Conan Osiris: “Cotas a dar um respeito… isso mata-me!”


[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Hélder White [VÍDEO] Manuel Abelho

Conan Osiris é um dos convocados para o Super Bock em Stock, mais uma confirmação do que já se sabia: que a inusitada confissão que ofereceu ao mundo há quase um ano afinal tem validade fora da net, fora do círculo de amigos mais íntimos, fora de qualquer caixa em que se pudesse à partida ter a tentação de o meter.

Adoro Bolos não perdeu, aliás só ganhou, com o tempo que entretanto decorreu. E o facto de não ser, longe disso na verdade, um disco consensual só lhe confere mais validade: a discussão que gerou significa que é um disco que desbrava novos territórios, que apresenta novos ângulos, e isso nunca pode ser consensual.

Percebe-se, nesta conversa, que Conan é um tipo teimoso, disposto a não fazer cedências, incapaz de comprometer a sua visão. E percebe-se também que está à beira de revelar coisas novas: está a trabalhar com ou para outros artistas, a preparar a edição física do seu álbum, a estudar eventual associação a outra editora. Mas fica tudo nas entrelinhas. Conan, simplesmente, não abre muito o jogo.

Finalmente, fica óbvio nesta conversa que a boca que canta aquelas palavras todas das canções de Adoro Bolos é a mesma que responde sem filtros, com “buéda” calão, em repentismos que não disfarçam aquilo que é indiscutível: Conan Osiris não podia ter sido inventado. Nasceu assim. É real e genuíno. E veio para ficar. Ou para partir tudo, o que vai dar ao mesmo.

 



Há um ano, em Novembro, estavas praticamente em vésperas de lançar o Adoro Bolos. Lembras-te em que fase é que estavas? O disco já estava pronto ou ainda estavas a dar retoques?

Em Novembro ainda estava a compor bué. Lembro-me de que passei Novembro e Outubro bué fechado em casa. E Dezembro também. Mas foi em Novembro que ficou mais intenso.

O disco saiu, se não me engano, no dia 30 de Dezembro.

Acho que foi mesmo a 31.

Imagino então que tenha ficado pronto algum tempo antes. Lançaste logo ou houve ali um período de ponderação em que tinhas o disco preparado e ficaste a pensar?

A minha cena foi “eu tenho que lançar em 2017 ainda”. Foi mesmo até à última. Primeiro era para ser no dia 20 e… eu tinha um dia em específico, já não me lembro porque razão. Mas depois, tipo, caga, já não consegui. Fui mesmo até às últimas.

Foi à Kanye West. A festa de apresentação está a acontecer e ele ainda está a terminar a capa e os pormenores…

Quase isso, ya. Possivelmente.

Para lá das justas e justificadas expectativas artísticas que tu tinhas no momento de carregar no “enter” e largar o disco para o mundo, o que é que tu pensavas que ia acontecer? Um disco lançado a 31 de Dezembro, quando está toda a gente a comprar peru e bacalhau.

Eu queria mesmo era fazer o parto. Queria largar o bebé e ir à minha vida. Mesmo que ele estivesse na incubadora, tá-se bem. Eu sabia que o pessoal não ia ouvir logo naquela altura. Entretanto, em Janeiro, começa a vir aquela cena toda e eu: “Ups!”

Surpreendeu-te, não te surpreendeu? Era algo que tu desejavas ou nem por isso? Nunca tinhas pensado no que iria acontecer depois da edição?

Já tinha pensado. Claro que fazes sempre as cenas para bater. Mas eu pensava em algo do género: a cena é fazer. Tens que fazer. Não era uma cena super desejada mas claro que eu queria na mesma. Tudo aconteceu no tempo certo.

Então, se havia esse desejo que a coisa batesse, há aí alguns passos que tu não estás a dar. Por exemplo: porque é que ainda não vimos um videoclipe de Conan Osiris?

Eu acho que é semelhante com o teres o livro e transformá-lo num filme. Com esse álbum, eu gostei que o pessoal imaginasse o que quisesse. Não queria estar a impor a minha visão, a nível visual. Eu não queria dar um vídeo que não tivesse nada a ver com o que as pessoas estavam a pensar sobre aquela música, em específico. Para além do mais, nem sequer conseguia escolher uma música para a qual fosse fazer o vídeo. Então foi do género, “não consigo fazer vídeos para isto agora.”

Isso ainda vai acontecer ou está fora dos planos?

