Há encontros que nascem como coincidência e acabam por se revelar como necessidade histórica. O projecto que une Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago pertence a essa rara categoria de obras que parecem menos resultado de um plano e mais consequência inevitável de trajectórias que, em algum ponto, estavam destinadas a cruzar-se. Trata-se, prtanto, de algo mais do que um simples álbum colaborativo entre três artistas consagrados em contextos distintos. É um gesto que se constrói no espaço entre continentes, entre línguas, entre memórias e entre formas muito diferentes de entender o papel da música no mundo.
Criolo carrega consigo a tradição da palavra que fere e cura ao mesmo tempo. A sua obra sempre foi atravessada pela denúncia das desigualdades estruturais brasileiras, pelo retrato cru da violência urbana, pelo questionamento das hierarquias raciais e sociais que organizam o presente. Amaro Freitas, por sua vez, vem do território do piano, mas não do piano canónico e tradicional. O seu jazz é corpo, é terra, é floresta, é improviso que nasce de uma ancestralidade negra que ele reinterpreta com radical contemporaneidade. Por outro lado, Dino D’Santiago traz a respiração longa do Atlântico, a morna, o funaná, o batuque, a herança cabo-verdiana que se expressa numa voz onde convivem tradição, reinvenção e um profundo sentido de pertença ao espaço lusófono.
Quando estes três universos se encontram, não se trata somente de somar estilos. O que acontece é outra coisa: cria-se um idioma que não existia antes, porque ele nasce do reconhecimento mútuo entre três percursos marcados por geografias, histórias coloniais, deslocações, migrações e experiências muito concretas de sobrevivência, afirmação, resistência e criação cultural. O álbum que daí resulta não é apenas uma colecção de canções, mas uma espécie de cartografia afectiva do Atlântico Negro contemporâneo, um mapa onde Brasil, Portugal e África deixam de ser pontos separados para se tornarem fluxo contínuo.
Ao longo da conversa, torna-se evidente que o ponto de partida do projecto não surgiu de um programa estético nem de uma ambição conceptual. Despontou antes da amizade, da necessidade de estarem juntos, de respirarem harmoniosamente num tempo de exaustão colectiva. Mas é precisamente dessa origem aparentemente simples que emerge a dimensão política do trabalho. Porque, como os próprios reconhecem, o simples acto de amar, de se reconhecerem no outro, de partilharem histórias de origem humilde, de bairros periféricos, de famílias que tiveram de lutar por dignidade, já é em si um gesto profundamente político.
O disco nasce, assim, de uma tomada de consciência que acontece durante o processo: a percepção de que a língua portuguesa, as matrizes culturais africanas e afro-diásporicas e as expressões artísticas que emergem desses territórios continuam a ocupar um lugar periférico no circuito global da chamada “música do mundo”. Há uma crítica clara às invisibilizações, aos apagamentos e às formas subtis de saqueamento cultural que atravessam a indústria. Sem nunca ter sido concebido como manifesto, o álbum acaba por se tornar uma carta aberta sobre existência, pertencimento e reconhecimento.
Outro eixo que atravessa a entrevista é a ideia de respeito absoluto pela música enquanto entidade viva, anterior a qualquer formato imposto pela indústria. As canções não obedecem a durações, estruturas ou expectativas. São conduzidas por uma lógica quase ancestral, que remete para cantos que não tinham hora para começar nem para terminar, para celebrações e dores que se prolongavam no tempo sem a necessidade de caber em moldes pré-definidos. Essa recusa em formatar a música é também uma forma de resistência.
A presença do piano de Amaro como “voz” é reveladora de outra camada política do projecto: a valorização da música instrumental num contexto onde, muitas vezes, ela é secundarizada. O reconhecimento explícito de que o instrumento pode falar tanto quanto a palavra abre espaço para uma discussão mais ampla sobre como diferentes tradições musicais são hierarquizadas e percebidas nos seus próprios países e no exterior. A viagem física do disco, entre Lisboa, Rio de Janeiro, Recife, São Paulo, Nova Iorque e Cabo Verde, espelha a viagem simbólica que ele propõe. Cada território deixa uma marca sonora e emocional nas canções. E, ao mesmo tempo, evidencia como as rotas culturais entre Brasil, África e Europa ainda estão atravessadas por heranças coloniais muito concretas, inclusive nas deslocações mais práticas. O álbum propõe, implicitamente, uma reimaginação desse eixo.
Por fim, quando se fala do concerto que levará estas canções ao palco, surge uma preocupação clara: preservar a essência. O hip hop aparece como estrutura de protecção, não como estilo dominante, mas como ética que garante que a alma do piano de Amaro e a voz de Dino permaneçam no centro de tudo. Mais do que espetáculo, a intenção é manter intacta a verdade que deu origem às canções.
Esta conversa percorre todas essas camadas: a amizade como ponto de partida, a política que emerge do afecto, a construção de um idioma musical próprio, a diáspora como experiência viva, a crítica às invisibilizações culturais e a busca por uma forma de criar que respeite a música acima de qualquer outra coisa. O que Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago descrevem não é apenas o processo de criação de um álbum, mas a tentativa de deixar um documento sobre a sua existência e, por extensão, sobre a existência de muitos outros que partilham das mesmas histórias, línguas e ritmos.
O projeto nasce de um encontro em Lisboa que resultou em “Esperança”, posteriormente nomeada para o Grammy Latino. Em que medida esse reconhecimento confirmou – ou não – a urgência de transformar aquele encontro num álbum?
[Criolo] Esse álbum nasce, antes de tudo, de uma celebração de amizade. De pessoas que se fazem bem quando se encontram. Na loucura que estávamos vivendo nesses últimos anos, quando a gente se encontrava, a gente respirava, conversava sobre a vida, um se via no outro, um era esteio do outro, fortalecimento no outro. A gente sabia que isso ia virar música. A parte política da coisa aconteceu no meio do caminho. A gente só se deu conta disso no processo. Quando falam de world music, world arts, sempre pulam a língua portuguesa. Como se Portugal não existisse para a Europa e como se o Brasil não existisse para o mundo. E mais ainda os países do PALOP, artistas nossos irmãos e irmãs que vêm construindo um jeito muito inventivo, muito moderno de fazer arte, e sofrem saqueamento cultural sem receber o devido valor. Na música, na literatura, na moda, no design. Então isso vira uma carta aberta ao mundo para dizer que o que nós construímos também é arte de e para o mundo. Mas a gente só percebeu isso depois. Porque o nosso desejo inicial era celebrar a amizade. E a gente não entende que amor também é política. O simples acto de amar também é um gesto político. Quando eu encontro o Dino com os filhos no colo, negociando o relógio, equilibrando compromissos para dar dignidade e segurança à família, ou vejo o tanto de luta que o Amaro teve para chegar onde chegou, isso tudo está nesse amor. Isso não é invenção, isso não está num livro. Isso é o bairro, o que a gente comeu, o que deixou de comer, o frio, o calor. Tudo isso existe nesse amor.
O disco foi construído entre Brasil e Portugal, atravessando diferentes cidades. Como é que essas geografias moldaram o discurso do álbum?
[Dino D’Santiago] Antes de mais, Rui, obrigado por seres tu a nossa primeira entrevista deste lado do Atlântico. Isso tem um significado muito forte para nós. O processo foi muito orgânico. O Criolo veio de São Paulo para Lisboa, gravámos. A música foi para Nova Iorque com o Amaro. Voltou. Depois eu fui para o Brasil, o Criolo foi a Cabo Verde. Cada território deu uma temperatura diferente às músicas. Foi em Lisboa que conseguimos estar os três juntos fisicamente. No resto do processo, estávamos sempre em trânsito. Recife, Rio de Janeiro, Nova Iorque, Cabo Verde. Cada lugar deixou uma marca no disco, não só sonora, mas humana, histórica, cultural. E houve uma coisa muito importante: o Criolo fez questão de ir a Cabo Verde. Eu ainda disse: “no Brasil não vão perceber crioulo”. E ele respondeu: “é isso que eu quero. Não quero que percebam, quero que sintam.” Então entram no disco o batuque ancestral, a morna, a língua crioula, ritmos que não pedem tradução. Ele fez questão que todas as nossas línguas estivessem ali.
O álbum é descrito como a criação de uma sonoridade e idioma próprios. Isso nasce de um esgotamento das linguagens tradicionais da música popular?
[Criolo] Quando decidimos nos encontrar para celebrar a amizade, já quebramos todas as estruturas. E quando decidimos que é a música que diz como ela tem que ser, e não nós, quebramos todas as outras linguagens. Se a música tem que ter 20 minutos, ela tem 20 minutos. Por que eu vou me colocar maior que a música? Nenhum ser humano é maior que a música. Isso é muito ancestral. Como eram os cantos dos nossos avós, bisavós? Não tinham hora para começar nem para acabar. A dor não tinha hora para começar nem para acabar. As festividades duravam dias. Esse álbum não tem começo nem fim. É da nossa passagem na Terra. Não é só de quem construiu o disco. É de quem respira música agora no planeta.
Dino, a tua trajetória tem reposicionado a música cabo-verdiana no debate cultural lusófono. Que responsabilidade sentes ao trazer essas matrizes para este projeto?
[Dino D’Santiago] O Criolo fez questão que o nosso pé em África estivesse muito presente. Trouxemos o batuque, a voz ancestral da minha avó, a morna com o fogo lento. Trouxemos também um beat do Jeff para trazer Angola para a narrativa. Nunca houve imposições. Houve muito respeito pelos territórios de cada um. O Criolo dizia: “traz a tua língua, traz os teus ritmos, quero que as pessoas sintam.” E há também uma questão simbólica muito forte: para ir do Brasil a Cabo Verde, muitas vezes é preciso passar por Portugal. Isso não faz sentido. Este disco também tenta redesenhar esse eixo entre Brasil, África e Europa.
Amaro, o teu piano é descrito pelo Criolo como uma voz neste álbum. Como entendes essa dimensão política do teu instrumento neste contexto?
[Amaro Freitas] O jazz tem papéis muito diferentes no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. A música instrumental no Brasil não é tratada com a mesma importância que na Europa. Eu toco na Filarmônica de Luxemburgo para mil pessoas enquanto Gilberto Gil toca para duas mil, e está tudo certo. Isso não acontece no Brasil. Hamilton de Holanda ganhou um Grammy, foi indicado a dois, e quase ninguém fala disso no debate cultural brasileiro. Eu conheço um Brasil fora do Brasil que o próprio Brasil não consome. Quando o Criolo disse que o meu piano era uma voz no disco, isso foi revolucionário para mim. Foi a primeira vez que um artista de outro nicho colocou o meu instrumento num pé de igualdade com a voz. Isso é profundamente político. Aqui ninguém está colocando mais ou menos. Cada um coloca o que a música pede.
Este álbum pode ser lido como um gesto político de reescrita das relações entre Brasil, Portugal e África?
[Criolo] Sim, mas a gente só percebeu isso no meio do caminho. Quando você entende que essas relações ainda são atravessadas por invisibilidades, por apagamentos, por rotas coloniais que ainda fazem a gente dar voltas desnecessárias, você percebe que esse encontro é político.
[Dino D’Santiago] É muito simbólico que a gente tenha conseguido estar junto fisicamente apenas em Lisboa. O resto foi trânsito. Isso diz muito.
O que podemos esperar do concerto no Primavera Sound?
[Criolo] A gente está entendendo ainda como levar isso para o palco. É tudo muito inédito. Mas tem uma coisa que eu não posso confundir: não posso confundir fogão com sol. O importante é o piano do Amaro e a voz do Dino. O hip hop protege isso. Protege a essência. Pode ser que vá para um formato mais jazzístico, pode ser que vá para uma big band, mas o hip hop vai nos nortear porque ele protege a raiz da canção. Se tiver gente demais no palco, a gente se perde. A premissa é respeitar a alma do piano do Amaro e a alma da voz do Dino.
Depois de tudo isto, o que este encontro transformou em vocês?
[Dino D’Santiago] Tudo isto já dava outro disco.
[Criolo] A gente percebeu que precisava deixar um documento sobre a nossa existência. Não era só fazer uma música bonita. Era deixar uma carta.
[Amaro Freitas] Foi um processo orgânico, de presença, de atenção. Ninguém estava ali para brincar. Cada um colocou o que a música pedia.