Dealema no Pérola Negra: reinventar os clássicos

[TEXTO E FOTOS] Joana Nogueira Santos 

21 horas. Faltam duas horas para o Pérola Negra abrir as portas e estrear as noites Movimento, curadoria bimestral de Maze que pretende juntar o hip hop a diferentes universos, mas já há quem se sente nas escadas ao lado do antigo clube de strip.

Dani chegou ao Porto às 19 horas. Não foi logo para o Pérola Negra, é de “andar nas calmas”. Mas antes das 21 horas já estava sentado à espera, juntamente com mais alguns devotos que queriam garantir o lugar na primeira fila deste revisitar de 22 anos de carreira dos Dealema.

Luís é um deles. Exibindo orgulhosamente o casaco de estilo militar alusivo ao V Império, o terceiro álbum do grupo nortenho, está contente por ter reservado com antecedência e não ter o azar de Dani, que recebeu um email a dizer “esgotado”. Agora restava-lhe ser uma das 100 pessoas a comprar o bilhete à porta e, como com a sorte não se brinca, o melhor foi mesmo vir bem cedo. Toda a gente sabia que ia ser um sábado especial…

Afinal, não é todos os dias que uma banda com mais de duas décadas de carreira se reinventa e toca os seus (e nossos) clássicos com uma roupagem diferente, juntando Bruno Macedo (baixo e guitarra), Sérgio Alves (teclados) e Ricardo Danin (bateria) às vozes e scratches do grupo.

Enquanto se discute como foi o concerto de Keso, precisamente há uma semana, como é o ambiente do renovado Pérola Negra (alguns até desconheciam o passado do clube) ou as expectativas para o concerto da noite, as horas vão passando e, chegadas as 23 horas, as filas de quem tem a sorte (ou o bilhete) garantida e de quem tem que confiar que chegou cedo o suficiente criam-se. Rapidamente se percebe que haverá quem não entre, afinal só existem 100 bilhetes, mas devotos de Dealema são muitos mais.

Cá fora, ainda se ouve o final do soundcheck e percebe-se que das músicas só vamos mesmo saber a letra. A “Sala 101” ecoa na Rua Gonçalo Cristóvão, mas muita gente poderia nem perceber que era a faixa número dois de V Império.

Quando se entra no carismático Pérola Negra, entramos num mundo à parte. Um mundo exclusivo e intimista que condiz com a noite preparada. O concerto, prometido para a meia-noite, teima em começar e, passado uma hora de espera, ouvem-se alguns assobios.

 



Pouco depois da uma da manhã, os músicos sobem ao pequeno palco (parece difícil fazer caber seis pessoas nele) e ocupam as suas posições. Mundo Segundo, Fuse, Expeão e Maze entram logo a seguir. Guze fica mais atrás, nos pratos. “Obrigada por esperarem”, agradece Maze. Os assobios de outrora dão lugar a aplausos e a festa ainda nem começou…

A viagem, explica Mundo Segundo, começa em 2003 (Dealema), com o tema “Bofiafobia” e segue com “Fado Vadio”. Os novos arranjos musicais não se ficaram por dar apenas um novo look às músicas, mas deram-lhes um novo universo, onde elas puderam crescer e passar a barreira do género musical. Naquela sala cheia de gente, eram os “tropas do hip hop” que marcavam forte presença (podíamos ver caras conhecidas como as de Equilíbrio, Cirilo, Virtus, M7, b-boy Aiam ou até a artista urbana e tatuadora Veshpa), mas se uma pessoa se perdesse e entrasse no Pérola Negra não iria sair. O hip hop “puro e duro” poderia não ser para ela, mas esta noite cruza-o com os ritmos de soul, jazz e funk. Não há como resistir!

A viagem oscila entre 2003 e 2011 e não se esquecem hinos como “Escola dos 90”, que o público em êxtase reproduz de forma quase mecânica. É, provavelmente, a música melhor gravada no ADN de quem os segue. “Pentágono” não traz uma reacção tão eufórica. “Se calhar muita gente não conhecia, não passou na rádio”, brinca Mundo.

E como festa não é a mesma sem família, “Bom Dia” trouxe Ace ao palco. Apresentado como o verdadeiro pioneiro, tudo o que ele pediu foi muito barulho para o colectivo. Mais do que um revisitar de uma carreira, esta era uma celebração de valores de união e amizade.

A noite trouxe ainda momentos a solo protagonizados por Expeão e Maze. “Poeta Falhado”, com um arranjo musical intimista e dramático, trouxe silêncio à sala, apenas interrompido para cantar o refrão em uníssono e “Brilhantes Diamantes”, com Ace em palco, trouxe euforia. Esta noite era, sem dúvida, um “brilhante diamante”.

“Mais Uma Sessão” dita o encerramento da noite, ainda que dê para mais uma canção, depois do entoamento clássico do “só mais uma”. A espera foi muita, mas, quando a festa acaba, sabe sempre a pouco. Coube a DJ Glue tirar esse sabor amargo do final que nunca queremos que chegue e guardar as palavras de Fuse. 2019 vai trazer surpresas. “Já era tempo”. Nós concordamos.

 


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