Colónia Calúnia: VULTO. a comandar as tropas em Coimbra

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS] Sebastião Santana

A festa passa-se um pouco por todo o país nesta altura de celebrações académicas. Eu, que nem gosto muito dessas coisas, decidi ir pela primeira vez a um evento desse género. Porquê? Há um burburinho que se faz ouvir de baixo do solo fértil do hip hop nacional, que tanta coisa boa nos tem presenteado nos últimos anos com o aparecimento de várias caras novas e, claro, os seus respectivos ideais e sonoridades. Esse mesmo burburinho agora tem um nome: Colónia Calúnia; VULTO. é o mentor e o maior impulsionador deste movimento que arrisca em desbravar novos caminhos sónicos faixa atrás de faixa. Mas não é só de instrumentais que vive esta seita. Se VULTO. é o cientista doido que perde horas a manipular pedaços de som à frente do computador, Tilt, Jota, Secta e L-ALI são as suas cobaias. Quatro indivíduos com uma fome insaciável de novo e corrosivo material sonoro que sai da oficina do homem sombra. Quatro poetas de esquina com rimas alucinantes capazes de reanimar ângulos mortos, como diria Tilt.

Assim como eles se voluntariam para dar a voz ao manifesto criado por VULTO., também eu me voluntariei a para os acompanhar e guiar – literalmente – nesta jornada. Fizemo-nos à estrada perto das 18h e, para mim, a festa começou logo ali. Largas dezenas de quilómetros num carro a deitar fumo por todos os lados que serviu também como sala de ensaio. VULTO. disparava os instrumentais, Tilt e L-ALI respondiam com letras. Eu e o Sebastião ouvíamos, atentos. O Jota e o Secta iriam encontrar-se connosco apenas no local do concerto.

Chegar, jantar, fazer o soundcheck, conhecer os cantos do recinto e ensaiar mais um pouco. Agora com a irmandade dos 5 completamente reunida. A subida para o palco estava marcada para as 3h e, apesar da chuva, o publico não debandou e com o decorrer do concerto várias pessoas se foram juntando. Desde os curiosos que tentavam decifrar aquela linguagem nova até aos que já sabiam as letras quase todas de cor. O palco RUC foi uma espécie de montra para estes novos talentos nacionais. VULTO. ajustava os beats e os MCs rimavam cada um na sua vez numa amostra viva daquilo que são as novas tendências do hip hop feito em Portugal.

 


l-ali


 

O alinhamento contava com um pouco de tudo. Desde projectos e faixas já editadas ao novo – e mais fresco ainda – material que se encontra a ser produzido em casa de VULTO.. AS IRMÃS REUNEM, SURREALISMO XPTO ou MARCHA foram alguns dos trabalhos apresentados, de mão dada com as novidades que em breve poderemos ouvir na íntegra: um álbum de Tilt, outro do Jota, o segundo projecto que junta VULTO. a L-ALI e ainda um outro trabalho que engloba estes três rappers em simultâneo; Tudo isto produzido pelo fundador da crew.

Apesar de serem poucos os que conheciam bem estes integrantes da cultura hip hop nacional, o público fez-se ouvir em diversas ocasiões. Um kick bem encaixado ou uma rima a puxar pela cabeça, tudo o que de bom se fazia ouvir na munição sonora do espectáculo era mel para as almas que se juntaram ao ritual naquela noite chuvosa. Quando os concertos no palco principal acabaram o público do palco RUC quase quadruplicou. Havia uma enorme curiosidade em decifrar todas aquelas rimas e frequências fora do habitual.

O concerto terminou por volta das 5h com a plateia a pedir por mais. Havia uma empatia perfeita entre os rappers e a audiência. O conceito foi bem recebido e havia uma grande compreensão do público em relação ao que se estava a passar no palco. Cinco indivíduos que arriscaram em fazer diferente, sem medo. O movimento agradece. VULTO. abandona o palco durante a última faixa e deixa os MCs a fazerem o seu trabalho. Depois da música acabar há ainda gente a pedir mais. Secta fica em palco e encerra a apresentação com um acapella. Se havia dúvidas em relação à sobrevivência do rap mais experimental e independente, rapidamente se desfizeram. Dêem-lhes um palco e um bom sistema de som que eles rockam forte.

 


jota & secta

 

tilt

 

jota

Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira