Cláudia Pascoal: “Eu tento arranjar sempre uma forma leve de lidar com as situações”

[TEXTO] Vera Brito [FOTOS] Ricardo Abreu (com direcção artística de Wandson Lisboa)

As exclamações podem ter múltiplos significados e dependem sempre do contexto em que são utilizadas. Podem exprimir surpresa, entusiasmo, emoção, ironia, dor — todo um conjunto de sensações fortes. Fomos tentar perceber melhor qual era a exclamação de Cláudia Pascoal no seu disco de estreia, numa breve e vivaz conversa que ocorreu no próprio dia do lançamento, na passada sexta-feira.

Ao vivo, mesmo que por videochamada, Cláudia Pascoal é tal e qual como a imaginávamos depois de a vermos pelos ecrãs dos telemóveis e da TV: extrovertida e expedita, sem máscaras e de orgulhosa pronúncia do Norte, de quem sabe perfeitamente quem é, embora só agora nos esteja a mostrar essa verdadeira identidade musical neste seu trabalho de estreia. ! é uma caixinha de surpresas, que nos leva a navegar por entre diferentes estados de espírito, com muitas vozes bem nossas conhecidas, da família de amigos que a artista reuniu para a ajudar nesta corajosa empreitada que é: fazer um disco.



Olá, Cláudia, tudo bem contigo?

Olá! És a minha última entrevista hoje! Já está, acabou! [Risos]

Já deves estar um pouco cansada então, prometo que isto vai ser rápido!

Não, está-me a saber bem. Assim tenho companhia em casa o dia todo. [Risos]

Chegou finalmente o grande dia, o teu disco de estreia ficou disponível, parabéns! Já estive a ouvir e sei que foi um álbum no qual trabalhaste nos últimos dois anos e que até já era para ter sido lançado, não estivéssemos em plena crise de pandemia. Imagino que por isso esteja a ser um dia muito especial para ti? Como é que têm sido as reacções até agora?

Olha tem sido muito estranho este dia todo porque, por um lado, estou super feliz, “finalmente lancei o meu álbum!”, por outro não estou a comemorar com ninguém e nunca imaginei que este dia seria assim, na verdade. Sempre pensei, “bora beber uns copos e festejar!”, no entanto estou muito contente porque como toda a gente também está em casa estou a receber imensas mensagens positivas e tem-me sabido bem.

É verdade, as pessoas agora também estão mais disponíveis para falar umas com as outras, também tenho sentido isso. Olha, ajuda-me aqui com uma coisa, qual é a melhor forma de dizer o nome deste teu álbum? Porque parece-me que se lermos à letra “ponto de exclamação” que se perde um pouco a força desta pontuação.

Opá, não há grande maneira… Eu interpreto isto ou como um grande erro ou como uma coisa muito genial, não é? Porque não há um nome para o meu álbum. É quase um statement, é o ponto de exclamação. Já me perguntaram se tivesse de ser traduzido num som qual é que seria? Ou qual a palavra antes ou depois do ponto de exclamação? Eu acho que há a interpretação de cada um e esta é a minha interpretação que é: sou eu, a Cláudia, sem programas, sem cantar as músicas dos outros, com o meu próprio projecto e com as minhas próprias músicas.

Li também que neste disco tiveste a intenção de brincar com coisas sérias e acho que consegui perceber isso depois de o ouvir. Há uma leveza na composição musical e na tua interpretação em vários temas que tornam fáceis assuntos difíceis. Estou-me a lembrar, por exemplo, da já bem conhecida “Ter e Não Ter”, em que sempre que vez vejo o vídeo e ouço aquela parte “sozinha com uma garrafa numa mesa para dois”, de repente não me parece de todo uma má ideia para se passar um serão. Brincar com coisas sérias ajuda de facto a colocar tudo numa outra perspectiva?

Sim, eu tento arranjar sempre uma forma leve de lidar com as situações. Claro que também me vou muito abaixo, como toda a gente, não é? Mas tento sempre e peguei em todas as canções de uma forma leve porque é assim que eu interpreto a forma como oiço a música, tentando também meter sempre que possível algum tipo de humor, algum tipo de brincadeira. Mas depois também há músicas em que acho que puxei ao sentimento [risos] e que não quis mesmo estragar com nenhuma brincadeira, nem chamar ninguém. Por exemplo “O Soldado”, a música que a Joana Espadinha me escreveu, ou mesmo a “Vem Também”, do Tiago Bettencourt, acho que são músicas muito simples e pouco toquei nelas. Deixei-as assim, quase em forma de maquete, e acho que sobrevivem muito bem dessa forma.

Sim, eu também achei que havia um bom equilíbrio entre músicas alegres — com alguma cacofonia que às vezes até dá a sensação de alguma confusão sonora mas que no final faz todo o sentido –, e com alguns momentos de humor (já te vou perguntar melhor como é que surgiu esta ideia de convidar o Nuno Markl) — mas também músicas muito serenas. Por exemplo, gostei bastante da “Já Não Somos Animais”, achei-a muito simples e bonita. Sinto que neste disco existem duas Cláudias: uma extrovertida, que acho que é aquela a que estamos mais habituados, e outra muito mais tranquila. Em qual delas te revês mais?

Depende dos dias, não é? Acho que como toda a gente tenho dias bons e dias maus e este disco é mesmo o reflexo disso, dos dias em que acordei muito bem disposta e apeteceu-me fazer uma música muito divertida e brincar com isso, e outros em que me apetecia dizer simplesmente a verdade e aquilo que sentia. E acho que o álbum começa assim de uma forma bem parva, depois vai para outra parte muito mais adulta e depois vai para parvo outra vez. E eu gosto muito dessa “ondinha” que o álbum cria e que acho que me traduz muito bem. 

Agora sim, explica-me de onde surgiu este convite para o Nuno Markl, eu sei que por estes dias ele tem mostrado um grande talento no karaoke, não sei se tens acompanhado os lives no Instagram do Bruno Nogueira? Mas pareceu-me que ainda assim ele ficou um pouco à rasca naquela última música, mesmo só com um acorde. Quiseste mesmo adicionar este lado humorístico no teu disco? Como é que isto aconteceu?

Sim, completamente. Eu já conhecia o Nuno Markl de outras andanças e sempre me fez muito sentido. Queria que o meu álbum se traduzisse dessa forma humorística e então pensei chamá-lo para fazer alguma coisa. Não com um propósito específico, porque acho que ele é o mestre de entretenimento a dizer coisas muito sérias e notícias diárias — que faz muito bem nas manhãs da Comercial — sempre num tom de brincadeira, e era essa imagem que eu queria dar ao álbum. Portanto, chamei-o para o estúdio e a partir daí brincámos muito, improvisámos e saiu aquela coisa nas primeiras músicas. Depois, na “Música de um Acorde”, como tínhamos gravado daquela maneira as primeiras, achei que seria de bom tom oferecer-lhe o final para ele tocar sozinho. E, atenção, aquilo é tudo ele, mesmo o piano, é ele que está a tocar.

Por acaso nunca pensei que uma música só com um acorde pudesse resultar em algo tão engraçado e bem construído, desde aquela sobreposição de vozes (vi na ficha técnica que tens imensa gente a participar nessa parte), assim como aquele crescendo final e depois a entrada do Markl. Confesso que me apanhou de surpresa, não esperava que o disco acabasse assim, acho que é um final que nos deixa bem dispostos e de sorriso na cara. Li que esta música já tem uma história antiga, como é que surgiu a ideia de fazer uma música só com um acorde?

É “a mais antiga” do álbum! Partiu de uma brincadeira que eu fazia nos castings do The Voice, em que havia aqueles dias em que estávamos de manhã até à noite fechados num espaço com centenas de pessoas e então levava o meu ukulele e era uma forma do pessoal se integrar e socializar, de começar a falar ao cantar aquela canção muito parva. E eu sempre disse, num tom muito de brincadeira, que se um dia lançasse um álbum punha esta música. A cena é que isto pegou e realmente funcionou, e as pessoas respeitaram essa ideia. E eu não podia escolher uma melhor forma de acabar o álbum, porque não só é a última música como foi também a última a ser gravada para a qual fui buscar as pessoas todas que adoro e que me ajudaram — é quase um festejo, tipo: “acabou e gostamos muito disto”.



Tiveste realmente muita gente a colaborar contigo neste disco e todos eles nomes fortes da música portuguesa, como o David Fonseca, o Samuel Úria, a Joana Espadinha ou o Tiago Bettencourt, de quem já falaste, entre outros. Mas é também o teu trabalho de estreia, no qual acredito que estarás ainda um bocadinho à procura da tua identidade, imagino que talvez tenha sido um desafio coordenar todas estas contribuições de pessoas tão diferentes sem te perderes?  

Eu acho que todos eles me ajudaram foi realmente a não me perder. Porque é assustador o desafio que me fizeram de escrever um álbum, são muitas músicas e tem que se criar um conceito à volta delas, uma identidade e uma estética. Então fui mesmo pedir ajuda às pessoas que mais adorava na música portuguesa, que ainda hoje não sei bem como todas elas aceitaram e que me ajudaram a criar um caminho e, aos poucos, de uma forma muito orgânica (não foi tudo ao mesmo tempo, foi tipo uma música num mês, outra noutro), essa construção foi realmente uma forma muito natural de eu criar uma personalidade musical.

É engraçado porque eu acho que tens tido um longo caminho até chegares aqui, pode não parecer porque ainda és muito jovem e estamos afinal a falar aqui hoje do teu disco de estreia, mas já muita gente te conhece de muitas experiências televisivas, culminando sobretudo com a tua participação no Festival da Eurovisão, ou seja, eu acho que as pessoas pensam que já te conhecem muito bem o que se calhar pode não ser assim tão verdade. Achas que vais surpreender o teu público com este disco?

