Estreou hoje, 12 de Fevereiro, uma série de cinco episódios na RTP Play para o qual o álbum homónimo Sangue & Mármore, uma áudio-novela de 2022 da autoria de David Bruno, serviu de “esqueleto”. O artista de Gaia escreveu o guião, criou a banda sonora e acompanhou do princípio ao fim a rodagem e a produção da série que conta com a participação de Rui Reininho no papel de Sequeira. Realizada por Francisco Lobo, companheiro de outras andanças, e produzida por Ana Almeida, da Anexo 82, esta série é, nas palavras do artista, “genuína, honesta” e “um sushi de portugalidade”.
Alguns locais do concelho de Gaia, escolhidos a dedo por quem lhe conhece todos os meandros e becos, servem de cenários crus e sujos diante uma lente que roda em 4K. Encontrámo-nos com o músico e produtor num dia chuvoso num desses locais da rodagem, que mais parecem saídos de um roteiro secreto de um ancião da terra — o restaurante O Cais, em Avintes, junto à foz do Rio Febros, afluente do Douro e demasiado fora do seu leito nesse dia. David Bruno falou-nos do processo, de como escreveu o guião e formou o elenco. Por entre os desafios que a série lhe proporcionou, refletiu sobre a necessidade artística de lançar presencialmente os seus álbuns ou, neste caso, a série, junto do seu público — e a apresentação deste Sangue & Mármore acontece já hoje às 21h45 no GaiaShopping.
Como é que surge esta ideia de passar para uma série de televisão a tua áudio-novela? Era uma ideia que existia à partida quando criaste o álbum ou surgiu mais tarde como uma evolução natural?
Quando fiz o álbum, a ideia já era este formato. Gravei-o nesse formato de áudio-novela por ser uma história tão densa. Eu faço isso mais ou menos em todos os álbuns, ou seja, cada álbum tem uma história, só que normalmente não é assim tão concreta, tão completa, com princípio, meio e fim. O Adriano Malheiro caloteiro é inspirado em factos reais mas não é uma história que começa, que tem meio e acaba; esta tinha, e tinha porque me surgiu na altura da pandemia e eu tinha tempo. Passei muito tempo a pensar nesta história, passava muito tempo à janela, e isto é tudo inspirado em factos que andam entre a meia mentira e meia verdade. Estas personagens são todas pessoas que eu conheço ou que conheci ao longo da minha vida. O Sequeira, por exemplo, é inspirado no meu vizinho da frente que eu via. Quando foi para fazer o álbum, eu pensei como de costume numa história, mas como tive muito mais tempo que o habitual pensei numa história completa. A história era tão completa que até fiz poucas músicas, fiz uma música para cada personagem, dei muito foco à historia, e já aí era uma coisa muito visual. A prova disso foi que quando saiu o álbum tive muitos contactos de pessoas com convites para transformar o álbum numa série ou num filme… De alguma maneira, foi este o projeto que acabou por avançar com esta produtora — a Anexo 82 — que é só pessoal meu conhecido. O realizador é o Francisco Lobo, foi quem fez os videoclipes do “Inatel” e do “Mesa para dois no Carpa”. É tudo pessoal conhecido. Eles sugeriram concorrermos aos apoios da RTP Play e assim foi. Houve um processo longo de aprovação da candidatura, aproximadamente dois anos, mas acabou por ser aprovada. A RTP play durante o processo também passou por uma reformulação, no fundo adaptou-se melhor a este tipo de pequenas produções. O nosso e os outros projetos que estão na RTP Play este ano são a primeira fornada da nova RTP Play.
Esta história está muito ligada a um lugar que é a freguesia de Avintes, em Gaia, claro. Isto surgiu-te logo com imagens?
Sim, quando saiu a áudio-novela eu tinha um visualizer, um álbum-vídeo de uma hora, no fundo eram cenas com planos fixos de um minuto ou dois, que duravam o tempo da narrativa, e já são nestes sítios que agora estão na série. Este que está aqui atrás (o restaurante e o passeio ao longo do Rio Febros) aparece lá mais do que uma vez, e foi aqui neste restaurante que gravámos o Rui Reininho. Ou seja, aquilo era quase o esqueleto desta série.
