De Blood Orange e Prince a Noname ou Yves Tumor: um guia para a autopreservação

[TEXTO] Miguel Alexandre [ILUSTRAÇÃO] Riça

Há graciosidade na arte da autopreservação. Há um método de defesa que, de alguma maneira, nos protege da nossa própria realidade: uma realidade que muitas vezes minimiza e menospreza a nossa existência, a nossa essência e o nosso valor. O nosso espaço público submeteu-se a um totalitarismo do campo social e do campo político, que consequentemente sobrepõe-se sem meias-tintas às matérias culturais, intelectuais, científicas e cívicas.

A ideia de que um artista deve sangrar para produzir algo com qualidade é uma mentalidade nociva. Numa entrevista em 2010, Erykah Badu pronunciou-se assertivamente sobre este assunto, focando-se mais na pressão que músicos sofrem e na propensão do perfeccionismo: “Todos os artistas lançam trabalhos para o mundo e são julgados de várias e diversas maneiras, é normal, é o nosso trabalho. No entanto, a indústria musical é particularmente desafiante porque não estamos apenas a ser avaliadas no que fazemos – mas também na nossa aparência, no nosso estilo, na gravadora onde estamos. É inevitável e começamos a analisarmo-nos criticamente: este é um pensamento destrutivo”.

Um estudo realizado pela universidade de Westminster, em Inglaterra, revela que pessoas que trabalham no mundo das artes, mais especificamente no da música, têm o triplo da probabilidade de sofrerem de depressão, em comparação com o resto da população. Entre as principais razões, os participantes do estudo referiam que a exaustão física, a instabilidade do meio, problemas monetárias, assédio sexual e sexismo são as principais e que ainda hoje prevalecem na indústria discográfica.

Mas há felizmente modos para contornar estes dados. A consciencialização para estes assuntos tem sido cada vez maior e incomensurável — hoje temos, por exemplo, Freetown Sound, A Seat At The Table, Channel Orange e até mesmo To Pimp a Butterfly: todos trabalhos modernos que não só se focam em retratar precisamente a luta diária de viver com uma doença mental, como têm também no seu primordial centro a resolução desta situação. Estão aqui envolvidos assuntos que abordam temáticas como a identidade racial, o papel do feminismo, a orientação sexual, etc. A arte da autopreservação viabiliza-se quando, num universo que cada vez mais nega uma destas questões, a vontade de prevalecer vence.

Neste mote, o Rimas e Batidas reuniu um conjunto de músicas, de lançamentos deste ano, que resumem todas estas características. Há muita dor e bastante mágoa em cada uma delas. Mas também há imensa esperança e uma vontade de união. E isso é mais honesto e comovente do que um bando de certezas de fácil digestão.

 


[Blood Orange] “Hope” (feat. Diddy & Tei Shi)

Tal como Negro Swan, “Hope” é uma homenagem universal à cor de pele de Dev Hynes, metodicamente balançada pela voz dos três intérpretes: um jogo sónico que tem como objectivo criar um ambiente plácido, obrigando o ouvinte, de facto, a ouvir. A produção é simples, assente em beat esguios, minimais, com um recurso limitado, mas essencial, a dois ou três acordes de piado, um par de notas e ainda falsetes. Diddy fala sobre as incongruências da sua vida e sobre a necessidade de querer encontrar “esperança” e “amor” nos sítios menos prováveis para tal.

 


[Prince] “A Case Of You”

Prince pega num dos temas mais icónicos do Verão de Amor do final dos anos 60. Há irrefutavelmente elementos de ligação com a versão original de Joni: um ambiente minimalista, carregado de simplicidade, devoção e serenidade; mas é na maneira como decidiu organizar os versos da música que Prince se destaca. O início dá-se com: “I am a lonely painter/ I live in a box of paints/ I used to be frightened by the devil/ And drawn to those who weren’t afraid” – uma problematização sobre hedonismo, solidão e sobre o obscuro que atormentava a mente de vários artistas daquela geração, onde Prince sempre se sentiu incluído.

 


[Tirzah] “Devotion” (feat. Coby Sey)

Em “Devotion”, Tirzah apresenta-se como uma voz refrescante à urgência do r&b alternativo: impõe uma pop futurista em câmara lenta e um imaginário visual e sónico singular, conjugando uma abordagem serena que nos relembra Sade, mas com uma voz que faz suspender os sentidos. Neste que é o segundo single do seu disco de estreia, os zumbidos britados de Sey envolvem-se em cada nota cansada da artista enquanto ela nos sussurra sobre amor e o quão ela sente a falta dele: “I just want your attention/ I just want you to hear me”. No final, Tirzah consegue-se erguer, mas a saudade continua.

 


[Noname] “Don’t Forget About Me”

Os temas fulcrais de Room 25 focam-se essencialmente no processo de crescimento e amadurecimento da artista: uma reflexão íntima, que Noname faz questão de partilhar com quem se atreve a ouvir. Há uma lição no final de cada música, e em “Don’t Forget About Me” aprendemos que a nostalgia é um caminho infausto, que a idade adulta matiza horizontes claustrofóbicos e que a melhor relação que alguma vez podemos desenvolver é com o nosso próprio corpo.

 


[Christine and the Queens] “Doesn’t Matter”

Héloïse Letissier só encontrou paz interior quando se apresentou enquanto Chris: uma personagem sem género, sem nacionalidade, sem qualquer rótulo. A nova imagem constitui uma superação da tristeza que padrões patriarcais da sociedade trouxeram antigamente, mas ainda com traços dela, consegue ter um olhar renovado sobre a realidade à volta. Dir-se-ia que depois da catarse, Christine & The Queens tem outra vez energia para se maravilhar com o mundo e criar um novo espaço de satisfação. “Doesn’t Matter” respira exuberância, vigor e, mais importante, liberdade: engolfada em synths pesados, vozes carregadas e um new wave do tempo de Blondie ou até Prince, há irrefutavelmente a sensação de um glorioso renascimento.

 


[Yves Tumor] “Licking An Orchid”

No meio de uma tempestade sónica que parece somente reflectir um mundo opressivo em total desordem, Yves Tumor apresenta-nos ao mesmo tempo momentos de uma beleza empolgante, com palavras que evocam torturas colectivas, mas também experiências amorosas individualizadas que se dissiparam. Tal como grande parte deste novo álbum, “Licking an Orchid” não é evidentemente música para quem procura conforto no reconhecimento social: é mais para quem não receia o embate com a densidade de algo novo e desconhecido. É um grito de libertação que transcende os padrões do que consideramos “normal”.

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