Não sei se vou surpreender, mas acho que vou mostrar uma Cláudia mais no seu total e não uma Cláudia que está a fazer uma performance ou a representar um papel específico, mas sendo ela própria, que é uma coisa que eu nunca tinha tido oportunidade. E estou super entusiasmada com isso e estou ainda mais entusiasmada para começar a dar concertos e aí é que acho que as pessoas vão ter uma percepção do que é que eu sou verdadeiramente.

Enquanto esperamos por esses concertos, recentemente, actuaste também nesta edição improvisada, mas bastante séria, do Festival Eu Fico em Casa (que por aqui no Rimas e Batidas seguimos atentamente). Uma iniciativa que acredito que todos concordamos ter sido de louvar e que nos surpreendeu tanto pela vossa generosidade de nos abrirem as portas das vossas casas e de tocaram para nós, mas também pela rapidez com que tudo isto foi tão bem organizado. Como foi esta experiência? E como é que acabaste por fazer parte disto também?

Foi um alívio gigante, porque eu tinha um concerto realmente marcado para dia 20 na Covilhã, que foi cancelado por causa disto tudo e portanto quando me deram esta oportunidade de participar no festival, no mesmo dia e à mesma hora, eu disse: “Olha, espectacular! Vou fazer exactamente o mesmo concerto que iria fazer lá”, embora cortado a metade porque só tínhamos meia horinha. Mas mesmo assim diverti-me muito e senti-me acima de tudo satisfeita de poder mostrar alguma coisa para além do disco e um bocadinho da minha performance ao vivo. Gostei mesmo mesmo muito!

E achas que isto até é um modelo que pode ser explorado mesmo depois de tudo isto passar e de voltarmos à normalidade?

Eu acho isto muito bonito, agora se é rentável? Não sei… [Risos] Acho que é uma oportunidade mesmo única até mesmo para pessoas que estão mais longe ou noutros países conseguirem assistir aos artistas de que gostam, mas tem de haver aqui um equilíbrio qualquer que seja também satisfatório para os artistas, para que isto seja tomado como uma profissão e não só como só algo dado. 

E os artistas são de facto uns dos que mais estão neste momento a ter prejuízos com toda esta situação. Tu como é que estás a lidar com toda esta incerteza? Como é que te estás a manter ocupada por estes dias?

Olha por acaso tenho estado numas semanas bem criativas e tenho-me divertido muito a fazer vídeos muito parvos para o Instagram, Facebook e para o Tik Tok. Honestamente, quando parar de ter ideias, aí é que tenho de me preocupar, até lá continuo a fazer isto e tenho estado bem.

Se calhar podes até começar já a trabalhar em novas músicas?

Sim, completamente, isso sim, claro. Vem sempre uma musiquinha ou outra, pode ser que consiga escrever já o segundo álbum. [Risos]

Já que estamos a falar de todo este mundo virtual, tu és muito comunicativa nas tuas redes sociais, como estavas agora dizer, tens até um amigo animado: o “blah”, que te ajuda nos vídeos. Todo esse lado mais criativo e brincalhão é também algo que queres ter na tua música?

Sim, completamente. Aliás até no meu terceiro single, o “Espalha Brasas”, a música acaba com o “blah”. Não o quero fazer também de uma forma muito acentuada, porque também não quero ridicularizar o projecto musical, que levo muito a sério, mas queria houvesse essa parte meio fantasiada, meio unicórnio, no meio deste processo todo, também para ser quase um desenho animado na minha vida, para me fazer companhia nestes dias. Comecei com ele por brincadeira e agora cada vez me faz mais sentido.

Quando tudo isto passar e voltarmos todos às salas de concerto, que surpresas é que tens preparadas que nos possas revelar? Já li que vai ser um espectáculo diferente do normal? 

Não é nada de inacreditável… mas uma segurança que eu sempre tive a partir do momento em que comecei a criar as músicas é que queria apresentá-las sempre de uma forma um pouco diferente, não apenas tocar as músicas e interpretá-las mas também ir buscar alguns objectos e tornar o meu palco quase como a minha casa, que foi um bocado o exercício que fiz agora no concerto ao vivo no Instagram, que é brincar com o meu telefone, com o meu rádio, com a minha televisão, e é um pouco isso que quero trazer também para os meus concertos ao vivo por todo o país: é levar a minha casa e brincar um bocado com isso. Trazer algo mais que instrumentos musicais. 

E talvez convidar algumas das pessoas que te ajudaram neste disco?

Pode fazer sentido dependendo dos sítios, não é? Se for no Norte se calhar convido as pessoas que participaram no meu álbum que são do Norte, e em Lisboa a mesma coisa. Aliás acho que o álbum é o reflexo disso: gosto muito de fazer esse tipo de parceiras e acho que o álbum só cresce com mais pessoas e mais personalidades e mais música, portanto nos concertos acho que também não vai faltar. E espero poder apresentar em breve o disco em forma de concerto.


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