David Byrne no EDP Cool Jazz: transformar o mundo enquanto se dança

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Direitos Reservados

Quanto entoam nomes de vítimas da violência policial ao som de uma versão de “Hell You Talmbout” de Janelle Monae, David Byrne e os músicos que o acompanham em palco, descalços!, estão não apenas a homenagear injustas vítimas de uma distópica América, mas a garantir que a arte tem que servir para algo mais do que “entretenimento”. No concerto de abertura da 15ª edição do EDP Cool Jazz, no Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, David Byrne mostrou uma visão diferente para os palcos, um espectáculo altamente coreografado e tecnicamente singular em que nada se conforma com o que porventura possamos associar ao clássico concerto pop/rock.

Dispensando totalmente qualquer artifício cénico e até os símbolos clássicos de “poder” eléctrico da história rock — baterias artilhadas, montanhas de amplificadores, cabos e microfones –, Byrne protagonizou um espectáculo em que basicamente tenta reescrever o livro da performance pop: a luz é diferente, a gestão do espaço cénico é diferente, a roupa é diferente e até a instrumentação é diferente. Neste concerto, todos os músicos são peças móveis, com percussionistas e teclistas a terem que carregar as suas “ferramentas”, tal como os guitarristas, baixistas ou vocalistas. Comportam-se como se de uma marchante bateria de escola de samba se tratasse. E dançam. Ou melhor, executam complexas e ultra desenhadas coreografias que, face à “tela” despida que é o fundo de palco, fazem por vezes os músicos assemelhar-se a personagens num qualquer mural gigante de um moderno artista plástico. Só que animados, com movimento, com groove.

 



David Byrne faz até questão de esclarecer o público que praticamente esgota o amplo espaço que tudo o que se escuta é executado ao vivo e que não há ali espaço para playbacks, como poderia pensar quem se questione como tanta mobilidade pode ser compatível com tocar todas as notas certas que as canções exigem.

E que canções são essas? Previsivelmente, o mais recente trabalho de David Byrne, American Utopia, está muito bem representado na setlist que também acomoda espaço para recuperação de colaborações com Fatboy Slim ou St. Vincent, mas neste retrato musical de uma América utópica o material dos Talking Heads – de “I Zimbra” e “Slippery People” a “Burning Down The House” ou “Blind” – acaba por representar o papel principal, coisa que o público obviamente agradeceu com efusivos aplausos.

Mas o impulso não é, como até se poderia compreender, o da nostalgia. David Byrne parece apenas interessado no passado se o passado o ajudar a contar uma história. E essa história que o desafiante criador ali levou à cena é a história de uma arte que se quer mais interventiva, capaz de gerar pensamento, capaz de acomodar um olhar crítico sobre o mundo, capaz de agitar consciências muito mais do que simplesmente entreter. E isso, Byrne cumpre com distinção, com a ajuda de uma filarmonia carregada de funk e balanço, sempre a sublinhar percussivamente todas as canções, como se estivesse a tentar impor ao mundo um novo ritmo. Esse ritmo, acredita Byrne que até nos instigou a todos a votar, tem que ser o da mudança. Fazer um concerto convencional teria sido, por isso mesmo, parar de fazer sentido. E isso não é o que David Byrne quer para nós. Ainda bem, saímos a ganhar, portanto.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu