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Deus no céu, Stormzy na terra

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

Religião, política e futebol. Entrar nestes três “campos” altamente perigosos e sobreviver para contar a história é algo só ao alcance de um predestinado. Se colocarmos “artista” na equação, o exercício torna-se ainda mais interessante (e complicado). Não é a primeira vez que um músico se envolve de forma tão intensa nestas temáticas, mas Stormzy tratou de mostrar que a juventude também se preocupa e não se coíbe de citar Deus nas suas letras, apoiar Jeremy Corbyn ou de colocar políticos em cheque durante actuações em eventos de grande dimensão. Dentro do seu alcance, o “Wicked Skengman” utiliza a sua plataforma da melhor forma e assume-se como voz de uma geração.

Orgulhosamente independente — foi o primeiro artista com esse estatuto a actuar no respeitável programa Later… with Jools Holland, por exemplo –, Michael Omari Jr. conquistou tudo e todos com um carisma e um talento que são incomuns para alguém com apenas 24 anos (faz 25 no dia 26 de Julho). Alguns temas soltos e um EP (Dreamer’s Disease) depois, o rapper continuou a quebrar barreiras, mas existe um grande simbolismo na mais significativa de todas: tornou-se o primeiro MC de grime a conseguir o primeiro lugar lugar nas tabelas de vendas de álbuns britânicos com Gang Signs & Prayer, o seu disco de estreia. E não cedeu um milímetro para consegui-lo — Kehlani é a única artista norte-americana –, rodeando-se de nomes como Ghetts, J Hus, Wretch 32, MNEK e, mais importante, Fraser T Smith, produtor que teve um papel crucial na procura do equilíbrio entre músicas como as duas partes de “Blinded By Your Grace” ou “Cigarettes & Cush” e “Bad Boys”, “Big For Your Boots” ou “Shut Up”. Tal como a capa, que é uma recriação gangsta d’A Última Ceia, emblemática obra da autoria de Leonardo Da Vinci, a sonoridade do álbum é uma mistura de bragadoccio, dureza e espiritualidade que não poderia ser tratada levianamente.

Poeta auto-proclamado desde tenra idade — era tão prendado com a língua inglesa que os professores tentaram encaminhá-lo para universidades como Oxford ou Cambridge –, Stormzy deixou a escola e passou por dois trabalhos que nunca o preencheram. Em 2014, despediu-se do emprego que tinha na altura e arriscou tudo com o seu amigo e manager Tobe Onwuka. As suas capacidades inatas não escaparam ao radar das editoras mas as propostas não foram suficientemente atrativas para o levarem a abdicar da sua prezada independência. Com uma equipa formada, a #Merky Records foi um passo óbvio numa era em que os músicos conseguem o seu espaço sem recorrer a artimanhas de marketing. Com a faca e o queijo na mão, jogaram os trunfos na altura certa e os resultados não poderiam ter sido melhores: em Janeiro deste ano, assinou então com a Atlantic Records.

 



Valorizar a palavra escrita também é importante para o MC e a #Merky Books é mais uma aventura que se vai traduzir numa autobiografia do próprio e uma plataforma para jovens escritores que tenham o que é necessário para verem as suas histórias publicadas.

Juntamos o talento a uma pitada de sorte e as coisas começam a tomar outras proporções. Ter Ed Sheeran, Little Mix, Adele — actuou recentemente no aniversário da cantora britânica –, Wiley, Skepta, Krept & Konan, Jorja Smith, Linkin Park, Lethal Bizzle, Giggs, Tinie Tempah ou Little Simz no seu círculo de colaboradores permitiu que mantivesse a credibilidade underground enquanto se atirava para terrenos mainstream.

As suas referências estão longe de terminar nos artistas grime: Channel Orange, de Frank Ocean, é um dos seus discos favoritos e não seria estranho se o seu segundo álbum, que já está a ser “cozinhado“, se aproximasse da opulência sónica do primeiro álbum do músico norte-americano. Em Março do ano passado, Stormzy apresentou uma versão de “Godspeed”, canção que faz parte de Blonde, e mostrou, mais uma vez, que também consegue cantar com competência.

Seja ao lado do jogador Paul Pogba num anúncio da Adidas ou a meter em causa o trabalho da primeira-ministra Theresa May no palco dos BRITs 2018 — gala em que levou para casa os prémios de melhor artista masculino e melhor álbum do ano –, Michael Omari já provou que não existe campo que tenha medo de pisar e fá-lo com a confiança e o magnetismo de um homem que está pronto para liderar. No próximo sábado, dia 21 de Julho, o Super Bock Super Rock patrocina a sua estreia em território nacional, uma actuação que tem tudo para ser memorável.

 


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