Há menos de 10 anos, em 2017, Dengaz fazia os coliseus de Lisboa e Porto. Era um fenómeno pop, com uma fanbase leal, à margem do movimento hip hop. Dengaz fazia rap e vinha desse universo artístico, mas também adquirira fortes influências reggae, dancehall e mesmo pop, com uma abordagem mais melódica. Tinha lançado, em 2015, o álbum Para Sempre, que teria uma versão unplugged em 2016. Somavam-se as colaborações com Seu Jorge, António Zambujo, Marcelo D2, Tatanka, Matay, Agir, Valete ou Plutonio.
Desde então, abrandou (e muito) o ritmo de lançamentos. Foram saindo singles a conta-gotas, desapareceu dos palcos, desconectou-se de muitos dos fãs. À sua volta, tudo mudou em relativamente pouco tempo. O rap ascendeu definitivamente ao mainstream, a explosão trap tornou o som mais melódico e abriu o género a outras estéticas, os coliseus tornaram-se palcos normais para artistas do universo hip hop.
No seu núcleo duro, as mudanças foram igualmente revolucionárias. A editora e agência com quem trabalha, a Bridgetown, ascendeu ao topo da indústria e os co-fundadores Bernardo “Ben” Miranda e Afonso Ferreira passaram a liderar a Sony Music Portugal (neste momento já com uma importante posição ao nível ibérico). O outro co-fundador, Richie Campbell, transformou o seu estilo musical com o marcante Lisboa (2017), que potenciou a sua carreira. Plutonio, que abrira os coliseus para Dengaz, tornou-se num dos mais populares artistas do país, fazendo duas vezes a MEO Arena em 2025.
Entre as grandes e as pequenas revoluções, Dengaz permaneceu longe dos holofotes. Questionou-se, reflectiu, tentou e frustrou-se. Até encontrar — ou definir — o rumo que o trouxe até O Que Não Se Vê É Eterno. Rodeou-se do seu produtor de sempre, Twins, e do baixista da sua antiga banda, Xicão. Passou pelo estúdio da dupla coqueluche da casa, Migz & Ariel. Foi até ao covil sonoro de Progvid. E ousou experimentar, testar receitas novas, convidar outras vozes para as suas canções — para agora apresentar um álbum de 19 faixas.
Em entrevista ao Rimas e Batidas, Dengaz reflecte sobre os mais de 10 anos sem um novo disco, explica o que o fez voltar — uma conversa reveladora com Plutonio foi essencial — e antecipa, sem expectativas, aquilo que se poderá seguir.
A primeira pergunta é óbvia: porque é que estiveste mais ausente nesta década, porquê mais de 10 anos sem um álbum? Li noutra entrevista que chegaste a ter um disco pronto, durante este período, mas que ficou na gaveta. Teve a ver com razões pessoais, profissionais?
Na verdade, foi uma mistura das duas coisas. Porque a nível profissional, o que senti — tanto eu como o Ben [Miranda], a Bridgetown, etc. — é que era a altura de parar um bocadinho. Sentíamos que, desde a altura em que comecei a fazer música e a mostrar mais a minha música às pessoas, foi sempre a evoluir, todos os anos tinha novas conquistas, a cena foi crescendo, e depois chegou a uma altura em que senti-me saturado. Estava mesmo a precisar de fazer música nova e não estava a conseguir conciliá-lo com os concertos todos que tinha nessa altura. Já tinha uma filha, estava quase a ter a segunda, portanto não estava a conseguir conciliar tudo e também sentia, principalmente nos concertos, que o público também já estava saturado. Mas até foi uma coisa secundária, porque o principal trigger foi quando comecei a ir para os concertos sem aquela alegria e com aquela vontade de ir tocar. Já ia um bocado naquela de “eh pá, já não me interessa muito tocar isto, preciso de fazer música nova”. Estava ansioso e consigo-o perceber agora, com algum distanciamento, porque tive dois episódios que se calhar estão um bocado ligados a isso. Tive uma taquicardia num concerto e foi uma coisa que me assustou um bocado, não percebia bem o motivo. Depois, durante esse processo, comecei a fazer um álbum novo — estive sempre a fazer música, só não estive a lançar — ainda muito à procura de novas estéticas, daquilo que me apetecia fazer… E na altura em que lançava muita música, havia muita coisa que me inspirava, e aquilo que eu ouvia e queria fazer combinava com o resto das pessoas. E depois houve uma altura em que não me estava a inspirar em coisas novas, depois voltei a inspirar-me, fiz um álbum inteiro, mas na altura de o lançar achei o álbum muito triste. Estava triste demais e eu já não me sentia assim.
Ou seja, teve mais a ver com o facto de não te reveres naquele estado de espírito do que uma questão de estética e sonoridades.
Sim, eu já não estava ali e, mesmo musicalmente, não estava num sítio em que dissesse: “Para mim vale a pena, mesmo que a mensagem já não esteja”. Até porque nós, músicos, estamos sempre um bocadinho à frente daquilo que as pessoas estão a ouvir, não é? Já estamos a pensar outras coisas. Nessa altura também não estava na melhor fase da minha vida, mesmo emocionalmente e a nível pessoal. Depois veio a Covid-19, então misturou-se um monte de coisas [para ter ficado vários anos sem lançar música].
Como disseste, nunca paraste de fazer música. Sendo assim, começaste a fazer as músicas para este novo disco já com esse propósito, ou foste fazendo canções, como sempre fizeste, e a partir de um certo momento olhaste para elas como um todo e percebeste que tinhas um disco? E completaste-o a partir daí?
A minha cena sempre foi fazer um álbum. Acho que, por uma questão de organização mental, gosto sempre de pensar nas coisas assim, como álbuns, porque gosto de ouvir álbuns. E nesta fase aconteceu muito aquela coisa de experimentar, trabalhar com outras pessoas. Quando estava nesse modo, não estava propriamente a pensar no álbum, estava mesmo à procura de outras estéticas. Comecei a trabalhar com o Migz e o Ariel, porque falei com o Richie e ele fez essa ponte, e eles foram importantíssimos para me porem a fazer música de uma maneira diferente. Foi a primeira vez que fiz um [writing] camp, por exemplo. Eles puseram-me nessa situação, que na altura me era desconfortável, de “agora estamos todos numa sala e tu vais começar a cantar, a ter ideias”. Porque eu escrevia as minhas coisas em casa, só na minha, de uma maneira muito isolada. E depois voltei a trabalhar com o Twins, algo que sempre fiz, e com o Xicão, que era o meu baixista e toca com o Dillaz e o Plutonio — portanto, ao nível de estar por dentro da cena de hoje em dia, da estética… E ele e o Twins são tipo irmãos, então estava com eles no estúdio como se estivéssemos em casa. Depois comecei também a trabalhar com o Progvid, que foi o Plutonio quem fez a ponte, e dei-me muito bem com ele, foi uma sinergia fixe. E chegou uma altura em que todos nós olhámos para o álbum e percebemos que aquilo já estava consistente e coerente. Se bem que o álbum tem dois lados distintos, mas que acho que combinam.
Como é que os descreverias?
Acho que as minhas maiores inspirações, a nível estético, foram o Brasil e o Japão. Estive uns dias em Tóquio durante este processo. Eu tinha na minha cabeça um lado muito mais orgânico, com aquelas guitarras acústicas que adoro ouvir, aquele samba antigo e triste; e outro lado mais nocturno, com luzes e BPM mais acelerado, a puxar mais para a frente e para uma cena digital, que acho que foi o que o Prog me trouxe. O resto fui mais buscar ao Twins e ao Xicão — e ao Migz e Ariel no início. Uma das coisas que tentei fazer neste álbum foi não me limitar. E isso foi fixe porque se começou a desenrolar de uma maneira orgânica e foi aqui que viemos parar.
Mas o ponto de partida foi estares sempre disposto a experimentar coisas diferentes e a abraçar estéticas variadas.
Exactamente. No início de tudo estava tão preocupado em ser livre que me começou a limitar… “Agora tenho de fazer cenas diferentes das que já fiz”. E chegou uma altura em que foi mais “se vierem coisas parecidas, vêm”. Também poderia haver a preocupação de eu perder um bocado daquilo que podemos considerar a minha essência, que também pode ter interpretações diferentes, consoante pessoas diferentes. Mas acabei por ficar verdadeiramente livre no estúdio a fazer música e a experimentar, aquilo começou tudo a fazer sentido. Houve um dia em que eles até disseram, em modo brincadeira: “tu nem sabes como, mas isto no fim está a fazer sentido”.
Outra coisa importante e interessante de abordar contigo tem a ver com as transformações ao longo desta década em que estiveste mais ausente. Obviamente, 10 anos na música é muito tempo. E houve muitas circunstâncias à tua volta que se alteraram: o público mudou, a maneira como se faz rap, pop — com fusões cada vez maiores — também é diferente. E deves ter sentido um público que se desligou da tua música, um público que se mantém e até um público novo que era criança ou adolescente há 10 anos e que agora são adultos. Como é que encaraste estas mudanças para o teu projecto artístico? Suponho que tenhas pensado bastante nestas coisas todas.
Pensei muito sobre isso, nessas mudanças todas de contexto. E houve vezes em que pensei mesmo: será que vou continuar a fazer isto? Será que vou continuar a fazer música para ganhar dinheiro e conseguir fazer a minha vida? E apercebi-me de que fazer música é quase inconsciente. Se eu não fizer nada, vou sempre parar ao estúdio, vou sempre ter novas ideias, vou-me sempre sentar a fazer música. Houve uma primeira fase que me deu um pouco de medo, por ver as coisas todas a mudarem, e eu ainda não estava a conseguir ter a visão de como é que iria conseguir “sobreviver” num novo contexto. Mas depois também havia o sentimento quase de alegria de estar a viver coisas pela primeira vez. Isso foi uma das coisas que me deram mais prazer, a cena da novidade, e o facto de nada ser certo e ter que me adaptar outra vez. Quando me sentei com o pessoal da Bridgetown e da Sony, houve uma pessoa que me fez uma pergunta: “Para onde é que queres apontar? Para o público que já era o teu público? Ou para um público novo?” A resposta foi instintiva: eu quero fazer música nova, mas não quero pensar muito em quem vou atingir… Compreendo perfeitamente que as gerações mudaram, houve pessoal que deixou de ouvir a minha música, outras gerações vieram e nem sequer me conhecem, não sabem a música que eu faço, e eu tenho sempre a sensação de que ninguém ficou. Acho sempre que ninguém ouve, que nunca ninguém vai ouvir. Às vezes o pessoal até fica um bocado irritado comigo, mas eu acho genuinamente que as pessoas não estão com atenção, meio que não querem saber, por isso depois também fico genuinamente feliz quando vejo que há pessoas que ainda ouvem, que se identificam, que esperam… Estou a curtir esta fase de poder vir a conquistar um novo público também.
É um certo recomeçar, não é? Apesar de teres bagagem e experiência.
Acho que sim. Mas com essa vantagem: já houve coisas que vivi, tenho experiência nalgumas coisas, umas serão iguais para sempre e há outras em que se calhar ficamos menos experientes, mas se calhar fico menos ansioso e frustrado com algumas coisas, porque também já vi que as coisas mudam muito e que nós podemos estar num sítio e vamos deixar de estar, eventualmente, seja para o mal ou para o bem.
Em termos musicais, o rap está infinitamente mais entrelaçado com a pop e outras estéticas neste momento. Há 10 ou 15 anos, quando estavas mais activo e também a explorar certos cruzamentos nessa intersecção, as coisas eram bastante diferentes e certamente que recebeste críticas ou não eras tão reconhecido no movimento hip hop, mas o tempo de alguma maneira fez-te justiça ao mostrar que esses cruzamentos poderiam acontecer e que até eram inevitáveis.
Sim, concordo mesmo contigo a 100%. Fiquei mesmo contente ao ver que esta geração abraça muito mais a mistura das músicas, de géneros, de tudo. E, na altura, eu fazia música com o mesmo intuito de agora: fazer a música que eu queria ouvir… Apetecia-me ouvir aquilo. Eu também era influenciado por outros estilos e pela música que se fazia na altura. Curtia, sei lá, um som do Eminem com a Rihanna; ou do Jay-Z com os Linkin Park. Era inevitável querer reproduzir aquilo para a minha música. Mesmo com o Seu Jorge… Eu sempre gostei muito de música brasileira. Ao crescer tive mais contacto com música brasileira do que com música portuguesa. E acho que influenciou a minha música. Mas, sim, sempre gostei de fazer essas misturas e gosto muito de ver que, hoje, isso é muito mais bem aceite.
Queres também explicar as colaborações que incluíste neste disco? Há nomes mais óbvios, como o Plutonio e o Agir. Mas outros nem tanto.
