Dave East no Musicbox: com o peso de Harlem às costas

[TEXTO] Ricardo Farinha [FOTOS] Pluma

Dave East cresceu no Harlem, bairro de Nova Iorque na ilha de Manhattan, onde as pontes sempre fizeram parte da sua história e dia a dia — para atravessar o Hudson em direcção a Nova Jérsia ou para passar o East River e ir para Brooklyn ou Queens.

Aos 31 anos e com uma carreira firmada, pontes é o que Dave East continua a fazer todos os dias. O rapper nova-iorquino carrega a bagagem de uma escola clássica do hip hop e cruza-a com apontamentos sonoros mais actuais, numa mistura que é altamente benéfica e essencial para o seu bom momento.

Lançou em Novembro o primeiro álbum de originais, dez anos depois de ter começado o seu percurso no rap, e após inúmeras mixtapes editadas e provas de qualidade dadas. O disco intitula-se Survival e relata essencialmente a história de Dave East, a difícil vida nas ruas e o hustle necessário para superar as dificuldades e chegar a um novo patamar.

Dave East faz a ponte entre a tradição do rap — tem Nas e DJ Premier no álbum — e as tendências mais modernas, ao ter Gunna ou Lil Baby, entre outros nomes ligados ao trap, a colaborar consigo no disco. Tanto há instrumentais de Timbaland como de Murda Beatz, AraabMuzik e Swizz Beatz. Os temas soam frescos embora a preocupação e consciência lírica seja uma constante.

Foi precisamente isso que se viu esta sexta-feira, 20 de Dezembro, na estreia de East em Portugal. O rapper actuou para um lotado Musicbox, em Lisboa, no último concerto da tour europeia que serviu para apresentar o longa-duração.



O formato é o mais convencional. DJ atrás a disparar beats, hype man na frente de palco, crew na retaguarda a mostrar apoio e a fazer a festa, e Dave East a comandar a plateia ao centro. Tanto há bangers para abanarmos o corpo — noutro ambiente poderia até ter chegado ao moshpit — como Dave East interrompe de forma constante os instrumentais para rimar acapella para prestarmos bem atenção às rimas internas que faz e à mensagem que pretende transmitir.

O público é aquele que nos habituámos a encontrar nos eventos da produtora Versus, responsável por trazer Dave East a Portugal. Uma geração mais madura de ouvintes, na casa dos 30 anos (ou 20 e muitos), que cresceu a ouvir nomes como o padrinho Nas e que recebeu de braços abertos o afilhado Dave East quando este começou a aparecer e assinou pela Mass Appeal e pela Def Jam Recordings. Tudo bom gosto, portanto.

É notório que não existe uma preocupação enorme em que tudo soe bem — há várias faixas cortadas a meio, fade-outs pouco trabalhados de beats e nem todas as muitas rimas são ditas de forma 100% correta por cima da backing track.

Mas isso é assumido: é um concerto competente de rap à séria, uma festa enérgica em cima do palco, a puxar pelo público seja para a multidão se mexer ou colocar as luzes dos telemóveis e isqueiros lá em cima, no ar. Mais do que excelência musical, o que interessa é a vibe e Dave East e companhia conseguem entregá-la ao vivo, seja de casaco desportivo ou em tronco nu, numa actuação que durou perto de uma hora e meia (com direito a warm-up do hype man Kiing Shooter).

É pena que Dave East não tenha conseguido uma sala maior em Portugal e os bilhetes só tenham esgotado no dia anterior — o artista merecia mais interesse por parte do público português — mas quem estava tratou bem de East e o americano só teve de retribuir e puxar por esse carinho.


Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha