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Fotografia: ellisdawg

O rapper britânico mostrou as garras em Microwave Cooking 2000 e Out For Lunch.

CLBRKS: “Consigo meter-te a rir com coisas sem piada”

Fotografia: ellisdawg

Perspicaz, sarcástico e com a cabeça em órbita à volta da lua. CLBRKS deu o salto para a Blah Records este ano e apresentou-se ao lado do veterano Morriarchi em Microwave Cooking 2000, naquele que é já um dos álbuns mais vistosos do hip hop britânico dos últimos anos.

Começou como Louis Hammock no SoundCloud e manteve o seu rap sediado na mesma plataforma mesmo depois da mudança de alter-ego. Talvez demasiado despreocupado para o conseguir reconhecer, CLBRKS é um nome consensual entre os militantes do circuito underground do seu país. Basta olhar para as caixas de comentários dos seus últimos videoclipes: “reconhecimento merecido”, “lenda do SoundCloud” ou “a Blah Records sabe o que está a fazer” são algumas das muitas manifestações por parte daqueles que o acompanham desde os primeiros versos.

Depois de editar projectos como SUPAKING, PEUGEOT MUSIC VOL. 1, Habits ou Snake Soup, as suas rimas mirabolantes despertaram o interesse de Morriarchi, que o levou a um treino de captação na sua Group BraCil para contracenar com Verbz, em Pathways. Passou com distinção, claro, e a parceria entre rapper e produtor subiu de tom nos meses que se seguiram: o homem que tem produzido para Lee Scott, Sniff, Cult Mountain ou Stinkin Slumrok misturou e masterizou os EPs Igloo. e Holy Fountain, numa espécie de estágio antes de colocar os seus beats à mercê do MC do Norte de Londres em Microwave Cooking 2000.

Chegar ao patamar de uma editora de culto independente como a Blah Records pode saber a vitória do campeonato para aqueles que criam a sua arte à margem da norma. Para CLBRKS, este é apenas só mais um jogo ganho e há que continuar a mostrar trabalho para manter o seu nome na ponta da língua dos que andam pela sua praça. Ainda nem três meses passaram desde esse aclamado LP e já há novo material: num registo mais introspectivo e confessional, uniu esforços com o seu amigo e artista favorito Conrad Mundy em Out For Lunch, um EP alicerçado em produções de Drae Da Skimask, nome associado ao universo IAMDDB.

Durante uma chamada por WhatsApp, falámos com CLBRKS acerca do seu percurso, os dois últimos projectos e, claro, a sua breve estadia em Portugal, retratada em “BONITO”.



Até que enfim! Tenho andado a devorar o Microwave Cooking 2000 desde que saiu. Antes de mais quero congratular-te pelo disco. É seguramente um dos meus projectos favoritos deste ano.

Wow. Muito obrigado pelas palavras.

Confesso que não te conhecia de todo, antes de teres ingressado na Blah Records. Rapidamente fiz a minha pesquisa e acabei por perceber que tu até já eras uma espécie de lenda underground dentro do circuito do SoundCloud.

[Risos] Eu não sei se sou uma lenda, man. Mas sim, sou um gajo do SoundCloud, para aí desde 2015.

Começaste como Louis Hammock.

Ya! Para aí com os meus 22 ou 23 anos larguei esse nome e passei a utilizar CLBRKS.

A primeira faixa de todas que tens publicada no SoundCloud é em cima do beat do “Cake & Eat It Too”, do Max B.

Ah, sim! Isso é um tema já bastante antigo. Que idade tem isso agora?

Por acaso não apontei a data. Mas isso chamou-me à atenção. Vês o Max B como uma influência para ti? Não é uma daquelas referências mais óbvias que encontramos em artistas jovens, como tu.

Não diria que é uma influência aparente. Mas é, sem dúvida, em termos de atitude e assim. Eu tenho 25 anos agora. Naquela altura eu era demasiado novo para estar super informado acerca dos Dipset e do Max B. Eu estava atento às cenas deles, mas não demasiado consciente em relação a isso. Eu diria que essa música é para aí de 2013, que foi na altura em que eu andava a curtir Max B, já depois de ele ter sido preso. Nesse tempo era cool um gajo andar a gritar “free Max B” [risos].

Há realmente uma semelhança ao nível da força que vos move em estúdio. Diria que estás com um ritmo de lançamentos mais ou menos semelhante ao dele, quando estava em liberdade.

Isso são palavras muito simpáticas da tua parte. Agradeço-te. E também vejo a coisa dessa forma. É aquela cena de manter as pessoas constantemente atentas. Apliquei essa espécie de modelo de negócio à minha música. Era algo que ele já tinha naquela altura, passar a imagem de alguém que está demasiado descontraído, quando na verdade ele se importa, e muito, com aquilo que está a fazer. Acho que consegues decifrar isso, quando é que uma pessoa está a agir como se não soubesse do que se passa à sua volta, quando na verdade sabe. Ele sabia do plano-mestre. Eu admirava a ética de trabalho dele. Sem dúvida.

Li uma pequena entrevista tua na Offie Mag, em que dizias algo como “eu quero fazer dinheiro com a música porque não sou bom em mais nada”. Quando é que te apercebeste disto?

Isto passou a ser uma coisa muito, muito séria na minha vida lá por volta de Outubro do ano passado. Eu tinha sido despedido do meu último trabalho. Sempre trabalhei na área do retalho e isso distraía-me da música. Ter sido despedido fez-me perceber que não tenho qualquer outra habilidade. Eu não frequentei a universidade, não tenho qualquer tipo de mais valias em termos de ensino… Tinha mesmo de tentar envergar pela música. E já vai dando alguns lucros. Por isso é bom.

Isso foi, talvez, por volta da mesma altura em que entraste na Blah Records?

Mais ou menos. Estar ao lado de alguém como o Morriarchi, que já está na Blah há muito tempo e até tem a sua própria editora, a Group BraCil, e vê-lo a trabalhar na música 24/7 faz-te perceber que, com dedicação, é possível criar uma cena sustentável para o resto da vida. Eu admiro isso nele.

Como é que tu e o Marriarchi se conheceram?

Ele estava a trabalhar no Pathways, do Verbz, e eles convidaram-me para entrar numa das faixas do álbum. Fui a casa dele, fiz a minha cena e automaticamente começámos a fazer mais música. Ele colocou a possibilidade de enviar esse material à Blah e funcionou. Não é que o projecto tenha tido um alcance gigante mas temos tido um bom feedback. Estou feliz por isso. Shout-out à Blah Records. Sem dúvida.

Neste álbum tu vais buscar muitas referências a comida, roupas e bebidas caras e até mesmo viagens de Uber em classe executiva. Tudo isto é-nos servido embrulhado numa grande dose de sarcasmo. Como é que se dá o processo de criação das letras na tua cabeça?

Eu tenho esta cena de gostar de escrever uma rima e contradizê-la na rima seguinte. É isso que faz transparecer o sarcasmo que tu falas. As cenas são engraçadas mas não são boas [risos]. Do tipo, consigo meter-te a rir com coisas sem piada [risos].

É a forma como constróis a coisa. Isso que estás a dizer faz-me lembrar uma frase que o Trellion tem num tema, algo como “I just want to get paid to say shit in a cool way.”

Ya. E eu ter estado com o Morriarchi, sendo que ele já trabalhou com o Trellion, e ter entrado na Blah Records levou-me a entrar nessa dimensão muitas vezes. A música do Trellion é muito interessante. Os projectos dele são muito bons. Sem dúvida que o meto na categoria de artistas mais interessantes do Reino Unido. Mas em relação às letras não há um processo em particular. Acho que funciono como a maioria das pessoas: lembro-me de uma linha engraçada, anoto-a no telemóvel e às tantas aquilo expande-se. Vejo a coisa como um desporto. Tu arranjas o teu estilo, por mais arriscado que seja, e acabas por te sentir confortável nele.

E de onde é que veio esta ideia da temática do microondas? Recuperaram aqui alguns anúncios e trechos de gente a falar maravilhas deste electrodoméstico.

