Criou-se uma expectativa para saber o que Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago fariam ao se unirem. A conexão do pianista de Pernambuco com o rapper de São Paulo aconteceu quase 6 anos antes, quando se encontraram com Milton Nascimento. Juntos, fizeram o inspiracional “Existe Amor”. Mas ao formarem o trio com Dino D’Santiago, a musicalidade ganhou outro direcional. Não era possível pegar a mesma via, considerando as referências incorporadas pelo cantor do Algarve, de ascendência cabo-verdiana, que se tornou uma das vozes mais relevantes da música portuguesa. Quando apresentaram “Esperança”, foi possível ter uma visão do que poderia vir. O quase erudito deu lugar a algo com inspirações do jazz, rap e funaná. É uma junção de diferentes experiências, visões, estilos, vivências, saberes e musicalidade.
Essa fusão cria algo que alguns podem considerar experimental, um teste de possibilidades, e outros um tipo que se relaciona com o pop global. Apesar de não ser favorável ao termo, fundamenta-se na world music. Se formos guiados apenas pela música (harmonia, ritmos e melodia), não tem como definir o que é. Quando as letras saem, cria-se algo totalmente distinto. A arquitetura é feita, em boa parte, de forma eletrónica, com matérias-primas muito bem garimpadas na diáspora negra lusófona.
Assim como as batidas do coco, baião, funk, funaná e batuku, o piano de Amaro possui camadas percussivas. Serve também como fio condutor. Tem voz. Não está ali como um simples coadjuvante. Faz parte do todo, inclusive da composição. “Menina do Coco de Carité” reflete isso. Ele está em primeiro plano. Conversa com As Clarianas. O coco modernizado traz uma rabeca que também se destaca. Nas sequenciais “Seka” e “No Vento de Nós”, acontece a mesma coisa. O volume desse instrumento está quase na mesma linha que a de Dino e Criolo. Serve quase como uma voz de resposta. Não que repita o que é dito, apenas enfatiza, marca. E essas pontuações vão acontecendo ao longo dos 36 minutos e 10 segundos. Ele torna-se o protagonista da vez em “Ela é Foda”, onde faz um solo que parece ser eletrificado, talvez um rhodes, e reafirma sua posição de “vocalista”.
Nos quesitos-conceito, coesão e coerência, existe um alinhamento entre os instrumentais, mesmo conversando com diferentes musicalidades. Isso não quer dizer que é retilíneo ou quadrado. Possuem diferentes nuances que se complementam, fazendo com que o ouvido permaneça atento e com uma curiosidade do que virá em seguida. A mesma afirmação não pode ser feita à lírica. E é possível que essa nem seja a intenção. Porém, esperava-se (ao menos da minha parte) algo um pouco mais profundo. Criolo se assume como o narrador principal. Também parece interpretar personagens. Muda a entonação, o jeito, a fluidez. Não mantém um fluxo, como fez com Milton. As letras também não parecem fazer parte do mesmo contexto. Algumas são crônicas, outras poesias, (talvez) devaneios e raps que não se conversam. Não que exista uma necessidade de manter todas as letras interligadas. No entanto, falta uma certa liga que conecte uma à outra.
Pode ser que as movimentações que fizeram entre Brasil, Portugal, Cabo Verde e Estados Unidos tenham se refletido na criação. Essas diferenças fazem que no primeiro contato auditivo soe esquisito. Depois de algumas escutas, você começa a se acostumar. E de alguma forma essa deve ser a proposta. Ter uma apreciação para além de uma audição rápida e descompromissada.
Quando Dino entra, coloca outro tempero. É pontual, objetivo, assertivo. Entrega a mensagem que precisa. O “desvio” é “Mama AFRIKA”, a qual canta em inglês. Entende-se que faz sentido tê-la na língua mais popular do mundo para ser mais palatável fora da lusofonia. Nesta, poderia enfatizar as influências africanas lusófonas, tipo o crioulo ou se manter no português. Mas escolhas são escolhas. Apenas aponto o que poderia ser. O que fizeram, está feito. E não considero ruim. A união dos três tem beleza. Coloca no mesmo lugar pessoas com talentos e influências distintas. Assim, inevitavelmente, seguiria apenas uma única direção. “E Se Livro Fossem Líquidos”, que também possui versos em inglês, Criolo mostra o quão é proficiente em fazer-nos pensar com seu jogo de palavras, disseminadas em cima de uma espécie de acid jazz.
Existem algumas pérolas que vão ser encontradas depois de procuras atenciosas. “Você Não Me Quis”, “Ela é Foda” e “Hoje Eu Vi Você” são um pouco mais “descompromissadas”. Se faz necessário ter um respiro para a curtição.
A profundidade que se aguardava está relacionada ao histórico dos três, mas principalmente de Criolo e Dino, de estarem na linha de frente dos combates às problemáticas enfrentadas pela sociedade e serem representantes, porta-vozes, de pessoas que são cotidianamente silenciadas. É por esse motivo que “Esperança” dava a impressão que iriam focar apenas neste campo social e político.
Surpreenderam porque falar de amor e de coisas (à primeira vista) de menor importância é uma questão política que poucas vezes consideramos. Nisso, são precisos. Porém, provavelmente não se entenderá o que eles propõem logo de início. É necessário ter um tempo maior de escuta para absorver as nuances. CRIOLO, AMARO E DINO vai amadurecendo conforme o tempo, algo não muito apreciado na realidade atual em que tudo é imediato e descartável. O jeito é deixar um tempo maturando, e voltar a colocar para tocar algum tempo depois.