Deejay Telio: “Tinha tudo para dar errado e hoje a gente está aqui. E deu tudo certo”

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

Quando surgiu de rompante, há cinco anos, era mais simples vaticinar-lhe uma descida tão rápida como tinha sido a subida — apoiada num single tão desprovido de preocupações –, mas Deejay Telio, contra todas as expectativas, tornou-se um dos nomes mais populares da música portuguesa — 30 milhões de visualizações em “Esfrega Esfrega” ainda impõem respeito. Esta sexta-feira, dia 28 de Fevereiro, edita o longa-duração D’Ouro, convidando apenas Deedz B, colaborador de longa data, e Yxng Bane, rapper britânico que conquistou o seu espaço com sons como “Rihanna”, “Vroom” ou “Needed Time”. Duas participações visíveis num registo que é o reflexo da visão de um homem só.

Que Safoda“, faixa lançada em 2015, apresentou ao mundo a sua karanganhada, palavra em crioulo que, tal como explicou a Ricardo Farinha em 2018, significa “festa, curtição, boa vibe“. O feeling está explicado e o ADN musical também se explica: há uma diluição de géneros musicais como kuduro, afro-house, trap e r&b que, no novo trabalho, se traduz numa amálgama pop de 12 músicas que é do mais refinado e polido que ouvimos na discografia de Telio.

Os hits colocaram o seu nome em (praticamente) todo o lado e, no dia 5 de Março, vão levá-lo até a uma das salas mais emblemáticas do país: o Coliseu dos Recreios. Ao telemóvel com o Rimas e Batidas, o cantor e produtor angolano (que viveu desde tenra idade no Vale da Amoreira, na Moita) falou sobre esse importante concerto, mas também sobre os primeiros passos, a história com a Príncipe Discos e, entre outros temas, a forma como constrói os seus hinos.



Estava a fazer uma pesquisa sobre ti antes desta entrevista e não encontrei em lado nenhum referências a mentores ou artistas que te tivessem influenciado numa fase inicial. Não tiveste?

Não, mano, eu não tive nem mentor nem referência nacional. Tudo veio mesmo do kuduro lá de Angola. E, em Angola, eu ouvia Bruno M., Rei Panda… Eram os principais que eu ouvia, e não ouvia assim muito mais. 

Foi tudo muito instintivo quando começaste a produzir?

Ya, ya. Eu tenho um primo que chegou ao pé de mim, do nada, e disse-me, “olha, encontrei o programa [em] que o 50 Cent faz beats” [risos]. Ele mostrou-me o programa. Na altura nem tinha PC, só tive depois. Ele passou-me o programa e depois foi só explorar. Não tive alguém que me ensinasse.

Foste aprendendo.

Fui aprendendo e depois de saber já um bocado é que fui me juntando com pessoas, um sabia mais uma coisinha, outro sabia mais outra coisinha, o outro não sabia e eu ensinava o bocado que eu sabia. 

Dançavas kuduro antes de começares a produzir. Para ti existe uma ligação entre as duas na hora de criares? O que crias tem que te fazer dançar?

Não é obrigatório, mas há umas que são mesmo propositadas. Mesmo para abanar bem. Mas, em modo geral, eu também não penso nisso, vou fazendo. Já é a minha essência. Eu vou fazendo e acho que automaticamente as cenas vão acontecendo. E são mexidas. 

Antes de teres o teu primeiro sucesso com o “Que Safoda”, chegaste a editar pela Príncipe Discos.

Ah, sim, mas eu nunca levei esse lado a sério. Eu, desde puto, sempre tive o meu grupo de produção, os Tia Maria Produções. 

Ainda eras bastante novo quando isso aconteceu.

Ya, ya. Acho que os Tia Maria Produções assinaram com a Príncipe, tinham um deal com eles. Como sempre tivemos esse grupo de produção, eles disseram: “vamos lançar um álbum só de beats pela Príncipe”. E como sempre fizemos parte do mesmo grupo, eu disse, “venham aí buscar um ou dois beats e metam aí nesse álbum”. Mas eu, pessoalmente, nunca me liguei. 

Foi, provavelmente, a primeira vez que tiveste a tua música num formato físico.

Na altura ya. Só para perceberes nem tive a edição física [risos]. Foi uma cena tão ‘tá-se bem. 

O lançamento do “Que Safoda” marcou o início da tua ascensão. Na altura sentiste isso? Houve alguma coisa que tenha mudado de imediato?

