David Bruno: “O Adriano Malheiro é tipo um D. Sebastião da construção civil”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira e Rui Miguel Abreu [FOTOS E CAPTAÇÃO DE VÍDEO] Sebastião Santana [EDIÇÃO DE VÍDEO] Luis Almeida

Com a nação hip hop a aumentar a um ritmo constante em Portugal, é normal que, cada vez mais, haja também espaço para que os produtores possam brilhar a solo. Nas edições, podemos encontrar marcos importantes na história desta cultura em The Pyramid Sessions, Inspector Mórbido, The Lost Tapes ou Beats Vol.1 – Amor, todos eles, curiosamente, lançados com o carimbo da extinta Loop:Recordings, e com os dois últimos a assumirem-se como peças fundamentais para a educação instrumental de David Bruno. Nos palcos, a coisa complica-se e são raros os casos que conseguem levar a sua obra até mais perto do público, com concertos muito pontuais ou até inexistentes.

Depois de nos ter oferecido O Último Tango em Mafamude, David Besteiro, que também é uma das metades do Conjunto Corona, tornou-se num caso pioneiro entre os beatmakers nacionais. O seu primeiro álbum editado enquanto David Bruno — um dos seus vários alter-egos, a par de dB ou 4400OG — mergulhou a fundo na herança musical romântica e popular portuguesa, tendo como principal influência o cantor Marante, conhecido pelas baladas de amor com um toque peculiar de malandrice à mistura, e abriu-lhe as portas para um admirável número de concertos em nome próprio por todo o país, tornando-se assim no primeiro produtor de hip hop em Portugal a gozar de tal estatuto nos mais de 20 anos de história que nos separam do Rapública.

Agora inspirado pela cena synth pop e pelos filmes de acção dos anos 80, David Bruno apresenta-se no seu registo mais afastado do hip hop de sempre, mas sem nunca esquecer os seus mandamentos, já que o sampling continua a ser peça-chave nas produções do artista de Gaia. O guitarrista Marco Duarte, elemento fundamental no embelezamento d’O Último Tango em Mafamude, volta a acompanha-lo em Miramar Confidencial, um álbum que segue uma narrativa imaginada por David Bruno, que aqui veste a pele de um jovem empreiteiro que perde a sua amada pelo meio de vários negócios ilícitos. Bruno de Seda é a aquisição mais importante para a concepção sónica do disco, responsável pelos arranjos de teclas espalhados por todo o alinhamento, mas há também contribuições de ilustres como Mike El Nite, Alferes Malheiro (aka Minus & MrDolly), Fernando Alvim, Samuel Úria e Este Senhor.

A loja Groovie Records, em Lisboa, foi o ponto-de-encontro entre David Bruno e a dupla de jornalistas do Rimas e Batidas, que uniram esforços para uma entrevista ao autor de Miramar Confidencial.



[Gonçalo Oliveira] Tu vens d’O Último Tango em Mafamude, um disco que deu uma volta de 180° na tua carreira a solo. Sentiste isso, certo?

Sim. Completamente. Eu até à altura lançava apenas beat tapes, nunca tocava ao vivo, e O Último Tango em Mafamude, quando o lancei, também não tinha planeado tocá-lo ao vivo. Mas pronto. Comecei a tocar ao vivo, começou a correr bem e comecei a explorar esse lado de tocar ao vivo a nível individual. Sim, foi uma coisa nova. Completamente.

[Rui Miguel Abreu] Vamos tentar estabelecer uma espécie de arqueologia, ou pré-história, daquilo que tu estás a fazer. Quem é que tu vês, na discografia hip hop nacional, como antepassados que tu podes reclamar como tendo preparado o caminho para a realidade de que tu agora usufruis, digamos assim? Há um público educado em ouvir este tipo de música desta maneira — sem palavras, etc. — a respeitar o trabalho de um produtor. Quem é que fez trabalho antes e que tu achas que te beneficiou?

Em termos de produtores… Sei lá, eu diria que tenho de agradecer aos clássicos todos. Ao Sam The Kid, por ter posto as pessoas a respeitar e a apreciar o que é o trabalho de um produtor. Eu diria também que uma das grandes referências para mim é o DJ Serial, dos Mind Da Gap. Na altura, eu via os Mind Da Gap como um projecto que estava muito à frente e sempre gostei mesmo muito. É uma grande referência para mim. Houve outros que se calhar não tiveram…

[RMA] Eu até me referia muito especificamente a quem editou trabalhos instrumentais antes de ti.

O Bullet, por exemplo. Era uma grande referência, não é? Pronto. Na altura o público se calhar não estava tão receptivo como hoje. Acho que se fosse hoje seria um artista que poderia ter uma carreira a solo grande ou razoável… Uma carreia a sério a solo, que na altura não teve. Mas o Sam The Kid, sobretudo.

[G.O.] Continuando a olhar para a história, já não terás, se calhar, tantas referências a nível de palco, já que todos estes trabalhos de que estamos a falar não tiveram grande representação ao vivo.

Eu não fui ver de referências de pessoas que tinham álbuns instrumentais e os tocavam ao vivo, porque na altura eu também não o fazia, percebes?

[RMA] Nem acho que fosses encontrar…

Nem acho que fosse encontrar, é verdade. Por isso não tenho nenhuma referência nesse sentido.

[G.O.] Quando dás esse primeiro concerto de que nos falaste, sentiste logo que a coisa tinha pernas para andar? Existiu também um esforço adicional da tua parte para que isso se tornasse uma coisa regular?

Sim. Isso até antes do primeiro concerto. Mal comecei a fazer os ensaios. Na altura conheci o Marco Duarte, o meu guitarrista, que é o elemento que hoje compõe os álbuns comigo e toca comigo ao vivo. Mal comecei a experimentar algumas coisas vi logo que, sei lá, é mais do que fazeres planos, é quando sentes alguma coisa. Estás a experimentar e dizes assim “wow, gosto disto. Quero tocar isto ao vivo. Quero mesmo fazer isto ao vivo”. E sim, senti logo na altura em que comecei a experimentar. Sobretudo porque é guitarra também, percebes? Se calhar se fossem teclas, um instrumento assim um pouco mais… Não queria dizer “tímidos”. Então aquele tipo de guitarra, que eu tenho lá, é uma coisa que ao vivo é muito espectaculoso e muito brilhante. E eu acho que se não fosse o Marco a ter percebido aquilo que eu queria fazer… Até porque eu quando o conheci foi muito engraçado. Conheci-o num concerto em que ele tocou com um projecto que tinha antes de mim e eu ouvi-o tocar e fez-me lembrar os Diapasão, o Marante, esse tipo de som. Eu fui ter com ele — se fosse outra pessoa tinha-me mandado dar uma volta — e disse-lhe “olha, Marco, eu tenho um projecto. Eu gostava que tu experimentasses fazer umas coisas, já tenho as ideias bem delineadas. Mas o que eu te vou pedir é que tu toques umas guitarras que são autenticamente Marante/Diapasão”. Qualquer outra pessoa até podia ter levado isto a mal — “estás mas é a brincar comigo.” Mas ele percebeu desde o primeiro momento e acho que é só por causa dele que eu estou a tocar ao vivo. Se fosse eu, sozinho, não.

[G.O.] Há pouco falávamos da abertura do público para este tipo de música: que feedback tens tido por parte das pessoas que vão aos teus concertos?

Acima do que eu esperava. Tem sido surpreendente. Nos concertos as pessoas mostram mesmo muito carinho. Eu também toco nalgumas teclas que… O saudosismo, para o público português, sei que é um bocadinho o ponto fraco, quando tocas ali. Para além do saudosismo também há uma outra dimensão — eu sempre gostei muito de políticos populistas, sejam em Portugal, com o Valentim Loureiro, etc.

[RMA] Os majores.

Os majores. Há um livro do Plinio Mendoza, um escritor colombiano, que é o Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, que é um estudo dos ditadores e dos populistas sul-americanos. E eu na minha carreira de David Bruno ao vivo tento usar essas técnicas populistas. E resultou [risos]. É também um laboratório, às vezes de ensaio — o agradecer muitas vezes ao público, dizer que isso é espectacular, etc. E funciona. É um lado que eu gosto de explorar e comecei a explorar.

[RMA] Estás mesmo a falar a sério?

Sim [risos]. É verdade.

[G.O.] Portanto além de músico és também um estratega social.

Utilizo um pouco aquela lógica populista, que hoje já está completamente morta, já não existem majores como o Valentin Loureiro nem o Avelino Ferreira. Isso hoje em dia já não funciona pelo menos na política. Mas aquela abordagem, aquele espírito, hão-de sempre funcionar. Eu sei que de início comecei sim, é verdade, a fazer uma espécie de experiências sociais. E funciona.

[RMA] Eu não sei se estás a par mas há um importante livro para a geração hippie da década de 60 que se chama O Livro Tibetano dos Mortos. É um livro do século XIV, budista, e que supostamente seria um manual para morrer e para renascer, porque eles acreditam na encarnação sucessiva. Esse livro influenciou muito toda aquela geração… Os Pink Floyd fazem uma música baseada na leitura do Livro dos Mortos, para os Beatles aquilo era uma bíblia, os Grateful Dead, todas essas bandas acharam aquilo mega interessante. Está prestes a sair um novo disco da Laurie Anderson, que é com ela a declamar textos do Livro Tibetano dos Mortos. É curioso eles pegarem num livro arcano quase como um guia para a sua música. Tu também tens o teu Livro Tibetano dos Mortos, no fundo.

Claro. E um exemplo vivo, que é o Major Valentim Loureiro. Repare-se o fenómeno incrível, das pessoas, nos concertos de Corona, gritarem no final de cada música “Gondomar”. É incrível [risos]. Nós já não temos hipótese de hoje dizer nada. Começa o concerto: “Gondomar! Gondomar!” Isso é populismo ao mais alto nível.

[RMA] Quando é que começas a oferecer torradeiras?

Electrodomésticos, microondas [risos]. Tenho que arranjar um patrocinador.

[G.O.] Estás numa fase da tua carreira em que te tens mostrado sempre um passo à frente de tudo aquilo que se passa no presente. Ainda quando estavas com O Último Tango em Mafamude e já tinhas o Gaia Chopping pronto para sair. Até cheguei a trocar umas mensagens contigo, em que me deste logo a ideia de que até já tinhas mais um disco a solo terminado. Na verdade, este álbum começou a ser pensado quando?

Este álbum começou a ser pensado pouco depois do Santa Rita Lifestyle.

[RMA] Já tinhas visto os tais graffitis espalhados.

Foi lá para o final do ano, exactamente, que já tinha começado a ver. Mas já tinha os instrumentais feitos. Porque é assim: como os meus álbuns são bastante conceptuais, a parte da criação da música nem é, para mim, a coisa mais desafiante. A parte mais desafiante é arranjar o “pacote”.

[RMA] É o “embrulho”.

É o “embrulho”. Eu já há muito tempo que andava a explorar este tipo de instrumentais, dos anos 80, synth pop. Eu gosto muito da onda do vaporwave, synthwave, etc. E já tinha começado a explorar isto aqui. Tinha muitos samples desde há anos, porque sempre quis usar isto mas nunca se tinha proporcionado nada. E quando começaram a surgir os murais do “Adriano Malheiro Caloteiro”, ali naquela zona de Miramar, que é uma zona que parou completamente no tempo nos anos 90, a parte sul de Gaia, da praia de Gaia. O norte de Gaia é que é o “Algarve” e aquilo parou completamente, nos anos 90. Eu comecei a ver aqueles murais com aquelas inscrições e comecei a imaginar esta ficção de um jovem empreiteiro, na altura das vacas gordas, que começou a construir na praia, etc. E esse universo sim, era o “pacote” perfeito para is buscar estes instrumentais todos. Depois é que vieram as letras.



