Curren$y, Freddie Gibbs & The Alchemist // Fetti

[TEXTO] Moisés Regalado

Apesar de nem sempre estar tão certo quanto possível, o Urban Dictionary continua a ser uma das ferramentas mais úteis para descortinar certos slangs norte-americanos. Sobre “fetti”, diz-nos que é uma “bastardizarion of feria, the spanish word for money”, acrescentando, numa definição semelhante mas paralela, que “money becomes fetti when it is thrown up in the air like confetti”. Mas esta referência parece remeter, antes de mais, para a faixa homónima que Freddie Gibbs, Curren$y e Alchemist — com co-produção de Oh No — fecharam há mais ou menos três anos, e que terá servido de inspiração para o novo álbum do trio.

Fetti é um daqueles álbuns deliciosamente previsíveis — na sua definição e não quanto às palavras debitadas ou samples utilizados, claro está. Começa por ser, a exemplo de qualquer projecto produzido por si, um disco de Alchemist, esse gajo chato que todos os anos aparece com pelo menos uma mão cheia de apostas vencedoras. E se ALC é o produtor, realizador e director de fotografia (já que Evidence não está presente…), Gibbs é o actor principal, restando a Curren$y o papel menor, mas igualmente importante, de manter o estado das coisas enquanto o protagonista respira.

Curren$y não compete com os nomes cimeiros da Billboard mas continua a ser um artista que chegou onde todos sonham chegar, e a sua discografia não mente, só que os bons e os melhores distinguem-se, muitas vezes, graças a pormenores que não dependem necessariamente dos próprios, como a postura ou o imaginário que vão construindo e partilhando com o público — ou, em suma, aquilo a que se chamava swagger antes de a palavra implodir. Nisso, Freddie Gibbs parte com vantagem sobre Curren$y mas aconteceria o mesmo com qualquer outro que se colocasse lado a lado com o co-autor de Pinãta.

Em Fetti, as palavras e o flow de Curren$y parecem fazer parte da música de Alchemist e, nesse aspecto, não há dedo que se aponte à mestria com que o rap, a produção, a mistura e a masterização se uniram. Mas a lógica parece subverter-se sempre que Gangsta Gibbs entra no beat, reclamando para si as atenções enquanto usa o baixo ou a bateria a seu bel-prazer, dando-lhes o tom que bem entende (e como tão bem faz em “The Blow”, por exemplo). E é exactamente por isso que Fetti, mais competente do que brilhante, pede audições consecutivas. Nada surpreende mas tudo faz sentido e, mais importante, nada cansa.

Quase nenhuma carreira se constrói exclusivamente assente em clássicos e quase nenhum ouvinte de rap se contenta apenas com as novidades mais quentes da semana, insuficientes para alimentar qualquer seguidor mais ávido, e é nessas alturas que álbuns como Fetti se revelam deliciosamente previsíveis, sim, mas tão fundamentais como qualquer sucesso comercial para manter a música rap nas tendências ou, sem esquecer o que realmente importa, nos phones de quem dela se alimenta diariamente.

 


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