Curtis Mayfield // Keep On Keeping On: Curtis Mayfield Studio Albums 1970-1974

[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

Que época! Guerra do Vietname, Richard Nixon na Casa Branca a dizer, como nos garante Curtis, “don’t worry!”, Movimento dos Direitos Civis ao rubro, Cointelpro, droga a inundar as inner cities, Shaft nos grandes ecrãs… E, nos estúdios, músicos de excepção formados por sessões em que se ousava reinventar a roda, produtores e arranjadores experimentados e nova tecnologia capaz de realizar as mais panorâmicas visões, permitindo à soul uma complexidade orquestral ainda mais pronunciada. Estes são os anos em que Curtis Mayfield se afirmou como artista solo, provando ser capaz de voar mais alto do que os Impressions com quem se tinha estreado no mesmo ano em que Elvis lançou o seu primeiro álbum, 1956.

Entre 1970 e 1974, Curtis lançou quatro álbuns de originais – aqui reunidos nesta caixa – e, claro, uma das mais icónicas bandas sonoras do universo da blaxploitation, Superfly. Não se sabe porque terá ficado de fora da caixa que cobre este período tamanho álbum, mas talvez isso signifique que a Rhino esteja a preparar um box set paralelo com o trabalho que Curtis assinou para o grande ecrã (além de Superfly e Short Eyes, o músico, compositor e produtor garantiu ainda créditos em bandas sonoras de filmes como Claudine ou A Piece of The Action, por exemplo). Dedos cruzados, portanto.

Uma palavra para o trabalho da Rhino aqui oferecido: se por um lado não há extras do género a que estas edições já nos habituaram – um booklet com novos ensaios ou inserts fotográficos, por exemplo – com a edição a quedar-se, nitidamente, para o terreno budget (a edição em CD contém mini-réplicas dos vinis, com capas em gatefold, mas as bolachas propriamente ditas nem sequer estão protegidas por uma inner sleeve…), por outro há o “detalhe” extremamente importante (e se calhar mais decisivo para quem, como é o meu caso, já possui cópias dos lançamentos originais) de o material agora relançado, numa acção que marca o 50º aniversário do arranque da carreira a solo de Curtis, ter sido devidamente remasterizado a partir das fitas originais, com o excelente técnico Chris Bellman a ter sido responsável pelos novos cortes de acetato de qualidade superior. Uma garantia que de facto distingue esta edição de boa parte de relançamentos em vinil que muitas vezes descuram a qualidade das prensagens. Adiante.

Este período da carreira de Curtis Mayfield rendeu uma das discografias mais celebradas da soul. Compreensivelmente: Mayfield juntou-se aos Impressions quando contava apenas 14 anos e durante década e meia cresceu como músico (era um excelente guitarrista, competente teclista e saxofonista, capaz de se sentar à bateria, de tocar baixo…), afirmou-se como grande produtor e, claro, compositor de excepção que ofereceu ao seu grupo clássicos como “Gypsy Woman” ou “People Get Ready”, pilares de uma afirmação de identidade e orgulho ainda raros na soul em meados dos anos 60 (Marvin Gaye só chegaria a esse elevado estado de consciência com What’s Going On, de 1971, por exemplo).

A formação do “Gentle Genius”, como era bastas vezes descrito, nos domínios do gospel, não só lhe deu uma posição espiritual elevada para o lançamento da sua carreira a solo, como lhe ensinou tudo o que havia para saber sobre “preachin’”, a capacidade de iluminar uma “congregação” com a verdade. E, em 1970, já com os Impressions extintos e a sua própria plataforma – a etiqueta Curtom – criada, a congregação de Curtis Mayfield era vasta: a América negra, as vítimas dos abusos, os desprovidos de privilégios, os jovens que viam o seu futuro ameaçado com o recrutamento para o Vietname, os estudantes inconformados, as mulheres que exigiam respeito, as meninas que sonhavam poder vir a ser Miss Black America, enfim todo um povo “darker than blue”.



Curtis, o álbum de 1970 com a icónica capa em que o cantor se apresenta sentado ao sol vestido com um fato amarelo, podia ter um título que procurava estabelecer uma familiaridade com a tal vasta congregação – um “first name basis” que distinguia as grandes estrelas: Stevie, Aretha, Marvin… – mas o material aí apresentado está longe de ser leve: no incrível “(Don’t Worry) If There’s a Hell Below We’re All Going to Go”, é o “reverendo” Mayfield que nos fala do alto do púlpito, começando logo, sem papas na língua, por chamar a atenção de “Sisters, n***as”, “whiteys”, “jews” e “crackers”, “people running from their worries/ while the judge and his juries/ dictate the law that’s partly flaw”. Poderosíssimo. Político até ao tutano, chamando os bois pelos nomes, incluindo o presidente Nixon então sentado na Casa Branca e absolutamente incapaz de lidar com a agitação social que incendiava as ruas e as consciências da América.