Eu nem sei muito bem o que vai acontecer daqui para a frente. Podes dizer-me que é preciso um videoclipe mas eu… Ya, ainda não saiu. Não te sei dizer o porquê. Não é por falta de querer, mas simplesmente não aconteceu. Não estou a dar-te uma resposta muito eloquente mas é literalmente isso. Simplesmente não consigo que o conceito visual daquela cena seja encerrado naquilo que eu estou a dar. A partir do momento em que eu dê aquela informação, vai ser sempre aquilo. E até o pessoal, quando ouvir a música, vai pensar no vídeo.

 



Mas já recebeste propostas, imagino. Gente que adoraria fazer-te vídeos.

Sim, óbvio.

E tens chutado sempre para canto.

Eu não chuto. “Obrigado na mesma mas eu não quero estar mesmo a fazer assim — isto começa aqui e acaba ali, visualmente”. Eu curto bué que o pessoal imagine o que curte.

Tens noção de que isso é ir completamente contra a corrente? Já é muito raro esse gesto de lançar música sem componente visual praticamente nenhuma…

Ya, é isso. Tens razão. É como te estava a dizer. Eu queria que batesse e tudo mais, mas o meu querer que bata não tinha nenhum limite. Não pensei “quero que bata até ali”. Para mim, bater é desde que os meus amigos e o pessoal mais próximo curtam. Para mim, isso já é bater. Desde que me dê vontade de dançar e tudo mais. Mas imagina: se eu daqui para a frente fizer uma cena, se calhar já vou pensar numa cena mais visual. Tem tudo a ver com o formato em que tu também pensas quando o estás a fazer. Tal como eu pensei naquilo, música a música, todas uma beca diferentes mas como uma cena corrida. Como um álbum corrido. Se eu amanhã for fazer só um single, que não tem de estar comprometido com nada, se calhar já penso num vídeo. Eu próprio não sei o que vou impor a mim próprio.

Eu tive a oportunidade de pensar um bocadinho sobre o teu disco, tal como outros jornalistas e outras pessoas. Divertiste-te a ler o que escrevemos para tentar descodificar a tua música?

O teu [texto], caga… Para mim, foi mesmo assim. Foda-se, é quase a primeira pessoa que está a descortinar as cenas de uma forma que está correcta. Óbvio que houve cenas que eu li e pensei “lol”. Mas eu nunca me iria meter na interpretação de uma pessoa, mesmo que seja um crítico ou jornalista ou whatever. Eu respeito o trabalho de cada pessoa, por muito que aquilo não esteja a bater certo. É óbvio que eu não vou chegar lá e dizer “isso é uma grande merda, está errado”. É a mesma coisa para os profissionais, aquilo que é para as pessoas: tu achas o que tu quiseres. Period. Mas é óbvio que depois vêm pessoas — tipo tu e outro pessoal — que são tipo “ya. É assim. Não há volta a dar.”

Qual era a tua dieta musical no período em que estavas a escrever?

Eu escrevi buéda cedo, em Abril. Tudo em duas semanas, mais ou menos. Depois passou um grande tempo até começar mesmo a compor. Já tinha alguns beats, mas eu tenho aquela cena de fazer bué rascunhos. Às vezes, aquilo não é o beat inteiro, é só uma melodia ou um instrumento que eu quero utilizar, algum efeito. Depois vou aproveitar alguma cena dali. Eu tinha bueda rascunhos mas não tinha cenas que já fossem músicas. Eu escrevi muito cedo e o que eu andava a ouvir na altura era o que ouvia na loja. Eu tinha que ter sempre música na loja — trabalhava numa sex shop, para quem não sabe. Tinha de ter sempre música, se não criava um ambiente buéda estranho. Geralmente, até quando andava a limpar o pó às cenas e o chão estava com música. Música grega, música búlgara, música dos Balcãs. Andava a ouvir bué isso, na realidade. Depois ouvia as minhas cenas. Dependia do meu mood. Se queria estar numa cena mais activa, punha afro house ou kuduro, cenas mais mexidas. Também ouço bué happy hardcore. Basicamente, aquilo que eu faço é aquilo que eu ouço.

O teu ouvido é muito analítico? Quando estavas a limpar o chão da sex shop pensavas “tenho de samplar esta música?” Ou ouves sem ter essa preocupação?

Isso é uma cena que eu nunca quero perder. Não quero ser aquele gajo que está a ouvir uma cena e está a pensar “ai este baixo…” Não. Eu quero ouvir como se fosse uma pessoa que nem sequer faz música. Isso é para filmes, é para tudo. Não interessa tu saberes como se faz ou como é que não se faz. Às vezes até penso “grande efeito. Não sei como é que ele faz.” Mas isso já é uma avaliação de quando eu não estou a ouvir por prazer. Para ouvir as cenas que eu curto, estou-me a cagar que esteja mal masterizado e essas merdas. E não penso nessa cena de samplar, porque eu não samplo cenas de outro pessoal. Faço os meus instrumentais e é tudo nota a nota.

