COVID-19 x música: e depois do adeus?

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTO] Elli Lauren

A propagação do coronavírus pelo mundo é real e, além do óbvio impacto na saúde, com milhares de casos confirmados, centenas de mortos e um imensurável número de contaminados, está a ter graves implicações a nível económico. As bolsas estão a registar mínimos históricos derivados à queda vertical das cotações do petróleo e à crise do coronavírus, o que implica uma natural cautela por parte dos investidores. Na óptica de Alan Skrainka, da Krilogy, empresa que trabalha no ramo da consultoria financeira, os investidores “vão ser sem dúvida mais prudentes nas suas actividades”, acrescentando, “a limitação das interacções sociais vai conduzir a um declínio de sectores como o das viagens e dos tempos livres, que se repercute no mercado accionista”. Os resultados estão à vista e afectam naturalmente o mercado na música ao vivo. Ontem, o Music Business Worldwide deu conta de uma queda abrupta da gigante Live Nation de 16,58% no valor das acções, depois da Organização Mundial de Saúde ter declarado o nível de pandemia referente ao COVID-19, o novo coronavírus.

Um pouco por todo o mundo, os concertos e festivais têm vindo a sofrer com a ameaça. Nos Estados Unidos, destacam-se o cancelamento do South By Southwest (SXSW), importante montra internacional na área da música, cinema e tecnologia, e o adiamento do Coachella, que se realizará em Outubro ao invés de Abril, com todas as implicações a nível de bilhetes e estadias que estas medidas provocam – no caso do SXW, por exemplo, não serão devolvidos os valores dos ingressos. A título individual, a história repete-se. Madonna cancelou dois concertos que tinha em Paris e os Pearl Jam uma digressão inteira nos EUA. A lista estende-se a nomes como Green Day, Ben Harper, The National, Mariah Carey, Slipknot e Miley Cyrus, entre outros. Em Portugal, o coronavírus levou ao reagendamento do Talkfest, o evento realizar-se-á em Outubro ao invés de Março, e ao cancelamento do Festival MIL – Lisbon International Music Network, a par do adiamento de eventos como o Revenge of the 90s.

Mantendo-se estas medidas de prevenção para evitar o alastrar do vírus, serão muitos mais os festivais e concertos a entrar para esta desanimadora lista de eventos rasurados. Ninguém sabe ao certo quanto tempo demorará até que a normalidade a nível económico se restabeleça, nem se este abrandar da máquina monetária é um prefácio de nova crise mundial. Deixemos esse diagnóstico para os peritos na matéria. Uma coisa é certa: por mais que a indústria dos espectáculos coloque a rotação dos seus motores em valores mínimos ou chegue, inclusive, a parar por uns tempos, a inspiração artística vai continuar em ebulição, procurando um outro escape para se manifestar.

Dito isto, e partindo do pressuposto que não estamos perante a extinção da raça humana, o que nos reserva o futuro a nível musical quando o coronavírus disser adeus e regressarmos todos ao nosso habitual quotidiano? Talvez a grande mudança aconteça a nível discográfico. Com a ausência de concertos e digressões que prendam os músicos aos palcos, as energias tendem a concentrar-se no estúdio. É no interior destas quatro paredes que os artistas vão passar os próximos meses (caso o vírus se mantenha entre nós a longo prazo, claro), longe das recheadas plateias dos recintos festivaleiros, das arenas desportivas ou até dos pequenos clubes citadinos. Adivinha-se um incremento na quantidade de material editado, seja ele em formato de longa-duração, EP ou single. Mas não só. Em caso de situação adversa, que impeça os músicos de se reunirem em estúdio para gravar material, esse processo poderá acontecer de uma perspectiva individual, solitária, arrumando a ideia e o conceito de banda temporariamente na prateleira.

