Conan Osiris no Estúdio Time Out: Lisboa e o mimo merecido

[TEXTO] Miguel Alexandre [FOTOS] Inês Costa Monteiro

Uma sala de espectáculos como o Estúdio Time Out não faz jus ao ambiente que o autor de Adoro Bolos cria quando entra em palco: a teatralização emolida, o surrealismo por vezes excessivo, a volátil sensação de euforia – Conan Osiris concebe o seu próprio mundo para uma audiência cada vez mais disposta a ouvi-lo e protegê-lo como uma imagem que tivera elaborado há muito tempo na sua mente. Na sexta-feira à noite, em pleno Samsung Galaxy Live, Lisboa presenciou tal distopia sónica: um concerto dele é uma rápida viagem a um mundo quase saído de um roteiro de David Lynch.

Pouco passava das 22h30 quando os olhos mais atentos da fila da frente traçaram João Reis Moreira, o dançarino e braço direito do artista, a entrar em cena. Conan apareceu poucos segundos depois, e deu ao público o primeiro mimo: “100 Paciência”. A plateia, longe de estar completa, dividia-se entre aqueles que conheciam o trabalho de Tiago Miranda antes do Festival da Canção e aqueles que deixaram a curiosidade falar mais alto e queriam ver o cantor em acção. Felizmente, estas duas vertentes cantaram em uníssono durante o tempo do concerto, mas não foi suficiente. A verdade é que Conan tem aspirações globais e a aclamação que tem recebido cá dentro e lá fora mostram que pretende ao máximo investir na sua mestria e criar um state of the art único. Mas, de qualquer maneira, soube interagir com o seu público, conhecendo-o e vendo-o crescer neste últimos três anos: “vocês são os meus bebés lindos”, começou por dizer antes de passar para o próximo tema – “vocês em Lisboa são uns mimados, só querem é mimo, mas merecem”. E basicamente foi assim que Conan nos tratou: de “Coruja” a “Celulitite” e “Adoro Bolos”, o alinhamento foi uma prenda para aqueles que conheciam palavra a palavra, saltando a cada ritmo e melodia. Havia facilmente espaço para mais temas, mas nem o formato do concerto nem o próprio mote foram pensados para tal.

E esta foi verdadeiramente o único calcanhar de Aquiles: por vezes, Moreira sentia-se perdido no pouco palco que tinha e era forçado a acomodar-se aos três degraus de pequeno comprimento, à barra pendurada entre dois halteres – que muitas vezes usava para se equilibrar – e ao calor abafadiço que era difícil de ignorar. Conan por vezes juntava-se a ele em pequenos passos de dança, mantendo-se, em grande parte, sentado num banco alto. Mas sentado e descalço, o cenário podia ser tomado com o objectivo de tornar o momento mais intimista, com ele a contar-nos pequenas histórias; e foi o que evidentemente aconteceu: “Vocês sabem o que é sangacho? Estão a ver quando comem carapaus e há aquela cena preta no meio? É tipo isso!”, contava. “Eu comia aquilo porque era mais barato que o atum”. Agora, pode se estar a perguntar: o que é que isso tinha a ver com o concerto em si? Absolutamente nada, mas é esse grau de bizarrice, de imprevisibilidade e de excentricidade que constituem a sua personalidade e reflectem-se progressivamente na música.



Esta última é caracterizada por um híbrido alienista de ritmos cálidos de worldbeat, indie e house: há muito que Conan é chamado “o rapaz do futuro”, mas há ao mesmo tempo um elemento que facilmente nos remete para um passado nacional: o fado é omnipresente na composição lírica e ganha firmeza quando ele salta de tons que nos fazem lembrar “Canoas do Tejo” ou até mesmo Mariza – algo com que o cantor gosta de brincar: “assim sentado estou a ter bué vibes de Mariza” – para sonâncias mais contemporâneas e universais: afinal, os breakdowns que faz são semelhantes aos de Nicki Minaj ou de Missy Elliot e é esta ponte entre o hoje e o outrora que é tão repetida em críticas, mas que se torna relevante e inesquecível: “get it down, bitches/ fuck it up, fuck it up, fuck it up”, interpola lascivamente ao som de “Baralho”.

Voltando ao concerto: Conan continuo a mimar-nos e fazer-nos sentir especiais. A espera de muita gente chegava ao fim com “Telemóveis”, o tema que o levou às bocas do mundo e aos palcos da Eurovisão, este ano, em Israel. Foi sem dúvida o tema mais aplaudido da noite; no entanto, não chegou a ofuscar os que passaram e os que ainda viriam. “Amália” foi uma despedida arrependida com Conan a ter uma interacção mais vívida com a audiência. Pareceu tudo muito rápido, não porque assim o foi, mas porque Conan facilmente tomou este concerto com tal leveza e abertura, como se estivesse numa saída à noite com amigos pelo Cais, como se vivesse o habitual cenário da sua geração na capital.

Depois da habitual vénia de despedida, o público não ficou satisfeito e exigiu mais. O músico sabia disso e também não se ia embora sem nos dar um último mimo. E assim começou de maneira quase automática os versos: “A lua não é menina com quem se queira dançar”. Em “Borrego”, a reacção foi entusiástica, com gritos e aplausos para a entrada de Conan e de Reis Moreira. Foi um final mais feito à medida do que vai ao encontro da sua ambição crescente: mais abrasiva, dinâmica e intensa. Conan despediu-se pela segunda vez com um sorriso maior do que da primeira – o público com um comportamento semelhante. Com concertos marcados para o resto do ano, passando pelo tributo a António Variações, que acontece hoje, ou o festival Super Bock Super Rock, não existe outra maneira de dizê-lo: dêem-lhe os maiores palcos, dêem-lhe os Coliseus, dêem-lhe a possibilidade de expandir a sua arte, dêem-lhe o mundo. Ele merece.


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