O argumento foi escrito por ti e tiveste que adaptá-lo. Como foi esse processo de transição?
A transição foi muito interessante porque eu não fazia a mínima ideia do que era escrever um guião, nem fazer uma série. Tinha as canções e tenho a minha experiência como empreendedor, de pessoa que faz pela vida e faz os seus próprios vídeo-álbuns, mas isso é uma componente muito artística, em que não é preciso ser tão concreto como fazer uma série: escrever o guião, fazer casting, contratar atores… e aqui não houve muito esse trabalho porque foi uma equipa muito caseira. De qualquer forma, eu não fazia a mínima ideia e quem me ajudou foi a produtora Anexo 82 na pessoa da Ana Almeida, sobretudo, e do Francisco Lobo também, que me transportaram para este mundo. Eu ajudei na produção, contactei estes sítios todos e fiz questão que os sítios que aparecessem na série fossem aqueles que eu tinha em mente e que conhecia. Escrevi o guião em conjunto com a Ana e também faço de ator — à falta de melhor, fiz eu. Mas, sobretudo, a parte principal e que foi uma grande novidade para mim foi escrever o guião.
Fala-nos disso.
Escrever o guião… o que é que eu sabia sobre escrever um guião? Eu sei histórias, tenho uma imaginação fértil, graças a deus, e tinha esta história. Havia muitas coisas que na áudio-novela não cabiam, sobretudo os detalhes — em que sala é que estão, como é a conversa entre as pessoas. Eu tinha isso em mente e foi fácil lá chegar, só que na altura do álbum não havia espaço para detalhar dessa maneira. Basicamente, tive que me sentar com a Ana e aprender com ela como se escrevia um guião. Eu não fazia a mínima ideia. Agora a esta distância, com a série pronta, vejo que houve um processo muito interessante durante as duas ou três semanas em que escrevi os cinco episódios. A Ana nunca me disse que determinada ideia era mais difícil de concretizar e isso é algo que eu lhe agradeço muito. Ela deixou-me ser naïf, deixou-me contar a história como eu imaginava, nunca me limitou, nunca me disse que isto ou aquilo ia ser mais difícil de concretizar, foi um processo muito natural. Foi como um avô a contar uma história a um neto, ela ia-me enquadrando e direcionando para o formato do guião, mas foi sempre um processo muito natural e isso nota-se no resultado final. É uma coisa de que eu tenho muito orgulho, nota-se que é uma coisa muito inocente, naïf, descomprometida. Foi esse o processo.
Os lugares, os personagens, os diálogos, os detalhes já estava na tua mente?
Sim, estavam porque todas as personagens são inspiradas em pessoas que eu conheci na minha vida. A Sandra Isabel, a mulher fatal, o Sequeira, são pessoas que eu conheci e por isso foi-me fácil descrevê-las e passar para os detalhes — qual era a roupa, qual era a linguagem, qual era a atitude, qual era o comportamento.
O teu estilo foi sempre o de contador de histórias mesmo quando usas o hip hop como veículo, mas neste novo desafio foi a música que conduziu à narrativa ou foi antes a história que te levou até à música?
Primeiro, o que leva a isto tudo é Gaia [risos]… e as pessoas que cá andam, os seus comportamentos, os sítios, as histórias que eu ouvi. Quando tens estes alicerces por trás e conheces muitas histórias… Por acaso, estou muito curioso com a estreia da série, porque há muitas histórias lá e há pessoas que eu conheço que vão ouvir alguns diálogos e vão dizer: “Ah! Quem disse aquilo foi o…” [risos] Por isso é que foi mais fácil e, neste caso, não foi nada subjetivo escrever. O que inspirou aquilo tudo foram factos reais.
E o que temos de música na série?