[G.O.] Ou seja, a música foi sempre criada em primeiro lugar.

Sim. Normalmente é assim. Eu como estou sempre a produzir instrumentais, vários ao mesmo tempo, já tenho assim um caminho por onde seguir. E o importante é isso, é o “pacote” onde eu vou embrulhar aquilo.

[G.O.] Este acaba por ser o projecto em que tu sais completamente de fora da “caixa” do hip hop. Como é que tu classificas neste momento aquilo que estás a desenvolver?

Diria que será synthwave, para aí. Vaporwave não, porque vaporwave é tipo um chopped and screwed de samples e isto não é chopped and screwed. Tem muitas coisas compostas, arranjos de teclas… Eu diria que anda à volta desse universo do synthwave.

[G.O.] Há no entanto dois traços do hip hop que ficaram presentes no Miramar Confidencial: o sampling, ao qual tens recorrido sempre em toda a tua obra, mas também aquelas chamadas telefónicas que registas no disco, que me fazem sempre lembrar uma forma bastante personalizada daqueles shout-outs pelo telefone que ouvíamos nas mixtapes, como as do Bomberjack, por exemplo.

Só que isto é o oposto de um shout-out [risos].

[G.O.] Sim. Tu arranjaste a tua própria forma de ter shout-outs no teu disco, não descuidando a narrativa que tu tinhas criado.

Certo. Com a narrativa do caloteiro. Essa foi uma das primeiras ideias que eu tive. E mal tive essa ideia arranjei aquelas pessoas. Porque mesmo antes de fazer o disco já andava com isso em mente. Quando encontrava pessoas… “Qual seria o impacto de ter o Samuel Úria a ligar para um empreiteiro caloteiro de Gaia, a pedir-lhe os 500€ que lhe emprestou em Monte Gordo?” Então quando encontrava essas pessoas lembrava-me e ia-os convidando. Mas essa parte não é nenhuma novidade também no meu trabalho. 

[RMA] E esses feats. eram feitos ali no momento, com o telemóvel, ou havia alguma encenação mais rebuscada para fazer isso?

Normalmente eu enviava-lhes um texto, ou tópicos de um texto, para sugerir uns temas. Se quisessem eu enviava o texto completo. Alguns não quiseram. Basicamente era feito através de uma mensagem no Messenger, eles gravavam aquilo. “Ah, e a qualidade?” Qualidade não. A ideia é mesmo ter uma qualidade fraca, de voicemail. E foi assim que aconteceu. Completamente ao pontapé.

[G.O.] Além das guitarras do Marco, há aqui também muitas teclas presentes no álbum. Foste tu quem tocou essas partes?

Algumas. As outras foram o Bruno de Seda. O Bruno de Seda é um músico com quem eu também já me dou há muito tempo. Era o vocalista dos Equations. Ele tem um projecto dele, que é o Bruno de Seda, um projecto romântico que está muitas vezes associado ao universo de David Bruno. São mais ou menos parecidos. E até já fizemos um concerto. O meu concerto de despedida do álbum, quando eu disse que ia acabar com O Último Tango em Mafamude, foi feito com ele. Nos meus instrumentais participam o Marco e o Bruno de Seda.

[RMA] Nós se calhar podíamos situar O Último Tango em Mafamude na boate. O Miramar Confidencial é a dancetaria?

