Criar o melhor refrão de 2017 não é suficiente para Brent Faiyaz

[TEXTO] Alexandre Ribeiro 

Bodak Yellow“, “Unforgettable“, “Wild Thoughts“, “XO TOUR Llif3” e, finalmente, “Crew”. O Hot 100 da Billboard é um teste à “invencibilidade” de um refrão orelhudo, mas, no final de contas, uma grande canção não se faz apenas daquela melodia que se encaixa no ouvido e fica cá dentro até começar a saturar. Longe disso. Na verdade, não existe uma fórmula exacta para criar essa tal “grande canção” e a equação estará sempre dependente de factores aleatórios e caos, muito caos.

Sem querer fugir do que nos realmente interessa, falemos das particularidades da última faixa referenciada: GoldLink é um rapper à procura do seu lugar ao sol, Shy Glizzy é um completo desconhecido para o comum dos mortais e Brent Faiyaz, o autor do melhor refrão do ano, é uma estrela em ascensão que, sem pedir licença, roubou a faixa ao protagonista e entregou ao mundo uma pérola com bravado e salpicos de sensibilidade. O verdadeiro macho sensível, diga-se, que até serve a banda sonora do primeiro episódio da segunda temporada de Insecure – é curioso que uma das suas músicas mais bem-sucedidas partilhe o título com a série…

 



Os paralelismos entre a série e a forma como Brent aborda canções são facilmente encontrados: ambos procuram escrever a partir de experiências pessoais; ambos conseguem relatar diferentes pontos-de-vista como se fossem os seus; ambos encaixam-se num espaço pequeno em que sexualidade, fragilidade e carisma são partes de um todo.

No meio disto tudo, é evidente que estamos a testemunhar o nascimento de uma nova geração de artistas negros que prometem guiar o futuro dos acontecimentos nos caminhos r&b, soul e universos adjacentes, quiçá alcançando o takeover da esfera pop. Recentemente, nomes como Frank Ocean, SZA, NAO ou Solange fizeram-no de forma excelsa, criando obras ímpares que reflectem o momento de criatividade que vivemos.

 



Na mesma linha e com apenas 22 anos, o cantor de Baltimore está a preparar-se para tomar o controlo total do seu futuro com Sonder Son, o álbum de estreia a solo que está agendado para sair no dia 13 de Outubro. No entanto, a sua discografia já compreende dois trabalhos: Into (2017), projecto lançado com Atu e Dpat – assinam como Sonder enquanto trio – e A.M. Paradox (2016), conjunto de 5 faixas que serve como introdução ao universo pessoal de Brent Faiyaz e agiliza uma fusão entre o orgânico e as tendências electrónicas que caracterizam os grandes hits pop, r&b e hip hop.

Kurt Cobain, Marvin Gaye, Jeff Buckley, Nina Simone, 2Pac e Quentin Tarantino são referências para as suas criações, um conjunto ecléctico e diversificado que explica certos aspectos na sua música como a sua entrega (parece vão saindo pequenos pedaços de alma enquanto canta) e a escrita cuidada e visual que nos empurra para cenários vívidos em que é fácil encontrarmos elementos familiares.

Na recta final de 2017, o título de melhor refrão está nas mãos de Faiyaz. Com Sonder Son a chegar no próximo mês, recomendamos seriamente que não comecem já a fechar as listas de melhores do ano…