E a tua escrita poética, de onde é que vem? O que é que te inspirou? Uma das coisas que me surpreendeu foi o facto de teres reclamado para dentro da tua música palavras que nós não estamos habituados a ouvir na música portuguesa e na escrita poética musical portuguesa. De onde é que isso vem ou de onde é que tu imaginas que possa vir?

Eu não sei. Estás a falar de que palavras em específico?

Eu não conheço nenhuma outra canção com a palavra “borrego”. Tu inventas palavras, vais buscar palavras que são incomuns para utilizar naquele contexto.

Isso é uma cena buéda antiga, minha e dos meus amigos, de inventarmos merdas, de inventarmos palavras. Esquece. A língua é uma cena que está sempre a mudar e tu vais buscar o que ouves e o que ainda não ouves, também. A escolha das palavras é uma cena que me salta da cabeça, sei lá. Há bué pouco tempo — eu nem devia de estar a dizer isto — escrevi um refrão que estava na minha cabeça, que era “testa de bibelô”. Que merda é essa? Só ias perceber se eu acabasse a música. Porque isso tem uma coerência, tem uma ideia. Se calhar eu não posso mesmo fazer uma música chamada “Testa de Bibelô”. É demasiado. O que é que é “testa de bibelô”? Depois eu vou ter o trabalho de explicar ao pessoal o que é “testa de bibelô”. Tens sempre que explicar de uma forma… Nem sempre tem explicação. Ou às vezes até tem explicação, só que o pessoal não quer entender. Não podes mesmo abusar. No outro dia estive a pensar nisto: eu sou mesmo bué influenciado pelo kuduro, em todas as formas possíveis e imaginárias. E tu, no kuduro, tens cenas, tens expressões, aqueles toques — aquilo nasce de onde? Tu vais perguntar e nem sempre as coisas têm uma origem super académica que está na Wikipedia. Não. Às vezes há merdas que tu inventas mesmo. Para mim, isso é uma das coisas com um núcleo mais respeitável de sempre. Uma coisa existir só porque sim, mas depois as pessoas é que dão um sentido àquilo.

 



És muito escultor na tua escrita, no sentido de ires melhorando, refinando as letras, ou o que sai de rajada é o que fica para tu cantares?

Às vezes, o conceito, a ideia, a dica… Isso sai de rajada. Mas depois, eu curto bué de métrica, curto bué da ordem e que tudo bata no sítio certo. Óbvio que aí eu vou arquitectando para dar uma métrica que eu curta, que saia bem da minha boca, também. Que salte e que fique bem em cima da batida. É algo que acabo por trabalhar em conjunção com as próprias cenas que eu estou a dizer. Os sons dos “P’s”, dos “T’s”. A origem sai de rajada. Só que, depois, vou arranjar até ter uma estrutura que eu acho que tem ordem suficiente para resultar, e que podes ouvir aquilo mil vezes e bater sempre certo.

A minha mãe e o meu pai gostam muito de música. Passo a vida a ir com eles a casas de fado e coisas do género. Mas a última vez que eu me lembro de ouvir a minha mãe dizer que gostava de alguma coisa de que eu gosto foi com o António Variações. Ela veio dizer-me a mesma coisa em relação à tua música. “Já ouviste este rapaz que anda aí, o Conan Osiris?”

Espera. Ela não conheceu por tua causa?

Não, não. Veio-me perguntar o que é que eu achava. Eu comecei-me a rir e até lhe mostrei os textos que tinha escrito. Isso também te surpreendeu, o alcance da tua música? Porque imagino que a minha mãe não seja caso único e que muitas outras mães e muitas outras pessoas mais velhas se tenham ligado, de alguma forma, à tua música.

Isso é das cenas mais arrepiantes. Quando o pessoal mostra vídeos dos cotas a dizerem que curtem. Noutro dia, uma rapariga mandou-me um vídeo de um cego, que estava na rua — acho que estava a pedir, inclusive — e ele estava a ouvir as minhas cenas. Ouviu numa rádio qualquer, assim numa mais underground ou whatever. Ele estava a ouvir e estava a curtir bué. Ela mandou-me um vídeo dele a curtir bué e a dizer “por favor, arranja-me o disco deste artista.” Eu disse-lhe “saca, grava num CD e dá a ele”. Essas cenas são o que me bate mesmo. Nenhum desrespeito contra o pessoal do dia-a-dia, mas quando vêm cotas, crianças, pessoal que podia ter mais dificuldade em ouvir as minhas cenas pela primeira vez, e, de abuso, curtem… Isso mata-me. Fico mesmo bué lisonjeado e bué emotivo. Agora estás a contar-me isso e isso para mim é… Lol, estás a ver? Eu posso morrer, se cotas estão mesmo assim, a dar um respeito, isso mata-me.

