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Texto: ReB Team
Fotografia: Silvano Lopes
Vídeo: Silvano Lopes
Publicado a: 13/02/2026

Uma entrevista especial sobre 30 anos de carreira, um novo disco e o concerto no Coliseu do Porto.

Dealema: “Não temos cursos mas somos psicólogos, sociólogos, jornalistas, filósofos… Um MC precisa de perceber o mundo”

Texto: ReB Team
Fotografia: Silvano Lopes
Vídeo: Silvano Lopes
Publicado a: 13/02/2026

96 ao Infinito. Esta sexta-feira, 13 de Fevereiro, termina uma espera de 13 anos por um novo disco dos Dealema. O novo álbum, nostálgico mas também de horizontes postos no futuro, chega no momento em que a banda do eixo Porto-Vila Nova de Gaia celebra três décadas de carreira. Na próxima semana, a 20 de Fevereiro, comemoram o vasto legado com um concerto no Coliseu do Porto que já se encontra esgotado. É a primeira vez que sobem ao emblemático palco em nome próprio.

Para assinalar este momento especial, de celebração do passado e do entusiasmo que sempre existe em torno de música nova, o Rimas e Batidas conduziu uma entrevista especial aos Dealema Expeão só pôde aparecer já no final da conversa no espaço de cowork FISGA, no Porto. 

O rapper e produtor Minus, de uma geração posterior, conterrâneo que tem os Dealema como uma referência assumida, aceitou amavelmente o desafio de conduzir a entrevista com o redactor principal do Rimas e Batidas, Ricardo Farinha. O resultado pode ser visto e ouvido — num vídeo gravado por Silvano Lopes — ou lido aqui mesmo, nas páginas da nossa revista digital.



[Ricardo Farinha] Suponho que aqueles miúdos que se começaram a juntar em casa do Fuse em meados dos anos 90, e depois no 2º Piso, nunca imaginaram que agora estariam aqui a celebrar 30 anos de carreira. Talvez nem pensassem em longo ou sequer a médio prazo.

[Mundo Segundo] Sem dúvida, nós éramos só apaixonados por aquela arte, por aquela cultura que nos chegou nos anos 90 às mãos. Éramos só uns miúdos, ainda no seu estado naïf, a descobrirmo-nos a nós próprios. Como é óbvio, jamais imaginaríamos estarmos a celebrar 30 anos de carreira de Dealema, estarmos num coliseu esgotado e, mais do que tudo, a celebrar o hip hop em Portugal. Porque falamos de uma altura em que nem sequer sabíamos se seria uma coisa com tanta longevidade. Acho que é, como se diz tradicionalmente, um sonho de menino. Estamos muito satisfeitos e orgulhosos, não só pela nossa história, mas por termos ajudado a que o hip hop se enraizasse de tal forma em Portugal que passado 30 anos continua a ser uma cultura em ascensão e cada vez maior e mais transversal a todas as pessoas. 

[Maze] Mais do que chegarmos a estes 30 anos, é olharmos para trás e percebermos que muita história aconteceu. Temos falado disso entre nós. É chegarmos a estes 30 anos e continuarmos a ser os mesmos adolescentes que éramos em ‘96, com a mesma vontade, o mesmo entusiasmo, a mesma fome de rimas e de beats, a mesma paixão pela cultura hip hop que tínhamos no início e conservarmos essa essência, juventude e vontade não só de celebrar este caminho todo, mas também de apontar para o futuro e de estarmos aqui com um álbum novo, a mostrar que ainda há muito caminho para percorrer.

[Minus] Numa perspectiva também enquanto músico, eu cresci a ouvir-vos e tinha-vos como referência. Percebendo esta questão de vocês serem jovens e no sentido de cada vez mais hoje em dia precisarmos de aprovação, como é que era ou a quem é que vocês recorriam para aprovar que o produto estava bom? Porque lembro-me de que, por exemplo, cheguei a ir muitas vezes ao 2º Piso mostrar os meus beats e ainda nem sequer tinha um disco. Mostrava os meus beats ao Mundo e havia sempre uma referência. Ou seja, em 2000 e tal, havia referências tipo o que ele me dizia, “estás aqui num caminho parecido com isto, parecido com aquilo”. Havia esta comparação. Tem que haver uma resiliência muito forte da vossa parte, uma confiança muito grande para terem as coisas aprovadas nessa altura.