Foi o génio do Morriarchi. Tudo começou com um anúncio australiano de microondas e depois a coisa começou a ganhar forma. Trouxe aquele elemento de coesão ao álbum mesmo sem que eu fale de microondas nos temas. Uma espécie de tópico. Deu-nos a possibilidade de escolher aquele título e acho que é uma forma engraçada para te segurar a ouvir o álbum na íntegra, com todos aqueles sons e samples.

Então, isso só vos surgiu depois dos temas estarem completos?

Honestamente, isso nem sequer foi ideia minha. Creio que fizemos as faixas e quando ele mas enviou havia uma que tinha esse pormenor. “Ah, tu gostaste?” E eu disse “ya!” Foi mesmo uma ideia do Morriarchi enquanto produtor. Ele não se limitou a ser o beatmaker. É isso que distingue um produtor. Até as rimas mais básicas que tenho no disco soam impressionantes em cima da produção dele. Acho que não tinha tido o mesmo resultado com uma banda sonora diferente.

Consigo ver isso como o lado humorístico dele a tentar complementar o teu.

Sem dúvida. A música dele é a forma como ele comunica. Eu nunca diria que sou músico. Eu apenas escrevo letras. Dou-lhe todo o crédito. Ele é um músico a sério. É a forma que ele tem de deixar a sua personalidade vincada no espectáculo.

Há aqui duas faixas que mais me chamara à atenção. A primeira é a “Camel Blue”, porque o beat se descola de todos os outros do alinhamento. Soa a Los Angeles, se é que me entendes.

Eu tinha escrito essa letra para outro beat. Mas, por acaso, essa foi a primeira música que gravámos os dois depois da tal colaboração para o álbum do Verbz. Essa foi a primeira colaboração entre CLBRKS e Morriarchi. Ele fez o beat de raiz. Eu estava lá sentado a vê-lo. Ou talvez tenha sido o “Salt Shaker” o primeiro tema em conjunto. Só que esse beat ele já o tinha. O “Camel Blue” eu vi-o mesmo a cozinhá-lo à minha frente. Quando a coisa se começou a compor eu vi que ele estava entusiasmado. Foi fixe vê-lo porque ele trabalha de uma forma que eu nunca tinha visto em ninguém. Tem uma metodologia diferente da maioria das pessoas e isso foi interessante.

A outra faixa é um pouco mais óbvia, a “Bonito”, que além do título em português teve ainda direito a um videoclipe rodado entre Sintra e Lisboa. Como é que surge um título em português para um tema de rap britânico?

[Risos] Nós não tínhamos ideia daquilo que íamos chamar à faixa. Eu fui a Lisboa com o Honey JD para filmar porque o capriisun estava por lá. Não me recordo da razão porque tomámos a decisão de lhe dar esse título. Mas foi muito fixe. Eu já tinha estado em Lisboa antes. Sem ser isso não tenho qualquer ligação com o país. Apenas gosto muito de Lisboa e daquilo que ela tem para oferecer. Bem como Sintra. Das duas vezes que aí estive, só consegui passar um dia em Sintra. Mas eu adoro a vossa cena aí, descontrair nos cafés… Qual é o nome daquela bebida alcoólica que vocês metem no expresso?

Aguardente! Por acaso não sei se tem tradução para inglês mas seria algo como “água flamejante”.

Wow. Essa cena é de doidos! Eu só descobri isso no meu último dia aí. Vai muito bem com o café. Gosto imenso de vocês e da vossa cultura.

Obrigado. É reciproco! E a música também foi gravada cá ou só o vídeo?

Eu gravei a minha parte com o Morriarchi. O capriisun tem um background musical bastante semelhante ao meu, em relação ao SoundCloud e assim. Somos amigos desde essa altura. Ele estava a viajar pela Europa, Portugal era o último destino e combinei ir ter com ele por uns dias. Alugámos um AirBnB e divertimo-nos imenso. Curiosamente acho que ele conseguiu regressar cá mesmo num dos últimos voos antes da pandemia. Cena de doidos.

Entretanto, enquanto ainda estava a digerir este Microwave Cooking 2000, tu lançaste outro projecto, Out For Lunch. O que te levou a edita-lo tão próximo do anterior?

Na verdade esse trabalho até foi gravado antes do Microwave Cooking 2000. Eu e o Conrad Mundy fechámo-lo algures no final de 2017. Tem estado parado desde então. Acho que por ter editado pela Blah isso fez com que o meu nome tivesse a chamar alguma atenção extra. Em vez de ficar preso àquele registo que as pessoas tanto gostaram, achei que fosse boa ideia mostrar muito rapidamente às pessoas que eu tenho um espectro bastante abrangente a nível de estilos de escrita. Dei uns bons dois meses às pessoas para ouvirem o álbum antes deste EP. Entretanto já ando a preparar outro projecto para a Blah… Continuo a trabalhar com eles. Estou naquela situação em que não estou contratualmente ligado a nenhuma editora. Eu adoro a Blah e isso até é algo que eu possa vir a considerar no futuro, mas a ideia inicial resumia-se apenas àquele álbum. Acho que ninguém esperava que tivesse tanto êxito. Por isso agradeço-lhes pela oportunidade que me deram.

E o que te levou a fechar o Out For Lunch com o Conrad? Percebi, pelo SoundCloud, que também é uma colaboração frequente na tua música.

Temos o mesmo nome [risos]. Eu chamo-me Conrad também. Isso fez-nos gostar um do outro instantaneamente [risos]. E sim, temos vindo a fazer música juntos há já algum tempo. O EP surge dos convívios que temos tido desde então. Pegámos nos beats do Drae Da Skimask e fizemos umas seis ou sete faixas. Acho que foram duas que ficaram de fora do alinhamento. Digo-te que o Conrad é o meu rapper favorito do Reino Unido. Estou mesmo a ser honesto. Acho que as letras dele contrabalançam as minhas de uma forma muito boa. Este EP é mais introspectivo e ele é um gajo que prima nesse tipo de letras mais profundas.

Como é que o Drae Da Skimask entra na fotografia? Ele tem estado associado à IAMDDB, que curiosamente nasceu em Portugal e tem um buzz considerável por cá.

Que engraçado. Não sabia. Isso é fixe. Eu lembro-me dela ter “rebentado” a partir de Manchester mas acho que não tinha essa ideia das raízes portuguesas. Isto já foi há alguns anos mas ela mantém a cena dela. Não a conheço pessoalmente mas ela é surpreendente.

E o Drae, conhece-lo?

Também nunca conheci o Drae, pessoalmente. Mas conheço algumas pessoas que o conhecem. Na altura em que fizemos este EP, eu acho que ele vivia em Londres. Creio que agora está em Los Angeles. Mas nessa altura ele usava uma plataforma chamada Track Trade para vender instrumentais. Eu e o Conrad comprámos-lhe uns quantos. Temo-lo mantido a par daquilo que temos feito com eles mas não não esteve assim tão envolvido no projecto quanto isso. Era alguém que nós ouvíamos imenso na altura e que nos inspirava. O gajo também é grande no SoundCloud, muita gente respeita o percurso dele. Pareceu-nos a ideia certa, ter beats dele para um projecto nosso.

Este Out For Luch foi uma edição independente vossa mas há pouco falavas-me que continuas a trabalhar com a Blah Records. Já tens mais planos a solo?

Ui… A única coisa que te posso dizer é que tenho mais um trabalho a ser editado por eles no futuro. Tenho trabalhado com os artistas deles e a fazer música para ser editada por eles. A Blah Records é família. No futuro é algo que teremos de pensar, se faz sentido ou não eu ser um artista da Blah. Mas podes esperar certamente mais algo meu na Blah Records mais cedo ou mais tarde. Não ter um contrato com eles tem essa beleza. Um gajo olha-se nos olhos e aperta as mãos. Isso é cena de homem crescido! [Risos] Tal como em tudo o que eu tenho vindo a fazer, isto baseia-se em boa vontade e confiança.

Já que quiseste falar no assunto, mata-me só a curiosidade: vai ser um projecto só teu ou dividido entre ti e um produtor, tal como fizeste com o Morriarchi?

Vou ser eu e o Morriarchi. Isso é de certeza [risos].


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