O tom do álbum, de directa contestação, de apelo à abertura de mentes, de empoderamento e elevação, prossegue em faixas incríveis como “We The People Who Are Darker Than Blue”, “Move On Up”, “Miss Black America” ou “Wild and Free”, com Curtis a tocar em complexas questões numa linguagem clara, sentida e profundamente honesta. E a embalar todo esse “sermão”? Uma soul de primeira água, com ampla dimensão orquestral, secções de cordas, guitarras staccato como ditavam os tempos, baixo pulsante, secção percussiva pronunciada e um inteligente uso dos efeitos de estúdio, com o delay na voz a sublinhar ainda mais a ilusão de que este era, de facto, um homem a discursar perante uma audiência, do cimo de um púlpito. Não foi à toa que o também nativo de Chicago Kanye West acabou por se rever na propulsão positivista de “Move On Up” usando o tema como base de “Touch The Sky”, faixa de Late Registration produzida por Just Blaze.



Quando chegou a Roots, em 1971, Curtis já tinha atrás de si não apenas o álbum homónimo de estreia, mas também um registo ao vivo que o firmou como intérprete de gigantesco carisma, para lá de compositor e artista de estúdio. O segundo álbum, de onde sai o clássico “Keep On Keeping On” que dá título a esta caixa, abre com a impressionante “Get Down”, uma espécie de reverso da medalha de orgulho apresentada em “Move On Up”, em que Curtis explica que, ao fim do dia, é apenas “a hungry man in search for a hungry girl”. “It’s strange”, admite ele, “so plain, we’re all cannibal”. Antecipando a duplicidade espiritual/carnal que Marvin haveria de explorar em What’s Going On / Let’s Get it On, também Curtis parece deixar aqui claro que fazer a revolução na rua não pode impedir que também se faça o amor no quarto. Os arranjos do veterano Johnny Pate (que assinaria a banda sonora de culto Shaft In Africa, de 1973, além de carimbar, também nesses anos, arranjos para gente como Jimmy Smith, Monty Alexander, Wes Montgomery, Muddy Waters, B.B. King ou Bee Gees) são uma vez mais luxuriantes e adequadamente modernos, com o tema de abertura a ser servido, por exemplo, por um Moog que confere ao tema um peso de graves ultra-sexy.

O “pregador”, no entanto, regressa logo ao segundo tema, o tal “Keep on Keeping On” em que Curtis começa por cantar “everybody gather round and listen to my song” avisando, com óbvia modéstia, “I’ve only got one”. O apelo é simples: “withdraw from the darkness and look to the light/ Where everyone’s free”. A música, essa continua elegante, recheada de memoráveis melodias e de arranjos que roçam o sublime e que embalam mensagens intemporais, como em “Underground”, um retrato sombrio de um futuro em que a poluição forçou os seres humanos a viverem em subterrâneos. Sombrio, mas descaradamente funky, com percussões a pontuarem a voz incrível de Curtis, um tenor elevado, próximo do falsete, maduro e assertivo, que nunca precisa de gritar para se conseguir fazer ouvir. Um tom que se projecta em todo o material restante do álbum, incluindo no verdadeiro hino pacifista que é “We Got To Have Peace” (familiar, certamente, para os mais atentos fãs de hip hop português). Clássico. Absoluto.



Em 1973, Back to The World aterrou nas lojas, nas rádios e nas consciências do público numa altura em que Curtis Mayfield estava no auge da sua popularidade, graças ao enorme sucesso obtido por Superfly, o primeiro número 1 na carreira a solo do cantor. A fantástica capa do álbum – da responsabilidade do director de arte Glen Christensen, do ilustrador Gary Wolkowitz e do designer Milton Sincoff – é condizente com o seu conteúdo, um vívido mural que abre com sons de rádio e um pulsar de graves que quase parece introduzir a música de um noticiário. E é, precisamente, disso que se trata. Relatos de veteranos do Vietname e denúncias de pobreza e desigualdade marcam as letras de combate assinadas por Curtis. Em “Future Shock”, o tema central do álbum, reminiscente de “Pusherman” da banda sonora de Superfly, a perspectiva de Curtis é alimentada, nitidamente, pela leitura do livro com o mesmo título de Alvin Tofler, um clássico que influenciou muitos outros músicos (Herbie Hancock também lançou um álbum com a mesma designação, Stanley Clarke usou igualmente a expressão para dar título a uma faixa de Time Exposure e, claro, as ideias do livro e a sua menção de “techno rebels” moldariam o pensamento dos jovens que nesta altura estavam a crescer em Detroit e que em meados da década de 80 lançariam as bases para a revolução techno…). “Right On For The Darkness” é outro momento de perfeito brilhantismo: o equilíbrio entre o drama das cordas e a propulsão rítmica, com a guitarra a voar sinuosamente entre as duas dimensões, é um tratado de bom gosto assinado pelo arranjador Richard Tufo que há-de ter sido consultado bastas vezes ao longo dos anos por muitos outros artistas.



