Nos últimos anos, tem-se revelado como um dos produtores mais prolíficos da nova geração — tanto a solo como em dupla nos Soul Providers, projecto a meias com RakimBadu. Desta vez, Crate Diggs quis concretizar o desejo antigo de fazer um álbum com rappers, um formato clássico para qualquer produtor de hip hop, compondo beats que funcionassem em simbiose com os versos e vozes de um elenco de artistas próximos (e outros não tão próximos) que seleccionou para a estreia nestes moldes.
TNT, Ângela Polícia, Mura, E.Se, Raul Muta, Carracha, Ray DLC e NOIATT foram os rappers convocados para Sobreposições, um álbum editado pela Monster Jinx que também inclui contributos de EVAWAVE, Vasco Completo, Jeezas e DJ Stilo. Em entrevista ao Rimas e Batidas, Crate Diggs fala sobre o disco editado no final de Outubro, reflecte sobre o processo criativo e antecipa que 2026 será um ano mais focado nos trabalhos instrumentais, a sua base.
Qual foi o ponto de partida para este disco? Já era uma vontade antiga fazeres um álbum que reunisse tantos convidados, aquele disco de produtor com rappers?
Sim, definitivamente. Falando por mim e pelos produtores que conheço que costumam fazer trabalhos instrumentais, todos temos o objectivo de fazer algo assim, com muitas participações, trabalhar com vozes de rappers ou artistas. Sempre o quis fazer e houve outros produtores que me influenciaram a fazê-lo, como o Sam The Kid ou o ODm_. E agora achei que tinha chegado a minha vez. Tinha pessoas com quem queria trabalhar, pessoas com quem já tinha trabalhado mas com quem queria voltar a trabalhar numa cena minha e, depois de ter a ideia, tudo se começou a desenvolver organicamente.
E produziste estes instrumentais de propósito para este álbum? Ou já tinhas beats anteriores?
Havia um som que já estava feito, que foi aquele que fiz com o NOIATT. Tinha-se falado que poderia entrar num projecto de Soul Providers, mas acabou por não acontecer, e eu achei que fazia sentido neste projecto. Dei-lhe uma roupagem nova, em termos de estrutura, mas o grosso já estava lá. O resto foi feito de propósito para este álbum.
E apresentaste um beat específico à pessoa que estavas a convidar? Como é que funcionou essa parte?
Sim, fiz questão, aqui o objectivo era mesmo apresentar uma ideia produzida por mim e depois trabalhá-la em conjunto com o artista. E como já os conhecia, a eles e ao trabalho deles, já tinha uma boa ideia do que é que poderiam curtir. Então foi basicamente isso. Apresentei sempre uma ideia, eles deram-se à liberdade de acreditar na ideia e partimos daí.
E quando começaste a pensar neste disco e tinhas uma página em branco, como é que foi pensar nas pessoas que querias convidar? Não sei se pensaste nos convidados mesmo antes de teres os beats ou se foi mesmo ao longo do processo, ao imaginares quem ficaria bem em cada instrumental.
Foi essa segunda opção. Quando eu estava a fazer os beats — tirando o NOIATT porque já tinha o som com ele — organicamente fui pensando nos artistas. Uma cena que quero sempre é incluir o people que está comigo nesta caminhada e que faz parte do meu círculo, amigos e não só, participações habituais — vai ser sempre um prazer ter o Jeezas e o Ray, por exemplo. Foi logo neles que pensei para os primeiros beats, foram os primeiros a surgir na minha mente, pessoas com quem já tinha trabalhado e com quem também tenho um vínculo emocional. E depois havia pessoas com quem não tinha trabalhado mas que fazia sentido entrarem, como o Ângela [Polícia], o TNT e o Carracha. Eram pessoas com quem também queria estabelecer uma ligação e quis ter essas duas vertentes no projecto.
Dos nomes com quem nunca tinhas trabalhado, já os conhecias todos?
Sim, só não conhecia o Ângela e ainda não o conheço propriamente, porque só interagimos através da Internet. Queria trabalhar com ele e, quando assim é, tento a minha sorte. Ele curtiu das minhas cenas, provavelmente também da minha maneira de ser e da minha abordagem e criámos um vínculo a partir daí. Já conhecia as cenas dele e o que me motivou mais foi quando ele entrou no projecto do Il-Brutto, foi aí que me deu o clique: porque não? Os outros já conhecia e acabámos por nos aproximar com este projecto.
E também colaboraste com pessoas como o Vasco Completo, o Jeezas que já mencionaste, a própria EVAWAVE, que são contribuições mais instrumentais.
Sim, eu comecei na cena das beatapes, portanto convidar pessoal que toca instrumentos acaba por ser um complemento até mais intuitivo do que chamar um rapper. Então, quando fiz o beat da “Suposições”, por exemplo, já sabia e disse ao Vasco: “quero-te aqui”. Porque tinha uma ideia muito precisa daquilo que queria. Em relação aos rappers, sabia que queria certos rappers mas não sabia muito bem que abordagem é que cada um deveria ter neste ou naquele beat ou a maneira como iria cantar. Isso também foi algo que fui aprendendo e percebendo ao longo do processo. Mas, sim, chamar pessoal para acrescentar os seus instrumentos é muito fácil para mim e o Vasco é uma pessoa com que lido desde os Soul Providers, uma pessoa que estimo e que faz sempre sentido fazer parte das minhas cenas.
E em termos de rappers, houve alguém que te tenha surpreendido mais com a sua abordagem?
