Desconstruir, arranjar e resolver: a fórmula para libertar as cores e formas de Maria


[TEXTO] Vasco Completo [FOTOS & VÍDEO] Sara P. Mendes

Reza a história que David Almeida fazia música antes de o Maria ser o Maria. Uma paisagem suburbana – ditada pela cultura hip hop, pelos skates com os amigos e ainda pela electrónica que o irmão lhe mostrava -– sustentou as primeiras influências, as bases que seriam cruciais para a fundação do imaginário sonoro do produtor da Monster Jinx, influenciado pelo catálogo da Brainfeeder e pela música electrónica e o trip hop dos anos 90, beats espaçosos downtempo e os sintetizadores sedosos. 

Depois de um preenchido ano de 2018, do qual saíram diversas colaborações, remixes, o instrumental de “Caixa Negra” de Mike El Nite, mas principalmente o EP Cor e Forma, que veio trazer novos prismas à turma roxa, a pergunta “para onde vai agora o Maria?” nunca fez tanto sentido. Dotado de uma liberdade criativa e musicalidade inegáveis, David mantém-se à margem de etiquetas estilísticas, preocupando-se mais com outras problemáticas mais mundanas: “quero tocar, quero fazer música, quero passar tempo com pessoas de quem eu gosto”. Para o produtor, a música não vem de pretensões, necessidade de afirmação ou de seguir as últimas tendências. É sobre interpretar musicalmente o que passa pela sua cabeça — um processo que tem de ser natural. 

A Monster Jinx trouxe-lhe novos palcos e uma audiência mais alargada. Em retrospectiva, Maria sente não ter alterado seu processo e estilo para assinar pelo monstro roxo — apenas os seus DJ sets, que são agora mais festivos. O próximo live act acontece já este sábado, dia 12 de Outubro, na edição deste ano do festival organizado pela turma do monstro roxo. 

Tendo em conta o teor tão visual das suas faixas e dos elementos conceptuais que a compõem – especialmente neste EP, que traz luzes da Bauhaus e do mundo do design gráfico, que preenche o dia do produtor português –, não deixa de ser curioso que não existam videoclipes no seu currículo. A vontade de não repetir e copiar contemporâneos ou a falta de budget são respostas prontas na ponta da língua, mas Maria hesita e afirma que tem alguma urgência em explorar esse âmbito no seu trabalho musical. 

Em Fevereiro, na sua casa em Alverca, David Almeida sentou-se à conversa com o Rimas e Batidas e desvendou o passado, reflectiu sobre o presente e deixou o futuro em aberto. Tal como a sua música, Maria está pronto para dar as voltas necessárias até descobrir mais um terreno onde possa jogar pelas suas próprias regras. 



Antes de tudo isto, do Cor e Forma e mesmo do Isto nem é uma Beat Tape, apareceste no radar do Rimas e Batidas num beat challenge. O que havia antes do Maria ser o Maria? 

Antes do Maria ser o Maria não havia um Maria. Há pouco estávamos a falar sobre isso. Eu comecei a produzir quando tinha para aí 14, 15 anos, porque aqui nesta zona de Alverca era forte, como em qualquer cidade do subúrbio, ter a cultura suburbana, ou as sub-culturas. Então havia uma comunidade skater forte aqui, eu comecei a andar de skate aí com 9, 10 anos, mesmo puto, e havia também o pessoal do grafitti. Então, eu parava com essa malta, era tudo pessoal mais velho, e já havia uma introdução ao hip hop, embora não fosse muito expressiva, não havia bandas muito expressivas nem muito fortes, mas havia pessoal a fazer algumas cenas, e o meu irmão mais velho era DJ de techno nos anos 90. Dava um programa na Antena 3 no domingo à meia-noite. Não era a Caixa de Ritmos mas era equivalente a um programa desses. Era um tempo em que não havia streams, nem podcasts, não havia nada disso… tinhas de estar mesmo atento. Como aquilo era coordenado mesmo à hora, normalmente estávamos a ouvir a rádio antes do programa começar e o que é que dava antes? Dava o Repto do José Mariño. Eu era mais chavalo e identificava-me mais com aquela estética propriamente do que com aquilo que o meu irmão ouvia. Começou-me a “criar o bichinho”. Depois, como contactava com a comunidade skater, o pessoal pintava e assim, comecei-me a interessar por aquela estética. Eu tinha pratos em casa, do meu irmão que passava techno, e comecei a pedir-lhe: “podias comprar-me uns discos?”. Curtia a cena do drum’n’bass, ou do hip hop, e comecei a ter contacto com isso. As máquinas fizeram-me estar envolvido naquilo – já tinha pratos e uma mesa de mistura em casa! 

Mais tarde, aí com 14, 15 anos, sempre a “skatar”, a dar-me com esse pessoal, instalei uma versão do Reason (acho que era a versão 2, ou 2.5 Propellerheads), e foi quando comecei a esboçar as minhas primeiras cenas. Eu já tinha Internet, comecei a fazer aquelas pesquisas tipo IRC, canal de hip-hop, e conheci o Madkutz. Conheci-o, começámos a falar e demonstrei interesse sobre a cena e comecei a produzir. Depois deixei de parar com esse pessoal mais velho que “skatava” e comecei a estar com pessoal da minha idade – tínhamos todos 15/16 anos – e começámos a fazer as nossas primeiras cenas de hip hop que eu produzia, tentei rimar na altura, mas não é a minha cena, de todo. E comecei a produzir. Comecei com outro nome, mas sim, foi essa a minha introdução  

Como sentes que a tua entrada na Monster Jinx influenciou toda a forma como concebes a tua música e mesmo os teus DJ sets ou as tuas performances? 

Como eu faço a música acho que não influenciou em nada. Acho que a única coisa que teve influência foi a música que eu faço ter ido para a Monster Jinx, porque a cena estética da Jinx é uma sub-vertente, quase. É hip hop mas com um espectro muito mais largo e eu acho que não tinha espaço para estar em muito mais colectivos, ou então a minha abordagem musical tinha de ser outra. O DarkSunn fez-me o convite e achei que fazia todo o sentido. Primeiro porque eu gosto mesmo do universo das editoras independentes, é algo que me entusiasma bastante. Depois, é importante o facto de teres espaço para a criação musical: ninguém na Jinx te vai dizer, “bro, o teu beat está muito do house”. Tu podes fazer o que tu quiseres! Não há uma barreira estética desde que as coisas se enquadrem. Como tinha cena de label e colectivo, ser tudo pensado e esteticamente interessante, mesmo até graficamente… achei que fazia todo o sentido estar ali. 

A única coisa que eu mudei, ou que tive de me adaptar mais, foi nos meus DJ sets, porque tocava mais house e techno. Também porque eu nunca curti estar fechado numa gavetinha tipo “é só hip-hop ou não sei quê”. Eu fazia sets muito mais clubbing. No clubbing a comunicação com o público é diferente, é mais de viagem e não tão de festa. A única cena que tive de mudar foi essa. Em vez de tocar malhas mais “esotéricas”, chamemos-lhe assim, passei a tocar mais singles. Ou pelo menos tentar: “como é que eu vou encaixar aqui singles e bangers duma forma que consiga também não fugir à minha identidade?” Foi a única cena que sinto que artisticamente tive de me adaptar, foi nos DJ sets. E lá está, sou mesmo capaz de celebrar um set só de hits, mas não é muito a minha onda fazê-lo. O que eu tive de fazer foi, “ok, que hits é que eu posso tocar para tentar construir isto duma forma que possa ser interessante e não fugir à minha identidade”, que é mais experimental. 

Acabaste por encaixar que nem uma luva, exactamente porque é uma sonoridade mais experimental, e com um range mais aberto, mais para a electrónica, donde também vens… 

Sim, na produção eu não mudei mesmo nada. Uma cena que dou mesmo graças é não ter de estar num sítio a pensar, “isto não se enquadra muito”. Posso chegar lá e fazer mesmo o que eu quiser. Existe essa mentalidade, existe esse desejo. O que sinto que nós fazemos não é seguir ondas, mas criar a nossa cena e cada um tem uma identidade que se complementa mas que é completamente diferente. O Taseh é diferente do NOFUTURE, o NO FUTURE é diferente do Ghost Wavvves, o Ghost Wavvves é diferente de mim, Roger Plexico é diferente do Taseh individualmente a produzir, o DarkSunn tem uma identidade que toda a gente conhece. Ou seja, há aqui uma carrada de produtores e DJs que se encontram num sítio. É como se tivesses uma praça, todas as ruas vão dar à mesma praça e nela existe um bocadinho de tudo, mas nenhum deles é também igual ao outro. O que eu tive de me adaptar foi nos DJ sets porque lá está: nós ao fazermos uma festa é suposto as pessoas estarem lá para celebrar, não é para estarem a chorar num canto [risos], e os meus DJ sets eram um bocado essa vibe. Introspectiva! Não era tão efusiva, era mais introspectiva e nisso eu tive de contrabalançar um bocado, digamos assim. 

No teu EP, como pelas tuas redes sociais, podemos ver que és um fanático pelas máquinas e pelos sintetizadores. Tens trabalhado com o quê, ultimamente? 

Ultimamente mudei o setup, porque eu produzia inteiramente com o Ableton desde o início e agora comecei a produzir na Maschine. Não necessariamente porque quero chegar a algum sítio em termos estéticos, mas porque a cena é: eu sinto mesmo que tenho de me identificar com as marcas e eu deixei de me identificar tanto com o Ableton Live porque são um bocado elitistas. Ou seja, tu adquirires um artigo que é um controlador, esse controlador não vem com a plataforma de suporte dele (que é dum valor monetário superior ao nosso ordenado mínimo). Eu não acho que esteja ali adaptado. O que é que acontece? A Native Instruments dá-te uma solução em que tu tens uma espécie duma DAW – não é bem uma DAW, é um plugin – com um controlador à mesma. E eu sinto que estou mais adaptado, ou que me enquadro melhor naquele ciclo quase social ou económico, do que por exemplo estar a sustentar uma marca como o Live. Eu não curto ter as cenas ilegais. Depois raramente utilizo VSTs, utilizo maioritariamente instrumentos. Este [aponta para um dos sintetizadores] é um sintetizador polifónico, gravo grande parte das coisas daqui; este é um sintetizador monofónico, onde gravei os baixos e as leads; e depois recorro a samples, utilizo os pratos e discos que vou samplando, só isso. 

Tens algum investimento particular em vista? 

Tenho mais investimentos do que tenho dinheiro, infelizmente [risos]. Olha, há um projecto que gostava de fazer a longo prazo: gostava de começar a fazer [um sintetizador] modular. Mas acho que dar no crack é mais fácil do que começar a construir um modular, não sei ainda se vou ou não fazê-lo. Porque é um universo mesmo complexo e tens mesmo de perder algum tempo para conseguires resultados daquilo, para além de que os módulos são caros. Embora a minha ideia para um modular fosse mais de processamento. Ou seja, num modular tu constróis o que tu quiseres daquilo. Fazes aquilo com o que quiseres porque compras módulos à parte. O que eu gostaria de fazer com um modular seria mais de processamento sonoro do que de fonte sonora. Ou seja, continuar a samplar e a fazer todo o processo directo, mas depois enviar as cenas para o modular e “shapar” aquilo duma forma até chegar a um timbre ou a sonoridades que eu goste muito, e depois “re-samplá-las” ao mesmo tempo. Basicamente eu faço um bocado isso também já hoje em dia: samplo, corto, sequencio; depois de cortar e sequenciar, trabalho efeitos, volto a samplar, volto a partir, volto a usar de maneira diferente. É quase como se me samplasse a mim próprio, digamos assim. 

Eu ando sempre a ver gear, portanto… Curtia também comprar outro sintetizador monofónico, que tivesse uma sonoridade mais redonda do que o MS-20, porque tem uma sonoridade muito gritty, é muito utilizado pelo pessoal do rock e do rock progressivo, e às vezes para os baixos não é a melhor solução, então curtia agora comprar, não sei, talvez o Novation Bass Station 2, é um bom sintetizador, é redondinho. Porque os baixos são a única coisa que utilizo VSTs ou sample based. Tenho uma nota só do baixo e depois toco com isso. Tipo os 808s, por exemplo. O pessoal tem um sample de 808, que é só uma nota, e depois sequencia a partir daquela nota. O que acontece é que o time stretch daquilo, quando chega a notas que são muito distintas da original, ganha personalidade, mas perde a waveform original. A waveform começa a ficar esticada e começa a ficar com umas texturas que eu não curto muito. 

Mas eu não sou muito nerd, isto são instrumentos de linguagem, tudo é válido. Se tu fizeres música só com um computador e tocares nele, se a tua cena for fixe: altamente! Eu é que não me adapto aos VSTs, é-me estranho mexer naquilo. 

Como se costuma dar o teu processo criativo? 

Não tenho uma fórmula. Eu costumo dizer isto às vezes, já falei disto em situações anteriores: eu não vejo muitas séries, nem jogo computador. Eu passo a grande parte do tempo de lazer que eu tenho aqui. Estou a ouvir música ou estou a fazer cenas. Passo bué tempo a chegar a uma fórmula sonora, a criar patches, a tentar “shapar” o som até ter uma coisa que à partida dê para começar a tirar algo dali, e por norma faço dessa forma. Ou seja, começo a criar uma coisa que não tem nada a ver, depois corto aquilo e a partir daquilo começo a preencher por cima e se calhar a primeira cena que eu comecei a fazer, já nem sequer vai estar na música, mas foi o início [dela]. Isto acontece duma forma orgânica: eu estou aqui, toco umas drums, deixo-as estar; depois, não sei tocar guitarra, mas estou aqui a atrofiar; ou às vezes até estou mesmo tipo DJ set, a passar malhas, e passo uma que não tem nada a ver, junto com a outra e dá uma coisa que pode ser engraçada, e eu gravo só aquele pedacinho, “ok, como é que eu posso a partir disto tentar fazer alguma coisa”. Acontece duma forma orgânica. Mas por norma surge duma coisa melódica, não rítmica, mas melódica. Mas não tenho aquilo de: “vou-me sentar, vou produzir, tenho aqui o meu método, e o meu método é: primeiro kicks, depois hi-hats”. Não, não tenho essa cena. Acontece duma maneira natural. Eu estou a divertir-me, eu curto de fazer isto, é mais por aí. 

Mesmo tendo muitas colaborações, acho interessante perguntar: és muito individualista na tua forma de trabalhar? 

Individualista em que sentido? 

Se precisas de guiar muito a música por um caminho teu, por assim dizer. 

Não… depende, eu acho que isto pode acontecer assim e não assim. Depende da dinâmica que tens com a outra pessoa. Por exemplo, eu com o M.A.F – somos bros – às vezes estamos em casa dele, ou num sítio qualquer aleatório; lá em cima no Porto. Já aconteceu estarmos só de laptop e um controlador, e estamos num ambiente social, em que está toda a gente está a conversar num café, ele tem os phones, começa a fazer uma coisa: “Maria, pega lá nisto, faz aí qualquer cena”. Chego ali faço mais um bocadinho, depois ele vem e faz outro bocadinho. Não estamos ali, “não, mano, não faças assim”. Estamos ali a fazer uma coisa e depois aquilo vai acontecendo. Com outras pessoas isso já não dá para fazer. Tem a ver quase com a dinâmica particular e individual, com a relação humana que tu tens com a pessoa, estás a ver? As colaborações são importantes nisso. Há pessoal que eu curto, curto a música de muita gente com quem acho que, provavelmente, não faria sentido eu colaborar porque não tenho uma dinâmica pessoal com a pessoa. Sinto que é mesmo fixe teres uma relação honesta com a pessoa. A música é uma expressão interna e individual e eu não quero fazer isso com pessoas que não conheça… pelo menos que não tenha uma energia fixe com a pessoa. Posso não conhecer muito bem a pessoa, mas cruzas-te com ela e tu sentes uma energia fixe, se calhar pode fazer sentido colaborar. Depois pode acontecer essa dinâmica musical, ou às vezes não – ninguém fica chateado por isso –, mas a relação pessoal tem mesmo de estar lá. Mas não sou nada ditador nisso, “faz assim, faz assado”. Não, porque eu também estou sempre disposto a aprender. Há pessoas que fazem coisas duma maneira válida que eu nunca pensaria fazê-lo dessa forma, e depois de ver aquela pessoa fazer fico, “se eu fizer isto assim faz mais sentido numa situação idêntica a esta”! 

Eu vejo as cenas sempre como uma colaboração. Eu não quero que as pessoas sejam a caneta para o meu desenho. Quero que as pessoas sejam parte dessa composição. Imagina, estás com um guitarrista, eu posso dizer, “olha, eu quero que seja mais ou menos isto, quero que te baseies numa lead, tens de fazer uma linha melódica para isto”. Mas a partir daí eu não te vou dizer, “tens de estar em determinada escala, porque vai ser [assim]”. Faz o que tu quiseres! Porque se eu preciso de ti, eu não preciso daquela caneta que escreva daquela maneira, eu preciso do que tu vens dar valor àquilo que eu estou a fazer. Tem a ver com isso. Não utilizo as pessoas como uma ferramenta. É válido, há aquele pessoal que é mesmo aquele produtor tipo, “vou convidar x gajo para tocar o baixo, x gajo para não sei quê” e depois juntam tudo, trabalham isso com uma finalidade, já muito bem definida. Eu não, eu… passo tempo, estás a ver? Passo tempo e quero ter relações com as pessoas, relações humanas. Tem mesmo a ver com isso. 

Acho que é muito fixe ver o que é que a malta acrescenta… 

Claro, porque se tu condicionares a pessoa à partida, primeiro ela pode não se adaptar àquilo, e depois, se ela for livre, o resultado vai ser muito melhor do que aquilo que tu estavas a idealizar na tua cabeça, porque nem toda a gente olha para a mesma cena da mesma maneira, então pode estar a ver uma parte do edifício que tu nunca viste, e ela vai pôr-te aquilo ali: “não estava à espera disto!”. A surpresa é mesmo fixe! Imagina, vais ouvir um disco de determinada pessoa e tu conheces mais ou menos aquilo que aquele músico ou produtor faz. E quando o gajo vem com uma cena fresh, tu aí é que ficas, “não estava à espera disto, estou surpreendido”! Pode às vezes ter um efeito negativo, mas a surpresa é o que te faz sentir alguma coisa. Porque se for, “ok, era mesmo isto que eu estava à espera, está muito bem gravado”, mas não te deu nada! Eu curto mesmo é de ter essa sensação, de ser surpreendido. 



Mesmo que tu não gostes de ver as coisas por caixas, como estavas a dizer, sempre gostei muito que fosses dos poucos, neste contexto, que não tem problemas em abrandar um beat, de trazer vários andamentos em diferentes faixas ao longo dum lançamento. Achas que advém de ires buscar influências fora do hip hop? 

Sim, claro, tem mesmo a ver com isso. Isto pode ser uma cena bué introspectiva, mas as pessoas estão em constante mudança, e eu vejo mesmo a música que eu faço como a pessoa que eu sou. Consoante as experiências, as pessoas vão-se alterando. E a minha música é feita assim. A música que eu curtia quando tinha 14 anos, que ouvia NOFX, Pennywise, outras mais ligadas ao hip hop, Talib Kweli, Mos DefDilated Peoples, está longe de ser a música que eu hoje… Era impensável com 15 [anos] ver um concerto acústico, a piano, num sítio qualquer, e hoje eu quero também ter isso. E todas essas coisas juntam-se e fazem com que eu faça a música desta forma. Não te sei mesmo explicar, porque é aqui que eu acho que sou livre! Ninguém vai dizer, “não podes pôr as tarolas assim”. Eu ponho como eu quiser! Tens uma música a 100 BPMs: tu podes fazê-la a 100 BPMs, ou parti-la e estar a fazer a sequência toda melódica assim, mas a estrutura temporal estar half tempo, estar quase a 50 BPMs, ou podes estar a fazer aquilo numa tercina, tipo a 150 BPMs. Ou seja, a música está a 100 mas tu podes multiplicá-la e dividi-la, e isso vai dar-te um espectro de soluções. “Ah, porque é que a tarola tem de ser sempre no [tempo] 4 e no 8”, estás a ver? Não, não tem de ser. Tem de ser aquilo que tu quiseres que seja, tem mais a ver com isso 

Outra coisa ainda é no EP teres sido capaz de fazer uma faixa com voz de nove minutos. É arrojado! Qual foi a ideia no desenvolvimento da “Volta” com o João Tamura? 

Primeiro, grande “props” ao Tamura, que é o gajo mais rápido a trabalhar do mundo. O gajo é mesmo muito fixe. Eu curtia a cena dele, a maneira como ele escreve, e ele é uma pessoa que tem uma narrativa para a rima dele que revejo na minha parte melódica, ou seja, são quase paisagens sonoras. A narrativa dele tem uma particularidade que eu curto bué: ele fala de sítios, sempre. E durante essa música ele fala de dois ou três sítios (que se está a deslocar para um determinado sítio e assim). O facto de ter vários espaços faz quase com que tu tenhas de ver um percurso, e isso fez com que a música também fosse fluída e orgânica dessa forma. A primeira parte que lhe mandei do beat não tinha a parte “technão” no fim, era mesmo só a estrutura base onde ele rimou. Como já estava mais ou menos identificadas, as passagens para refrões e versos, onde saem e entram as cenas… Depois a rapariga [Sara Sakura] que gravou o refrão até foi sugestão dele. Depois ele mandou-me o acapella, e eu construí a música depois de o ter, ou seja, foi quase modo remix, que é uma maneira com que trabalho muito bem. Tinha-lhe mandado a base, ele gravou o acapella para aquela base, eu peguei e depois construí tudo em volta já tendo a parte dele. Devia estar em casa, e devia estar para aí virado nessa altura, [pensei]: “então e se eu partir isto e levar para uma cena que encaixe, mas que não tem nada a ver?”. E isso até nem foi muito feliz da minha parte, porque se eu tivesse feito parte um e parte dois, se calhar a primeira tinha chegado a outras pessoas que não chegou, tendo nove minutos e tal. Porque a parte um, que é a parte mais convencional dentro deste universo que se encontra no hip hop, as pessoas tinham olhado para aquilo como uma canção, e assim tendo nove minutos e tal aquilo é quase uma peça, que as pessoas não vão ouvir a última parte, ou podem ficar, “nove minutos, nem vou ouvir isto! Que é que vai acontecer, será que ele está sempre a rimar?”, e depois aquilo muda para uma coisa completamente distinta. 

Como é que surgem as colaborações e featurings do EP? 

Quem entra no disco: entra o Tamura, com essa malha, a “Volta”; entra o DJ Glue; entra um rapaz, amigo meu, que é o Pedru Lameira, é mesmo meu bro desde chavalo, estivemos numa banda juntos durante muito tempo. Essa faixa é a última, não era para ser uma canção, era para ser um outro, e aquilo foi escrito por mim mas eu não ia conseguir cantar aquilo daquela maneira e lembrei-me, “que pessoas é que eu posso convidar, que ache que possam fazer sentido aqui?” Então convidei o Pedru, porque quando trabalhávamos com banda ele tinha a cena mais depressiva, a música é assim introspectiva – vá, não chamemos depressiva – e convidei-o para ele colaborar. Era fixe: nós tocámos muito tempo numa banda reggae e funk, e como é que o posso enquadrar agora? Ou seja, lá está, é um bocado aquilo que falávamos anteriormente. Eu fui-me formando enquanto pessoa, mas todas estas pessoas que eu fui conhecendo, e experiências que eu fui [vivendo], ainda fazem sentido hoje em dia. E como é que eu consegui enquadrar uma pessoa que é do meu universo íntimo, dos meus amigos pessoais, que não está contextualizado em nada do que é o hip hop, ou do que é a música electrónica – embora ele seja músico, continue a tocar e a dar aulas. Como é que eu consigo enquadrar aqui? A colaboração surgiu disso. E depois até com a interpretação dele deu para fazer uma música, porque aquilo era mesmo só um verso, tem oito estrofes, acho eu, e era para ser uma espécie dum outro e depois aquilo deu para desdobrar para uma canção. Essa música também tem baterias gravadas por um rapaz amigo meu, o Carlos Ribeiro, que andava de skate na altura que eu contei anteriormente, que tinha nove anos e assim. Eu tento sempre fazer isto. Pessoas que eu sinto que tenho alguma ligação estarem juntas. Essa música também é muito íntima e faz sentido ter duas pessoas que me acompanham, viram mais de metade da minha vida. 

Eu convidei o Glue, ele fez parte duma das bandas que foi uma referência para mim na adolescência. Tenho muito respeito, estes gajos já faziam cenas gigantes quando era um puto num lugar completamente distinto, não é? Num público e ver aqueles gajos no palco, gigantes, e hoje em dia ter uma relação quase pessoal com ele em particular é fixe. E era um DJ bué técnico, eu gosto mesmo da cena dele, e quando ele me convidou para tocar na C.R.E.A.M. no Lux, eu perguntei se ele curtia gravar uns scratches. 

Entram também umas vozes dobradas dum rapaz amigo meu que é o Baba Soul – até gravou agora com o Phoenix RDC, entra numa música com ele – que é também meu amigo pessoal. Ele vive na Noruega, tem uma banda de soul e funk mesmo gigante. Aquilo inicialmente era um sample, ele dobrou com a voz dele. 

Depois o disco foi misturado pelo Gonçalo Sousa, que é um rapaz que é técnico e engenheiro de som, trabalha com várias pessoas e também faz som ao vivo numa instituição pública grande. Foi ele também que misturou o meu EP, o Isto nem é uma Beat Tape. O resultado estava fixe e trabalhei com ele na parte da mistura e do master. Mas lá está, as únicas pessoas que eu não conhecia tão bem aqui eram o Tamura e o Glue, mas têm universos que eu curto, tem mesmo a ver com isso. 

Pensas que o Cor e Forma mudou alguma coisa no teu percurso enquanto produtor? 

Enquanto produtor não sei. Há-de ter mudado alguma coisa no meu percurso, não é? Se eu fiz isto, as coisas vão-se alterar, não se mantiveram iguais. Em termos estéticos acho que não mudou nada. A abordagem ao primeiro EP, quando criei esta “personagem” que é Maria, era baseada no [momento] em que comecei a produzir. As abordagens, o tipo de ritmos, as drum patterns, as fontes sonoras – de eu samplar soul, essa onda – era uma referência à música que eu fazia quando tinha 15 e 16 anos, embora já com conhecimentos de electrónica, ter sintetizadores dobrados, e os arranjos serem diferentes. Mas as técnicas tinham como princípio a aproximação àquilo que eu fazia quando era puto. 

Cor e Forma não. É mais a minha visão daquilo que eu faço agora, embora estejam ali músicas que foram feitas antes do Isto nem é uma Beat Tape sair. Comecei a fazer aquilo para aí em 2016, comecei a pegar em coisas, ou seja, “estas ideias não servem para aqui, podem servir para alguma coisa no futuro”, e eu faço sempre isso. Quando eu estou a idealizar um lançamento eu não estou a pensar, “agora vou produzir para isto”. Porque se eu já fiz coisas anteriormente que façam sentido estar neste pacote, e se passar no teste do tempo… Nós vivemos numa cena bué efémera. Agora está esta trend, a estética é isto, a seguir é aquilo… Mas se eu fizer uma música que tem três anos e eu ainda curta agora – seja melodicamente ou de groove – eu não vou deixar de utilizar. O que fizer sentido fica ali. Mas mudar acho que não mudou assim nada. 

Por outro lado, o que aconteceu depois do Cor e Forma: teve uma aceitação ligeiramente fixe na imprensa; acabei por ser selecionado, por exemplo, para os Novos Talentos FNAC, que não chegaria lá por outro meio. Isto também teve a ver com a forma como foi lançado. Como foi lançado pela Jinx, tem mais visibilidade do que eu tenho sozinho (por isso é que também funcionam os colectivos, se foram todas as pessoas a trabalhar para uma cena só vai chegar a mais gente, à partida). Fez com que eu chegasse a outros sítios, tipo uma carrada de entrevistas nas rádios – o que foi mesmo fixe – conheci outras pessoas. Imagina, quando eu faço música, eu faço isoladamente, não penso no que é que isto me vai dar. E mesmo quando estou a lançar as cenas não estou a pensar muito nisso, portanto tudo o que vem extra, pessoas a dizer, “puto, curto mesmo a tua cena, identifico-me com a música que tu fazes”. Tinha sentido isso pouco e hoje em dia eu sinto que há mais pessoas a curtir a minha cena. Eu também sou uma pessoa um bocado fechada, não sou tipo aquela malta que conhece bué pessoal, mas acho que esse trabalho fez com que eu chegasse a mais [gente]. E foi do género: “este gajo está aqui!”. Mesmo as pessoas que já conheciam, não foi só uma cena de “este gajo está aqui, está com uma identidade”, e isso fez com que eu chegasse a mais pessoas, e se calhar hoje em dia até tenho malta a perguntar se eu curtia trabalhar com eles. E se fizer sentido, claro que o faço. E se não fizer sentido não quer dizer que não goste da cena que eles fazem, é que pode não estar a fazer sentido na minha abordagem musical, é só isso. Mas foi fixe. Eu acho que o disco que mudou mais a maneira como eu vivo hoje acabou até por ser o primeiro EP, porque foi o início de Maria, e teve algum impacto na minha vida pessoal. Mas em termos artísticos o Cor e Forma teve mais impacto. Tenho mais datas para tocar depois de o ter feito. As pessoas consideram-me já numa de “é o Maria da Monster Jinx”, estás a ver? Marcou uma posição quase, digamos assim. 

Quem te tem influenciado ultimamente? Tanto na música como noutras valências? 

Sei lá, não estava preparado para esta pergunta. Em música, neste momento particular, estou a ouvir bué e a revisitar todo o ambiente do que era o trip-hop, e esse talvez seja o meu pensamento para as coisas que eu vou fazer a seguir. Embora eu tenha assistido àquilo porque também tenho um irmão mais velho, e a malta na altura ouvia os Portishead, os Massive Attack, o Tricky, mesmo até o big beat, Chemical Brothers a surgir, Fatboy SlimThe Prodigy, todo esse universo. Eu não vivi isso, eu era muito miúdo. Eu vi-a que aquilo estava a acontecer, mas eu não estava a viver isso. Até costumo dizer isso: eu curtia de ter tido a idade que tenho hoje no início dos anos 90. A sociedade era diferente, as cenas eram mais fechadas, mas numa mística que se calhar hoje em dia acho que não acontece tanto, e curtia de ter tido essa experiência. Curtia de ter visto mesmo a rave scene em altas. Curtia ter visto a cena do drum’n’bass a acontecer. Claro que hoje em dia há imensas coisas mega interessantes a acontecer, mas, se calhar, como estou a vivê-las agora, não olho com esta espécie de saudosismo daquilo que não vivi. Esse é o ambiente sonoro que eu estou, neste momento, a ouvir e a focar-me mais. Mas eu adoro mesmo cenas futuristas, tipo o catálogo da Brainfeeder é o que eu curto mais. Depois o pessoal da Soulection curto algumas coisas, embora ache que aquilo já está um bocado padronizado. Mas curto bué o Monte Booker, o esta, o IAMNOBODI. Curto essa cena meio futurista, com os synths todos marados, sloppy mas que não são bem sloppy. Costumo equipará-los aos vanguardistas. Só que hoje em dia parece que conheces os gajos. Vês as histórias, vês o Instagram, sabes mais ou menos do universo daquela pessoa, mas não sei de que forma é que eles pensam. Estes beatmakers, eu vejo-os como uma expressão artística, eles próprios manifestam-se artisticamente daquela maneira. Eu não sei porque não os conheço, é a maneira como chega até mim. Mas não vejo [aquela atitude de] “isto vai bater”. Não, aquilo é uma maneira honesta de manifestação artística com as ferramentas que existem hoje em dia e com a contemporaneidade que há. 

Mas sim, principalmente Soulection, a Brainfeeder – é talvez aquela com que eu mais me identifico –, Stones Throw. Mas há uma grande parte de mim, embora isso se calhar não se reflicta na minha música, que é a Mo’Wax, que vai do início dos 90s ao início dos anos 2000. É o que eu tenho consumido mais agora. Mesmo até em termos artísticos. Acho que aquele pessoal… James Lavelle foi mesmo um visionário. Hoje em dia as editoras têm colaborações com entidades. Na altura, a Mo’Wax teve uma colaboração com a Nike. Lá está, hoje em dia é comum, naquela altura não! Aqueles gajos pensavam mesmo duma maneira diferente. Faziam bonecos, estás a ver? Não havia estruturas para as pessoas pensarem, “como é que gajos que fazem música vanguardista – se calhar até um bocado elitista – vão pensar em fazer bonecos?” Eu identifico-me com isso, é a grande parte das coisas que eu consumo hoje em dia. 

Por acaso dizes que achas que isso não se sente tanto na tua música, mas até acho que se vê. Isso, digo, a influência dos 90s, início de 2000. Acho que se vê exactamente no abrandamento do beat, a forma como tu samplas algumas baterias. Por exemplo, o final da faixa com o Lameira tem lá um beat assim um bocado pitch down, parece um bocado influenciado pelo trip hop. Até acho que isso se sente. 

Isso sente-se nos arranjos, mas não é grande parte da estrutura da música. Sente-se que eu me influenciei por isso, e eu curto bué essas pontuações. Imagina, o Cor e Forma está completamente desconstruído, aquilo foi mesmo pensado como um todo. Eu nunca tive muita oportunidade de explicar todo aquele conceito que está por trás do disco. A minha profissão é designer, sou designer gráfico. O que é que um designer faz? Arranja soluções estéticas para a resolução de problemas através da cor e da forma. Como eu passo o dia todo a trabalhar naquilo, como é que eu vou transportar esse universo, que é a minha vida profissional e individual, para a minha vida pessoal e de lazer? Então fui pegar nesse conceito. O primeiro sample da introdução do disco é sobre a Bauhaus, que será talvez a escola ou formação académica que mais terá influenciado o design gráfico. E acaba também com uma voz. O último sample até é sobre a Bauhaus, que explica a capa do disco. Foi quando foram criados os brinquedos que eram formas geométricas que têm uma cor e uma forma. Aquilo está tudo dentro do mesmo espectro, e eu curto de fazer isso em termos musicais e em termos conceptuais. Como é que eu consigo pôr uma coisa que se manifeste ou que explique aquilo que eu quero estar a fazer, mas que se encaixe também esteticamente com aquilo que eu estou a curtir. Do tipo: eu curto os 90s, vou arranjar aqui um grande breakbeat, samplar e cortar isto de determinada forma, pôr tudo cheio de reverbs; e depois se calhar vou pegar numa voz que explique mais ou menos o que está a acontecer conceptualmente. E isso esteticamente resulta numa referência mas também tem um conceito por trás, lá está. Não vou samplar aquilo porque aquela voz é altamente. Não, eu vou samplar aquilo porque diz especificamente porque é que eu estou a fazer aquilo. Tem mais a ver com isso. 

Já nos tinhas falado aquando do lançamento do EP da importância que o lado visual tem para ti. O vídeo é uma componente que pensas vir a explorar mais? 

Não estou a conseguir ainda… Eu, na verdade, cheguei a fazer um vídeo para o single do disco, mas depois a ideia era fixe, a maneira como estava feita era fixe mas podia ser melhor, e depois apareceram dois vídeos que tinham a mesma [ideia], que era uma pessoa a dançar com a cara pintada. Isso era o mote principal para o vídeo, e como tinham aparecido dois vídeos com a mesma cena… Podia ter feito tipo, “agora isto é uma cena e está toda a gente a fazer assim”, e eu não estava confortável o suficiente para lançar assim. Mas tenho de arranjar uma maneira de conseguir trabalhar. Eu tenho um problema, eu não consigo idealizar muito bem uma narrativa visual, em termos de vídeo. Eu arranjo facilmente bem graficamente e até sonora, mas depois, como a música não te diz “o gajo foi às compras e comprou cenouras” (é fácil fazer isso num vídeo, é um gajo a ir às compras e a comprar cenouras). O difícil é tu dares o twist a isso. Quando ainda por cima é uma coisa que não tem um… Quando tu ouves música instrumental para ti pode lembrar-te cenouras, a outro pode lembrar atacadores. É muito difícil tu conseguires arranjar uma narrativa que encaminhe as pessoas todas num mesmo contexto. E depois requer um investimento económico, para teres bons resultados, que eu não consigo suportar sozinho. E é mesmo difícil. Mesmo na Jinx, a estrutura principal está no Porto, eu estou aqui em Lisboa. Embora esteja com eles muitas vezes, não há assim tanto tempo útil de trabalho para que possamos estar a filmar. A grande parte do nosso trabalho é desenvolvido pela Internet, estamos sempre a falar e depois, quando estamos juntos, por norma em tom de celebração, ou quando estamos a trabalhar é mais coisas que podem ser feitas, “é preciso fazer isto, e fazermos aquilo”, mas não há quatro ou cinco dias que eu possa estar no Porto ou eles virem cá abaixo ou irmos para um sítio filmar, e pensar nisso tudo. Então tenho de arranjar uma maneira de conseguir explorar isso, não sei bem como, porque é uma coisa que eu curtia mesmo de fazer. Ainda por cima, lá está, toda a gente diz que a minha música é bué cinematográfica, e mesmo toda a cena em que me inspiro é cinematográfica, por isso, curtia de arranjar uma maneira de fazer isso. Ainda não sei bem como, mas sim, faz todo o sentido. É uma urgência, até! 

Pois, eu achei graça exactamente porque tens sempre uma ideia muito visual das coisas. E sendo designer, sempre pensei: “fazia sentido, estou à espera que ele faça um vídeo”! 

Não consigo, meu, não consigo! Isto até está a ser já um drama para mim. Porque, por exemplo, a remistura do Maze saiu, eu fiz tudo sozinho! Aquele motion, fiz no Photoshop, fiz um GIF lá. Eu consigo pensar nessas cenas, mas não consigo arranjar uma ideia. Eu tenho ideias rápidas para ilustrar coisas. Um vídeo para mim tem de ser uma coisa mesmo… não pode ser uma carrada de gajos a rimar, só. Tem de haver ali um twist, uma ideia. Mas a minha cabeça nunca fez muito o exercício nem está treinada para pensar dessa forma. Tinha de arranjar uma pessoa que fosse um criativo a pensar dessa forma para a realização. Hoje em dia é fácil gravar um vídeo, é ligeiramente simples. Passa mais é pela a ideia! Depois, as ideias que eu tenho, são complexas em termos de execução, mesmo. Sei lá, eu pensava ter um armazém todo preto em que depois saem só balões brancos. Precisas de ter bué dinheiro para fazer isto! [Risos] Não de bué dinheiro, mas pelo menos de ter contactos para conseguir fazer isso, e eu não tenho mesmo esses meios, porque todas as minhas ideias são mais estéticas do que propriamente narrativas. 

Eu nem sou picuinhas. Não te sei explicar, eu não sou muito picuinhas no sentido em que tem de ser complexo. Não tem de ser complexo, tem de fazer bué sentido, e tem de ser algo um bocado diferente. Eu quero que [se surpreendam], tipo os vídeos da Surma. Ficas mesmo, “isto está incrível!”. Muita bem realizados, muita bem filmados. Fora essa parte, até podia estar mal filmado, mas a minha cena prende-se mais por isso. E eu às vezes não consigo ter grandes ideias. Tenho ideias fixes, mas lá está… Cenas que são simples, olha, curtia fazer aquela do gelado, mas o David Fonseca já fez. Percebes o que é que eu estou a dizer? 

Não tenho de ser propriamente eu a pensá-lo. Se alguém pensar por mim e se fizer sentido, óptimo. Mas ainda não aconteceu! Não posso também estar à espera que seja alguém a pensar por mim e, lá está, pagares alguém para pensar, é um budget que neste momento não tenho. Tenho outras prioridades, não estou mesmo disponível para dar um valor para um vídeo bem feito. Pode não ser uma coisa tão cara como era há 10 anos, que hoje em dia os meios são quase os mesmos. As pessoas estão quase em pé de igualdade. Uma grande produtora tem acesso a outro tipo de câmaras, e às [câmaras] RED de que toda a gente fala, mas é quase igual. Antigamente as pessoas tinham handcams e gravavas com fita magnética, hoje em dia não, filmas em digital com a mesma capacidade que uma produtora de cinema tem. A produtora pode é ter outras opções e pensar, [por exemplo], “olha, quero gravar em Super 8”, e consegue fazer isso! Tu não, mas a cena passa mais pela ideia. Não é pela concepção, é mais pela ideia. E a ideia não tem de ser complexa, tem de ser simples. Tem é de fazer sentido e de ser uma ideia fixe. Passa mais por aí. 

Sendo que tens um estilo tão próprio – e não tão fácil de definir – o que é que ainda gostavas de explorar musicalmente? 

Eu acho que vale tudo. Não sei bem explicar, não tenho um plano delineado. Não sei qual vai ser a minha vida amanhã. Há várias coisas que eu gostaria que acontecessem. Primeiro era ter um leque de músicos… Seria mesmo fixe poder gravar cordas – em vez dum VST ou um sintetizador, um string-generator, digamos assim, a interpretá-lo por MIDI – com [uma secção de músicos mesmo], isso era das cenas que eu curtia mais de fazer. Depois as outras coisas passam por dar o meu contributo através da música para coisas. Eu curtia de fazer música para cinema, adorava. Lá está, não tinha de pensar no vídeo [risos]. Alguém pensaria no vídeo por mim, e o meu propósito era diferente. Curtia bué de fazer música para cinema. Não propriamente a música, mas fazer o score, os ambientes sonoros para o cinema. 

Também gostava de conseguir transportar mais [a minha música] para uma performance ao vivo duma maneira mais interessante. Eu ainda não tenho propriamente uma carreira, pode ser que um dia se tiver consiga fazer uma cena assim. Tocar com uma boa estrutura em palco. Isso seria uma coisa que me daria mesmo imenso prazer, conseguir isto montado duma forma que as pessoas são capazes de assistir a um espectáculo, mais sentadas até que clubbing. Ver uma cena, mesmo que vá para um público duma idade mais nova, ou adolescente, até um público quase sénior. Que fique, “ok, isto não é a minha cena, mas isto está fixe”. Ter a possibilidade de conseguir que isso acontecesse. Era mais por causa disso. 


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