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Fotografia: Vera Marmelo

Andrea Neumann, Sabine Ercklentz e Mieko Suzuki apresentaram-se ontem ao vivo em Lisboa.

Contagious no Teatro do Bairro Alto: do ruído industrial à calma etérea

Fotografia: Vera Marmelo
Sabíamos pouco do que esperar da apresentação de Contagious no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa. Conhecíamos o historial das três artistas que formam o grupo, a sua editora, o disco que lançaram – objecto de estudo no qual não podemos confiar para este efeito, dada a incidência que dão à componente improvisada nos espectáculos, tal como contaram no podcast do TBA, Dito e Feito, e reforçaram por e-mail, em declarações ao Rimas e Batidas e em jeito de sugestão: assistam ao concerto sem expectativas, como se fosse “uma página em branco”. No entanto, as expectativas eram altas. O álbum homónimo é um espantoso trabalho de improvisação, produzido por Rabih Beaini e com o selo da Morphine Records. Fascinado com o que tinha ouvido das gravações de actuações anteriores do grupo, o produtor forneceu o estúdio para que gravassem Contagious. Os títulos, contam, são nomes de animais hermafroditas e, neste caso, a fluidez de género na natureza espelha-se na forma como os estilos musicais se cruzam na música de Contagious. Como um sopro – que neste caso foi disparado a partir de um trompete –, o concerto iniciou-se misterioso e alusivo a um ambiente obscuro: o piano preparado tinha as suas cordas a vibrar pela acção de Neumann, que criou uma cama atmosférica com os harmónicos; e o trabalho de espacialização estereofónica remetia-nos para uma qualquer ambiência soturna e enevoada de um filme. Como uma descolagem, o espectáculo começou de maneira serena, a partir de uma sonoridade etérea, com o desencadear progressivo a culminar em algo caótico e abismal. A sonoridade de grande parte do concerto pode ser descrita como uma quantidade de mantras criados em simultâneo, que trocam de posições funcionais enquanto a música se metamorfoseia: Andrea Neumann ocupou-se com o inside piano preparado e a mesa de mistura, variando nas formas como percutiu ou excitou as cordas, posteriormente processadas por via electrónica; Sabine Ercklentz trabalhou com timbres mais ventosos, explorando as várias possibilidades do trompete e jogando com reverberações e delays (e tantos outros efeitos) para adensar a paisagem; e Mieko Suzuki foi o elemento aglutinador — o trabalho nos gira-discos e grande parte da componente electrónica acontecem nas suas mãos, ficando ela encarregue de segurar o universo atmosférico do grupo enquanto sampla a partir do material que provém do inside piano de Andrea. A melodia – nada central nesta equação – foi trabalhada maioritariamente por Neumann e Ercklentz, com os loops e elementos que se repetem a ficarem mais nas mãos de Suzuki, mesmo que não lhe fossem totalmente exclusivos. Há sempre uma interacção entre todos os elementos, desde os glitches pelo trompete aos kicks possantes tocados por um sensor no piano, passando também pelo processamento de áudio por efeitos. Outro dado relevante para a imprevisibilidade: as luzes alteram-se no mesmo ritmo lento que a música, como se lessem com exactidão o que se passa na atmosfera. E a quietude do som e dos movimentos das intérpretes engana: a precisão com que trabalham os efeitos e a atenção que têm às dinâmicas e à evolução tímbrica fariam qualquer um duvidar da improvisação que está em jogo. Apesar da incerteza que paira no ar, encontramos momentos de previsibilidade quando ocorrem loops, mas a regularização da batida ou doutros instrumentos, de quando a quando, não altera a intensidade da experimentação. A contínua exploração do som impossibilita a concentração num só elemento e a compreensão numa escuta apenas. Talvez por isso esta música de lenta transfiguração tenha mais de maximalista do que de minimal, na verdade. Do industrial ao etéreo, as expedições tímbricas de Contagious causam inveja pelas melhores razões, ainda para mais tendo em conta a reduzida quantidade de material utilizado – o que não diminui a complexidade que implica trabalhar com o equipamento que se encontra em palco. Se noutro contexto qualquer colocássemos uns instrumentos à frente do trio, o resultado não seria certamente igual, mas dificilmente não sairíamos deslumbrados da sala. Tal como saímos ontem.

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