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De Amesterdão com amor, Kendrick Lamar

[TEXTO] Alexandra Oliveira Matos [FOTO] Mrinal

Os holandeses aguentaram seis anos sem ver Kendrick Lamar. Nós não! Os termómetros marcavam -1ºC, mas a sensação térmica era de oito graus abaixo de zero à porta do Ziggo Dome em Amesterdão. A mais de dois mil quilómetros de Lisboa, cidade onde o vimos actuar em 2016 no Super Bock Super Rock, entrámos na fila ordeira que nos levava à ala norte da maior arena holandesa. Dezassete mil lugares e nem um único sem uma história para contar depois de Kung Fu Kenny dar uma grande sova a todos os sortudos que conseguiram bilhete. “Isso é amor, Amesterdão, isso é amor!”, repetiu várias vezes.

Entrámos. Revistados até ao tutano, sem mochilas, sem máquina fotográfica. Esperavam-nos lugares na segunda fila a contar do tecto, do lado direito do palco, com vista imprópria para pessoas com vertigens. Talvez em Portugal tivéssemos reclamado dos cerca de 70 euros do bilhete, mas valeu cada cêntimo. James Blake já actuava. Sentado ao piano, longe do público, o inglês ia arrancando aplausos a uma audiência que ainda despia os casacos, comprava senhas de bebida e tentava aquecer-se. A boa acústica do espaço e o excelente desenho de luzes deixavam-nos cada vez mais ansiosos para o que K-Dot traria para o concerto.

“The DAMN. Tour”, dizia na cortina que tapava o palco para que a equipa técnica ultimasse os preparativos para a entrada do rei. A plateia agitava-se já preenchida e já em mangas de camisa. Nos ecrãs começávamos a ver as artes marciais de Kendrick até que o vimos efectivamente: ascendeu de dentro do palco, numa plataforma elevatória. Vestido de branco dos pés à cabeça, com um casaco de franjas que lhe dava um carácter místico e intocável. “I got, I got”: às primeiras palavras de “DNA.” começamos a observar um fenómeno a que nunca tínhamos assistido, pelo menos deste ângulo. Começam a abrir-se clareiras lá em baixo na plateia e no pico do beat formam-se pequenos remoinhos de fãs incontroláveis. “Daqui a pouco expulsam-me do edifício, mas não me importo”, afirmava Kendrick feliz depois de a meio do concerto ter incentivado a que os moshs fossem ainda maiores. Quase sempre sozinho em palco, não houve jogo de luzes, vídeos ou movimentos de ecrãs (muito bem conseguidos, deve dizer-se) que ofuscassem um só segundo a presença de K-Dot. Movimentava-se, ia à frente do palco com um fosso sem fotógrafos. Chegou a sentar-se, a rimar contra movimentos marciais de um bailarino vestido de preto, a cantar num palco a meio da plateia enquanto a plataforma se elevava sem rede para quedas. Novamente em palco, até rimou deitado sustentado no braço da bailarina. “I don’t love people enough to put my faith in men”, cantava em “PRIDE.” e nós jurávamos o contrário ao vê-lo em acrobacias.

DAMN. foi, claro, o álbum esqueleto do concerto, mas Kendrick não deixou de passar por outros temas que, sabíamos, iam fazer-nos cantar. “Goosebumps” de Travis Scott e “Collard Greens” de Schoolboy Q também fizeram parte do alinhamento. Assim como músicas de outros dos seus álbuns. “Faz sentido fazer uma viagem pelos álbuns todos”, afirmava antes de cantar “LOYALTY.”. “King Kunta”, “Untitled 07”, “Swimming Pools”, “Backseat Freestyle”, “m.A.A.d. City”, “Money Trees” e “Bitch, Don’t Kill My Vibe” foram as escolhas. “Há aqui fãs desde o dia 1?”, perguntava com a certeza de que não faltariam milhares de braços levantados. Por estranho que possa parecer, dada a descrição dos moshs e dos gritos, o público era o mais ordeiro que já vimos. Talvez consumidos pela luz que emanava de Kendrick, aplaudiam, cantavam, levantavam os braços, saltavam, sempre à batuta do maestro de Compton. Foi só na música de good kid, m.A.A.d. city, “Bitch, Don’t Kill My Vibe”, número dezasseis no alinhamento, que ouvimos a plenos pulmões aquelas dezassete mil pessoas gritar “Kendrick, Kendrick”. Parecia que se preparavam para cantar “HUMBLE.” meia dúzia de vezes seguidas.

 



Ah, esperem, foi mesmo isso que aconteceu! “If I quit this season, I still be the greatest, funk”: aqui K-Dot parava e o público começava “My left stroke just went viral” até ao fim do refrão. “Por alguma razão eu sei que conseguimos levar isto até ao nível quinze”, brincava sempre que parava a música e brindava o público com o seu cómico “Amsterdaaaam”. “Se não têm a energia necessária podem ir embora”, desafiava, mas sobrevivemos todos a seis rondas de “HUMBLE.” e Kendrick anunciou que ali, no dia 23 de Fevereiro no Ziggo Dome, se tinha conquistado o recorde mundial: mais pessoas, mais vezes seguidas, a cantar a faixa oito de DAMN.. Fosse lá isso o que fosse, o certo é que existia um clima de felicidade e gratidão. Parecia que, apesar de o alinhamento ser praticamente igual em qualquer concerto da tour, havia algo de especial que o rei tinha reservado para aquela data em específico e para os fãs de Amesterdão em particular. “Estivemos muito tempo afastados, mas não teria feito este trabalho sem todos vocês”, agradece Kendrick antes de pedir “posso cantar mais uma música?”. Rimo-nos! Desde quando é que um artista pede para cantar? São a humildade e simplicidade de Kendrick que lhe colocam a merecida coroa. “Lembrem-se destas palavras: eu voltarei!”, avisou e saiu.

Estivemos três dias em Amesterdão e chegámos a duas conclusões. Um: viajar para assistir a concertos é um excelente pretexto. Dois: este foi o melhor concerto a que já assistimos na vida. Tudo o resto se resume à voz de Kendrick a ecoar nas nossas cabeças a dizer “Amsterdaaaam”.

 


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