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Fotografia: Direitos Reservados

Um disco com contribuições de Tony Allen, Shabaka Hutchings, Yugen Blakrok ou Tenderlonious? Sim, já existe.

Coldcut: “O futuro da Ninja Tune é muito jazzy

Fotografia: Direitos Reservados

Jonathan More foi o primeiro a comparecer na sala virtual em que decorreu a entrevista que os Coldcut concederam ao Rimas e Batidas a propósito do projecto Keleketla!. E com a câmara ligada deu logo para perceber que se encontrava num sítio exótico, uma espécie de loja de antiguidades, com urso embalsamado e tudo: “é o cenário de um programa da BBC dos anos 60”, esclareceu-nos o produtor, músico e co-fundador da Ninja Tune. “chamava-se Steptoe and Son, e falava de um pai e de um filho que tinham um ferro-velho”.

Matt Black juntou-se à conversa pouco depois. Matt é o cavalheiro da dupla: por acaso é o co-fundador de uma das mais importantes editoras da história da música electrónica, divide com o seu companheiro Jonathan as responsabilidades nos Coldcut, mas escutando a sua voz seria possível pensar tratar-se de um nobre saído de um lugar com Downton Abbey ou de um banqueiro da City, tal o requinte do seu tom.

Os Coldcut não editam novo trabalho desde o seu encontro com o catálogo da histórica On-U Sound de Adrian Sherwood em 2017, Outside the Echo Chamber. E não deixa de ser sintomático que, tanto nesse caso como agora com o projecto Keleketla! em que assumem a produção, os dois músicos se dediquem a investigar terrenos musicais exteriores aqueles em que ergueram boa parte da sua obra. O que só lhes reforça as mentes naturalmente irrequietas que possuem e que fizeram tanto da obra dos Coldcut como da própria Ninja Tune sinónimos de avançada arte electrónica, espaços criativos em que a ideia de colagem esteve sempre presente.

E Keleketla! volta a ser acerca da colagem: de uma perspectiva europeia, como cuidam de referir, com uma experiência negra sul-africana, das sessões reais e orgânicas em estúdio com as possibilidades virtuais inauguradas pela Internet, de uma ideia de globalidade com outra profundamente enraizada num lugar específico. Dessas colagens nasceu um discreto, mas ultra-interessante trabalho que acaba por traduzir na perfeição este estranho presente: político, activista em múltiplas frentes, visionário na forma como combina diferentes tradições jazzísticas — a europeia, a africana e até a americana –, altamente excitante na sua intenção de promover encontros entre diferentes gerações: Tony Allen ainda tocou nestas sessões, registadas pouco tempo antes de ter partido ao encontro de Fela, noutro plano de existência.

Jonathan e Matt tiveram ainda a possibilidade de discutir a vibração londrina do presente e de nos deixarem uma promessa: a de que o futuro da Ninja Tune, editora que já leva mais de três décadas de existência, passa também pelo jazz.



Qual foi a vossa reacção quando receberam o telefonema a convidar-vos para fazerem parte do projecto Keleketla!?

[Matt Black] Ficámos bastante surpresos na verdade. Não sabíamos o que esperar. Nós gostamos de fazer este tipo de coisas pro bono pelas causas que representam, mas por vezes os discos que nascem de projectos de caridade não funcionam lá muito bem. Essa foi uma das questões que tivemos presentes, não foi Jonathan? Não tínhamos bem a certeza onde a coisa iria dar.

[Jonathan More] Sim.

[MB] Também estávamos cientes do facto de que ao sermos músicos brancos a fazer música africana a coisa poderia não correr lá muito bem. Há muitos casos de exploração e apropriação que não correram bem no passado. Não tínhamos a certeza de que conseguiríamos lidar com isso. Mas quando nos apercebemos de que se tratava de um convite por parte da Keleketla! Library o contexto alterou-se. Pensámos, “isto pode resultar.” Isso foi um detalhe muito importante, ter sido um convite da parte deles. E a minha mulher já trabalhou na África do Sul. Ela esteve envolvida no filme Queen of Katwe. Caso não conheças, é um filme muito bom que retrata a vida de uma jovem rapariga de uma favela de Kampala, no Uganda, que se torna, creio eu, na mais jovem mestre de xadrez de sempre. Parte dessa peça foi rodada na África do Sul. Então, a minha mulher, como esteve lá, ficou bastante feliz por fazermos parte deste projecto. O entusiasmo dela contribuiu para que olhássemos de outra forma para este convite.

Contaram com a ajuda do pessoal da Mushroom Hour Half Hour para vos guiar pelo ecossistema composto por músicos incríveis de Joanesburgo. Como é que isso funcionou? Houve uma espécie de casting para conseguirem perceber com que músicos se iriam envolver?

[JM] Inicialmente foram-nos sugeridos alguns músicos de electrónica e alguns MCs, só que nós preferimos trabalhar com músicos que tocassem instrumentos mais orgânicos. O Andrew, da Mushroom Hour Half Hour, já tinha editado álbuns do Thabang Tabane e do Sibusile Xaba, por isso eles foram logo trazidos para o quadro. Na verdade, deixámos grande parte das decisões para a Mushroom Hour Half Hour nesse capítulo. Só pedimos uma MC, que foi a Yugen Blakrok.

[MB] Acho que é bom de referir que não fomos nós que demos com a Mushroom Hour Half Hour. Foi a Keleketla! Library que nos sugeriu. Foi tudo muito bem preparado para que nós entrássemos, só tivemos de discutir com a Mushroom Hour Half Hour quais os músicos que iriam funcionar melhor e eles encontraram a equipa com a qual acabámos por trabalhar. Foi-nos sugerido fazer um disco de hip hop mas nós estávamos mais inclinados para uma cena jazzy, daí o Jon ter referido que estivemos à procura de músicos mais orgânicos.

Fico contente por terem tomado a decisão de seguir essa direcção para este álbum e só consigo imaginar como é que as sessões de gravação nesse estúdio correram. Está localizado em Soweto, correcto?

[MB] Sim. Foi no Trackside Creative. É um conjunto de salas mesmo ao lado da linha férrea, ao lado de uma casa funerária. Um hub criativo. Não sei se tiveste a chance de ver o pequeno documentário [acerca da criação do disco].

Ainda não!

[MB] Mas vale a pena ver, porque conta muita dessas histórias. As gentes que vivem na beira da linha férrea têm a oportunidade de falar de onde vêm. E os músicos também. É uma óptima fotografia do local e de todos esses elementos em conjugação. Eu e o Jon ficámos felizes por ter todas essas vozes presentes. Até porque isto não é um disco de Coldcut, é mais um disco colaborativo da Keleketla!.

Estava a pensar que este projecto pode ser um símbolo de uma era passada, porque implicou viajar para um continente diferente, juntar muita gente no mesmo estúdio, financiada por instituições culturais. Vêem isso como algo de um passado tornado longínquo pela pandemia ou imaginam-se a repetir a experiência?

[JM] Gostava muito que voltasse a acontecer de novo. A engenharia da mente humana vai encontrar soluções para os problemas do presente. Temos de ser positivos.

[MB] Depois de o álbum estar terminado, nós fizemos uma coisa que intitulámos International Love Affair. Usámos a Internet como ponte para colaborar com outros músicos e fizemos uma outra versão com diferentes solos de músicos de Londres e da África do Sul. É possível colaborar sem termos de nos deslocar fisicamente para outro lado qualquer. Tenho a certeza de que estás ciente do custo que é fazer voar pessoas de um lado para o outro. Isso é um grande ponto de interrogação. E na verdade ter tudo isso reduzido devido à crise do COVID teve os seus benefícios. A poluição diminuiu em muitos sítios, por exemplo. As coisas mudam e nós temos de mudar com elas. Fico triste por pensar que temos de abdicar da comunidade internacional e que nunca mais vamos poder estar juntos com pessoas de outros países. Mas creio que vamos dar a volta. As coisas hão-de continuar a rolar lentamente de volta a um certo “normal”. De alguma forma, eu não quero que as coisas voltem ao normal porque têm havido algumas mudanças encorajadoras. Vamos adoptar os melhores aspectos que vieram com estas mudanças. Vamos mantê-los e seguir em frente.

[JM] Nós misturámos o álbum com o Eric Lau e o processo foi todo digital, algo que nunca tínhamos feito antes. Foi fantástico. Ele é um músico e engenheiro muito aberto e fez as coisas a partir da China. Acho que foi um processo muito bem sucedido na verdade. Deu-nos espaço para ouvir de onde é que ele veio, no que toca à forma como mistura os álbuns, e também para podermos contribuir com algumas indicações, do tipo “aumenta essa tarola aí”. É mais um exemplo de que é possível trabalhar sem ter de voar para longe.

[MB] O documentário foi maioritariamente filmado por um tipo chamado Jono [Kyriakou], em Joanesburgo, enquanto nós lá estivemos. Foi-lhe dada a opção de editar o vídeo apenas mais tarde, quando nós já estávamos de volta ao Reino Unido. O processo foi executado através de screen sharing, por isso nós conseguíamos ver todo o timeline dele no Premiere. “Isso não está correcto. Isso está a entrar cedo de mais. Essa parte precisa de zoom”. Não é bem a mesma coisa do que estarmos juntos na mesma sala, mas o screen share é uma forma bastante útil para trabalhar se tu não consegues estar com determinada pessoa no mesmo espaço. Eu recomendo isso a toda a gente que está a pensar neste tipo de colaborações internacionais. E isto aplica-se também à fotografia ou à música. Porque tu podes descrever as coisas através de palavras e e-mails, mas ver e ouvir é de longe a melhor maneira de chegar ao resultado pretendido.

Espero que tenham pelo menos estado no mesmo espaço que o Tony Allen durante as sessões dele.

[MB] Sim, estivemos.

Essa foi provavelmente uma das suas últimas gravações. Ele vai deixar muitas saudades por cá, porque os seus concertos em Portugal eram sempre muito bem recebidos. Como foi estar ao lado do mestre?

[JM] Foi espantoso. Eu e o Matt criámos laços com toda essa cena do Fela Kuti e do afrobeat nigeriano. Sem essa invenção do Tony Allen… É claro que ele foi buscar as suas próprias referências da folk africana, mas não deixa de ser verdade que ele inventou algo monumental. Estar na mesma sala que ele… Consegui que me autografasse uma cópia do N.E.P.A., que é um dos meus discos favoritos. Ver a forma como ele toca… É mágico. É triste que ele já não esteja entre nós mas ele deixou o seu ADN neste projecto.

Uma coisa da qual gostei muito foi o facto de terem envolvido no disco muitos músicos talentosos de Londres. O que é que se está a passar de momento com a cena jazz londrina? Está mesmo a influenciar e a mudar — e eu acredito muito nisto — o mundo?

[MB] Londres é muito boa a ir buscar ideias de outros locais, a misturá-las com uma data de outras coisas e a devolvê-las ao mundo. Se isto te soa a cínico, não é de todo a minha intenção. Há todo um multiculturalismo e um calor em Londres… O que está a ser cozinhado é muito entusiasmante e é algo que tem feito parte da minha carreira e da do Jon desde o início. Há tantos estilos que tu consegues encontrar e que cresceram ao longo dos anos com fortes raízes do Reino Unido. Não só em Londres, também noutros locais, mas a Ninja Tune é mais um fenómeno londrino. Tens o grime, dubstep, jungle, os primórdios do house e do hip hop britânico. Tudo isso floresceu do domínio da música electrónica. Por isso é bonito ver algo mais acústico a surgir de um outro ramo. Os ramos vêm todos da árvore da música e da multiculturalidade que se espalha. Tenho perguntado a alguns amigos mais novos, do sul e Londres, “o quão longe é que achas que isto vai? É apenas coisa de hipster ou vai ser maior do que isso?” A impressão deles, parece-me, é a de que a juventude está mesmo a desfrutar disto de momento. Talvez por ser tão diferente da electrónica. Isso deu-lhe um certo buzz. Nós estamos neste momento a trabalhar numa colaboração com um beatmaker do sul de Londres, a pegar em algumas coisas de jazz que temos feito e a combiná-las com beats de drill. Esse novo som do drill, especialmente no que toca à produção do beat, eu acho muito interessante. Eu tento criar faixas dentro desse género mas estou a achar o processo bastante difícil. Soa a minimal e a simples mas aquilo tem muito truques pelo meio. Há todas essas ligações a serem feitas mas eu acho que o sabor do jazz, que se está a cozinhar e a espalhar, vai lá andar no meio disso tudo.

Uma coisa que eu acho particularmente interessante é a mudança do aspecto rítmico do jazz. Eu tenho vindo a entrevistar gente do jazz de Portugal há muito tempo e eles todos me falam no swing. E o swing que vem de Londres, com os músicos influenciados por África e pelas Caraíbas, é tão diferente. Uma das mensagens que sinto que isso envia é a de que é ok tocar jazz noutra cadência. Noutra noção diferente daquilo que é a cadência, inclusive. Outra é o facto de que se tu fores mulher e queres fazer jazz, não tens obrigatoriamente de ser a cantora. Essas são as duas coisas que me têm fascinado.

[JM] Há muitas camadas. Eu acho que estes últimos 30 anos de electrónica deram ao jazz novas batidas, nova energia… Mas também é como tu dizes. Há um novo swing que vem do reggae, há outro que vem do techno… É tudo orgânico. Há uma data de merdas a acontecer. Às vezes é só uma questão de tempo.

[MB] E tens que ver que estes novos discos são feitos por jovens, não por um velho qualquer nos seus 60s a ajeitar a barba. Eles foram a raves, eles tiveram a experiência do ecstasy. É crescer de novo e não ficar enterrado no passado. É autenticamente novo. Há raízes no passado e há muito para admirar que veio do passado, também. Mas isso é a melhor parte, quando consegues combinar a energia da juventude com alguma da sabedoria das gerações anteriores. Aponto aqui a Brainfeeder como a responsável por pavimentar este caminho. O significado do jazz é debatível mas na maior parte das vezes significa experimentação, certo? É experimentação com pedaços musicais. Tu não vais explorar sem saber nada. Tu sabes das tuas merdas. Tu sabes das coisas, tu vais tocar e ainda vais experimentar. Creio que a Brainfeeder alimentou imenso essa atitude. Os discos da Brainfeeder têm sempre uma certa atitude jazz neles. Não era particularmente jazzy. Mas depois veio o Kamasi Washington, o Thundercat, o próprio Flying Lotus, pelas ligações à família Coltrane… Ficas tipo “Ah ah! Então é daí que isto isto vem”. Só que eles não estão apenas a recuperar o género, estão a empurrá-lo para a frente. Nós fomos ver um espectáculo do Kamasi Washington. Foi um show fantástico mas tu conseguias mesmo ouvir que aqueles gajos, grandes músicos, não vinham apenas do jazz, tinham também a cena dos beats de hip hop. Isso é muito forte e evidente naquilo que eles estão a fazer. É bom para caralho. Então vamos fazer o mesmo e vamos fazer isso florescer aqui.

Falem-me do lado americano do projecto, dado que envolveram os The Watts Prophets e os Antibalas. Estiveram presentes nessas sessões também ou ocorreram à distância?

[JM] Ambos foram através da Internet. Nós tivemos um álbum dos Antibalas na Ninja Tune há muito tempo. E na verdade eu acho que eles são mesmo um das melhores banda internacionais de afrobeat. Eles têm cenas incríveis. Por isso foi natural querê-los incluir neste disco. Com a malta dos The Watts Prophets, estivemos em contacto com o Darren…

[MB] Ele assina como FreQ Nasty. É um artista de breakbeat. Ele estava nos EUA e enviou-nos um e-mail a perguntar se a Ninja Tune estaria interessada em novo material dos Watts Prophets. Recebemos uma faixa que tinha uns vocais… Perguntámos se podíamos fazer alguma coisa com aquilo e passado três dias enviaram-nos uma versão crua da faixa, que depois se tornou na “Freedom Groove”. Foi tudo feito através do contacto digital. Eu e o Jon adoramos andar por aí a viajar mas não se justificava a poluição porque tínhamos a Internet [risos]. Foi o que acabámos por fazer.

Eu escrevi a crítica ao vosso disco e disse maravilhas dele. Só que fiquei com um dilema. Eu escrevo uma coluna semanal dedicada à electrónica e uma outra coluna semanal dedicada ao jazz, além do programa de rádio e de todas as outras críticas que escrevo sobre hip hop para a revista. Em que caixa coloco este álbum? A verdade é que poderia muito bem estar em qualquer um desses espaços. Acho que isso é uma conquista.

[MB] Muito obrigado [risos]. Nós e a Ninja Tune sempre tivemos esse problema. Mas será um problema ou uma vantagem? Olha, vais ter de decidir tu. Nós nunca coubemos em nenhuma caixa. Gostamos de sair, ir às caixas dos outros e fazer lá uma festa. Conseguimos fazer isso em qualquer lado. Ao termos estes anos todos de carreira, já tivemos a oportunidade de estar em muitas caixas e de fazer muitas festas. A coisa vai continuar assim e vais ter de decidir tu onde nos colocar.

Obviamente todos nós temos tido imenso tempo para pensar ultimamente e a Ninja Tune já vai com os seus 30 anos. Quais são os vossos planos para o futuro imediato e sobre os quais podem falar?

[MB] Creio que o futuro é bastante jazzy. Vamos continuar a fazer o que temos feito, que será uma mistura ampla de estilos, com um núcleo de autenticidade e relevância. Coisas que possam ser inovadoras ou de cariz político e social são cenas nas quais eu e o Jon estamos interessados. Música que tenha mensagem. Não é que todos os discos da Ninja Tune tenham uma mensagem óbvia, mas há que ter ali uma bandeira que mostre uma forma alternativa e apaixonante de fazer música. Temos o Adrian a gerir a editora e ele trouxe muita nova energia. Não concordamos sempre com tudo o que ele sugere mas tem ajudado imenso nos últimos anos. Fizemos algumas mudanças. Sinceramente, estamos melhor do que nunca. A crise está a ser difícil para todos mas a Ninja Tune tem uma nova vida e ganhou respeito por parte de um novo público, esperando não perder o público antigo. Manter o nosso balanço é o nosso maior desafio.


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