Culturgest revela programação para a próxima temporada

[FOTO] Vera Marmelo

O primeiro ciclo da temporada 2018/19 da Culturgest arranca em Outubro com o concerto de Tim Hecker & The Konoyo Ensemble. A programação foi apresentada na passada quarta-feira.

Mark Deputter é o novo director do espaço cultural que está localizado na sede da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa. Depois de ter trabalhado com Pedro Santos no Teatro Maria Matos durante nove anos, Deputter trouxe o programador consigo para o ajudar a reformular a oferta musical da sala de espectáculos que agora dirige. O objectivo é dar uma certa continuidade com uma aposta assumidamente virada para a música electrónica e de cariz experimental, enriquecendo assim o leque de ofertas culturais que a capital portuguesa tem para oferecer aos seus habitantes e visitantes.

O ciclo de concertos com assinatura de Pedro Santos começa no dia 5 de Outubro. O espectáculo de Tim Hecker & The Konoyo Ensemble é uma espécie de sonho concretizado para o novo programador da Culturgest: “Quis que fosse alguém que eu acho que é muito importante, que continua a empurrar as coisas para a frente e que de quem tenho sentido ter um público cada vez maior”, revelou ao Observador.

No calendário da sala de espectáculos também cosntam os nomes de James Holden & The Animal Spirits, Peter Evans & Orquestra de Jazz de Matosinhos, Mouse On Mars ou Montanhas Azuis — um fresquíssimo projecto de Norberto Lobo, Marco Franco e Bruno Pernadas.

O Rimas e Batidas destaca algumas das passagens mais importantes da entrevista que Pedro Santos concedeu ao Observador.

 



[Ampliar o espectro da oferta cultural lisboeta]

“Sinto que a minha primeira preocupação é olhar para a cidade e para a programação da Culturgest como complementar em relação à oferta cultural que existe em Lisboa. Isso para mim é muito importante porque acima de tudo quero enriquecer a oferta cultural. E quero que essa oferta cultural faça sentido na Culturgest. A sala, pelas condições que tem, obriga-me a pensar numa linha de programação com outra escala em relação ao que fiz no Maria Matos.

(…) Pode-se continuar a conquistar público, mostrar criação contemporânea na música que seja desafiante, arriscada. Sinto que existe interesse e curiosidade do público para isso e que há espaço para um posicionamento da sala na oferta cultural de Lisboa. Tendo essa atenção numa programação mais experimental, não tão óbvia, acho que a Culturgest se pode encaixar muito bem no restante panorama de Lisboa.”

[O público]

“As pessoas mais facilmente vêem uma peça de teatro ou dança, sem saberem nada do que se vai passar, simplesmente porque seguem o trabalho de um coreógrafo ou seguem a programação de uma sala. A música tem um ‘problema’ que é o facto de ser muito acessível em casa das pessoas. Quando alguém quer ver um concerto de um músico que não conhece, a primeira coisa que vai fazer é conhecê-lo. Isso faz com que o elemento surpresa seja subtraído. Há pouca gente que vai a um concerto logo à noite sem saber o que se vai passar, sem saber de que género é, de onde vem. Porque a música desse músico está acessível no computador, no telemóvel, e facilmente constróis um contexto, uma porta de entrada para ti próprio. É uma pena que a maior parte das pessoas funcionem assim, eu percebo que as pessoas têm que, no fundo, decidir e queiram escolher uma porta segura. Mas ao mesmo tempo é essa a vantagem da criação de uma programação regular, como aquilo que se vai fazer na Culturgest. Inevitavelmente criará um público regular, que começará a ter boas experiências e a aceitar a programação de uma maneira mais espontânea e com maior risco, sem ter muitos receios de não gostar deste tipo de concertos, simplesmente se vai disponibilizar para vir e para levar qualquer tipo de experiência para casa. Interessa-me mostrar que a música avança por muitos caminhos, muitos géneros, geografias, estilos, por muitas hipóteses.”

[Programação vs. Curadoria]

“Uma parte entusiasmante deste trabalho é provocar novas situações. Isso é sempre muito interessante. A programação, para mim, tem sempre um bocadinho de curadoria. Essa parte é sempre muito estimulante. Os programadores estão sempre muito dentro de toda a mecânica e é natural que muitas vezes nos vejamos completamente dentro dela. É nesse momento que aparece o lado de curadoria que nos leva a ter ideias, sugestões e a ter uma certa clarividência que é benéfica para o desenvolvimento de um projecto. Essa intromissão é muito interessante e tentadora e é muito enriquecedora por vezes. E são momentos de alguma riqueza quando se criam coisas novas e se percebe que elas funcionam e têm vida para além disso. Por vezes nem é preciso essa intromissão. Basta programarmos alguma coisa para que naquele momento, naquela noite, aconteça algo tão único que acaba por mudar a própria proposta musical a partir dali ou acaba por gerar a gravação de um disco ao vivo. Há esse lado de curadoria que é mais participativo no projecto, mas mesmo quando não é participativo, só existe a mera programação, pelas condições do concerto, pelo facto de acontecer nesta sala, com estas características, esse pode ser um momento de redefinição desse projecto e que faça com que possa mudar de rumo, ser levado mais a sério, ou ter um empurrão decisivo.”

[Tim Hecker no arranque da temporada 18/19]

“Quis que fosse alguém que eu acho que é muito importante, que continua a empurrar as coisas para a frente e que de quem tenho sentido ter um público cada vez maior. Interessava-me também dar um sinal forte numa direcção um pouco abstracta e experimental. Aliás, provavelmente até é o sinal mais forte da programação já anunciada. Este concerto é muito especial porque tem algumas novidades em relação àquilo que vemos em palco com o Tim Hecker. Vai ter músicos em palco, uma banda, músicos gagaku em palco e vai colaborar com a Kara-Lis Coverdale, com quem apenas tem trabalhado em disco. Isto tudo é muito novo, entusiasmante e especial. Por ter todas estas novidades, acho que também pode ser um acontecimento importante: uma abertura é sempre feita de muitos simbolismos e o ‘Konoyo’ do Tim Hecker pode ter toda essa carga simbólica no geral, mas também em relação àquilo que se conhece do Tim Hecker em particular.”

 


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