Denzel Curry // TA13OO

[TEXTO] Moisés Regalado

Para muitos, Denzel Curry ainda é sinónimo de “ULT“, single que há dois anos e meio o colocou nas bocas do mundo e que até há pouco tempo era a sua música mais afamada. Era, porque o vídeo de “CLOUT COBAIN”, principal avanço de TA13OO, já conta com vinte e três milhões de visualizações, tornando-se assim o seu trabalho com maior expressão até à data. A popularidade recente e a idade do rapper, que também se arrisca a cantar, como grande parte dos MCs contemporâneos, fazem crer que a jornada está apenas a começar, mas este é o décimo primeiro projecto de Denzel, que em 23 anos de vida e sete de carreira já editou três álbuns, dois EPs e seis mixtapes.

O disco está dividido em três actos e começa com toda a calma do mundo. Nada que, pensando bem, seja de estranhar. Apesar de Denzel Curry ser um rapper reconhecidamente enérgico, a sua música sempre se destacou pelo auto-controlo com que conduz a intensidade, sem nunca chegar a registos berrantes ou espalhafatosos, e o início de TA13OO parece confirmar a evolução em todos esses aspectos. Mas, pensando melhor, não seria um disco de Curry se o barulho não chegasse rapidamente, e “SUMO”, quarta faixa do alinhamento e ponte entre os dois primeiros actos, traz aquilo por que se esperava desde o início: decibéis elevados, rimas (aparentemente) descontroladas em sintonia com uma métrica de primeira e um instrumental demoníaco.

 



Sem nunca fugir da simplicidade que acompanha os melhores, Denzel é o rapper ideal para quem tem saudades de ouvir um talento natural a brincar com a estética. Para quem acha que Hopsin seria um grande MC, se conseguisse elevar o conteúdo e o bom gosto aos níveis da sua técnica. Depois de apresentados os pólos e explorados os extremos, o ambiente ameniza e o segundo acto regressa à bonança, com “MAD I GOT IT” e “SIRENS”, ao lado do cada vez mais entusiasmante J.I.D (um dos convidados de luxo deste projecto, numa lista que conta ainda com GoldLink, Twelve’Len ou JPEGMAFIA). Só que o brilharete está guardado para “THE BLACKEST BALLOON”, “PERCS”, “VENGEANCE” e “BLACK METAL”, faixas que concretizam a tempestade começada por “SUMO”.

O último terço de TA13OO prova que, jogando em casa, não há beat nem feat. capaz de matar Denzel Curry. O rapper é suficientemente habilidoso para se adaptar a qualquer sonoridade, ou para adaptar a sua sonoridade a novos públicos, e sem dúvida que tem capacidades para representar as diferentes culturas sónicas da Flórida, mas é no nicho dos graves e das melodias esganiçadas que se vai provando imparável. É nos temas de semelhante porte que Denzel se move com maior sagacidade, desfilando métricas exímias, tão discretas quanto despidas. Talvez o trabalho de casa — e de estúdio — passe despercebido enquanto o ouvido não se habitua à paisagem sonora, mas rapidamente se percebe que Curry “cospe” como “cospe” porque escreve como escreve, sem nunca dissociar uma coisa da outra:

“Back and I’m dark and mysterious (yeah)
Laughing away ’til I do something serious
Attitude only imperious, rest all my enemies like I’m insidious
Inside I’m feeling so hideous (yeah)
Fuck everybody, I murder you idiots
I am a little perfidious, fuck a civilian, we’re not equivalent (yeah)”

Falta apenas cortar o que não interessa e ordenar melhor as peças para que a engrenagem funcione devidamente. Percebe-se que o MC quis provar que era completo e multifacetado, sendo até de aplaudir que tente diversificar a proposta, mas TA13OO ficou longe de tentativas semelhantes, mas mais bem-sucedidas, como Old, de Danny Brown. E, verdade seja dita, todos os dias há novas fornadas de gente que se arrisca no trap, no rap e no r&b em simultâneo. Para alguém com tanto carisma como Denzel Curry, o trajecto pode ser bem mais simples, bastando-lhe, para alcançar o esperado sucesso, fazer o que tão bem sabe.

 


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