Este será a discoteca Iodo. Não sei se já ouviste falar. Uma coisa mítica que há em Francelos. Tinha a parte boa e a parte má. Também tem muita pesquisa histórica, este álbum. Há muitos pormenores que as pessoas poderão ver à primeira. Por exemplo há uma música com o Minus e nessa música ele aparece com um casaco, na sua personagem de Alferes Malheiro, que já existia também. O Alferes M. que participava nos trabalhos de Corona era o Alferes Malheiro. Eu lembrei-me logo, “Malheiro? Fogo, aqui vai ser por extenso”. Ele participa e tem um casaco de couro e um t-shirt. Atrás aparecem umas imagens, tipo de uma mata, cheia de pacotes, que são de um documentário sobre a toxicodependência que havia em Francelos, em Gaia. Havia ali um grande acampamento de ciganos e eles eram conhecidos por vender. Houveram muitas pessoas que iam para lá e depois ficavam a viver ali nas matas em Francelos, em Gaia. E as imagens que se vêm lá de um senhor a dar com um pau eram as milícias de Francelos. Organizaram-se grupos de pessoas, que iam para o apeadeiro de Francelos de Comboio, e quem saísse de lá assim, mais mal vestido, corria o sério risco de apanhar com um barrote na cabeça [risos]. E é por isso que ele aaprece com aquela cara. E um dos grandes motivos para escolher aquela zona, também porque me informei, era a discoteca Iodo. A discoteca Iodo era em Francelos, em Miramar, e esse sim, seria o cenário perfeito para este álbum. Foi o sítio onde o Rui Reininho escreveu a música “Dunas”. Sei que foi lá que o Vitor Norte gravou umas imagens para o Chico Fininho. Era uma discoteca completamente Miami Vice, só que em Francelos, em Gaia. Esse sítio é a casa completa do álbum.

[RMA] Essa pesquisa, quase antropológica que tu fazes, quão séria é? Ou seja, tu andas a falar com gente mais velha ou dás-te ao trabalho de ir ao arquivo do jornal local? Ou é só Internet? Como é que tu processaste tudo isso?

De início eu andava muito à procura das coisas. Quando os meus álbuns começaram a sair, eu passei a receber dicas. Estão sempre as pessoas a dar dicas…

[RMA] “Já viste isto?”

“Olha, já viste isto? Olha, vai lá ao sítio onde está aquilo etc.” Então hoje em dia eu tenho muita ajuda das pessoas a encontrar esse tipo de sítios. Mas sobretudo a Internet. Mas vou muito aos sítios. Basta dizer que, por exemplo, há uma coisa muito engraçada neste álbum, que eu usei para me inspirar. Um foi passar uma primeira fase só a documentar em vídeo os murais do “Adriano Malheiro Caloteiro”. Olhar para eles, para os sítios, para as pessoas à volta… Outro exercício que eu fazia muito, e é por isso que há lá uma letra que fala do Eros Ramazzotti: eu metia o CD do Eros Ramazzotti no carro, o Tutte Storie, aquele CD clássico dele, e ia pela Avenida Beira Mar fora só a ver o ambiente e a ouvir Eros Ramazzotti. Só daí deve ter vindo para aí metade da inspiração para as letras. Só a observar. Portanto vem do local e vem muito da Internet. E hoje vem de muitas pessoas que me dão dicas e a quem eu agradeço. Continuem a mandar.

[G.O.] De todas as colaborações que conseguiste para o disco, aquela que me saltou mais à vista foi a do Mike El Nite. É um nome que facilmente associaríamos ao tipo de conceito que tu crias para as tuas músicas, mas se calhar não neste registo em que te afastas mais descaradamente do hip hop. Como é que tu lhe “vendeste” esta ideia?

Na altura d’O Último Tango em Mafamude o Mike El Nite foi ver alguns concertos e na altura disse que gostava muito, e que gostava de colaborar comigo. Eu sempre o avisei desde início, “atenção, eu quero que tu colabores comigo mas eu não vou fazer uma música ao teu estilo. Eu vou fazer a foleirada toda e tu vens para aqui”. Não é fácil, atenção, tens que ser mesmo foleiro. Não é foleiro a brincar, é foleiro a sério [risos]. E ele aceitou isso com a maior das naturalidades. Então quando apareceu este álbum foi o primeiro convidado de quem eu me lembrei. “Olha, é o seguinte, tenho um álbum inspirado num fenómeno de um empreiteiro caloteiro de Gaia. Aquilo é tudo anos 80, completamente a estética dos anos 80, quero que tu entres aqui numa música que é sobre Miramar”. E ele fez o trabalho todo de pesquisa. Ele fala da bruxaria, ele fala do sal, da Senhora da Pedra… Foi ele que fez essa pesquisa. O Reijin, que ele diz na letra, foi um barco que virou na praia, nos anos 80, em Gaia. As pessoas iam para a praia ver o barco afundado e roubar peças [risos]. Ele fez essa pesquisa toda e quando me mandou a letra fiquei mesmo, de facto, impressionado, porque ele fez um trabalho excelente, mesmo, de pesquisa. Não pode haver melhor convidado do que este.

[G.O.] N’O Último Tango em Mafamude estavas habituado a tocar com um guitarrista nos concertos, mas no Miramar Confidencial tens uma presença muito mais forte ao nível das teclas. Como vai funcionar o álbum ao vivo? Vais adicionar essa componente?

Não, não vou adicionar. Porque eu gosto do minimalismo. É um gajo com uma “caixa” e pronto [risos].

[G.O.] Só tu e o Marco.

Só eu e o Marco. Desenvolvemos algumas peças, estamos também a trabalhar ao nível da luz, desenvolvemos uma projecção de vídeo própria para o concerto. Mas eu gosto muito deste minimalismo. “Então, é só isto?” É um gajo com uma “caixa” e um guitarrista, pronto.

[G.O.] Tu tens sempre o lado visual muito presente na tua obra, tanto a solo como em Conjunto Corona. Há sempre um vídeo para o álbum todo. Como é que vai funcionar essa vertente no Miramar Confidencial?

Igual. Eu não sou muito preocupado… Eu tive agora a sorte de ter ganho dois prémios com o videoclipe do “Mesa Para Dois no Carpa”, feito pelo Francisco Lobo, mas quando eu lanço um álbum, normalmente, não estou mesmo interessado em trabalhar com ninguém para fazer o full video. Por uma questão prática. Eu não estou preocupado em que aquilo seja o melhor vídeo do mundo. Eu estou preocupado em consegui fazer um vídeo que consiga passar às pessoas o que é que vai na minha cabeça quando eu estava a fazer aquilo. Passar-lhes a minha imagem mental de quando eu fiz o álbum. E aposto sempre em coisas muito low budget, como fiz, e este não vai ser diferente. É exactamente a mesma coisa. Com imagens um pouco diferentes mas segue a mesma lógica do anterior, como já vimos nesta amostra [do “Interveniente Acidental”]. Imagens de arquivo, imagens captadas pela minha câmara DVS, que eu tenho lá em casa, com baixa qualidade. E animações de elevadíssima qualidade [risos]. E segue a mesma lógica. E o objectivo é esse: as pessoas verem aquilo e eu tentar transmitir-lhes o que vai na minha cabeça quando ouço aquilo. E depois eles podem desconstruir e imaginar à sua maneira. É subjectivo.

[G.O.] E nessa história que tu imaginaste o Adriano Malheiro acaba como?

O Adriano Malheiro foge. Não sei para onde. Desaparece. Acabou [risos].

[G.O.] Não pensaste mais para além disso.

Se calhar pode vir a aparecer um dia. Mas o disco tem uma lógica, se o ouvirem. Começa com músicas de pompa e circunstância. Aquilo basicamente é uma história de amor entre um empreiteiro, que nos anos 80 começou a ganhar muito dinheiro na altura das “vacas gordas” e que conheceu uma mulher, por quem se apaixonou, que o deixou porque descobriu que ele é um caloteiro. Depois vai tentar ir atrás dela mas não resolve e tem duas opções, o amor ou o negócio. Escolheu o negócio. Pronto. Então o álbum começa com grandes músicas de pompa e circunstância, porque é o caloteiro a impressionar a sua amada. Depois há uma altura ali no meio em que o álbum quebra e, a partir daí, todas as músicas são músicas de desculpas. Este “Interveniente Acidental”… O “Interveniente Acidental”, eu descobri, é uma figura jurídica que me foi apresentada por um senhor que eu conhecia e que tinha uma loja de segunda mão. Ele ia muitas vezes a tribunal porque era: ele comprava coisas e vendia na sua loja. Depois chegava a polícia e dizia “esse bem é roubado”. E ele não sabia mas foi interveniente acidental. A música do “Interveniente Acidental” é o caloteiro a tentar dizer à sua namorada que ele não teve culpa nenhuma, ele foi apenas o interveniente acidental. E por aí fora. Do meio do álbum para o fim são só músicas de tanga. A última música é a “Serenata em Enxo1000”, que é quando ele vai a casa da sua amada tentar convencê-la com uma serenata, em que lhe promete marisco, santola, sapateira, e a música acaba com ele a dizer “esquece porque isto não deu”. Desiste da sua amada. Desiste e desaparece. Para mim, o Adriano Malheiro é tipo um D. Sebastião da construção civil [risos]. Vai desaparecer no fumo. Se calhar abre empresas com outro nome e pronto.



[RMA] Tu viste uma série espanhola, passada na Galiza, chamada Fariña?

Vi e adorei.

[RMA] Tu estás a ver-te a ser um dia chamado a explorar, tendo em conta este trabalho de recuperação de uma memória que nunca ninguém glorificou antes, algo semelhante?… Todos estes universos, estes episódios que tu vais relatando, dariam séries incríveis, não?

Dariam com certeza. Há vários episódios… Eu tenho um arquivo. Quando vejo coisas de que gosto descarrego e gravo. Há, por exemplo, um episódio de que eu falo muitas vezes — é a “Trofada”. Foi uma espécie de Guerra Civil que houve na Trofa, por causa do futebol, claro. O que mais movimenta os portugueses? O Trofense ia descer na secretaria e o que aconteceu foi que estava tudo mais ou menos resolvido e estavam lá uns polícias, que nem eram daquela zona, e bateram numas crianças da Trofa. Aquilo provocou… Se forem ver as imagens, não é… São pessoas que davam carrinhas velhas para queimar no meio da cidade. Durou três ou quatro dias, uma autêntica Guerra Civil na Trofa. A “Trofada”. A coisa mais engraçada é que no final há um polícia, que não era claramente de lá, tinha uma pronúncia aqui do sul e devia de estar destacado para estar lá a tratar daquilo, farto, com uma shotgun atrás dos braços, e diz assim às pessoas: “pessoal, vocês já mostraram o vosso ponto. Nós temos filhos, vocês têm filhos. Opá, deixem-nos dormir.” E acaba [risos].

[RMA] À boa maneira portuguesa.

Episódios como esses, portugueses, incríveis, os “Eucaliptos Fumegantes”, o fenómeno dos eucaliptos que mandavam fumo e começaram a juntar romarias de autocarros. Eu tenho dezenas de episódios portugueses que teria todo o gosto…

[RMA] Quem é que tu vias a realizar uma coisa dessas?

Pois, não sei… Ah! O Jorge Pelicano. Se fez o Tony Carreira, também pode fazer a “Trofada”, claro.

[RMA] E tu obviamente tratas da banda sonora de todas as temporadas.

Com todo o gosto.

[RMA] Diz-me uma coisa: nós podemos hoje pensar no David Bruno como uma personagem ou é alguém real?

É a personagem mais real que eu tenho em todo o meu universo.

[RMA] Então nós estamos a falar com uma personagem real neste momento?

Sim. Com uma personagem real.

[RMA] Esse sotaque com que tu falas, quando estás a dar estas entrevistas, é o sotaque que tu usas no dia a dia ou sentes-te a puxar um bocadinho mais por ele quando estás dentro da personagem?

Quando estou dentro da personagem posso usar algum calão que normalmente não usaria. Mas a forma de pensar, sobretudo a forma de estar, não diria desenrascado mas assim afoito, esta forma de estar, deste personagem David Bruno, é a minha, completamente.

[RMA] Tu já lançaste música em CD, em pen drive, em raspadinha, em VHS, cassete e, agora, CDR pirata, daqueles que se deviam vender nas roulotes da Feira de Matosinhos. Ainda não editaste em vinil… 

Nunca editei em vinil.

[RMA] Qual é o projecto que tu estás a reservar para te estreares nesse formato?

Eu vou dizer-te. O vinil, eu não gosto dele porque não é low budget. Eu gosto… Aliás, este álbum que eu vou lançar agora em DVD é um DVD pirata, gravado em casa, no Nero, e é um incentivo, até vou dizer isto abertamente, para as próprias pessoas o piratearem se quiserem. Tirarem uma fotocópia da capa. E depois, se quiserem ir ver os meus concertos ou comprar-mo para me apoiar, tudo bem. E eu gosto destes formatos, que são facilmente pirateáveis, copiáveis, qualquer pessoa pode fazer em casa. E é só por isso que o vinil nunca me fascinou, porque hoje em dia não é uma coisa low budget. É o oposto.

[RMA] Só para terminar: há uma corrente musical da electrónica que eu tenho seguido com muita atenção, que é a hauntology, um termo que vem de “haunt”, no sentido de “assombrar”. Basicamente tem a ver com com as memórias que informam a nossa percepção do passado: há uma certa glorificação de um certo passado, sobretudo aquele que está ligado ao que nós víamos na televisão, etc. Que memórias, desse lado televisivo da tua infância, é que eu achas que se tornaram referências para ti? O que é que colocarias no top 5 do canal de cabo que tu poderias vir a programar um dia?

Esta capa deste DVD é um byte. O álbum anterior era uma cópia de um álbum do Marante. Este é uma cópia do primeiro filme que lançou o Steven Seagal para o estrelato, que é o Above The Law. Os filmes do Steven Seagal — o meu pai era fã do Steven Seagal, um bocado Van Damme, mas mais Steven Seagal — são as coisas — e eu uso muito, vão ver agora no full video referências a isso — que me assombram mais. Porque eu adoro a ausência de noção. Na altura não havia noção, o herói podia fazer o que bem lhe apetecesse. Podia sair de uma explosão com o cigarro debaixo do braço e com um gatinho ao colo. Hoje em dia só na comédia é que se podia fazer isso. Ninguém leva isso a sério. Portanto eu diria que esses filmes, que o meu pai e o meu avô — era os dois fanáticos — estavam sempre a ver, sempre a espetar-me com esses filmes. Estavam sempre a ver filmes do Steven Seagal em casa. Eram fãs. Eu acho que isso é o que guardo mais na minha memória. É por isso que esta capa foi feita assim.

[RMA] Dirias que essa celebração de chulos, dealers, gajos que são caloteiros — tudo shady characters, digamos assim — têm que ver com uma certa resistência a uma moral dominante? É uma maneira de ir contra a corrente, também?

A coisa que eu aprecio nos caloteiros, nos chulos, etc., é que são pessoas que fazem pela sua vida. Não interessa o que é a moral. Interessa que se vai desenrascar. De que maneira? Como puder.

[RMA] Jantar santola, não é?

Sim [risos]. Eu quero jantar santola. Agora vou fazer o que me apetecer. Vou passar umas facturas falsas aqui [risos]. Ou vender a mesma casa duas vezes. E eu não apoio isso, mas consigo, de certa forma, respeitar esse espírito bravo. Podiam ter um emprego de outra forma mais legítima, mas essas pessoas fazem pela sua vida. Desenrascam-se.

[RMA] Uma última pergunta. Como dizia há bocado o Gonçalo, tu pareces que estás sempre um passo à frente e quando estás com uma coisa a acontecer, se calhar, na tua cabeça, até já estás a pensar ou a executar a próxima. O que é que podemos esperar a seguir na tua discografia? Conjunto Corona, outra vez?

Já está [risos]. 

[RMA] E ainda este ano?

Não consigo dar prazos.

[RMA] Mas o próximo capítulo será Conjunto Corona?

Só não sei quando. Mas o “pacote” já está. Já foi feito. Agora é enchê-lo.


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