[Fuse] Nós também começámos numa altura em que fomos fãs de outros artistas. Começámos por ouvir rap americano e as nossas primeiras influências, falando de rap nacional, os mais próximos de nós terão sido os Mind da Gap. Felizmente tivemos a bênção de na altura fazermos músicas com os nossos “ídolos”, que eram amigos. Mas nós surgimos numa altura em que a pica, o entusiasmo e a fome por viver isto todos os dias era tão grande que não havia… Nós pelo menos não tínhamos ninguém a quem recorrer para validar aquilo que estávamos a fazer. Simplesmente acendemos um fogo que estávamos ali a tentar gerir, a acender cada vez mais e a criar cada vez mais, a ver até onde é que aquilo nos levava.

[Ricardo Farinha] E se calhar isso também acontecia internamente, entre vocês próprios, ateando o fogo e motivando-se uns aos outros.

[Maze] Como nós estávamos a desbravar um bocado o terreno, mais do que validação pelo que estávamos a fazer, tínhamos consciência de que estávamos a fazer coisas que mais ninguém estava a fazer e que tínhamos um estilo muito definido e uma identidade muito própria. Então queríamos mais chocar. Era mais: “olhem o que é que nós estamos aqui a fazer”. Em termos de beats, em termos de rimas. Era mais um mostrar, isto é a nossa identidade e não queremos saber propriamente de aprovação ou validação, aguentem-se à bronca com o que está aqui.

[Mundo Segundo] Sem dúvida, mas é um pouco o que estavas a dizer, acho que a maior validação que procurávamos era entre os nossos cinco. Ele veio com esta letra… Vou ter que escrever já a minha. E acho que isso foi a maior evolução de Dealema, o facto de todos puxarmos uns pelos outros e querermos elevar a fasquia. Falo por mim, cada um falará por si e pela sua experiência, mas o que me fez evoluir mais até acho que foi isso. Tenho que chegar com um caldinho melhor que o do companheiro, ou pelo menos que esteja à altura, porque se não estiver, mais vale não participar para não fazer má figura. De fora, essencialmente foi o que o Fuse disse, os Mind da Gap eram uma referência para nós e íamos obtendo sempre feedback da parte deles. Foi basicamente entre esse nicho de pessoas que fomos evoluindo a nossa arte. Mas, como disse no início, acho que foi a mistura dessa sensação de naïf com a paixão por algo que está a começar, esse fogo inicial, que tornou a coisa mais especial. Porque no fundo não sabíamos o que é que estávamos a fazer, estávamos só a fazer. E tudo naturalmente se desenrolou. 

[Minus] E as referências também vão mudando com o decorrer dos anos, não é? E hoje em dia continua a haver também esta competição saudável. 

[Mundo Segundo] Sim, completamente. 

[Minus] E as vossas referências foram mudando em relação a tudo o resto que está à nossa volta, não é? O hip hop também tem sofrido bastantes metamorfoses. Mas a minha dúvida era precisamente sobre isso, entre vocês todos tinha que ser uma coisa muito forte. 

[Mundo Segundo] Apesar de que eu acho que — pelo menos falo por mim, mas acho que passa-se o mesmo com o resto da família — hoje em dia o barómetro é outro, se calhar são pessoas fora da área. Se mostrares um tema de Dealema a outra pessoa que não é do hip hop, e receber aquilo como um marco histórico musical, que não importa o estilo e é feito em português… Acho que hoje em dia se calhar temos mais esse barómetro de medição sobre se isto está bom ou não.

[Ricardo Farinha] E imagino que no início ainda havia outra faceta em relação a isso. O hip hop não era propriamente bem visto, não é? Não era uma coisa normalizada, portanto havia por um lado a competição saudável de querer ser melhor, entre vocês, mas também devia haver o outro lado de se alimentarem uns aos outros, de terem uma paixão comum, uma coisa vossa que querem proteger e afirmar, porque não é muito bem vista pelo resto da sociedade à volta, não é? Suponho que também houvesse esse lado. 

[Maze] Completamente. Nós sabíamos que estávamos a fazer alguma coisa marginal. Marginal de estar à margem, não marginal de delinquência, que sempre foi o rótulo que puseram em cima do rap, mas sempre percebemos que estávamos a fazer uma coisa muito alternativa, muito diferente, e queríamos fazê-lo, e nesse aspecto de nos contagiarmos, não é? De repente alguém chegava com uma faísca criativa e contaminava os outros, e íamos para casa possuídos com a inspiração que algum de nós tinha trazido. Isso foi incrível. Acho que foi isso que nos fez criar essa identidade diferente, que nos fez ter a mística do Pentágono, e toda essa imagem que fomos criando ao longo dos tempos, que ainda continua muito presente. Neste disco, temos sentido todos isso, porque se nessa altura nós íamos para o 2º Piso e passávamos muito tempo juntos, o que é normal na adolescência, — tínhamos as vidas mais livres e soltas para estarmos todo o dia a fazer música — agora na vida adulta, com famílias, com trabalhos, com vidas diferentes, não é tão possível. Há uma distância diferente, há uma troca de ficheiros, ou às vezes estamos juntos e um partilha com o outro, mas não estamos muitas vezes os cinco. 

