Conan Osiris: Um Rouxinol Na Ordem Zero De Markov

[TEXTO] Vítor Rua [FOTO] Direitos Reservados



#01a neblina de Betelgeuse, quase silenciosa…

Enquanto vou escrevendo este ensaio sobre a obra sónico-musical do compositor Conan Osiris, vou escutando uma voz na minha cabeça. E é a minha voz que “ouço”. Pelo menos é essa a sensação com que fico. Não ouço este texto dito pela voz do meu pai ou da minha sobrinha – a não ser que eu o pretenda intencionalmente. Ouço-o com uma voz que identifico com a minha, quando audível.

Um compositor do século XXI “ouve” quando está a compor. E “ouve” para além dos sons tradicionais – da orquestra clássica, do ensemble de jazz, das bandas de rock; ou das técnicas instrumentais invulgares, dos sons de fontes electrónicas ou digitais; ou dos sons reproduzidos, analógicos ou digitais, em altifalantes; etc. O que “ouve” pode ser todo o tipo de sons, desde o som de vento, ao chilrear de um rouxinol; vozes de pessoas a tossir ou cães a ladrar.

E que “ouve” um compositor destes na sua cabeça? “Plim” – som de uma nota de vibrafone; “krcccccccccck” – unhas a raspar num teclado de um piano; “bzzzzzzz” – som eléctrico amplificado de uma lâmpada; “pum” – som grave de sintetizador; “au au au” – cão a ladrar; “cof cof cof” – pessoa a tossir. A maior parte destes sons interiores não faziam parte da escuta anterior ao século XX.

Ora, Conan Osiris, nasce num Mundo Cheio de Sons. Sons esses que ele adora: todos sem excepção! Mas escolhe os seus preferidos como quem colecciona pinturas de paisagens a óleo. Depois de seleccionados, escuta-os atentamente e vê os que estão bem – som original – ou os que precisam de ser alterados e modificados. Posteriormente, vai ter de escolher um sistema tecnológico que lhe permita executar as suas ideias musicais de forma a pô-las em prática. E depois terá de estruturar esses sons ou grupos de sons em “frases” e “beats”, de forma a concretizar as suas obras.

De que estamos, então, aqui a falar? De “Novos Sons”! Da Criação de Novos Sons! Conan Osiris, mesmo que escolha sons pré-existentes, no simples acto da escolha já está a tomar uma decisão “estética”, como quando num filme alguém é encarregado de escolher o casting. Um bom casting é o prelúdio de um bom filme! No caso de Conan Osiris, a escolha dos seus sons e a sua manipulação posterior são um factor muito importante. E como constrói ou pode ele construir “novos sons”?



#02 chispando clusters

Tomemos como exemplo alguém que sampla o som de uma nota pizzicato de um instrumento de cordas oriental, e também essa mesma nota, no mesmo registo, mas de um piano de cauda. Depois, corta o ataque da nota do piano e guarda apenas a reverberação da nota produzida. Posteriormente – através da técnica de morphing – junta esses dois sons, criando um “novo som”. Os dois sons acústicos – o do instrumento oriental de corda e o do piano – foram convertidos num único som digital.

Esse novo som pode ser manipulado, num teclado, de forma a produzir notas de alturas diferentes – e.g. o cromatismo ou mesmo a microtonalidade. Este som digital que resulta da união de dois sons acústicos, sendo que um deles foi alterado – ao do piano retirou-se o ataque da nota –, não deverá ser encarado como um novo som? Independentemente de ter sido criado pela junção de dois sons distintos? Não é este som, assim criado, um novo objecto sonoro, distinto dos dois sons que lhe deram origem?

Se, em vez de um sampler se usar um sintetizador para realizar uma operação semelhante à descrita acima, as questões levantadas anteriormente ainda se tornam mais pertinentes. Pois um som construído de raiz num sintetizador como o Yamaha DX7, já não seria o resultado do uso de sons de instrumentos acústicos mas sim a criação de um som electrónico, com um timbre similar ao de um instrumento oriental de cordas e o sustém – sem o ataque – de uma nota de piano. Tudo – este novo som – criado artificialmente. Um som assim criado, não é o resultado da junção de dois sons existentes, mas sim um novo som, com características próprias.



#03pétalas de Andrómeda

Este é apenas um exemplo de como um compositor do século XXI, como Conan Osiris, lida com o Mundo Sónico que o rodeia e de como pode manipular os sons.

Mas todos esses sons – novos ou pré-existentes: alterados ou não – têm de ser “gravados”. Ora aquilo a que chamamos vulgarmente som gravado, na realidade não é de todo um som. São apenas sulcos num vinil, relevos numa banda magnética, ou 0s e 1s num disco rígido. Qualquer som registado, seja de forma analógica – mecânica ou eléctrica – ou digital, passa a existir como data. Aquilo a que chamamos som gravado, não é mais que o registo de informação variada e complexa de vibrações num meio elástico. Mas não é som. É de novo som quando reproduzido e escutado por seres com sistema auditivo – de referir a excepção das plantas que reagem ao som e não têm sistema auditivo. O que nos leva a imaginar uma outra forma de escuta ou de sentirmos som. Um som gravado é como um livro à espera de ser lido. É um som em stand-by. É um som que foi som e que pode voltar de novo a ser som, e quando isso acontece deixa de ser um som gravado para passar a ser um som “reproduzido”. Assim, um som gravado de um violino, deixa de ser audível e passa a ser similar ao “som” de notas musicais escritas para violino numa partitura, ou seja, passa a ser um som “fixo”, uma memória de um som. Fica num estado de “não-som” até ser reproduzido. E quando é reproduzido, passa a existir de novo como som audível que outrora foi, embora nunca seja idêntico ao original – pelo menos até à actualidade isso ainda não foi conseguido, por muito próximo que estejamos de o concretizar. Um som gravado pode ser reproduzido de forma analógica ou digital. Mas seja qual for o modo, a escuta é sempre realizada pela emissão do som por altifalantes ou auscultadores.

Conan Osiris, parece ser “indiferente” ao “tipo” de som a escolher para as suas criações musicais, bem como à “qualidade” da tecnologia que usa. Tudo o atrai: do som de um cão a ladrar, à tosse de humanos ou de instrumentos extra-europeus. Mas, depois, é como se ele possuísse no seu cérebro um “chip” – contendo métodos e técnicas dos maiores produtores da Pop internacional, de Rundgren a Eno – e, com um bom gosto extremo, compõe esses sons de forma virtuosa, numa espécie de collage sónico-timbrica. Aliás, a maior parte das vezes, não conseguimos saber na obra deste compositor se o que escutamos é um único som ou se é uma constelação de sons, reunidos de forma a criar um novo som. Esse “jogo” presente na sua obra é deveras curioso, pois levanta um problema filosófico que “atormenta” os novos pensadores das recentes Teorias do Som: quando é que escutamos “um” som, e quando é que escutamos “sons”?



#04 –radiações audioextravagantes

Quando o primitivo humano pegou num osso, lhe fez orifícios e soprando obteve sons semelhantes aos sons tónicos de uma flauta, tinha inventado um instrumento musical e criado um novo som. Da mesma forma, quando percutiu com uma pequena vara ou dedilhou com os dedos a corda de um arco de caça, descobriu a harpa e um novo som tónico.

Este acto criativo, que muito provavelmente existe desde o início da humanidade, mantém-se até à actualidade. Para a criação de novos sons são necessários novos instrumentos. Até à invenção da electricidade todos esses sons eram acústicos. Alguns desses instrumentos acústicos atingiam níveis de construção – mecânica, de engenharia e de design – verdadeiramente sofisticados, como por exemplo a sítar indiana, o piano ou o órgão. Mas estes sofisticados instrumentos musicais detinham o mesmo princípio fundamental encontrado nos primitivos osso ou arco: a produção de novos sons. Com a invenção da electricidade surgem os primeiros instrumentos musicais eléctricos, depois electrónicos e finalmente digitais. Se os instrumentos eléctricos são essencialmente instrumentos acústicos amplificados por microfones – os casos do piano eléctrico, do vibrafone eléctrico e da guitarra eléctrica – já os instrumentos electrónicos ou digitais produzem sons artificiais – como os sons sinusoidais. Em instrumentos como o sintetizador analógico ou o sampler podemos criar sons a partir do nada. Esta forma de criação de novos sons leva-nos a à relação com uma página em branco de um pintor e faz-nos reflectir sobre “o que é um som”. Se pressionarmos a tecla de um piano na nota Dó central, obtemos um som. Mas o que é que acontece se pressionarmos duas teclas simultaneamente – e.g. Dó e Mi? Será que ouvimos um som produzido por duas notas, ou escutamos dois sons? E se dermos o acorde de Dó Maior? Interpretamos esse evento audível como um som contendo as três notas do acorde – Dó-Mi-Sol – ou três sons distintos? Sabemos que o nosso cérebro é perfeitamente capaz de distinguir as três notas do acorde de Dó Maior: o Dó, o Mi e o Sol. Mas a minha questão é a de saber se ao escutarmos o acorde estamos a ouvir um som ou três sons, produzidos por três teclas diferentes do piano.

Antes de respondermos a esta questão, debrucemo-nos sobre outro exemplo distinto. Uma flauta e um oboé soam em uníssono a nota Dó no mesmo registo: ao escutarmos esse evento, estamos a presenciar um som produzido por dois instrumentos musicais diferentes ou estamos perante a existência de dois sons? E, já agora, quando escutamos essa mesma nota Dó produzida por um tutti orquestral, estamos perante um som produzido por uma orquestra ou estamos na presença de vários sons? Isto poderá parecer semântica mas irei demonstrar que não é assim tão simples a resposta. No que diz respeito aos três exemplos anteriores, parece- me óbvio constatar que tanto no caso do acorde do piano, como no caso do uníssono da flauta e do oboé, ou no tutti orquestral, presenciamos um evento sónico constituído por vários e diferentes sons. Assim, quando nos referimos ao som produzido pela orquestra, sabemos que este som é, na realidade, constituído por vários sons de diferentes instrumentos.

Mas será que podemos usar a mesma lógica ao falamos de sons electrónicos ou digitais?E que relevância tem este factor na obra de Conan Osiris? É “relevante” no sentido que este compositor usa os sons quase como se de “barro” se tratasse: “amassa-os”, “redu-los”, “esmaga-os”, “comprime-os”, dá-lhes “forma”, para logo de seguida os voltar a estilhaçar em “pedaços”, e tudo isto com o intuito de construir originais e criativos beats ou texturas que suportam a sua voz com inflexões arabizantes. Todos estes métodos e técnicas que o criador usa nas suas realizações criaram o seu estilo, a sua linguagem, uma gramática muito idiossincrática. As suas letras transbordam de um humor-surrealista surpreendente, digno de um guião dos Monthy Python.

Conan Osiris tem já um som muito seu e inconfundível, o que é raro num artista com tão poucos anos de actividade – é de ressalvar que existem músicos que andam toda a vida à procura do seu estilo próprio.



#05 – árvore dissonante

Mas o que é isto do “Estilo”? O que pretendemos afirmar quando dizemos que “o som do Miles Davies é inconfundível”? O que é “o som Monk”? E “o som Hendrix”? O que leva as pessoas a dizer que “o som dos Beatles é diferente do som dos Rolling Stones”? E o que é “o som Karajan”? Em que difere o som de Ravi Shankar de um outro tocador de sitar? Afinal que tipo de som é este e de que forma o podemos classificar? Comecemos por investigar a importância da instrumentação: de que forma é importante a escolha do instrumento ou instrumentos para obtermos este som-identidade? O som do trompetista Jon Hassell é constituído por ele tocar 50% de som do instrumento e 50% som de ar – sopro; depois usa um processador de som – Eventide – que é um harmonizador – cria várias notas a partir de uma só e estas estão em relação harmónica umas com as outras; e, finalmente, temos a parte melódica: as escalas ou modos que ele escolhe para o seu fraseado musical. Mas será que um outro músico com o mesmo instrumento, com o mesmo processador e usando as mesmas escalas e modos de Hassell soa como este? É provável que sim. Mas especialistas irão identificar que não é ele. Da mesma forma que existem centenas ou mesmo milhares de pianistas a tentarem imitar Keith Jarrett e, mesmo assim, conseguimos diferenciar o original das cópias. É como um imitador de vozes de famosos: é uma voz semelhante – tonalidade, expressão, timbre – mas não é igual.

Podemos assim concluir que o facto de dois músicos usarem instrumentos iguais ou de se usarem as mesmas escalas ou modos, não faz com que soem igual e que tenham o mesmo som. No caso de um Maestro, o caso é ainda mais complexo: o Maestro não toca nenhum instrumento, os músicos são sempre diferentes e as músicas interpretadas podem estar separadas temporalmente por séculos. No entanto, mesmo assim, conseguimos distinguir se uma orquestra está a ser dirigida por este ou aquele Maestro. Então, se o som-identidade não é caracterizado pelo som do instrumento, se não tem a ver com o, ou os, músicos envolvidos – no caso de um Maestro e de uma orquestra –, e se não tem a ver sequer com a escolha das músicas, das notas, escalas e ritmos – o que é que nos faz distinguir o som de um músico do som de outro, tal como uma mãe pinguim consegue descortinar o som da sua cria no meio de milhares de outras crias? Talvez a resposta a esta questão – que não é simples – seja a de que o som-identidade é uma mescla de todos estas variantes: instrumentação, técnicas instrumentais, musicalidade, timbre, ritmo, e toda uma série de idiossincrasias sónicas do indivíduo ou indivíduos produtores do som musical.

Ora, Conan Osiris, parece ter aprendido muito bem essa “lição” e rodeou-se de sons e de texturas de sons de que se “apropriou”, tornando-os um produto do seu estilo, nem que não seja através do uso sistemático de métodos semelhantes na construção das suas obras e do seu som – a recorrência obsessiva por sons instrumentais orientais ou extra-europeus. Não é fácil distinguir o que é que “define” o estilo da música de Conan Osiris porque para ele tudo parece ser “bom”, de utilidade para as suas criações sónicas e musicais, tornando até difícil definir a sua “música”! Assim, em vez de tentar definir a “música” de Conan Osiris, vou partir do princípio de que sei perfeitamente o que ela é, e que estou mais interessado, de momento, em tentar entender como ela surgiu. Desse modo, dou uso à minha imaginação e imagino um nosso antepassado das cavernas, sentado à sombra de uma azinheira, depois de ter comido uma opípara refeição frugívora, escutando, ou melhor, entendendo, o chilrear de um rouxinol poisado num ramo por cima da sua cabeça. “Que linda ‘coisa’”, pensa ele, enquanto afasta com a mão um mosquito; “Vou tentar imitar o que entendi”. E o nosso amigo australopiteco, ao fazer isso, ao tentar reproduzir o chilrear do rouxinol, fez música. Mas… e antes de fazer essa música, que se passou? Que entendeu o nosso amigo primitivo? O que é que o levou a mimetizar aquele evento sónico? O meu argumento é o de que ele entendeu música. Ele ouviu um som; escutou-o; e finalmente entendeu-o; até esse momento, ele só tinha ouvido o chilrear do rouxinol; nesse dia entendeu-o; e ao fazê-lo escutou Música.

A primeira música que o humano criou não foi improvisada, não foi composta e nem sequer foi tocada! Foi “escutada”!

A música de Conan Osiris necessita apenas que a “escutemos” para o ser!

Este meteórico músico português é um talento precoce que caminha na Via Láctea dos Sons, estrelando de exóticos ritmos e arabizantes melodias o horizonte provável da Sonosfera do Mundo.

Conheça-o quem o quiser amar.


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