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Fotografia: Lais Pereira

Uma reflexão sobre o sentido da vida.

Continuum de Félicie d’Estienne d’Orves no Teatro do Bairro Alto: a libertação através da escuta

Fotografia: Lais Pereira

Entre 1988 e 1993, Éliane Radigue, uma das pioneiras na exploração de sintetizadores cujos primeiros trabalhos datam ainda dos anos 50, quando ainda era aprendiz de Pierre Schaeffer e de Pierre Henry em Paris, dedicou-se à criação do que é considerada a sua obra prima, Trilogie De La Mort. Este álbum é composto por três músicas – cada uma com aproximadamente uma hora de duração – e retratam a exploração do universo religioso budista, com principal foco em Bardo Thodol, ou O Livro Tibetano Dos Mortos, um texto sagrado budista que visa explicar as experiências que alguém tem quando, no ciclo da vida, se encontra no espaço existente entre a morte e o seu renascimento.

Foi esse o ponto principal que guiou Continuum, a instalação audiovisual de Félicie d’Estienne d’Orves. A acompanhar a última peça da obra, Koume (que se foca no processo de reencarnação), tínhamos um vídeo (com a duração de 52 minutos) baseado em captações da NASA do pôr-do-sol visto em Marte, que criou o elemento visual perfeito para a narrativa introspectiva da obra de Radigue. No Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, as lentas progressões dos sons dos sintetizadores criaram a banda sonora para uma longa-metragem de uma paisagem morta onde o único foco possível era o brilho intenso do sol, que descia lentamente pelo ecrã enquanto diferentes tonalidades de cores se dissolviam pelo céu e gradualmente se transformavam noutras.

O resultado dessa junção foi a criação de uma ambiência que, apesar de serena, nos gerava um desconforto, de certa forma, aliando o desconhecido (não fora por acaso que a narrativa do vídeo se tenha passado noutro planeta) com a tensão sonora que se sentia no ar. O clímax musical ocorreu por volta da meia hora, quando o sol já se encontrava perto de cruzar a linha do horizonte, com uma parafernália de sons, entre os quais um que nos remetia rapidamente para vozes humanas (as únicas ouvidas em toda a música) e o céu ficava preenchido por tonalidades azuis. Já no fim, as luzes, que no início do espectáculo estavam apontadas ao público e que foram progressivamente desaparecendo, reaparecem, focando-nos de novo em elementos com vida, nomeadamente nós próprios.

Dado o contexto da obra musical, não foi difícil criar rapidamente vários paralelismos com o vídeo. Os sons sintetizados partilhavam a ausência de vida com a paisagem de Marte, enquanto o sol ditava o progresso temporal existente entre o início — a morte — e o fim — a reencarnação. Os holofotes, que começaram apontados ao único elemento vivo na sala, ditavam o ponto inicial deste ciclo ao serem apagados e só reaparecerem quando a obra terminou, intensificando o contraste existente entre o mundo em que estávamos e onde decorria a narrativa.

Esta instalação foi um teste à paciência: a lentidão do desenlace do acontecimento, que no fundo não daria em nada em particular, visto ser circular (tanto o ciclo da vida como a rotação do planeta que cria a ilusão do sol se pôr, quando este está sempre no mesmo lugar). Focava-se, portanto, no “entre”, no momento no qual aparentemente nada acontece, na espera, no repouso entre terminar uma vida e recomeçar outra nova. Criou-se um ambiente perfeito para a introspecção, o levantamento de questões e a tentativa de as resolver. A noção de tempo ficou completamente distorcida, os corpos ficaram desconfortáveis e sentimo-nos a experienciar algo único enquanto os holofotes estavam apagados. No final, regressámos à vida normal com a sensação de termos sido purificados, mas, ao mesmo tempo, mil e uma ideias assaltavam-nos a mente numa tentativa de decifrar a experiência que acabáramos de ter.

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