Oito anos depois de Adoro Bolos, Conan Osiris volta a baralhar as cartas e dá de volta não um, mas dois álbuns de música imaculada. O díptico XENONEXO & MUSICÆ MMXV caiu de surpresa na madrugada de 28 de dezembro, longe da liturgia dos balanços e das coroações, pondo termo a uma seca de quase uma década. O resultado é mais uma pedrada no charco do músico de Lisboa, uma obra excessiva, indulgente e viciante que se estende por mais de uma hora. Mas nem tudo é novidade. Do alinhamento de XENONEXO fazem parte “TELEMOVEIS”, canção com que representou Portugal no Festival Eurovisão da Canção, sem alterações notórias face à gravação de 2019, e “CARTOMANCIA”, tema que há muito integrava os alinhamentos de Conan Osiris ao vivo. Por sua vez, o mini-álbum MUSICÆ MMXV reúne instrumentais lançados de forma avulsa no Soundcloud, ainda antes do lançamento do álbum de estreia do músico (MUSICA, NORMAL, 2016).
Tal como havia acontecido no seu antecessor, Conan mergulha nos brandos costumes de um país que insiste em esquecer os seus, ensombrado pela crescente crise de habitação. É isso que diz em temas como “FUJA MESMO SFF” e “LOICINHA”, aqui e ali em versos carregados de ironia e de veneno. Há um cansaço evidente em relação ao país e às suas figuras, no modo como tudo se resume a pose, imagem e superfície. Aquilo que em 2017 soava a celebração exagerada do absurdo coletivo surge agora com um olhar mais crítico e agreste. Mas no meio do desencanto sobressai um inventário linguístico singular, feito de termos, expressões e coloquialismos bem humorados. Dos “panquekudos” às donas de casa gluteúdas, Conan fixa em disco um catálogo de caricaturas sociais tiradas da rua, que dão cor a um retrato urbano simultaneamente excêntrico e reconhecível.
A vintena de músicas que compõem XENONEXO leva-nos por territórios previamente explorados de experimentação e reapropriação de diferentes culturas e tradições, com o músico a espraiar-se nos ritmos deixados pelas diásporas, reconfigurados à imagem do funk, do kuduro e do perreo, que desconstroi com admirável propriedade. “SAUDADE X SAUDADE” pega nas formas sintéticas do house e do garage britânico e acrescenta-lhes o fatalismo do fado; o quatro-por-quatro de “BAZA NAO FALAR” é tão gratuito que chega mesmo a tornar-se viciante. “FORMIGAS2”, por outro lado, é um tratado de destruição clubística, com pads histriónicos e um manancial de batidas quebradas a romper com as diretrizes do compasso quaternário.
Em “FUJA MESMO SFF” aponta-se o dedo à crescente vaga de autores que tem vindo a reconfigurar os códigos das músicas de raiz (os adaúfes, as palminhas, o “oioai” repetido até à exaustão), caminho que o próprio ajudou a abrir. “PANQUEKUDO” olha de frente para o silêncio discográfico, com o músico a assumir a demora e a expor a ambivalência do seu regresso (“Eu nem queria vir, eu nem queria voltar”, canta). Depois, a apologia de “π-NÓQUIO” avança sobre um electroclash musculado, convocando uma assembleia heterogénea onde cabem trabalhadores, pessoas não-binárias e até “otários”, tal como o próprio admite que foi em tempos.
Depois de uma meditação de recorte industrial, a voz volta a erguer-se em “DORES (FIM)”, suspensa por um coro de reverberação. Conan dirige-se à Sociedade Portuguesa de Autores (“Obrigado por ter-me ajudado a não ‘tar em situação de sem abrigo”, diz) e a Lisboa, a sua musa (“sabes que eu nasci das tuas mamas”, relembra). Mas junto ao agradecimento surge um lamento: “Eu já não sei que é que hei de fazer contigo”. O apelo estende-se ao país, numa pergunta retórica e pungente: “Portugal, porque é que não queres ser nosso amigo?”.
Ao quarto álbum, não há refúgio nem piedade: ninguém escapa ileso à faca afiada de Conan Osiris. Fazendo das sua palavras nossas: papou tudo.