D.D.P.R. // Uma Imagem Mil Palavras EP

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Há uns anos, uma jornalista inglesa de visita para uma iniciativa conduzida pela Red Bull Music Academy perguntava-me qual a loja onde se poderia dirigir para comprar música que soasse a Buraka Som Sistema. Lembro-me de parar para pensar e de ter alguma dificuldade em explicar-lhe que não havia realmente mais nada nesse campo e que só mesmo uma visita a algumas bancas de vendas de CDs piratas na Praça de Espanha a poderia abastecer de algumas coisas com o mesmo cumprimento de onda. Alguns êxitos internacionais de Buraka depois, com o trabalho da Enchufada e Príncipe já bem firmado, com propostas diferenciadas de gente como Batida ou Rocky Marsiano a apontarem para o passado para redesenharem o presente, pode dizer-se que o panorama se alterou e que muito provavelmente uma visita à Flur poderia garantir peso extra na bagagem de regresso a Inglaterra. Aliás, nem seria necessário vir a Portugal para ter novas coisas nessa área: uma visita à Bleep ou algumas deambulações pelo Bandcamp poderiam certamente render interessantes resultados.

O que nos trás até ao lançamento que a cada vez mais interessante Golden Mist agora dedica aos DJs Di Puro Ritmo, colectivo em que militam Dotorado Pro, Willicox, Big Vado, DJ Estraga, DJ Bebe Pouco e DJ Blackinho (para já disponível apenas em ficheiros digitais no Bandcamp, mas a ser alvo de edição física em CD no próximo mês de Setembro). É mais uma válida amostra da vitalidade que a batida de Lisboa adquire a cada momento que passa. Quando se escuta “Patentes“, colaboração de Big Vado e Willicox em cima de uma ideia muito própria de funaná, percebe-se que a assunção das tradições familiares – Marfox fala sempre nas memórias das festas de bairro – informa uma transformação do impulso inicial do house com padrões rítmicos que têm o condão de não soar estranhos a qualquer pessoa – independentemente do seu tom de pele – que algum tinha se tenha passeado de ouvidos abertos pelos bairros periféricos de Lisboa.

Este Uma Imagem Mil Palavras é praticamente um DJ Tool, um EP de temas curtos que puxam pela intervenção transformativa do DJ para se expandirem até ao infinito. Partindo de modelos estabelecidos – já se mencionou o funaná, mas o kuduro ou os pulsares mais lentos do tarraxo também marcam aqui presença -, estes produtores pegam nas ferramentas que cabem dentro de qualquer laptop para nos oferecerem uma visão ultra-pessoal da paisagem sonora que domina os bairros que a partir das margens de Lisboa transformam o centro de gravidade. E isso é que é extraordinário: com as mesmas ferramentas, um qualquer jovem produtor das margens de Londres produz um barulho completamente distinto. Se houve um momento em que se temeu uma normalização da música de dança, afirmando-se mesmo que graças à tecnologia se esbatiam barreiras e que Londres, Tóquio, Singapura ou Porto podiam ser uma e a mesma coisa, resulta agora claro que esta mesma tecnologia pode servir perfeitamente para afirmar identidade, diferença e singularidade. Os plugins podem ser os mesmos, os gadgets podem ser todos feitos na China, mas o pulsar de Lisboa é bem distinto daquele que se produz nos arrabaldes de Paris ou Glasgow.

E há aqui umas quantas pérolas: Dotorado Pro a erguer um som próprio em cima da fundação que é Africa Scream, revelando uma clara marca de autor, Willicox de olhos firmados na pista de dança a oferecer bombas que destroem inércia com um poder avassalador ou Big Vado a escalar BPMs como quem domina provas de montanha na Volta à França, com músculo, segurança e elegância absolutas.

Mantenham-se ligados: a história segue dentro de momentos e a Praça de Espanha já não é o que era…

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu