pub

Texto: ReB Team
Fotografia: Natasha Cabral
Publicado a: 02/03/2026

Já se pode ouvir o primeiro avanço, “bioluminescência”.

débora king prepara-se para lançar fossa abissal, disco inspirado nas profundezas do oceano

Texto: ReB Team
Fotografia: Natasha Cabral
Publicado a: 02/03/2026

A compositora, pianista e artista sonora luso-americana débora king que conhecemos do trabalho na banda SAMALANDRA, mas também de incursões em nome próprio prepara-se para lançar um novo disco a solo com paisagens sonoras inspiradas nas profundezas do oceano. 

fossa abissal foi construído com um sintetizador e gravado em take directo na cisterna da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, onde a artista estudou. O primeiro avanço, “bioluminescência”, já pode ser ouvido — e foi o pretexto para uma troca rápida de perguntas com débora king para antecipar este projecto.



Que fossa abissal será esta, daquilo que já podes contar? O que te levou a este disco, o que te atrai neste género de paisagens sonoras?

O projecto da fossa abissal é um retrato sonoro daquilo que aprendi sobre algo que ainda não conhecemos muito bem — o mar profundo e as fossas oceânicas. Na verdade, tudo surgiu de uma enorme vontade de aprofundar conhecimento em sintetizadores e sound design. Foi algo que me obrigou a estudar bem o manual de instruções do meu sintetizador e a descobrir que tipo de coisas é possível fazer com estas máquinas. Depois lembrei-me que um professor meu da FBAUL, em “arte sonora: processos experimentais”, tinha mencionado algo sobre o facto de o termo “analógico” ter uma razão de ser no mundo dos sintetizadores. Muitos dos sons que se podem criar num synth surgem como aproximações (ou analogias) a outros instrumentos, como flautas, violinos, órgãos, metais. Este foi o meu primeiro momento eureka. Pensei logo que, se for mesmo assim, então tudo é sintetizável, incluindo ecossistemas. E comecei a lembrar-me de todo o tipo de coisas que iria querer esculpir com som. O segundo eureka foi numa aula sobre paisagens sonoras, onde nos foram mostrados exemplos de todo o tipo de soundscapes documentados e captados que existem no planeta. Desde florestas e sons da natureza a cidades e sons urbanos. De repente surgiu-me uma questão: não existe nada sobre a zona mais profunda do oceano. Será que posso recriar esta paisagem sonora, como se fosse uma analogia? Foi assim que cheguei à ideia das fossas abissais.

“bioluminescência” é bastante representativa do disco que aí vem? O que podes dizer sobre a faixa?

A faixa “bioluminescência” é, na verdade, muito diferente do resto do álbum, que tem ambientes muito contrastantes. Ela representa algo que me encantou imenso sobre estes lugares. Àquela profundidade, não existe luz solar, mas os seres vivos, para se adaptarem, evoluíram de forma a conseguirem produzir uma luz própria que lhes garante a sobrevivência. E acho que isto nos mostra a força, também abismal, da natureza. A verdade é que aquilo que se vê nestes lugares quando não existe luz artificial a apontar para os animais é algo que se assemelha a um céu estrelado, um universo dentro do oceano.

Foi tudo captado em take directo na cisterna da FBAUL? Se sim, porquê?

Sim, este projecto também surgiu como um desafio auto-imposto de retratar o ambiente sonoro de uma fossa abissal num sintetizador em take directo, sem overdubs e edições desnecessárias. Até foi um dos meus professores que sugeriu isto de usar só um sintetizador. Achei um excelente desafio e acho que foi a melhor rota possível. Como em quase tudo, menos é mais. Foi na cisterna da FBAUL porque eu queria que fosse captado num lugar que tivesse alguma ligação à água. A relação entre a cisterna da FBAUL, que era um antigo reservatório de água, e este projecto era óbvia. É como se aquilo que eu fazia no sintetizador representasse o oceano e a cisterna representasse a terra, que funciona como um reservatório de água. E podemos ouvir no fundo o ecossistema da própria cisterna, com sons de pessoas a falar e a andar pela faculdade, a qual também tem uma relação forte com o projecto por ter sido o lugar onde nasceu.


Now Jazz Agora leva o EP de estreia de SAMALANDRA até ao formato de vinil

pub

Últimos da categoria: Curtas

RBTV

Últimos artigos