[Mundo Segundo] E o digital também ajudou a reduzir essa distância.

[Maze] Sim, o digital ajudou bastante nisso, mas o impacto que às vezes temos quando chega um conteúdo novo de algum de nós, de repente o Guze põe um scratch numa música nova, “ei, incrível”, ou de repente falta a letra de algum, e alguém põe a última letra naquela música, e era a peça que faltava para fechar a música da forma perfeita. Continuamos a vibrar da mesma forma com essa inspiração que vamos transportando de uns para os outros. 

[Minus] Lembro-me de ver um concerto vosso numa FNAC e nunca imaginei que estivesse tanta gente numa FNAC… Acho que foi quando apresentaram o primeiro álbum, foi em 2003 ou 2004, e aquilo para mim teve um impacto mesmo muito grande, porque ainda não tinha muita gente com quem partilhasse o rap e o hip hop, então lembro-me de ter ido com um vizinho meu, na altura até comprámos o disco a meias sou eu que o tenho , mas lembro-me de aquilo ser mesmo impactante para mim, porque vocês moviam muita gente. Todos os outros concertos no Hard Club acabaram por ser exactamente o reflexo desse concerto.

[Maze] É engraçado que estás-me a dizer isso, e eu estou a ter aqui uma visão, e acho que isso acontece a todos. Estou-me a ver a ir à [loja] Valentim de Carvalho, no Bom Sucesso, para um showcase de Mind da Gap, e isso para mim ter exactamente o impacto que esse nosso showcase teve em ti.

[Mundo Segundo] Isso foi na FNAC de Santa Catarina? 

[Minus] Foi. Toda a gente a fumar… Um mundo completamente diferente daquilo que eu esperava, já ouvia algumas coisas americanas, mas estavam a fazer isto na minha cidade, pessoas daqui, foi bastante impactante, e acho que tenho sempre essa memória. Vários anos mais tarde, acabei por vos ver no Rivoli também. E apesar de ser uma sala completamente diferente, senti que havia a mesma energia. E acho isso mesmo interessante, como é que trazem esta tropa toda atrás de vocês, não é? 

[DJ Guze] O fixe disso tudo é que de ‘96 até 2003, não são assim tantos anos, são sete, não é? Em ‘96 ou em ‘95, o público aqui no Norte, pelo menos, eram as outras três ou quatro bandas que existiam. Os Dealema, os Mind da Gap, os Reunião das Raças… Pronto, eram o público. E em sete anos o movimento cresceu tanto que chegaste à FNAC e viste isso tudo… É a parte mais engraçada do que estavas a falar. 

[Mundo Segundo] Só para acrescentar aqui um pormenor interessante, porque acho que os Dealema têm esse cunho um pouco diferente de grande parte das bandas: tirando eu e o Guze, que somos amigos de infância e crescemos juntos, nós somos indivíduos de sítios diferentes, o que hoje em dia não é muito comum. Os grupos são quase todos da mesma zona, uns são de Ramalde, outros de São Roque, outros de Gaia… Nós tínhamos todos universos diferentes, grupos de amigos totalmente diferentes, e isso tornou o público de Dealema especial. Pessoal do rock, pessoal do skate, pessoal do rap, pessoal do basquete, pessoal de múltiplos universos. Por isso, de certeza que esse público [na FNAC] era uma mescla dessas pessoas todas, ou seja, não era um público 100% hip hop. Se me perguntassem uma das grandes diferenças dos Dealema nessa altura, era precisamente essa. O nosso público era muito vasto e mesclado.

[Maze] E eu acho que isso acontecia numa altura em que essas tribos também estavam mais próximas. Sentia-se isso nas escolas. Havia uma partilha. E o nosso disco, nós viemos numa altura em que a cassete era passada de mão em mão, era copiada, e os CDs também. Então isso espalhava-se e alastrava, como agora viraliza numa rede social ou no YouTube, e de repente contamina assim milhares de pessoas. Era um trabalho que era feito de mão em mão. Demorava meses, mas chegava às pessoas. O nosso trabalho só chegou a este patamar porque começámos a disseminá-lo assim mão em mão, cassete a cassete, CD a CD, de uma forma muito underground

[Ricardo Farinha] E para terem esse público diverso, como o Mundo estava a dizer, vocês também tiveram o papel, consciente ou inconscientemente, de formar um público de hip hop. Ou trazer pessoas que não eram do rap, mas que se tornaram ouvintes de Dealema e se calhar foi uma porta de entrada para depois ouvirem outras coisas.

