Debaixo da Língua com Kalaf: “A lusofonia é algo que ainda está em construção”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Os Buraka Som Sistema definiram uma era na música portuguesa e Kalaf, membro fundador, é o artista que se segue nas entrevistas incluídas na edição original do livro Debaixo da Língua, um projecto do festival O Sol da Caparica, que iremos republicar por aqui. O Sol da Caparica, entretanto, regressa já nos próximos dias 11, 12, 13 e 14 de Agosto e tem no cartaz deste ano nomes como Mundo Segundo & Sam The Kid, O Rappa, Orelha Negra, Jimmy P ou, entre tantos outros, Djeff Afrozila.

 


É já longo o percurso de Kalaf, mas com uma face mais visível depois do sucesso internacional do projecto Buraka Som Sistema, um dos pilares do impacto da modernidade musical angolana. Mas a voz de Kalaf não se tem embalado apenas nos ritmos do kuduro e tem-se feito sentir também nas páginas de jornais e livros como cronista de caneta aguçada que sabe olhar e pensar a realidade que o rodeia.

Vou atirar-te uma palavra para as mãos. Diz-me depois se queima: “lusofonia”…

Queima, queima sim. A lusofonia é algo que ainda está em construção e que pode vir a fazer sentido num mundo mais justo e equilibrado. Estamos todos a lutar por ele. Há muita gente jovem com vontade de abraçar essa palavra, de se apropriar dela para a reconstruir e oferecer-lhe um novo significado. A lusofonia no geral serve propósitos políticos e nem toda a gente a entende da mesma maneira. Para os africanos, a agenda da lusofonia prende-se com a noção de comunidade. Para os portugueses essa agenda tende a ter preocupações mais económicas que ainda carregam, de certa forma, os ecos do império e isso é preocupante. Mas depois, na prática, há um grupo mais jovem que anda para aí a correr em busca de uma forma de comunicarmos e interagirmos em comunidade. Na minha visão, agrada-me o facto de falarmos português e agrada-me esta tentativa de atrair mais falantes de português para esta comunidade. É ver como o fado ou a bossa nova chegam ao Japão e atraem gente para esta língua, que depois se interessa e quer vir cá aprender. Ler Saramago ou Pessoa em inglês é uma coisa e lê-los em português é outra. Ou o Mia Couto ou o Jorge Amado.

Partilhar um espaço pressupõe estabelecer um diálogo. Essa conversa entre Portugal e África, entre Portugal e o Brasil, entre o Brasil e África existe?

O diálogo existe, mas as agendas são muito diferentes. Temos que encontrar assuntos comuns.

Centremo-nos na música: Rui Veloso cantou com o Dany Silva. Há mais diálogos assim?

Começam a aparecer. A geração do Anselmo Ralph é diferente. Tenho ultimamente discutido a ideia de que os Buraka ajudaram a desmistificar os preconceitos que existiam em relação às sonoridades que vinham das periferias. Quando eu ouço a RFM a tocar o Anselmo apetece-me dizer: “eu sabia, vocês é que não estavam atentos”. E toca em playlist e isso tem um poder enorme. É isso que muda as percepções. Acabei de chegar do Rio de Janeiro e o que eu expliquei aos jornalistas cariocas é que sinto o Rio a estagnar e que eles precisam de algo semelhante ao que está a nascer em Lisboa.

 



E o que sentes a emergir nesta cidade que seja distinto?

A Mayra Andrade vai mudar-se para Lisboa, o Nelson Freitas mudou-se para Lisboa, o Anselmo vive cá, o melhor estúdio de Angola é nos arredores de Lisboa… Há uma ponte aérea a funcionar com Cabo Verde, com Angola. E artistas como a Ana Moura e a Mariza também têm presença e impacto em África. Não vejo o mesmo corredor aberto com o Brasil que ainda oferece muita resistência. Artistas como o António Zambujo são aí uma excepção. Não se entende como apesar da crise toda ainda assim é Lisboa que oferece o melhor palco para o kuduro e a kizomba e a bossa nova e tudo o resto. Não deveria ser o Rio? Uma coisa que eu disse a uma pessoa muito preocupada e atenta à lusofonia é que é importante estudarmos aquilo que temos, ainda há muita coisa a fazer. Uma delas é estudarmos fenómenos como as festas de Santo António, que é a única festa popular que Lisboa tem. À semelhança do SXSW (que mencionei nessa conversa com essa pessoa), as festas de Santo António são vividas e feitas por pessoas, pois para lá das marchas há as festas nos becos e nas pracetas da cidade. Costumo dizer que da forma que adoro também detesto os pensadores e arquitectos da cultura porque tentam interferir. O grande responsável pela mudança cultural de Lisboa foi provavelmente o Cavaco Silva e ninguém pensa nisso. Foi na era dele que tivemos a política de erradicação das barracas, que foi a grande responsável pela miscigenação que estamos a viver agora com a kizomba. Tínhamos os africanos a viver nos bairros de lata e algures a meio dos 90 estavam nos bairros sociais a conviver. Foi um fenómeno curioso: tinhas africanos, portugueses, ciganos, tudo num bloco de cimento de não sei quantos andares. Outra coisa que também é da era do Cavaco Silva são os centros comerciais: são espaços onde as pessoas estão a conviver. Não há uma política cultural – exceptuando a económica -, são as pessoas que dão vida e alma àquilo. Quando vamos ao McDonald’s vemos muitos africanos e portugueses e a banda sonora é kizomba, ponto. Mas também sei que em certos momentos da vida cultural da cidade aquele jovem branco vai levar o colega negro aos Santos Populares e a ver uma Lisboa que não conhecia. E vão comer sardinhas, cantar fado vadio, beber vinho e brincar com o manjerico.

Na América o hip hop meteu um presidente no poder. O que é que vai acontecer com a “kizombização” de Portugal?

Da mesma forma que um está a absorver a kizomba, outro está a absorver o fado. O que acontece é que, de repente, há uma audiência para a kizomba e isso sem dúvida é fruto das políticas de erradicação das barracas. Durante muito tempo eu dizia que racismo é ignorância, mas estou a começar a mudar esse discurso e a identificar algo de mais preocupante: o racismo é perpetuado por quem realmente sabe da coisa. O ignorante é aquele vizinho branco, ou negro, português que, desconfiado do vizinho que acabou de sair das barracas está a ocupar o 5ºC, passa a ver o filho dele a conviver com o do 5º C. Vão para a mesma escola, ouvem a mesma rádio, falam o mesmo slang criolo de Cabo Verde. De repente aquele individuo do 5ºC deixa de ser um desconhecido.

É uma ideia interessante porque pode erradicar-se esse tipo de problemas através da comunhão da língua…

Agora, quem realmente vem espezinhar são os pensadores. Eu digo sempre que o pensamento da nossa era é baseado nos iluministas, em Kant, Voltaire, todas essas figuras gigantes. De certa forma, quando olhamos para o discurso deles, estes não incluíam minorias, não incluíam mulheres sequer. Hoje debatemos casamento gay, igualdade de géneros, coisas que nos afectam directamente, que precisamos corrigir. Ou seja, estamos a pôr em causa os pais do nosso pensamento, mas não nos atrevemos ainda a pôr em causa o pensamento dos nossos pais em relação ao racismo, ainda resistimos. Não se espera de alguém brilhante ou inteligente atitudes xenófobas ou racistas, mas elas existem. Quando vais a um jardim de infância e vês crianças brancas e negras, não as vês a dizer que não brincam umas com as outras por serem pretos ou brancos. Só quando realmente começas a crescer é que alguém te diz que não é cool brincar com os negros ou os brancos e aí torna-se conhecimento. O problema não está na ignorância, mas sim no conhecimento, na inteligência. Ainda não articulei bem isto, mas estou a começar a apontar as minhas armas para outro lado. As conquistas que estamos a ter, por exemplo, em relação aos gays são enormes, há 20 anos atrás eu não estava a ter esta conversa, mas ainda tenho as mesmas conversas sobre racismo. Está na hora de começar a apontar onde está o problema e ele está na forma como construímos a sociedade, sobre que alicerces construímos o nosso pensamento.

 



Que contribuições é que a geração Buraka trouxe para o português?

É tudo fruto desse convívio e acontece que Buraka foi o primeiro grupo a capitalizar dessa proximidade que existia. Não cresci na Amadora, mas imagino o que é crescer ali. Eu não chamaria a esta geração uma geração Buraka, mas aponto e identifico e concordo que Buraka foi o primeiro grupo fora dos artistas que apontavam directamente para o mercado africano a capitalizar essa proximidade. Eu divirto-me imenso quando oiço palavras como “jajão” a entrar no léxico popular. É inevitável, é como a cultura do rap, é toda ela até hoje uma transformação que está a criar novos termos, a despejá-los. A gíria do sul da América não é a mesma que a de Nova Iorque, mas se as coisas sobem para um certo patamar então são absorvidas pela maioria, e isso é só fruto do convívio. Da mesma forma que adoptei termos como “chavalo”, que acho que é um termo branco.

Qual é o significado de “jajão”?

É ludibriar.

Dá-me um exemplo com a palavra aplicada numa frase…

Cheguei tarde ao trabalho e digo ‘não ouvi o despertador’. Acabei de dar um jajão ao patrão. É mentir.

 



Hoje em dia vês-te como um músico que também é escritor ou vice-versa? Como é que lidas com essa dupla dimensão da tua actividade?

Acho que sou mais escritor do que músico, embora a percepção de fora seja diferente. No meu íntimo tudo parte da caneta, da palavra.

És uma pessoa de computadores ou canetas?

Vou ter uma sessão de escrita agora e não trouxe o computador. Depende. Perdi o meu iPad e voltei aos cadernos, que é algo que gosto. Por exemplo, só consigo escrever poemas em cadernos. Mas quando faço as minhas crónicas semanais faço-o directamente no computador, para poupar tempo.

Há alguma palavra que odeies?

Assim a frio, não consigo responder.

 



E palavras que adores, em que estejas sempre a agarrar?

Gosto das expressões que identificam determinados lugares. “Kanimambo”, que te traz logo Moçambique. Eu fui às lágrimas quando conheci Maputo porque é tudo o que conheço de uma capital africana com a calma e a paz da região sul de Angola, de onde venho, onde toda a gente é mais humilde. “Kanimambo” é bonita. Outra expressão que adoro é “maningue nice”, ou seja, essas palavras que são quase inventadas. Não uso muito, mas sempre que uso trazem memórias e imagens muito fortes, o cheiro, o lugar, o calor da coisa.

Quais foram os escritores, poetas, letristas, que orientaram a relação que tens com a língua, que te inspiraram, que te apontaram caminhos?

A ordem dos nomes é aleatória: Nélson Rodrigues, Ruy Castro, Miguel Esteves Cardoso, Mia Couto, Águalusa, Luandino Vieira, Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, Manuel Barros, Paulo Laniça.

E na música?

O jazz teve um papel preponderante na minha formação musical. O jazz deu-me a segurança de que tudo o que eu fizesse teria espaço, uma audiência. Seria injusto se excluísse o jazz que me chegou através do Hot Club – André Fernandes, Bernardo Sassetti. Eu podia ir aos óbvios – como o Miles Davis -, mas entendi Miles pelas mãos de Sassetti, do André Fernandes. O jazz ajudou-me a ser destemido e audaz, a fazer das minhas falhas as minhas qualidades. Sem dúvida que devo muito à generosidade dos músicos jazz, essa coisa de abrir-me para o desconhecido deve-se ao jazz.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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