Dada Garbeck: “Tenho uma relação muito íntima com o dadaísmo e o surrealismo”

[TEXTO] Gonçalo Tavares [FOTO] Direitos Reservados

A estreia do projecto do vimaranense Rui Souza, que aqui assina como Dada Garbeck, já está disponível em CD e nas plataformas digitais — e tem o selo da editora/promotora Revolve. The Ever Coming é um loop de 36 minutos de “uma tontura boa” ao som do órgão, dos sintetizadores e da voz.

 



Comecemos pelo nome: Dada Garbeck, o que significa e como se relaciona com o que ouvimos?

O nome tem uma relação com o tipo de investigação que sempre desenvolvi ao longo do meu trabalho. Tenho uma relação muito íntima com o dadaísmo e com o surrealismo, na forma como o dadaísmo pode ser um motor de avanço na criação de novos paradigmas de linguagem musical, por exemplo. O Garbeck está relacionado com um suposto escritor, pouco conhecido, de que ouvimos falar mais em livros de outros autores. É uma espécie de Sócrates, em certa medida, que ajudou a desenvolver o pensamento surrealista e o movimento dada.

Dada Garbeck não é música surrealista nem dadaísta. Eu sou Dada Garbeck, eu sou aquela pessoa, o que por sua vez está inevitavelmente na minha música. Mesmo que toque Chopin, este lado dada está lá sempre, ainda que não pareça. A relação é esta, humana e até biográfica. Portanto, o nome não se relaciona directamente com o que ouvimos. É aquilo que eu também sou, muito para além da música.

Fala-nos do teu trajecto. Como chegaste a um projecto onde te munes somente de um sintetizador e de um órgão para fazeres música?

Desde cedo que me dedico ao órgão de tubos, e que o estudo em paralelo com o piano (aliás, actualmente faço investigação com órgão de tubos ibéricos). Fiz um percurso meio tradicional, do clássico para o jazz, do jazz para uma liberdade qualquer que ainda estou à procura. E estas teclas sempre me soaram a electrónica, com a qual mantive um certo amor. Para mim, o órgão de tubos é um sintetizador.

Depois de ter tocado com muitos músicos de muitos projectos diferentes, de ter composto para muita gente, chegou um momento em que comecei a procurar uma certa solidão, uma clausura, e comecei a trabalhar sozinho neste projecto. O Hammond está sempre comigo dada a relação de amor que tenho com órgãos, e o sintetizador/sintetizadores são um complemento ou uma extensão para esticar todas as possibilidades de composição e de viagem. De alguma forma, o órgão, na electrónica, humaniza-a, e isso interessa-me.

Há uma predominância do órgão eléctrico em The Ever Coming. O que te atrai neste instrumento?

Este instrumento é, para mim, o mais transcendental. O som dele, todas e cada uma das suas frequências, provoca-me uma sensação de elevação muito grande. Eles tocam sozinhos, têm sempre umas ondas quaisquer a habitar por lá, sejam de tubos ou sejam eléctricos. Será por isso que se chamam órgãos? Porque são organismos vivos? Não sei. Sei que vou para muito longe com estes instrumento, e é isso que eu quero. Atraem-me tantas coisas nele que não as consigo explicar em poucas linhas. Fiquemo-nos pela sua transcendência universal.

A tua música tem uma qualidade muito atmosférica. O que é que pretendes traduzir para som: algum espaço ou imagens que tens na memória ou algo mais narrativo, como uma história?

Este disco tem realmente uma linha narrativa. Ultrapassa a narrativa por causa da circularidade na música, pelo facto do tempo não ser linear. O tempo é transe, é redondo, volta ao princípio, que é um outro princípio mas que também é o mesmo.

Estas paisagens [do disco] são filosóficas. A narrativa está ligada com a viagem de um homem velho que se decidiu enclausurar e sair da sociedade. Mas não é misantropo. E apesar de eu ter uma narrativa desenvolvida e fechada, deixo o resto da história para que cada um posso imaginar a partir daqui.

Os loops que crias induzem uma pequena hipnose. Procuras provocar alguma sensação do género, mais introspectiva, em quem te ouve?

Sim. Hipnose, transe, transcendência, circularidade, roda, círculo.. No fundo, o Sufi, que explica muito do que me interessa trabalhar em Dada Garbeck. De que forma podemos entrar num loop de tontura boa, num estado meditativo ou até numa confusão mental. E como é que isso desperta todos os nossos sentidos, no corpo e na mente. E qual a percepção do tempo durante a escuta. Claro que são estados difíceis de alcançar e se calhar ainda não o consegui fazer com a minha música. Mas quero trabalhar nisso.

Apesar de não ser o único momento do registo, em “Kali Yuga or the Ever Coming” ouvimos uma voz com destaque, numa colocação que remete para cantos tradicionais. Porquê este tratamento da voz e porquê este destaque no final do álbum?

Mais uma vez, tem ligação comigo. Faço muita pesquisa relacionada com a tradição oral, sejam as polifonias minhotas, os tenores da Sardenha, o Gana em Malta ou as polifonias ISO na Albânia. Acho que o mundo não percebeu que a maior riqueza que ainda temos são estas tradições orais. E no que me toca, musicalmente, dedico grande parte da minha vida a estudar e a aprender sobre este assunto, sempre consciente do nada que ainda sei ou sabemos.

Esta última música, que se liga com a primeira por terem a mesma melodia, tem realmente um foco grande na voz e na circularidade. Este disco faz parte de uma tetralogia, e o segundo disco será todo dedicado às vozes, até onde é que elas podem ir. Então, esta música é o fim do disco mas é também o seu início e é ainda o início do próximo [disco], que há de chegar em breve, e andamos aqui às voltas.

Independentemente destas voltas e de todas estas conceptualização rotundas, o que me interessa mesmo é o prazer e o amor. É isso que fica, que eu quero ter e que eu quero dar. O resto é conversa e as conversas, ainda que muito importantes, são levadas pelo vento.

 


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