[Mundo Segundo] Já nem vou falar só de Dealema, posso falar no hip hop em geral porque acho que é um bocado por aí… O facto de virmos numa altura em que o rock estava maioritariamente a cantar em inglês e nós surgirmos numa época de afirmação, de dizer “não, queremos fazer isto em português” — sendo que o hip hop é uma cultura norte-americana, teve a sua génese lá e de repente tens um monte de pessoas que dizem “isto é português, identifico-me e toca-me de outra forma”… Acho que esse é o cunho principal pelo qual o hip hop tem esta longevidade, o ser feito em português. Tu ouves, sentes, absorves, é uma coisa tão espontânea que é inevitável. Mesmo que não gostes de rap, se ouvires uma frase especial que te toca num momento especial da vida, vais-te apaixonar por rap, não há hipótese. 

[Maze] O que disseste está tão certo e ainda ganha um peso maior porque há ali um espaço em que entre os cantautores de Abril e o rap de intervenção cantado em português há um hiato e uma falta da palavra dita em português com uma acção direta. Então nós apanhamos esse filão, somos herdeiros desses cantautores, numa era diferente, e socialmente também havia uma falta disso. As pessoas abraçaram-nos porque estávamos a dar voz a uma nova geração.

[Minus] Vocês são responsáveis por serem psicólogos de muita gente.

[Maze] Numa outra entrevista que demos agora recentemente, eu estava a dizer precisamente isso: nós não temos cursos superiores mas somos psicólogos, sociólogos, jornalistas, filósofos… Vários cursos superiores que tirámos de forma autodidata porque um MC precisa disso, precisa de perceber o mundo e depois pô-lo em rimas. Nós continuamos a receber esse feedback desde sempre, e realmente é a maior riqueza que tiramos da música, são as pessoas que chegam e dizem: “olha, essa rima alterou a minha vida”, “a tua música impacta-me de uma forma profunda”. E temos cruzado gerações porque a nossa música realmente chega ao outro.

[Ricardo Farinha] Sobre a questão da língua que o Mundo falava, acho que se hoje há tanta música portuguesa cantada em português, o rap também tem um papel muito importante aí.

[Mundo Segundo] Permite-me concordar [risos].

[Maze] Completamente e espero que isso depois venha a ficar na história, que fique bem explícito que isso aconteceu e que não se esqueçam disso. Eu acho que não, porque a cultura hip hop não estou só a falar do rap está tão marcada na identidade mundial que não dá para ultrapassar isso, então cá vai-se perceber o que aconteceu e que foi dito em português.

[Mundo Segundo] Exacto, e o facto de o hip hop ser uma voz geracional é que nos permite ter esse espaço em festivais. Às vezes o pessoal fica tipo: “porquê um artista de hip hop com este tipo de destaque?” E é exactamente isso: quando és a voz de uma geração é difícil meterem-te num saco e esconderem-te, não é? O hip hop é exactamente isso, é a voz de uma geração, e não há como esconder esse facto, por isso temos que concordar com o que estavas a dizer.

[Ricardo Farinha] Parece-me que vocês são claramente o colectivo de rap há mais tempo no activo em Portugal, sem interrupções. Numa era em que temos cada vez menos colectivos e mais artistas individuais, quão importante também é essa marca de Dealema? De ser algo colectivo, uma coisa partilhada de amizade mas também a nível artístico — e o hip hop vem daí, dessa cultura de crew que hoje em dia está muito individual, tal como a sociedade no geral.

[Mundo Segundo] Sim, porque, com a evolução dos tempos, as ferramentas permitem às pessoas serem criativas de forma isolada… Essa coisa naïf e apaixonante do início, de “somos poucos então vamo-nos juntar para vivermos esta paixão juntos”, acho que isso também tem muita influência em algo que está a nascer e tu não tens mais ninguém com quem partilhar. Nós juntávamos-nos os cinco para passarmos as cassetes dos álbuns novos uns para os outros, hoje em dia tu consegues fazer isso tudo sozinho, não tens que ter um grupo de amigos. Já nem vou falar na parte de ser mais rentável, por razões óbvias. Mas acho que para teres um grupo tem que haver essa paixão por algo que te faça juntar, não só fazer um grupo porque é espectacular ter um grupo, não. [No nosso caso] foi mesmo uma coisa genuína porque havia os Fullashit, havia os Factor X, havia o Maze como indivíduo e juntávamo-nos para ouvir, começámos a escrever em conjunto, a ir à casa do Fuse gravar maquetes e naturalmente nascem os Dealema. Não foi algo que foi pré-programado, de “vamos fazer uma banda”. Não, estamos todos juntos, e já que estamos aqui todos a ensaiar juntos e a fazer coisas juntos… É uma coisa natural e eu acho que os grupos devem nascer dessa forma natural e genuína da paixão por algo que nos une, porque tudo o que for programado acho que não consegue ter tanta longevidade. O tempo tende a comprovar isso. Por isso, para aquele pessoal que convive a ouvir hip hop e a partilhar discos, às vezes mais vale quatro artistas pequenos juntarem-se e fazerem algo grandioso do que estarem todos a lutar de forma individual para algo que não se tornará tão grandioso.

[Minus] É um bom ponto de vista porque estamos a viver uma realidade muito individual isto em geral, não tem a ver com hip hop, tem a ver com a sociedade. Vocês acham que ainda é possível surgirem…? Parece-me muito distante essa perspectiva, é meio desanimador, não quero mostrar um lado negativo, mas sinto que hoje em dia é mais “OK, eu sou capaz de fazer isto, vou fazer isto” e depois o meu par também está ao mesmo tempo a fazer a mesma coisa e depois juntamo-nos e apoiamo-nos um ao outro mas não como grupo…

[Mundo Segundo] Acho que a grande influência disso é o telemóvel, o podermos ser individuais e fazermos tudo. E depois ter um grupo é como uma relação, se estivermos todos a trabalhar à mesma velocidade as pessoas vão-se mantendo interessadas numa relação, quando um deixa de ter tanto interesse e não está na mesma velocidade que o outro… Hoje em dia acontece muito, por isso é que há muitos divórcios e tudo mais, porque é fácil fazê-lo, então há que manter o interesse igual por todos. Se estivermos todos na mesma velocidade, é mais fácil a coisa explodir. E podes fazer aquele beat e escreveres a letra, mas para o universo não tem a mesma força do que quatro pessoas a respirarem a mesma ideia.

[Maze] Ia falar precisamente sobre isso. Uma coisa é fazeres um trabalho individual, porque quando fazes um trabalho conjunto tu estás a acrescentar a energia de cada um, tem uma amplitude completamente diferente. E sobre se ainda é possível nestes tempos que correm, eu acho que funcionamos muito por ciclos, então os processos esgotam-se e as pessoas também se vão cansar de estar sozinhas a fazer coisas para elas, para o próprio umbigo, a tentar estar ali num sítio egóico de “olhem para mim”. Parece que estamos todos na Internet e no telemóvel a gritar ao mesmo tempo: “olha isto, já saiu, já ouviste?” E depois não há espaço, não consegues ouvir ninguém porque está toda a gente a gritar. Então, se nos juntarmos se calhar temos mais força e conseguimos gritar mais alto ou chegar mais longe, as pessoas vão começar a perceber que há um sítio comum e que essa união faz a força. Por mais clichê que seja esta frase, é verdadeira.

[Mundo Segundo] Há uma coisa interessante que é… Nós somos cinco e começamos a gritar uns para os outros e isso inspira as pessoas a fazerem o mesmo. “Olha aqueles cinco, estão ali a partilhar aquela energia especial, se calhar vamos juntar-nos a mais alguém também para sentir esta energia.”

[Maze] E eu acho que isso aconteceu até uma certa altura e tu estás aqui, Minus, a tua crew, Sexto Sentido, também nascem daí e vocês também de certeza que partilharam esta energia de irem para casa uns dos outros ouvir as cassetes, e eu acho que depois isso foi-se perdendo noutras gerações. As pessoas foram-se distanciando.

[Minus] A minha crew também continua unida, mas sinto que cada vez mais é acompanhar e ficar feliz pelos sucessos dos outros.

[Mundo Segundo] Mas também é a evolução das vidas e da responsabilidade pessoal de cada um que cria esse distanciamento. Como nós também tivemos, não é? Com a evolução das nossas vidas. Mas acho que, de tempos a tempos, bate essa nostalgia de estar toda a gente no mesmo espaço a vibrar com a mesma coisa e no fundo isso é que vai alimentando depois os anos que virão, a não perder o interesse por essa energia colectiva.

[Ricardo Farinha] A cultura hip hop celebrou 50 anos em 2023. Apesar de tudo, o rap, também pela sua natureza de constante transformação, continua a ser visto como uma música fresca e jovem. Embora nos Estados Unidos já haja muitos rappers na casa dos 50 ou mesmo dos 60 anos. Em Portugal, as primeiras gerações, onde vocês também se incluem, também estão obviamente a amadurecer e a envelhecer. Certamente que no início vocês não se imaginavam sequer com a idade que têm hoje a fazer rap, até porque nem vos passava pela cabeça como já disseram, mas hoje também são certamente melhores artistas porque a experiência artística e humana é uma parte essencial. É bom fazer rap com esta maturidade?

[Fuse] Sem dúvida e sentimos isso, acho que é unânime, ao fazer este disco. Ainda há dias o Maze manda mensagem a dizer “olha as letras que fizemos nestas últimas músicas, estão de parabéns”. E eu elogiei-o a ele: “olha, estamos todos de parabéns porque estamos todos a um nível gourmet”. É mesmo a palavra. Tu nem te apercebes da transformação da tua pessoa, porque tu também mudaste muito e se calhar tens outra postura, tens outra bagagem, outra vontade, outra maturidade para fazeres a arte que fazes. Embora aquele bichinho, aquela identidade, esteja sempre presente desde 1996. Só que hoje nós fazemo-lo com outra confiança. O que foi brutal ao fazer este disco foi sentir que voltámos a 1996, sem expectativa nem medo, só paixão, só fogo e é brutal. Estás em 2026 a fazer um disco com os teus amigos de há 30 anos, com a mesma paixão, com o mesmo fogo, com a mesma fome por escrever e cantar. E isso é brutal. Somos pessoas diferentes hoje, mas conseguimos manter esse fogo igual quando nos juntamos os cinco. Temos a mesma química, a mesma facilidade. Não precisamos sequer de ensaiar para fazer acontecer porque simplesmente acontece. Podermos transportar essa maturidade para a música é uma bênção.

[Maze] Já vivemos muito, nascemos nos anos 70, então já vivemos cinco décadas se olharmos assim para trás. Continuamos com essa garra e esse entusiasmo da adolescência mas com a maturidade, com a aprendizagem, a responsabilidade, o peso que a vida trouxe, com as cicatrizes, com as alegrias, com tudo. Isso faz-nos escrever de forma diferente, compor de forma diferente, scratchar de forma diferente… Não é algo muito palpável, vai-se sentindo. E se calhar nós nem sequer temos muita consciência disso. Temos que ver o reflexo no espelho e tem que nos ser dito para percebermos que estamos diferentes com esse crescimento. 

[Minus] Eu também admiro o facto de, nestes anos todos, não haver um único descuido da vossa parte. Ou seja, acho que essa paixão e essa mudança, que é natural nas vidas, continua. Há bocado estava a ouvir-vos em off a comentar coisas que cada um acrescenta e que faz… Acho isso muito bonito e parabéns por continuarem a viver isso, porque transporta uma coisa muito boa para o outro lado, que é continuarem interessados em contribuir e contribuir bem. Não é uma coisa despreocupada e desmazelada, tipo “já fizemos isto e já não interessa”. Qualquer pormenorzinho continua a ser uma coisa que… 

[Mundo Segundo] Sem dúvida. Eu vejo a coisa já de um lado mais místico. Imagina cinco indivíduos que têm um poder qualquer. Neste caso, o poder de escrever ou criar ou seja lá o que for. E no início estás a aprender a usar a tua magia. Ainda é tudo muito descontrolado e não sabes ainda usar a coisa da forma certa. Passados 30 anos é tudo mais polido, mais assertivo. Saberes usar a tua magia da forma certa. E é engraçado perceber que aquilo que nós fazemos hoje em dia já fazíamos há 30 anos. Esse polir e ser assertivo é tudo igual, mas parece diferente. Porque no fundo é isso, é saberes usar a tua magia de uma forma mais especial. Acho que este álbum vai reflectir um bocadinho isso. Às vezes as pessoas podem ouvir e tentar perceber o que é que está de diferente aqui. E é só isso, é só polir mais um bocadinho. Nada mudou, é tudo igual, o valor é o mesmo, a identidade é a mesma. Não estamos muito preocupados com o que se está a fazer ou qual é o estilo que agora está a bater. Se é o boom bap, se é o trap, se é o drill, não interessa a vertente, interessa que seja Dealema. E mais preocupação com o detalhe. Se calhar antes gravavas um rap e havia ali três palavras que não estavam tão boas como as outras. Até deixavas passar, hoje em dia não passa, fica logo ali na guilhotina do polimento [risos].

[Ricardo Farinha] E também é impressionante, acho eu, olhar para trás e pensar na idade que vocês tinham quando escreveram certas letras. Eu às vezes faço esse exercício: “Calma, mas estes MCs na altura tinham 20 e poucos anos”. Acho que é impressionante, até comparando com o que se faz hoje.

