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Texto: Hugo Pinto
Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 23/03/2026

Uma carreira bem adubada que tem ajudado a moldar a esfera eletrónica.

Clark: “Lançar um álbum é como podar um jardim”

Texto: Hugo Pinto
Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 23/03/2026

Clark, nascido Christopher Clark em St. Albans no ano de 1979, é um nome essencial para perceber a música eletrónica do século XXI. O produtor de música de dança estreou-se com Clarence Park na Warp em 2001, a mesma editora que já tinha lançado material de gente como Aphex Twin e Boards Of Canada. Essa foi a sua “casa” até  Death Peak, de 2017, tendo depois criado a sua própria editora, Throttle Records, pela qual selou os registos seguintes.

Nestes últimos 25 anos, numa carreira extensa e imaculada, lançou bandas sonoras para TV e cinema, fez remisturas para Massive Attack e Radiohead, editou Daniel Isn’t Real e Playground In a Lake na histórica gravadora alemã Deutsche Grammophon e deixou uma marca indelével no som do presente. Depois de, em 2025, ter rubricado um dos discos mais marcantes desse ano, Steep Stims, foi convidado para integrar a programação da edição de estreia do festival lisboeta Parallel Society, onde aproveitámos para o entrevistar.



Há uns anos descobri esta etiqueta chamada IDM (Intelligent Dance Music)…

Eu acho que essa tag é americana… Eu não gosto nada desse termo porque implica que há uma outra música de dança que não é inteligente e isso não é verdade. É estranho, porque eu odiava essa palavra quando apareceu, mas agora, volta e meia, uso como uma piada ou ironicamente… Eu acho que os americanos não percebem a ironia.

Ao ouvir os teus discos fico com a sensação que há dois Clarks: um das bandas sonoras e do ambient e outro da eletrónica para dançar.

Para mim é tudo um caos completo. Eu gosto de tocar instrumentos e fazer diferentes tipos de música ao mesmo tempo, mas quando eu edito um álbum, gosto que ele tenha um olhar particular. Não é como se os meus discos só tivessem um som, mas em vez de terem vinte cenas diferentes, eles têm só quatro ou cinco. Na realidade, eu passo o tempo a fazer trinta coisas diferentes e lançar um álbum dá-me uma boa oportunidade de cortar. É como podar um jardim.

É curioso, porque quando tu fazes a música de dança para a pista, esse som é homogéneo e coerente, e quando fazes as bandas sonoras, o som também é sólido e coerente mas… 

Eu acho que há uma ligação… provavelmente abstracta. Eu costumo começar sempre com uma linha de piano ou de bateria, e isso também se relaciona com as cenas mais techno. Parte sempre tudo dos mesmos instintos, mas talvez o resultado soe de maneira diferente. De qualquer modo, eu acho que há um sentido de continuidade no meu trabalho. Ao mesmo tempo, eu odeio repetir-me, portanto cada vez que faço um álbum, quero que seja como fazer um filme. Alguns realizadores repetem nos seus filmes atores e planos, mas cada filme é uma entidade única.

Acerca da relação entre música acústica e eletrónica, tu já gravaste com orquestra para a Deutsche Grammophon. Tu vês-te como um produtor, um músico, um DJ, um compositor… Ou de todas estas maneiras?

Não me vejo como DJ, mas sim, vejo-me de todas essas outras maneiras. Tem tudo a ver com aquilo de cada disco ser diferente, mas haver sempre o mesmo espírito que faz essa música. Por exemplo, no Playground In A Lake, enquanto eu compunha para as cordas na orquestra, a minha atitude era a mesma de quando eu faço techno. Eu não tenho fronteiras na minha abordagem.

Mas já não fazes DJ sets?

Já não são para mim. Eu fiz no passado, mas agora só quero fazer a minha música. Para seres um bom DJ deves passar muito tempo a ouvir música nova e, honestamente, eu não gosto de tentar encontrar música que goste, porque acabo por não gostar da maior parte da música que encontro. Há uns quantos produtores que eu gosto, como Blawan, mas o meu gosto é mais do velho jungle e do velho techno, como Surgeon e Jeff Mills. O meu problema com a música nova é que, se encontro algo que não gosto, fico irritado com quem fez a música, e se eu encontro algo que gosto, fico irritado por não ter sido eu a fazer essa música.

O teu primeiro álbum, Clarence Park, que fez agora 25 anos, parece-me algo naïf… 

Ainda me lembro bem. Eu era muito novo, tinha 19 anos. Gravava em cassete. Algum desse material é masterizado em cassete, verdadeiramente lo-fi. Outras partes são de MiniDisc. Eu tinha um Atari e cada vez que queria fazer um novo tema tinha de já ter acabado o tema anterior…

É muito diferente dos dias de hoje.

Pois é… E eu sinto falta de alguma coisa dessa altura. Eu tento agarrar-me a alguns desses modos de funcionar, mas é quase impossível hoje em dia, porque existe sempre a possibilidade de refinar mais qualquer coisa. Eu lido mal com isso e tento sempre acabar os temas rapidamente. 

No teu estúdio, qual é o teu equipamento favorito?

Eu agora tenho um conversor de que gosto muito mas, na verdade, eu uso tudo. Eu posso fazer um álbum no meu laptop. Aliás, a ter de escolher um equipamento, seria o meu laptop.

Sus Dog é o mais próximo que tu estiveste da pop. Eu tenho assistido a alguns DJs passarem do underground para os grandes palcos de festivais…

Se isso me acontecer por acaso, é tranquilo, mas não é algo que procure. Eu só quero fazer os melhores discos que conseguir e isso não implica necessariamente um grande sucesso comercial. Para mim, a única vantagem desse sucesso é permitir-me continuar a trabalhar, só isso.

Houve uma altura em que os DJs se tornaram rock stars e nós íamos a um sítio exclusivamente pra ouvir um DJ. Isso parece já ter passado.

É estranho, porque eles só estão a passar música de outras pessoas. É completamente diferente de quando eu comecei a ouvir música. A própria cultura é diferente… Quando era jovem, nós íamos para raves ilegais dançar techno underground a noite inteira, ninguém queria saber quem era o DJ, só interessava a música.  

Desde Kiri Variations tu lançaste a tua editora, Throttle Records.

Sim, dá-me mais liberdade. Eu estava bem na Warp, mas agora lanço música quando quero. E acabo também por ter mais controlo sobre a música que lanço.

E só lanças os teus discos ou tens outros artistas?

Tenho também o meu amigo Mike (Michael John Jefford) que agora vive em Portugal. Ele lançou um disco recentemente como Laguna Seca (Live from Müsli Mountain, 2026). 

Adoro! Um dos melhores álbuns que saíram este ano. Desculpa não saber que era da tua editora, mas eu acabei por ficar mais preso ao músico e à música.

Tem piada que digas isso, porque a editora para mim está no banco de trás. Sim, é importante mas… as editoras estão demasiado fragmentadas. 

Steep Sims é um dos grandes discos do ano passado. Como é que tu transportas aquela energia para o palco?

Eu levo mais sintetizadores e drum machines para o palco e as músicas acabam por adquirir outra forma ao vivo. Eu acho que o álbum precisa de ser conciso, mas ao vivo há mais espaço para avacalhar e aproveito sempre para tocar material que ainda não editei.

E que novos artistas tens ouvido?

Há uma jovem de Brighton que está no Bandcamp e dá pelo nome de em— (lê-se emdash). Ela já lançou vários discos e é sempre espantoso. É programadora e usa um algoritmo generativo criado por ela. É muito envergonhada e, hoje em dia, com a importância das redes sociais, há menos espaço para pessoas envergonhadas. De qualquer modo, a música dela não é para estar a tocar no fundo, é música que exige atenção. É frustrante porque já houve uma altura em que as pessoas tinham mais fome de música assim, mas parece-me que agora o gosto está mais conservador. Há pessoas que gostam de música e pessoas interessadas em música e eu faço som para as pessoas interessadas em música.


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