanto encontrares um disco de Sonic Youth, também poderás descobrir uma reedição de Francis Bebey e outras coisas peculiares de África, ou até outras preciosidades, já que eles têm música turca, o psicadelismo emergente da Ásia e outras coisas dos anos 70 da Alemanha. Eles têm realmente muito material e poderás falar com alguém que compreende o que estás a ouvir e que te pode explicar e apresentar novas coisas. É por isso que acho esta uma das lojas mais compreensiva para te perderes.”

 


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Este artigo foi originalmente publicado em Europavox.com, um site que promove a cultura musical europeia divulgando a cultura e bandas de toda a Europa. Este site está associado ao EUROPAVOX Project — uma cooperação de larga escala com apoio da UE com uma rede de mais de 200 jornalistas e profissionais da indústria musical.

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