[Mundo Segundo] Por incrível que pareça, e até saindo desta cápsula de Dealema, essas frases ajudaram-me a formar-me como homem e acho que a grande parte de nós. Lá está, a própria inspiração interna. Essas frases que tu guardas, nós também guardamos. E são quase como “chavões” para a nossa história e evolução. 

[Maze] E fazem parte desse universo místico que criamos à volta de Dealema. Nós começámos muito cedo a perceber que queríamos fazer músicas intemporais. E essa é a diferença. Estávamos a criar músicas que não queríamos que fossem datadas, queríamos que fossem coisas universais, que atravessassem o tempo, que chegassem às pessoas, coisas emocionais, e isso faz a diferença. É por isso que as músicas se aguentam há tanto tempo, e que parecem coisas com maior maturidade que a idade que nós tínhamos na altura. 

[Ricardo Farinha] Já venceram esse teste do tempo, claramente. Só para concretizar essa parte, vocês estiveram bastante tempo sem um novo álbum de Dealema, não é? Até hoje houve sempre, diria, um lado conceptual em cada disco. Este novo disco também tem esse lado, ou não exactamente?

[Maze] Nós não nos conseguimos afastar da ideia de que um álbum tem que contar uma história, tem que ter uma narrativa. Não só o próprio álbum, mas a nossa história tem um fio condutor. Tem sempre uma ligação. E este não foge precisamente por esta altura em que estamos a viver, e ser uma data redonda e um momento de celebração. Então passa muito por esse olhar para trás, ver de onde é que vimos, onde é que estamos, e perceber que estamos com o mesmo entusiasmo, que há muito futuro ainda por escrever. Então este disco também tem um conceito. 

[Mundo Segundo] Deixa-me só acrescentar uma coisa, que é… Os Dealema fizeram uma maquete em ‘96. Editaram um álbum em 2003. Sete anos de espaço. Depois editaram um álbum em 2008. Cinco anos de espaço. Depois editámos um álbum em 2011. Três anos de espaço. E depois editámos outro em 2013. Dois anos de espaço. Sendo que esses dois discos tiveram menos espaço do que os outros. E agora estivemos 13 anos sem lançar. Se fizeres bem a conta, nós esperamos o tempo necessário para fazer um disco e absorvermos as experiências que precisávamos para relatá-las. Ou seja, nós até acabamos por manter a nossa cadência. O que fizemos ali foi um espaço mais curto entre dois álbuns. Porque imagina se tivéssemos lançado o Alvorada da Alma em 2016 ou 2017, por exemplo, a cadência seria mais ou menos a nossa em termos de espaçamento. Neste caso, naturalmente, fizemos A Grande Tribulação e o Alvorada da Alma como antagonistas, digamos assim. E este disco é uma continuação dessa viagem. Temos sempre essa preocupação porque acho que faz sentido fazer a continuação de um filme, vai manter as pessoas ligadas, as que conhecem a história, não é? E as que não conhecem e que podem eventualmente se tornar ouvintes agora, se fizerem a viagem para trás, vão dizer “ah, ok, isto tem uma ligação àquelas coisas lá atrás”. De certa forma, acho que isso é importante no repertório de uma banda, no historial da banda, manter-se esse fio condutor. Porque é quase como estares a ver uma série que se desenrola na vida real, a atravessar décadas.

[Maze] E acho que é um bocado uma ilusão a noção de que nós espaçamos muito os discos porque, nesta série toda, aquilo que o Mundo está a dizer, entre estas seasons todas, há muitos spin-offs da mesma série que são feitos por cada um de nós e que também são pedaços dessa história. E as pessoas, quando fazem essa retrospectiva, se forem ouvir todos os trabalhos que fizemos a solo durante esse tempo todo, conseguem construir aí uma cronologia muito sólida e ligações entre os discos. 

[Mundo Segundo] Estamos a falar de quase 30 discos do universo dealemático, acho que é uma marca assinalável em 30 anos.

[Minus] E também é necessário haver sempre um afastamento, não é? A Lauryn Hill dizia que o Miseducation tinha sido bom porque ela viveu antes para poder escrever aquilo. E depois, a seguir, ela estava a tocar e a viver a experiência do disco e não a absorver coisas novas…

[Mundo Segundo] Exactamente, exactamente. E como grupo, ainda mais, porque são cinco pessoas. Temos que viver um monte de coisas todos juntos para podermos fazer essa construção de um novo disco. Mas é um bocado isso. Estamos a falar de cinco indivíduos que criam quase 30 discos em 30 anos. Acho que é um marco assinalável. Ou seja, na verdade, estivemos sempre activos, não é? Muitas das vezes, nos nossos próprios discos, participamos uns com os outros, por isso a bola de neve acaba por estar sempre a crescer, e agora são 30 anos de bola de neve. Aproveito também este momento para agradecer a todas as pessoas que compraram bilhetes para o concerto do coliseu e que fizeram com que já esteja esgotado. Nós sabíamos que iria ser uma data especial, mas estar esgotada é mais do que especial. 

[Ricardo Farinha] Como querem antecipar esse concerto?

[Maze] Esse espetáculo, que é especial, não pode fugir muito a contar a nossa história, obviamente. Então é contá-la desde o início e ir passando por momentos importantes, porque as pessoas que vão lá estar… Mais uma vez, um obrigado a todos mesmo, porque nós somos uma banda underground e não estamos aqui com muitos truques, só existimos, e perceber esse apoio todo que chega de uma forma orgânica e as pessoas querem ver-nos e têm essa vontade de partilhar connosco essa data especial para nós significa mesmo muito. Essas pessoas estão à espera de alguns momentos nossos e é isso que estamos a planear, dar precisamente esses momentos especiais para as pessoas cantarem connosco e sentirem connosco o que nós temos ali a passar. 

[Mundo Segundo] Vai ser uma viagem: o passado, o presente e o futuro dos Dealema. Os 30 anos são um motivo de celebração, mas também queremos dar algo especial às pessoas, para perceberem que ainda temos muita história para contar e estamos a preparar algo especial nesse sentido. Ou seja, queremos agradecer por virem celebrar 30 anos connosco, mas temos aqui um presente para vocês. 

[Ricardo Farinha] E o palco, a performance, sempre foi uma componente muito importante em Dealema, é aí que a banda também se distingue. 

[Mundo Segundo] Há bocado disseste uma coisa engraçada, de que talvez sejamos o colectivo mais antigo, e provavelmente também seremos o colectivo que se ensaiou se calhar quatro ou cinco vezes na vida foi muito. É uma coisa especial, lá está. É uma sinergia diferente. Há bandas que precisam de ensaiar há muito; no nosso caso, não temos, tudo o que acontece naquele palco é feito de uma forma muito natural, muito orgânica, muito apaixonada. E no coliseu não vai ser diferente. Temos alguns elementos cénicos que queremos acrescentar, porque é um concerto especial numa sala especial, mas tudo o resto será Dealema em estado bruto, como costumamos dizer, por isso podem esperar o melhor que temos para dar nesse concerto.

[Minus] É como se vocês levassem sempre o 2º Piso para um palco, não é? Sempre se reparou nessa energia, eu nem sabia que vocês não ensaiavam, ou ensaiavam pouco, isso é espectacular. 

[Maze] E já o fizemos, nós já levamos coisas mesmo do 2º Piso tapetes, bibelôs já montámos um palco no antigo Hard Club em que levámos mesmo o 2º Piso para o palco. E já demos tantos concertos, já demos concertos para cinco pessoas, já demos concertos para milhares de pessoas, para 5 mil ou para 50 mil, já aconteceu tanta coisa, o Pina [Expeão] já fez discursos de 10 minutos em concertos, já aconteceu tanta coisa nas nossas vidas, nessa forma orgânica que funciona, que é a nossa interacção em palco. 

[Expeão] Eu nem ia falar, ia só confirmar porque estava-me a rir quando o Maze estava a dizer que levámos o 2º Piso [para o palco]. Levámos mesmo uma carpete, até levámos um urso de peluche gigante, levámos um candelabro, mas uma coisa gigantesca. Mas a carpete, sem dúvida, acho que tem muitos anos de vida e nos inspirou. É verdade. Parece mentira quando uma pessoa conta. 

[Ricardo Farinha] São 30 anos. Venham mais 30? É esse o plano? 

[Maze] Mais 30, dá o quê? Uns 80? 

[Fuse] É a frase que dizias há bocado: ainda há muito futuro para escrever. 

[Mundo Segundo] Mas isso é uma coisa interessante até para finalizarmos, que é parar de datar o hip hop, porque é o único estilo musical que é datado. Parece que tens de ser jovem para fazer hip hop. Não, no rock o pessoal vai ver The Rolling Stones ou Pink Floyd e não julga as pessoas pela idade. Eu acho que temos que acabar um bocadinho com isso no hip hop e todos os jovens perceberem que um dia vão estar aqui no mesmo sítio em que estão os Dealema, vão ter 40 ou 50 ou mais anos, e se calhar vão continuar apaixonados pelo hip hop e sentirem-se válidos como contribuidores. Se calhar essa mensagem é importante deixar para as gerações que vêm a seguir.


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