Tu tocaste bastante. Fizeste uma série de concertos. Qual foi aquele mais inusitado? Onde é que deste por ti a pensar “my god, estou mesmo aqui?” Aconteceu?

Aconteceu. Só que sabes uma cena bué estranha que acontece: quanto mais abstracto o que estás a ver é, mais tu te desprendes do que está a acontecer naquele momento. No Paredes de Coura, nunca tinha visto tanta gente na puta da minha vida. Era tipo um corredor de uma cena que eu já nem estava a conseguir identificar. Era como se eu estivesse a ver o mar. E isso para mim foi tão abstracto, que deu a volta e tornou-se numa cena normal.

E assusta-te esse tipo de contexto?

Nem pensei nisso. Não me assusta. Porque, num spot bué pequeno, tu estás a ver toda a gente, a olhar cara a cara. Essa merda pode ser ainda mais… Tipo que tens a lanterna acesa. Pode ser mais intimidante do que estares num spot com buéda gente. Dá a volta, e tu quase pensas que estás sozinho. É estranho. Estão ali milhares de pessoas, acho eu, mas tu pensas quase como se aquilo fosse apenas uma entidade. É uma coisa tão grande que é quase como se fosse um Deus. Uma massa de pessoas… Algumas não estão a ouvir, estão-se a cagar para ti. Mas estão ali. Isso ganha uma energia que transforma aquilo numa só coisa. É como se estivesses cara a cara com a humanidade. Bué estranho.

Uma das consequências da tua originalidade terá sido o convite para entrares naquela campanha da NOS, em que interagiste com a Ana Moura. Como é que isso aconteceu e como é que tu achas que uma marca daquele tamanho chega a um artista editado por um selo bastante modesto?

Eu nem tenho tanta noção, mas eu sei que o pessoal fala bué. Que conhecem e não sei quê. Agentes, pessoal que fala em termos de business… Uma cena em que eu ‘tou bué aparte. Tenho vindo a perceber que o pessoal fala bué e até sabe datas minhas que nem eu sei. De alguma forma, o pessoal que estava a organizar essa cena estava a ter um interesse genuíno de misturar pessoal que já era conhecido com pessoal que não era conhecido do público em geral. Queriam compor um bouquet sólido de pessoal familiar e de gente não tão familiar. Isso foi fixe. Ajudou a compor uma fotografia bonita, talvez, do que se passa na música.

Achas que alguma coisa mudou na tua carreira depois disso ter estado no ar?

Óbvio que mudou. Eu tenho bué ansiedade a ver esse anúncio. Lá está, é a cena do vídeo, não estou habituado a ver-me num vídeo. Eu curti bué filmar aquilo, foi o dia inteiro. Curti bué da experiência. Estar lá com o pessoal, o realizador e tudo mais. Foi buéda fixe mas não estou a conseguir ver. [Risos] Quando aparecia na televisão, a minha família toda espantada… “Caga. Tira. Põe no mute“. Não queria mesmo ouvir. Ainda hoje em dia me dá uma beca de ansiedade. Mas, a partir do momento em que puseram os posters e tudo mais… O pessoal todo a mandar-me fotos dos posters… Tá-se bem. [risos] Fui ao MOTELX e, na avenida, tinha dois posters meus. Eu olhava e estava lá eu. Isso é buéda estranho para mim. Estou habituado a andar na rua, normal. De repente estou num poster. Nem sequer queria passar à frente do poster. [Risos] Sei lá. Não te sei explicar melhor. Mas foi bué bom, óbvio.

Tendo em conta a originalidade da tua escrita, os elogios que recebeste e o impacto que causaste, é natural que outros interpretes manifestem interesse na tua escrita. Isso acontece com outros autores. Estou a lembrar-me do Samuel Úria. Por causa da maneira diferente como ele escreve, tem recebido convites para escrever para outras vozes. É algo que te vês a fazer?

Claro. Curto de me pôr na perspectiva de uma pessoa que não tem nada a ver comigo e que não sou eu. Tentar imaginar, sei lá, como é que foi a infância dessa pessoa ou tentar pôr-me nos sapatos dessa pessoa. Escrever a partir daí. Isso é uma cena que me desafia bué. Eu saio de mim e consigo estar a ver uma história que não é a minha. Às vezes pode até nem bater certo, mas é fixe tentar.

 



Sem mencionar nomes, isso já aconteceu, escreveres para outras vozes?

Sim, já. Estou ainda em processos e há outras propostas que ainda não fiz. Mas a gente está aí.

O teu telefone tem tocado, enquanto autor? Com gente à procura dessa tua “pena”?

Sim. Ya.

Há pouco dizias não teres bem noção do que pode vir aí a seguir. O disco está a fazer um ano e imagino que uma mente irrequieta como a tua não tenha estado propriamente parada durante este ano. Tens novo material?

Vou dizer-te uma cena. Tenho cenas mas ainda estou a tentar ver o que eu… Eu quero mesmo saber… Eu não quero estar a fazer o Adoro Bolos 2. Se acontece, tudo bem, sem nenhum pudor. Mas eu quero saber o que é que, para mim próprio, é a próxima cena. O que é que eu vou querer fazer mais. O que é que eu não vou querer fazer. O que é que o eu conhecer estas pessoas todas me tem ajudado a construir, até na minha vertente mais técnica. Quero entender o que é que é para fazer. E muitas das vezes eu deixo que sejam as coisas a vir até mim. Quando não é a altura, não é a altura. Podem apanhar-me numa altura em que eu diga “não fales comigo nas próximas duas semanas, estou enfiado em casa a fazer merdas”. De repente, em três dias, tenho uma música inteira. Se calhar, no próximo spot onde eu vou tocar, digo ao pessoal “está aqui uma música nova”. A minha cena em relação a isso é um bocado orgânica. Também trabalho bem com pressão. Curto abusar de mim próprio, não fazer nada, e chegar a cinco dias da data e estar mesmo ali na pressão. Às vezes, produz resultados buéda bons. É um bocadinho dos dois. É por aí.

Não há um passo a seguir delineado? Não há data para um single novo, um álbum novo?

Népia. Isso não existe mesmo nada. Então data… Não.

Como começaste por dizer que fazias questão que o Adoro Bolos saísse até ao final de 2017, não impuseste ainda a ti mesmo uma nova data?

Eu curtia. Mas já sei que não vai dar. Até ao fim do ano, duvido mesmo bué. Mas… Isso não invalida outras coisas.

Será possível, um dia destes e numa loja qualquer, comprarmos um disco teu? Vai haver uma edição física?

Eu acho que o pessoal do business já está aí a “biznar”… Isso também já é daquelas coisas que ficam demasiado externas em relação a mim. Eu tenho bué paciência para bué coisas, mas há cenas para as quais não tenho mesmo paciência nenhuma. Tipo, estou-me mesmo a cagar. Eu curto que o pessoal tenha, mas quando é mesmo no limite… Tive pessoal no Instagram a dizer que queria oferecer ao namorado e não sei quê. Eu disse mesmo: “saca onde tu quiseres, grava num CD virgem, põe uma dedicatória e uma foca bebé a dizer “happy birthday’.” O bacano fez. Ofertou. Eu fiquei parvo. Eu vivo para isso. Óbvio que é fixe ter as cenas organizadinhas. Mas também curto essa parte. Vai acontecer, definitivamente. Ou eventualmente.

Falámos de outras vozes que gostam da tua escrita, de realizadores que gostariam de pensar num vídeo para ti. Em relação a editoras — houve abordagens?

Houve abordagens mas isso… Não posso falar. Está tudo a ser processado.

Portanto, 2019 trará novidades quase de certeza.

Se eu não morrer, não é? Provavelmente.

Se continuares a não me dizer aquilo que eu quero saber… Provavelmente. [risos] Só para terminar: vais preparar alguma coisa de diferente para o concerto no Super Bock em Stock?

Já não toco em Lisboa há algum tempo. Então não sei até que ponto é que vou conseguir conciliar com alguma cena nova. Adorava. Mas também não tenho muito… No outro dia estava a pensar como é que eu havia de transformar as minhas melodias para um instrumentista. É uma daquelas cenas nas quais em tenho zero de formação. Perguntei ao pessoal. “Arranja aí alguma maneira para tentar transformar isto numa cena que dê para alguém tocar”. Numa harpa, numa flauta… Sem pauta, eu iria obrigar a pessoa a aprender aquela música de ouvido. Não sei como é que isto se processa e limita-me um pouco as cenas. Mas já estou a tentar entender, para fazer as merdas acontecerem.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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