Imagine-se este cenário de clausura – e atenção que a ideia aqui não é prever um apocalipse mas sim tentar antecipar um futuro que não parece estar assim tão distante. É normal que os estúdios caseiros se tornem na grande arma dos artistas e que as gravações feitas em massivas salas de captação com a ajuda de mastodônticas mesas de mistura sejam substituídas pela simplicidade do computador e da placa de som, numa perspectiva mais minimalista e até electrónica, recorrendo a programas de sequenciação de instrumentos ao invés da ideia de banda com bateria, baixo, guitarra, teclas, secções de metais, vozes principais e coro. As temáticas tornar-se-ão menos expansivas e mais introspectivas, ligadas ao indivíduo e à forma como olha para o mundo a partir da janela do seu pequeno apartamento ou da sua gigantesca mansão com vista para o mar.

A história tem sido prolífera em mostrar-nos momentos em que a arte andou de mãos dadas com os paradigmas políticos, sociais e económicos do nosso giratório e mutante globo, dos conflitos armados às grandes revoluções, das epidemias ao terrorismo e das catástrofes naturais às crises económicas, como serve de exemplo a queda de Wall Street que levou à Grande Depressão em 1929. Existem também os casos particulares, próprios de cada país. Num trabalho de 2017 intitulado When art meets crisis: the Portuguese story and beyond, assinado por Augusto Santos Silva (professor na FEP), Paula Guerra (professora na FLUP) e Helena Santos (professora na FEP), é explorado o modo como as artes lidaram com a crise económica de 2011 a 2014, altura em que o país foi sujeito a um resgate financeiro. “A abordagem é baseada numa análise transversal, tomando em conta os domínios da literatura, das belas-artes, das artes visuais e do cinema, da música e das artes performativas”, pode ler-se na introdução da obra.

Dividido em quatro capítulos, o documento cita algumas das criações em contexto do apertado garrote da Troika. Destaca a instalação de 2014 Os Nossos Sonhos Não Cabem nas Vossas Urnas de Rui Morão, no Museu do Chiado, na qual os artistas podiam ver, numa parede, “fragmentos de vídeos a reportarem cenas de protesto: a interrupção do discurso do primeiro-ministro no Parlamento, pessoas a contestarem a visita oficial da Chanceler Angela Merkel a Portugal, pessoas a organizarem protestos contra a subida do preço dos transportes, a denunciarem cortes financeiros nos serviços de saúde, a parodiarem banqueiros e políticos ou a apelarem à participação de todos os cidadãos”. Repesca a exposição 12.12.12 no Centro Português de Fotografia em 2013, que tinha como tópico a “privação económica levada a cabo pelas políticas da Troika: filas formadas à entrada dos balcões da segurança social, pessoas a vasculhar os baldes do lixo em busca de algo de valor, longas filas à espera de autocarros que demoravam um eternidade a chegar, obras públicas ao abandono, miséria e exclusão”. Salienta ainda o trabalho de Miguel Gomes, com a Trilogia As Mil e Uma Noites, centrado no quotidiano da crise portuguesa entre 2013 e 2014, o documentário Dreamocracy de Raquel Freire e Valérie Mitteaux, que abordou a organização de manifestações e outras formas de mobilização maciça contra as medidas de austeridade, e, por fim, no ramo da música, o tema “Que Parva Que Eu Sou”, dos Deolinda, que denunciou as condições precárias das novas gerações, e o álbum Pelo Meu Relógio São Horas De Matar, dos Mão Morta, cujo vídeo do tema “Horas de Matar” mostra Adolfo Luxúria Canibal de arma na mão a atirar contra banqueiros, políticos e representantes da justiça. 

O extenso trabalho, que a dada altura estabelece uma ligação entre as expressões artísticas da mais recente intervenção da Troika e algumas obras que, no mesmo período, aludiram aos duros anos do Estado Novo, entre outros pontos de convergência históricos, explora minuciosamente a forma como a arte vive paredes meias com os acontecimentos sociais, políticos e económicos. Ainda estamos em prefácio daquilo que poderá transformar-se numa crise económica a nível mundial – e esperemos muito sinceramente que não passe de uma volátil situação de pânico – mas, caso as coisas se compliquem, será muito provável toda esta questão do coronavírus – bem como as políticas adoptadas por cada país para salvaguardar a sua estabilidade financeira, com medidas que protejam as empresas e trabalhadores – ser o tema central da inspiração desses tais músicos que nos próximos tempos se vão sentar de frente para o seu computador e placa de som. Que assim não tenha que ser.


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