Finalmente, no que a Keep On Keeping On, a caixa, diz respeito, há que mencionar ainda o igualmente importante Sweet Exorcist (1974), mais um álbum clássico servido por outra fantástica capa, desta vez com ilustração de Bill Ronalds (que também criou capas para os Stylistics ou para os Midnight Movers Unlimited, a banda de suporte de Wilson Pickett).

De todos os álbuns desta fase, talvez Sweet Exorcist seja o único que falha a nota máxima, mas há que perceber que neste período de quatro anos Curtis tocou incessantemente ao vivo (registou dois álbuns em palco), lançou duas bandas sonoras (além de Super Fly escreveu e produziu Claudine para Gladys Knight e os seus Pips) e produziu álbuns clássicos para outros artistas como Baby Huey (The Baby Huey Story) e Stairsteps (Stay Close to Me), além de ainda ter carimbado trabalhos soltos para gente como Barbara Mason, Major Lance, Donny Hathaway ou The Voices of East Harlem, entre outros. Uma agenda ultra-carregada que, obviamente, teve algum reflexo na qualidade do material, que aqui repisa algumas fórmulas já testadas por Curtis Mayfield nos trabalhos anteriores (ouça-se, por exemplo, “Kung Fu”, tema aliás usado por Kendrick Lamar em “King Kunta”). Mas, que fique claro, o que em Curtis se pode classificar como “mediania” representaria facilmente o pináculo da obra de muitos outros artistas, tal o alcance do seu génio.

E, como tantas vezes acontece, o melhor aqui neste álbum ficou mesmo para o fim, com a impressionante balada “Suffer”, escrita em 1969 com Donny Hathaway, e a ritmicamente expressiva “Make Me Believe in You” (servida, uma vez mais, por uma imaginativa orquestração de funk cinemático, carregado de apontamentos e detalhes musicais preciosos) a abordarem questões do coração e do relacionamento entre adultos, de uma perspectiva emocionalmente madura. Curtis, já se sabia, nunca se mostrou apenas interessado em falar para as ruas e sempre teve algo a dizer igualmente para dentro das casas das pessoas que o escutavam com atenção.

Com o avanço da década e consequente mudança de foco musical numa América a dada altura algo fascinada com o brilho da enorme bola de espelhos que parecia dominar a paisagem musical, a música de Curtis perdeu fulgor comercial e não voltou aos lugares cimeiros das tabelas, o que não significa que não possua argumentos artísticos capazes de sustentar a relevância de mais um ou dois volumes destas caixas retrospectivas da sua obra. Mas nestes quatro álbuns, não há dúvida, concentra-se mesmo o melhor que nos ofereceu, uma visão que haveria, aliás, de inspirar muitos outros grandes nomes, da soul e não só.

Em 1990, quando contava apenas 48 anos, Curtis sofreu um acidente em palco, em Brooklyn, Nova Iorque: foi atingindo pela queda de uma estrutura de material de iluminação e ficou paraplégico, conseguindo, ainda assim compor e cantar num derradeiro álbum, New World Order, lançado em 1997. Viria a falecer em 26 de Dezembro de 1999, vítima de complicações causadas pelos diabetes tipo 2.

A sua obra, samplada pela elite hip hop – além dos já mencionados Kanye West e Kendrick Lamar, há ecos das composições, produções e gravações de Curtis Mayfield em registos de A Tribe Called Quest, Notorious B.I.G., Travis Scott, Jeremih, Jay-Z, Snoop Dogg, Missy Eliott, Gang Starr, The Game ou, para citar apenas mais um trio de relevantes exemplos, Ghostface Killah, Outkast e Drake – permaneceu, também por isso, viva nas consciências de novas gerações que nunca descuraram a procura dos originais para perceberem a frescura de uma fonte em que muitos artistas continuam a saciar a sede de inspiração até aos dias de hoje.

Nos discos incluídos em Keep On Keeping On resiste um dos mais tocantes retratos de uma América a braços com profundas dores de crescimento, intolerante e cheia de potencial, dura e no entanto capaz de gerar e ver crescer talentos desmedidos como o de Curtis Mayfield que, através da sua música, conseguiu também ajudar a mudar o mundo e, muito naturalmente, alcançar a imortalidade.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu