Corona // Lo-Fi Hipster Sizzurp

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A menos que o meu purple radar esteja desafinado, Lo-Fi Hipster Sizzurp será o primeiro álbum “violetado” em Portugal: a invenção de DJ Screw de deslocação de tempo e espaço com fortes efeitos psicadélicos alimentados a purple drank tem efeitos muito curiosos sobre Lo-Fi Hipster Sheat, o álbum com que os Corona anunciaram a sua chegada a esta casa em 2014. Logos, homem dos interessantes Ollgoody’s, e o produtor dB, cozinharam uma viagem singular criada em termos sónicos a partir de um mergulho no pântano kraut-psych-hard colheita 70s e em termos líricos num humor pouco correcto e algo javardo que pode fazer corar algumas mentes, mas que fornece espaço generoso para ginástica com a língua (salvo seja): “é nasty, mas só tu é que mudasti”…

Desacelerado, revirado, e com a lâmpada púrpura acesa, este disco fica ainda mais lisérgico, mais hipnótico, mais fumarento e mais nasty: as palavras atingem-nos como uma geleia gorda de que não nos conseguimos livrar e os beats ganham uma espessura dramática ainda mais pronunciada, revelando também um pouco mais da sua arquitectura. Se Lo-Fi Hipster Sheat mereceu edição numa cassete gordurosa, este Lo-Fi Hipster Sizzurp mereceria pelo menos um CDr com dedadas de xarope e qualquer coisa ininteligível escrita à mão. Aguardo agora com ansiedade a versão chopped and screwed de Árvore Kriminal. Alguém que se chegue à frente, por favor. E obrigado.

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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