Foram montes de coisas. Eu, na realidade, nunca percebi mesmo aquele momento do tipo, “é agora”. Por acaso nunca parei mesmo para pensar nisso. Eu sou aquele gajo… As pessoas é que me dizem. Eu nunca me meto nesse papel. Eu sou aquele gajo com os pés muito assentes no chão. Nunca quero subir de elevador para nada. Gosto sempre de subir degrau a degrau. E acho que naquela altura se pensasse, “ah, eu é que sou o gajo…” Mano, estás-te a iludir já e ainda nem fizeste nada. 

Puxando novamente a Príncipe para a conversa, e juntando-lhe a Enchufada, és alguém que acompanha o que se vai fazendo nesse universo nacional do qual tu também fazes parte?

Não acompanho. 



O que é que andas a ouvir?

Eu oiço bué cenas da Nigéria. De França, de Inglaterra. Oiço aquele afro da Nigéria e tal, oiço sons old school tipo R. Kelly, Usher, Nelly. Mesmo aqueles 2000s. Oiço porque cada som ali tinha a sua identidade. Hoje em dia tu ouves um som, meu ou de outro artista, e soa-te parecido com outro. “Epá, já ouvi isto em algum lado”. Não posso estar a generalizar sem estar lá metido, mas nós, produtores, estamos a esforçar-nos pouco para a cena sair mesmo só nossa.

Aproveito para falarmos sobre o D’Ouro, um disco “mais pensado” do que os anteriores. Houve aqui uma forma diferente de abordar o processo de criação? Como é que funcionas na construção das canções?

Quando estou a fazer o beat, eu sou estranho. Quando estou a fazer o beat, eu tenho que ter logo a ideia. Se eu não tiver logo a ideia, eu arrumo o beat. A minha ideia tem que ser logo de primeira. Vão sair 12 faixas, mas eu fiz o dobro. Só para teres noção, arrumei bué beats. Então, basicamente é isso: estou a começar o beat, o beat está-me a entrar e eu tento logo meter a minha vibe. Se eu estiver na dúvida, tento espremer mais um bocadinho, agora se não estiver a sair nada, arrumo logo. 

A voz vem sempre depois?

Sempre depois. 

E funciona quase como mais um instrumento, neste caso.

Ya, por isso é que os meus beats também não são muito completos. São mais secos.

Tu produzes todos os beats deste disco?

Só um é que eu não produzi, o “Topo da Luxúria”, que foi o Lenno Beatz e o Zimous David.

Cantas a grande maioria das vezes nos teus beats. Qual é o problema com os beats dos outros produtores? [Risos]

Ya, maior parte são meus. Eu curto cantar em beats de outros produtores, mas não encontro sempre aquele beat que me sobe logo aquela inspiração. Eu sou bué simples, mas ao mesmo tempo sou bué estranho…

O elemento mais “fora” dos créditos é a participação do YXNG Bane. Como é que ele foi parar a este álbum?

É simples: temos amigos em comum. Ele estava aí a cantar no Afro Nation [em Portimão], eu estava no Norte, na tour. Nós tínhamos um dia para vir cá descansar porque depois íamos viajar de novo, ele também estava cá por Lisboa e a gente agendou. Não foi à última da hora, mas foi rápido. 

Tive a oportunidade de te ver ao vivo no MEO Sudoeste, em 2018, e a banda tinha ali uns arranjos diferentes para as tuas músicas — que resultaram bem. Estás envolvido nessa parte de transpor para o formato live ou deixas nas mãos dos músicos?

Não, os músicos é que fazem mais essa parte. O Dodas [Spencer], o meu guitarrista, é que é o director musical. Esse é maluco, é feiticeiro. O Dodas é que trata mais disso para sair mesmo perfeito. Ele tem mesmo a noção toda. E somos do mesmo bairro. 

E nunca pensaste levar esses músicos para o estúdio e utilizá-los? Ou já fazes isso?

Ah, isso já acontece [risos]. E vai acontecer cada vez mais. 

Na próxima semana actuas em nome próprio no Coliseu dos Recreios. Tem um significado especial para ti?

Vai ter sempre um significado bué grande. Isso não era possível. Não era suposto estar a acontecer. Há dois anos, eu nem sonhava com isso. Eu só estava com tempo de sonhar com o próximo ano. Um gajo só está a pensar no próximo ano, fazer mais sons para poder ter mais uma tour, mas nem teve tempo de parar para pensar, “pá, ya, um dia posso pisar…” Essa cena de cantar, e isso, todos nós já sabemos que é bué passageira. Eu não estava mesmo com a cabeça no Coliseu, estava só com a cabeça no ano seguinte. Mais sons, mais tours, mais sustento. Mas não era mesmo possível. Depois um gajo fica com aquele pensamento… Tinha tudo para dar errado e hoje a gente está aqui. E deu tudo certo. E é porque fizemos bem o trabalho.