Uma pessoa com quem gostei mesmo bué de fazer música foi o Yang, porque gosto mesmo da cena dele. Ele é super talentoso e adorei o que fez na música. Além disto tudo, é um grande puto. Gosto de estar com ele, gostei de trabalhar com ele. E uma das coisas que tentei manter nesta fase foi fazer música com pessoas de que gostava. Nunca quis forçar participações. Depois há a ÉLLÀH, uma cantora que eu já acompanhava há algum tempo, e que por isso também fiquei bué contente. Ela foi ter connosco àquele camp que fiz com o Migz e o Ariel. Acho que todas as colaborações neste álbum partiram de uma cena de estúdio, de eu ter feito a música e ter pensado: adorava ouvir esta pessoa aqui. Até houve outras participações que foram gravadas e que acabaram por não sair, até porque as músicas demoraram muito tempo e já não eram exactamente o que nós queríamos. Mas fico contente, por quase tudo o que imaginei se concretizou. O Plutonio foi um processo muito natural, somos amigos há muito tempo e costumamos estar juntos. E fizemos mais do que uma ideia, fomos para o estúdio uma noite com o Prog. Para mim e para o Plutonio, esta ainda não ia ser a música que ia para o meu álbum. Mas depois, com o tempo, começámos a ouvi-la, começámos cada vez a gostar mais dela e acabámos por metê-la. Com o Agir também foi natural, eu tinha feito a música com o Prog e sentia que não precisava de escrever mais para aquela música, sentia que já tinha dito tudo o que queria dizer. Depois imaginei ali o Agir, acho que ele está mais ou menos numa fase parecida com a minha na sua carreira. E que estava completamente dentro daquele género também. Fiquei contente de voltar a fazer música com ele. Quando ele me disse que a última música que fizemos foi há 13 anos, foi assim uma cena que me bateu um bocado. E quem é que temos mais?
O Apollo G…
Nós já tínhamos tentado fazer música juntos há alguns anos. Na altura não aconteceu, não achámos a cena certa e ficou por aí. E depois quando fiz a música com o Prog, lembrei-me logo dele. O Apollo foi ao estúdio e gostei muito do que ele fez. E se calhar é uma participação que não é tão óbvia para as pessoas, mesmo para o público dele. Depois temos a Mari Segura, uma miúda que eu já tinha visto num programa de televisão [The Voice Portugal]. Ela era da equipa do [António] Zambujo, lembro-me de lhe ter mandado uma mensagem a dizer que adorava o timbre dela. Quando estávamos a fazer essa música no estúdio, lembrei-me e foi fixe porque ela aceitou. Às vezes tenho uma cena no estúdio que pode ser boa, mas que até se pode virar um bocado contra mim, que é ter uma cabeça muito de produção executiva do álbum… Muitas vezes fico a imaginar a música, como seria ideal, e começo a pensar noutras pessoas. Acho que foi por isso que sempre fiz muitas participações. E se calhar é uma coisa que vou ter que explorar agora neste futuro próximo, fazer essa direcção executiva de álbuns, porque se calhar tenho coisas a acrescentar e há coisas que eu gostava de ver acontecer, mas que não são para mim. Às vezes tenho ideias para músicas que poderiam ser interessantes e das quais eu não tenho que fazer parte directamente. Nem sequer tenho capacidade para algumas coisas que imagino e que gostava de ver acontecer.
E falta só comentares a colaboração com a MALLINA.
Essa foi uma das últimas músicas a ser feita. A MALLINA deve ser a única pessoa que eu não conhecia antes de fazer este feat. E na altura já tinha ouvido umas coisas dela que tinha gostado. Lá está, um bocado com esse drive de produção executiva. Às vezes estou a ver pessoal na net, coisas de que gosto e vou apontando e vão ficando na cabeça. E lembrei-me dela e foi a Ella Nor que fez esse link. Adorei-a também, é uma grande bacana, foi mesmo fixe fazer música com ela. E tanto a MALLINA como o Yang, esse pessoal mais novo traz sempre aquela fome, e é fixe, nós que já fazemos música há um bocadinho mais de tempo, convivermos com isso. Ajuda-nos muito a lembrarmo-nos dessa fome e da vontade de fazer as cenas.
E houve outras circunstâncias importantes que se alteraram nesta década, também externas a ti, mas muito mais próximas e directas. Estou a referir-me à ascensão da Bridgetown, o facto de o Ben e o Afonso Ferreira terem migrado para a direcção da Sony, o Plutonio estar no nível em que está, e o próprio Richie Campbell ter alterado o seu tipo de música. Tudo isto também te influenciou e moldou para esta nova fase, de alguma forma?
Eh pá, 100%, porque quer eu esteja mais próximo ou mais distante, mesmo a nível físico deles — como, por exemplo, do Ben, hoje em dia [a viver em Madrid], ou de outros — eles têm sempre um papel muito importante na forma como vejo as coisas. Por exemplo, o Richie foi uma pessoa que desde o início… Quando eu comecei a trabalhar com o Ben, o Richie já era o exemplo que eu tinha de onde era possível chegar. O Richie foi o primeiro artista português que eu vi, por exemplo, num festival como o Sumol [Summer Fest], a ter uma reacção igual aos artistas que vinham de fora. Hoje em dia, eu estar a dizer isto parece quase ridículo, mas na altura, isto não era uma coisa assim tão normal. E foi o artista que eu vi a fazer salas grandes, a conquistar essas coisas. Foi um artista que vi a mudar o estilo de música, na altura parecia uma coisa altamente arriscada, de loucos. Portanto, ele é sempre um grande exemplo, mesmo que as coisas depois nunca sejam iguais para ninguém. E até o facto de o Ben e o Afonso terem outros cargos hoje em dia, estarem a trabalhar com outros artistas, conhecerem mais coisas… Acho que foi bom para todos. Em relação ao Plutonio, só de ver aquilo que ele conseguiu conquistar até aqui, e ainda por cima para nós que acompanhámos o processo dele desde o início, vou-te dizer: eu estava quase a chorar no soundcheck da MEO Arena do Plutonio. Emocionei-me muito mais do que depois me emocionei no show. Porque eu estava naquela sala vazia a olhar para ele. E, não sei, vieram-me aquelas memórias todas do início dele. Foi mesmo incrível. Emocionei-me mesmo com aquilo. E isso são coisas que inevitavelmente um gajo traz para o seu contexto e para a sua experiência.
Já disseste que gostarias de, no futuro, explorar a tua faceta de produtor executivo. Queria também perguntar-te que outros passos antevês, agora com este novo disco e um certo regresso ao activo. Sentes que pode ser um importante ponto de viragem? Suponho que estejas a tentar não ter demasiadas expectativas, até por aquilo que referiste de nunca dares nada por garantido.
Acho que a tua pergunta já dá um bocado a resposta, porque a minha cena é mesmo essa. Estou a tentar ao máximo não ter muitas expectativas. E é perceber o momento em que estou na minha carreira. É ficar contente com todos os avanços e todas as conquistas que vou ter agora. Uma das coisas que acho que este álbum pode vir a fazer por mim é basicamente relembrar as pessoas que já me conhecem, ou que já me conheciam, que eu estou a lançar música, que eu estou a fazer música, que eu sou uma opção para eles ouvirem música. E dar-me a conhecer a pessoas novas que nunca me ouviram e que podem vir a gostar da música que estou a fazer. Mas acho que, na verdade, o objectivo é um bocado mais “egoísta”… O trigger de eu ter começado a fazer música de uma maneira mais consistente e de eu ter tido um clique mental foi numa conversa com o Plutonio, que foi uma coisa daquelas que se dizem em conversa e que um gajo na altura não pensa, mas depois fiquei a pensar naquilo durante dias. Houve um dia em que ele me disse: “Mano, pensa, se tu morresses agora, pensa na música que deixavas”. E ele nem estava só a falar de mim, era um pensamento dele também: “O que é que nós deixávamos cá?” Aquilo ficou a ruminar na minha cabeça e acho que este álbum foi um bocado isso, foi também testar-me, tentar fazer coisas novas, coisas que gosto de ouvir e se calhar até fazer coisas que eu achava que não eram para mim. Estou a cantar um bocadinho mais neste álbum e se calhar há uns tempos atrás eu diria: não, isto não é para mim. Ou usar mais autotune e essa estética, se calhar também não era para mim. Então este álbum também pode ter esse papel importante. Eu estou só a tentar ficar orgulhoso do trabalho, com a música que estou a fazer, com as expectativas em baixo, porque nem sei, sinceramente, se gostaria… Se me dissesses que eu ia ter 60 concertos num ano, se calhar a primeira reação ia ser “ei, lindo, isso é fixe, bom sinal”. Mas na verdade, não sei se era isso que eu queria. Se calhar preferia tocar menos e melhor, ter uma cena mais equilibrada hoje em dia na minha vida.