Eu sou o narrador, é essa a minha participação na série, faço aquela personagem que inventei, o Fraçois da Costa, mas sendo honesto, o meu sonho era que tivesse sido o Olivier Bonamici, o jornalista, pois foi na pronúncia dele que me inspirei. Não sendo possível, a pergunta honesta era: “Mas quem é que pode fazer isto? Se calhar, não podendo ser ele, tenho mesmo que ser eu.” Portanto, eu participo como narrador e quando aparece a música na série, aparece em momentos em que, eu diria, são uma espécie de musical, ou melhor, um misto entre um musical e um videoclipe. Eu nunca apareço como intérprete das músicas, portanto, a música na série aparece como uma verdadeira banda sonora. Se bem que eu também fui o responsável pela banda sonora e ela tem muito mais do que as músicas do álbum.
Mas também são tuas?
Não, isso foi um trabalho que eu fiz e que penso ter sido dos principais para dar um ambiente à série. O meu objetivo era que ela fosse uma série noir, escura, e nenhuma das músicas é propriamente noir. Perdi muitas horas a fazer a banda sonora com músicas que não são minhas.
Mas sentiste necessidade de criar mais músicas para a série?
Não, procurei música que já existia e referências pessoais. Quer dizer, para dizer a verdade, inicialmente pensei em fazer música, mas depois a RTP deu-me acesso ao catálogo da Universal e para mim foi como ser um menino numa loja de doces. Eles disseram-me: “Todos os samplers que estão na biblioteca da Universal, que deve ser uma das maiores do mundo, tu podes usar sem problemas de direitos de autor.” Então, a partir daí, passei muitas horas, mesmo muitas horas à procura e foi quase como fazer um álbum. Eu devo ter sacado centenas de músicas e depois andei a catalogá-las como “suspense”, “calmo”, “romântico”, “atmosférico” (i.e. sem bateria, para não interferir em cenas com fala). Foi a primeira vez que fiz algo do género e deu-me quase tanto prazer como criar um álbum. Adorei essa parte.
Ou seja, esse é outro trabalho artístico desta obra, à semelhança do guião.
É. E faz toda a diferença porque é o que cria o ambiente, o mood da série. Eu sou amante de cinema e sempre foi uma coisa que eu reparei, os grandes realizadores têm sempre um estilo muito próprio de bandas sonoras: o Tarantino, o David Lynch… No fundo, ajuda a construir o ambiente deles. Isso foi uma parte muito importante deste trabalho e deu-me muito prazer fazer. Eu já faço mais ao menos isso quando crio os meus álbuns com samples, só que depois vou usá-los. Ali é cru, vou usar um pedaço da música, do minuto tal ao minuto tal, para servir a banda sonora.
Nessa seleção ias atrás do que a imagem te sugeria?
Era a minha imaginação e as minhas referências num primeiro momento. Mais tarde, quando já tinha feito a seleção, a biblioteca catalogada com as coisas que eu achava que ficavam bem e quando tinha o rascunho dos episódios, ia testando. Quando me ria era sinal que tinha encontrado a música para a cena.
Como foi escolher atores? O elenco foi selecionado por ti?
Sim. Aqui não houve contratação pública, foi tudo ajuste direto [risos]. O Reininho estava predestinado, já tínhamos falado muito sobre isso, ele estudou cinema e já participou em muitos filmes. Lembro-me, inclusivamente, de me ter dito numa conversa que o convidavam sempre para fazer de vilão, porque para fazer de vilão não basta querer ou decorar o texto e fazer o papel, é preciso ter algo que está relacionado com a fisionomia, com uma certa atitude natural. Não podes pegar no Pedro Granger e dar-lhe um papel de vilão. Assim como, e pegando em erros de casting, não podes pegar na Fernanda Serrano e pedir que faça de mãe da Ribeira no filme Jaime. O filme pode ser muito bom, mas para quem é da Ribeira perde toda a credibilidade. Portanto, o Reininho já era o Sequeira e continuou a ser o Sequeira. A Gisela João, chegámos a falar com ela para continuar a fazer de Sandra, mas ela não teve disponibilidade. Escolhemos a Bárbara Magal e o casting foi assim: “De onde és Bárbara?” E ela: “Sou de Felgueiras.” “Leste o guião? Conheces esta personagem?” E ela: “Conheço, são aquelas dondocas que conheci em Felgueiras, mulheres de empresários cheios de dinheiro”. Aí eu disse logo: “Estamos alinhados, está feita a referência.” O Jorge Paupério, que faz de Guedes, é um ator muito antigo aqui do Porto que bate mesmo certo com a personagem. Ou era ele ou era o João Lagarto, mas sinceramente acho que o João não serviria para este papel, apenas pelo simples facto do Guedes ser muito facilmente enganado pela mulher fatal e o João Lagarto não tem cara de quem é enganado com duas cantigas. Não ia bater certo. O Jorge Paupério é bastante mais polido, educando, paciente, gentil, e é, por isso, credível que ele é enganado por aquela mulher. Às vezes é assim, as características das pessoas batem certo com os papeis. O Crespo é o João Delgado Lourenço, que foi uma recomendação da equipa, uma pessoa do Norte. Aliás, são todos do Norte, eu fiz questão. Não é que seja extremista, mas tinha que bater certo com as personagens. Só não consegui convencê-lo à fisionomia original, que é o cabelo rapado e rabo de cavalo, e também não tínhamos budget para fazer uma boa caracterização. Por fim, tivemos connosco, e é muito importante sublinhar isto, os atores do grupo de teatro d’Os Plebeus Avintenses. Por exemplo, as viúvas do Sequeira são cinco senhoras que estavam a fazer uma peça de cinco irmãs que se chateavam por causa de partilhas — perfeito! O vigilante do Zoo de Santo Inácio é o ator mais sénior do grupo de teatro dos Plebeus Avintenses e isso está completamente certo. Todos os elementos são assim, bate tudo certo, nada foi martelado.
Como eram as tuas conversas com o realizador? Foste acompanhando as gravações e iam decidindo em conjunto? Como foi o processo de filmagem?
Foi tudo in loco. O guião estava feito e o resto foi tudo feito in loco, nunca houve nenhuma situação de dizer: “Pára, isso está tudo mal.” Nunca houve nada disso. Eu acho que os atores e o realizador perceberam todos bem o guião. Como é uma história com lugares e pessoas comuns, mesmo que não sejam de Gaia, conseguem perceber o estilo das pessoas retratadas. Se fossem pessoas de longe daqui, talvez tivessem um pouco mais de dificuldade, mas eu penso que qualquer português ia perceber aquela história e ia associar aquela historia e aqueles comportamentos a pessoas que conhecem. Portanto, foi tudo muito fluído. Foi tudo decido in loco, não houve nenhuma preparação, nenhuma correção, não houve filmagens a parar e correu tudo muito rápido. Posso dizer que escrever o guião demorou mais ao menos um mês e as filmagens terão sido nem dois meses. O budget era limitado, teve que ser tudo condensado e feito de empreitada, mas também ou era assim ou não era. Tinha que ser tudo muito condensado e feito em pouco tempo, porque não havia dinheiro para pagar à equipa. Sabes, às vezes até é melhor. É como na vida, às vezes não ter dinheiro é melhor do que ter dinheiro. Não tendo dinheiro as questões estão solucionadas — se não dá, não dá. Para este contexto e para a minha série até funciona bem, se calhar para o Avatar não [risos].
O álbum saiu com umas imagens meio sujas, escuras, pouco polidas, anos 80 ou 90. É quase inevitável não me lembrar do Kilas, o Mau da Fita. Essa estética vai de algum modo passar para o ecrã ou era simplesmente impossível manter isso quando se filma em 4K?
Sim, essa é uma boa referência. As imagens são super polidas, nem havia outra hipótese com a RTP. Mas essa sujidade está ainda mais presente devido aos sítios onde é gravado. Não houve preparação de cenários e os sítios que foram escolhidos para gravar, como este que estás aqui a ver, já são sujos. Aqui há uma cena onde o Sequeira (Reininho) almoça com um cliente dos mármores depois de ir a uma pedreira ali em cima, e depois de almoço vão por aqui a baixo a dar um passeio junto ao rio para lhe mostrar a placa do outro lado do rio a dizer Gondomar. Por muito 4K que tu ponhas, isto vai ser sempre sujo. Portanto, as imagens passam muito essa ideia, era uma preocupação minha que ficasse demasiado polido, mas não é o caso, de todo.
No vestuário e adereços tiveram alguma preocupação em manter a coerência de época? A história passa-se nos anos 90, não é?
Bem, para dizer a verdade, aquilo passa-se pelos anos 2000, por aí. Lembra-te que há lá uma referência que dita todo esse tempo: a Sandra Isabel foi Miss Aveiro em ’97. É fazer as contas. Há muitas incongruências na série, o que é maravilhoso. Mas o ano da série é 2002, 2003, por aí.
Houve uma preocupação em manter essa sujidade mesmo na linguagem?
Ao nível da linguagem acho que é o mais terra a terra que poderia ser. Como disse há pouco, há muitos diálogos que eu estou curioso para ver a reação das pessoas que eu conheço quando virem a serie. Muitos vão dizer: “Mas isto foi o meu pai que disse” [risos]. Vou só dar um exemplo desses: a certa altura, a Sandra Isabel diz que o amante chega a casa a cheirar a gasolina, porque se rega com gasolina para ela não cheirar o perfume das mulheres; quem sabe dessa história vai ver e… [risos] Nos diálogos, não quis pensar muito no que as personagens iam dizer. Quando os estava a escrever, ou aquilo saía logo ao fim de dez segundos ou então passava à frente para regressar mais tarde. Todas as conversas têm que parecer circunstanciais ou de ocasião e que nós tivéssemos no dia-a-dia, e isso sim, foi uma grande preocupação ao escrever o argumento.
A intenção era trazer para a série a comédia e ao mesmo tempo a tragédia que estão nas tuas músicas?
Sim. É um noir, os elementos que aparecem são pesados, às vezes é até muito pesado, mas é impossível ser sempre pesado do princípio ao fim com os cenários e as referências que aparecem.
Houve um propósito para que a série tivesse esse lado cómico?
É como a minha música, eu não faço de propósito para ser cómico. São as referências, Portugal é cómico, o nosso dia-a-dia é cómico. Às vezes vamos a um espetáculo de stand-up e as referências são um pouco rebuscadas e rimo-nos, mas depois vais à mercearia buscar dez pães e riste ainda mais pela naturalidade com que as coisas são ditas. Essa foi um preocupação e essa é a comédia que está na série.
Que locais estão na série? A Casa do Marmorista, a Prio de Avintes, o GaiaShopping…
Estão todos os que apareceram no álbum. Quer dizer, a Prio de Avintes não, nem se pode dizer esse nome porque eu meti um story a brincar e eles ficaram chateados comigo e proibiram-me de gravar, portanto sou persona non grata na Prio [risos]. A culpa foi minha e eu tenho pena que eles não tenham percebido, por isso fui banido das Prios para sempre e tivemos que ir à Galp de Avintes [risos]. Mas aparece aqui o Cais do Esteiro. Por exemplo, no GaiaShopping, e até a propósito do que falávamos à pouco sobre o aspeto cómico, gravámos lá uma cena da Sandra Isabel, que é um jantar romântico com um dos seus amantes, um rodízio no Sabor Gaúcho do GaiaShopping. Quando imaginas um jantar românico, imaginas um sitio sofisticado e nunca ali, no Sabor Gaúcho do GaiaShopping com pré-pagamento [risos]. Há pouco falávamos da comédia e este é um bom exemplo, isto acontece e é cómico, não é feito para ser uma piada mas tem piada. É cómico e triste ao mesmo tempo, é a vida, é a realidade. Mas pronto, o GaiaShopping foi um desses locais e foram sempre impecáveis connosco. A Galp de Avintes, a Nacional 222, onde acontece uma perseguição, o Zoo de Santo Inácio, onde foram sempre muito simpáticos connosco, e claro, a Casa do Marmorista, que é uma casa de um senhor com muito dinheiro, mas do sector dos aviários, e que mantém o gosto requintado pelos acabamentos — o boss final dos acabamentos, por isso é que fomos para lá. Como disse, tudo bate certo, é tudo daqui e a melhor parte é que para gravar andava dois minutos de carro e já estava no local da cena. É por isso que digo: quando para mim transparece uma cena muito genuína e naïf da série, tem a ver com isso, notas que não há cosmética, é muito natural.
Consegues imaginar qual será o público desta série? Se calhar imaginas com facilidade o público que te chega pelo teu canal de YouTube, mas aqui é na RTP Play e talvez seja diferente.
Eu acho que é o mesmo público. Eu tenho muitos pais com os filhos nos meus concertos, tenho um público muito diversificado. Não é que eu estivesse a pensar muito nisso quando estava a escrever ou fazer a série, isso não foi uma preocupação porque a história em si não tem nenhuma ligação a determinada faixa etária. São inspirações reais, como por exemplo: a Sandra Isabel quer contratar um criminoso para ir buscar o dinheiro que o amante tinha em casa dentro de sacos plásticos, isso é uma história que se passou aqui, foi uma senhora que tentou contratar um homem para lhe matar o marido só que pediram-lhe um sinal grande, creio que eram 7 mil euros, ela deu-lhe só metade e ele não fez mais nada, então ela meteu-o em tribunal. Esta história não está ligada a nenhuma faixa etária, a avó conta ao neto, o neto conta aos amigos, são histórias do dia-a-dia. A senhora que me contou essa história disse-me assim: “Já viu, ela foi-lhe dar o sinal. Quem é que vai dar um sinal quando se contrata alguém para matar? Parece que é um stand de automóveis.” E isso está na série [risos]. Acho que todas essas referências não estão ligadas nem ao meu público, nem ao da RTP, nem ao de ninguém — são referências a lugares comuns.
O hip hop também está presente na série?
Está muito. Estão lá as minhas músicas, para começar, que utilizam todas o sampling e o meu estilo. A banda sonora cruza o hip hop. A cena que eu mais gosto do hip hop e mantenho para sempre é o sampling. Nesta série, nós temos sampling para fazer a música, sampling de frases de pessoas aqui de Gaia que foram utilizadas para construir o guião [risos]. Há muita coisa relacionada com esse espírito, embora hoje em dia não seja bem assim, mas pelo menos, quando apareceu o hip hop a coisa que eu gostava mais, como gostava no punk e nos géneros mais pequenos, era aquele espírito do DIY (do it yourself). Do género: eu não tenho, uso dos outros; improviso, faço à minha maneira. E nesse aspeto esta série tem muito disso. E nas músicas, claro, também há lá a sonoridade do hip hop.
Como é que o David Bruno, artista da contra-cultura, contador de histórias de Gaia, local, se vê a chegar a um público mais abrangente, mais nacional?
É uma boa pergunta, mas… não será que a maior parte da cultura que existe hoje é demasiado direcionada para nichos e afinal esta cultura, que se faz com referencias comuns, é que é a cultura verdadeira e a outra é que é a contra-cultura? Dá que pensar, porque esta série é para todos. Se eu tivesse que classificar isto, diria que é “cultura popular máxima”. Embora tenha toda esta estética e referências ao noir, ser falada em francês, o estilo da história, a banda sonora — eu diria bastante francesa, ou com um toque muito francês —, mas o que está lá escrito é do mais popular que há. Se tu fores transcrever aquilo para a realidade, é uma história que poderiam estar a contar neste café agora. Portanto, eu diria que de contra-cultura não tem muito. Se calhar, na minha génese tinha contra-cultura, porque quando comecei a cultura que se fazia era outra. Talvez o que faço agora não é tão contra-cultura quanto isso, como eu utilizo estas referencias a lugares comuns, se calhar de contra já não tem assim tanto. Talvez tenha na sua estética, na forma como é apresentada, no estilo, mas na sua essência é completamente popular.
Como é que alguém de Cascais olha para isto?
Uma coisa de que eu me orgulho quando vejo a série é que poderás não gostar, poderás não entender as referências, mas nunca poderás dizer que não é genuíno e, sobretudo, que não é honesto. É honesto ao máximo. A genuinidade e a honestidade do que lá aparece é tão grande que nunca ninguém poderá dizer que não o é. E desse modo, podes não gostar, mas não tens aso para criticar, na minha opinião.
Podem alguns olhares ver uma tentativa de ridicularizar?
Não. Nunca foi. E sinceramente, acho que nesta série ninguém foi ridicularizado. Acho, aliás, que todos têm bastante sobriedade. Agora, os seus gostos e as suas formas de vida podem ser questionáveis por pessoas que não os entendam. Eu tenho experiência nisso e acho que depende da maneira de como é apresentado. Se não for uma anedota do Fernando Rocha, em que propositadamente se faz uma caricatura e não se ri com, mas ri-se de… Acho que, no geral, mesmo quem não entender as referências e estiver distante desta realidade, no limite verá aquilo como algo exótico. Mas há sempre uma camada de respeito.
Achas que manténs a tua perseguição pela portugalidade?
Isto é sushi de portugalidade. Não é como numa letra em que eu tento rimar sobre uma situação que acontece, ali é mesmo a própria situação, com as mesmas palavras de quem a contou, no sítio onde aconteceu, portanto…
E a seguir, o que aí vem?
Tenho esta série para lançar e ando a trabalhar num álbum novo, mas cada vez mais tenho que dedicar mais tempo, esforço e trabalho a cada projeto que faço. Às vezes não quer dizer que tenha que trabalhar mais horas do que antes, tenho é que deitar mais coisas para o lixo. Durante este processo todo já fiz tanta coisa que noutra altura dava para lançar três álbuns, mas agora eu penso: “Se eu lançasse isto quando estava a começar, ia ser bom mas e agora?” Se calhar para mim é bom, mas eu tenho que ser cada vez mais exigente, e por isso acaba por ser normal que, à medida que o tempo passa, eu demore mais tempo. Não é que eu demore mais tempo a fazer a música, simplesmente coloco mais em causa aquilo que eu faço. Sinceramente, acho que já encontrei um caminho, e mais uma vez, os caminhos que eu acabo por encontrar, não é por eu passar mais tempo sentado a pensar neles, são coisas que aparecem. Felizmente, apareceu há algum tempo atrás uma coisa que eu já questionei para aí dez vezes e continua a fazer sentido, portanto…
Os teus albuns são todos DIY?
Sim, mas esse nível de exigência que eu falo, não quer dizer que vou arranjar um maestro para fazer os meus arranjos, quer dizer que, em termos criativos, o que lá está tem que ser sólido o suficiente. É um pouco como o que acontece com esta série, e era um dos grandes receios que eu tinha, porque esta não é do it yoursef, se eu chegasse ao fim e não gostasse daquilo, eu não tinha autonomia para dizer: “Olhem, afinal… RTP, não gostei muito disto.” Também por isso me envolvi muito de princípio ao fim no processo todo. Não chega isso, também é preciso ter um bocado de sorte, e tive.
Podemos esperar um novo álbum para este ano?
Não sei. Não sei se será este ano.
Mas a ideia é manter a coerência com o que está feito, com o David Bruno?
Com certeza. Mas aí é que está a questão. Como é que tu lanças um álbum novo, na mesma linha do que fizeste antes… Imagina que agora lançava um álbum de música clássica: e as pessoas que gostam de mim, como se iriam sentir a ouvir aquilo? Como é que eu lanço uma coisa que seja coerente com o que fiz até agora e que aos ouvidos das pessoas pareça fresco o suficiente para continuar a falar sobre aquilo? E que, aos meus ouvidos, pareça algo diferente e de que tenha orgulho?
Como vês o fim dos videoclipes na MTV ao mesmo tempo que a Taylor Swift cria vídeos de um minuto?
É muito complicado captar a atenção das pessoas nos dias de hoje e, de facto, com um minuto já estás a pedir muito das pessoas. Isso é uma coisa em que eu penso muitas vezes.
Sentes que a tua música precisa do vídeo e da imagem?
Eu acho que sim, porque conta sempre histórias. Uma coisa que funciona a meu favor é que, em termos de música, eu não sou muito abstrato e tenho poucas palavras. Portanto, aquilo funciona ou não. O “Bebe & Dorme”, se aquilo não funciona não adianta estar a fazer um solo com o Rui Massena no fim. Se não funciona, não funciona. E é por isso que, ao mesmo tempo, é muito difícil fazer música, o poder da síntese é mesmo difícil. Agora a parte da imagem… eu sempre lancei vídeo-álbuns de meia hora, mas quem é que tem paciência para ver vídeos dessa duração? Eu acho que hoje há uma oportunidade para esse tipo de formatos que antes não havia, que é tornar a lançar os álbuns fisicamente como eu vou fazer com a série no GaiaShopping. A série vai sair na RTP Play, mas vamo-nos juntar todos num sítio para a ver e, às vezes, mais vale conseguirmos mostrar aquilo a 300 pessoas que gostam e contam, do que fazer um vídeo de um minuto que vai chegar a um milhão de pessoas mas que amanhã já ninguém se lembra dele. Uma coisa boa que te aconteça presencialmente tu não a esqueces; um story ou reel de um minuto que gostes muito, amanhã já te esqueceste. Uma das coisas que tenho pensado muito e já começo a chegar a algumas conclusões e a algumas estratégias, é como é que eu vou continuar a garantir este contacto pessoal com as pessoas que gostam da minha música. E, ao mesmo tempo, dar-lhes experiências que eles se lembrem, como o lançamento do álbum de Corona na bomba de gasolina, como o concerto no shopping abandonado, ou no GaiaShopping. Continua a ser possível, e digo-te a verdade, é cada vez mais fácil porque cada vez mais as pessoas e os artistas têm fobia de fazer coisas presencialmente. Nós temos a sorte de termos nascido numa geração que ainda lida bem com ter que lidar com as pessoas presencialmente, portanto eu acho que passa um bocadinho por aí. Eu não quero competir com a Taylor Swift. Talvez faça alguns para conseguir pontuar nas redes e chamar atenção, mas não vou mudar a minha estratégia para fazer conteúdos de um minuto.
Fala-nos um bocadinho dessa estreia no GaiaShopping.
A estreia vai ser lá, como disse, eles foram sempre impecáveis. Eu fiz lá aquele concerto espetacular, foi um dos concertos que mais gostei até hoje da minha carreira, foi mesmo muito especial. Um dos piores sons de sempre, sem ser culpa deles, o espaço é que não foi criado para aquilo, mas sabes o que isso interessa ali? Para nada. O que interessa é a experiência. Então, quando nós gravámos a série, tínhamos muitas referências ao GaiaShopping, às lojas, e eles foram sempre impecáveis na ligação, e acabou por surgir a ideia de fazer a estreia lá. Portanto, vai haver um evento esta quinta-feira, está mais que esgotado, e haverá uma cerimónia em que vamos falar um pouco sobre a série, depois vamos para a sala e vemos os cinco episódios seguidos como se fosse um filme. Vai ser uma experiência in loco. É o que eu digo, podes ver a série dez vezes na net, mas ali vai ser diferente, haverá pessoas que vão guardar uma memória. Para além disso, estamos a preparar a série para a colocar em exibição como se fosse um filme, nas salas das terras onde a série se passa. Por exemplo, há um personagem que é o Victor Baía de Sandim, e eu acho que as pessoas de Sandim, que não fazem a menor ideia de quem é que eu sou, devem ter a oportunidade de ver a série em que o vilão é de Sandim sem terem que aceder à RTP Play.