Acho que o Carracha! Eu já sabia que ele tinha aquela vertente mais melódica, mas depois de ver como ele entrou no beat… Há ali algumas nuances de que gostei muito e acho que foi o que me surpreendeu mais. Até porque conhecia mais a cena dele em AVAN GRA, mas a solo mostrou-me ali um outro lado.
E tendo em conta que já tens muitos beats editados, entre diferentes projectos, mais todos aqueles que nunca saíram cá para fora, e olhando apenas para o lado instrumental deste disco, o que é que achas que tem de mais diferente em relação a outros trabalhos que fizeste? E isso foi intencional, tentaste ter aqui uma linha sónica distinta? Também só o facto de saberes que eram beats que iriam levar com vozes e versos por cima pode ter tido alguma influência.
Sim, o objectivo era trazer uma cena diferente mesmo em termos de sonoridades. Considero-me um produtor versátil, acho que posso navegar por vários BPM, e neste caso queria juntar várias sonoridades, mesmo em termos de ambiências. Tanto cenas dark como cenas mais alegres, diferentes BPM… Também acabou por variar consoante a pessoa que eu ia chamar, mas o objectivo sempre foi ter uma cena diferente daquilo que eu já tinha feito. Mesmo os samples, os snares e kicks que uso, acho que consegui algumas nuances diferentes e atingi o objectivo inicial que era também experimentar cenas novas. Por exemplo, nunca tinha feito uma intro deste género, com este tipo de sample. Inicialmente isto até era algo para outro artista, mas a cena acabou por não se dar e achei que poderia ser um ponto de partida para um projecto a que eu iria chamar de álbum. Mas no geral é o tipo de vibe que eu ainda não tinha explorado, talvez tenha algo a ver com aquilo que o Sam tem feito nestes últimos anos com os Caixa de Ritmos. Algo que também me desafiou foi fazer estruturas para determinadas pessoas. Tenho sempre feito beatapes, nunca estou limitado a estruturas e neste caso tive que pensar bem nisso. Por exemplo, o Carracha canta acentuadamente, tive que pensar melhor na estrutura daquilo. Alguns sons foram mais desafiantes nesse sentido. E também foi na mistura em que vimos tudo ao pormenor, as diferentes cadências, acho que também explorei uns grooves diferentes no som com o TNT, porque não é o padrão de uma batida de hip hop, é algo mais rítmico, com mais bounce e groove… Também andava a ouvir algumas coisas mais mexidas, há um produtor de que gosto muito que é o The Kount, que também tem cenas assim e acho que também me ajudou nesse sentido, de navegar um bocado fora daquilo que eu já fazia.
E o facto de teres vozes diferentes com que trabalhar talvez também faça com que vás mais para um lado ou para o outro consoante as gravações e especificidades de cada um… Não sei se fizeste muito trabalho de pós-produção já depois de receberes as vozes gravadas.
Sim, isso até foi feito mais na parte da mistura. Chamei o B.ifes da Old Dreams Rec e, ao mesmo tempo que ele ia misturando, eu ia adicionando a minha pós-produção, a alinhar as estruturas, “agora faz assim”, “altera ali”, “vamos fazer aqui uma bridge”… Fizemos esse brainstorm e estivemos sempre a falar e em sintonia, as ideias foram aparecendo.
Como é que surge o título e o conceito, Sobreposições?
A capa é da Luana Ribeiro Santos, que também está dentro do meu círculo de amigos com quem tenho tentado colaborar e é fotógrafa. Fiz-lhe um convite, muito organicamente, dei-lhe uma ideia e ela foi trabalhando a ideia comigo. “O que achas disto, o que achas daquilo? O que achas do título ser isto ou assado?” Ela ajudou-me nisso e até foi ela que me deu a ideia de ser Sobreposições. Tem a ver com o facto de eu me relacionar com todas as perspectivas de todos os artistas que entraram no álbum, de ser uma mistura, todas elas sobrepõem-se ao meu ser, todas estão relacionadas comigo. É como se fosse um puzzle, algo que se complementa em relação à minha personalidade. A Luana deu-me a ideia desse nome, eu achei que era fixe e a partir daí tratámos da parte da imagem, das sobreposições, e houve a ideia de relacionar a minha imagem com as sombras. Curti logo, ela conseguiu fazer vários testes e alternativas e o mesmo processo originou a capa e o título.
E a estreia na Monster Jinx, como é que se dá com este disco?
Isso também aconteceu organicamente. O DarkSunn já nos acompanha — aos Soul Providers — desde o início, sempre foi a pessoa que nos ajudou em certas cenas, que nos deu conselhos, esteve sempre pronto para ajudar como um mentor. Então o convite surgiu organicamente por parte dele, mas inicialmente para um projecto de Soul Providers. Como depois a cena acabou por demorar um bocado e ainda está a ser feita, eu mostrei-lhe este álbum, que já estava em execução, ele curtiu bué e fez esse convite também. Acabou por fazer sentido.
E o processo de fazeres um álbum de convidados deu-te vontade de fazer mais?
Deu, mas não agora! Deu-me vontade de fazer uma cena do mesmo género, mas preciso de recuperar um bocado porque também me deu muitas dores de cabeça em termos de logística, organizar o álbum… Agora vou voltar à parte instrumental, retomar as beatapes porque é algo pelo qual nutro sempre um grande amor, mas eventualmente hei-de fazer mais algo deste género, de juntar artistas.