Cinco anos depois de Double Cup, DJ Rashad continua à nossa espera no futuro

[TEXTO] André Forte [FOTO] Direitos Reservados

Contam-se cinco anos desde que foi editado Double Cup, disco seminal de DJ Rashad — o registo, selado pela icónica Hyperdub, que firmou o criador da Teklife como um dos produtores mais essenciais da música de dança dos últimos anos, um dos pioneiros footworkers e personagem que carregou a tocha juke de uma cena local até aos livros de história, onde as geografias e cronologias nem fazem sentido. Footwork foi Rashad, e foi Teklife, mas agora pertence aos dancefloors deste mundo e a produtores que extravasam as fronteiras do próprio género e da própria cidade de Chicago, onde tudo começou, como acontece com o britânico Addison Groove, que fez as suas experiências dentro da tensão hip hop/dancefloor, ou com a siderúrgica e cirúrgica Jlin, produtora que começou a agredir corpos e mentes no estado americano de Indiana. Double Cup foi um marco na campanha de duas décadas do DJ e produtor, o registo que cunhou o seu legado dentro da música de dança, no house de Chicago e na revitalização dos ritmos frenéticos do juke na era pós-Y2K.

É fácil falar no incontornável e imparável DJ Rashad e desdobrarmo-nos em adjectivações em jeito de panegírico sem falhar o alvo — admita-se: são merecidos e reflexo de um legado que se inicia no princípio dos anos 90 com o ghetto house, se estende até hoje e se multiplica nos inúmeros talentos da crew Teklife. Não há palavras que descrevam tudo o que Rashad criou quando juntou forças ao juke de RP Boo e o seu parceiro de sempre DJ Spinn para contextualizar toda uma onda que só parecia fazer sentido na Windy City (será um acaso que a capa do disco seja uma foto de vista aérea sobre Chicago?).

Double Cup selou tudo num registo cheio de explosões rítmicas suavizadas por sons característicos da soul e da funk em contratempo e contra-disposição, em que os 140 BPMs constantes dos subs e das batidas se diluíam nos synths secos e em samples de vozes ajustadas à natureza sincopada do seu footwork. Uma convergência que se multiplica em possibilidades genéricas, das intensidades drum & bass, à vertente relaxante muscular do hip hop; em andamentos, acelerações e travagens mais rápidas que as de um Tesla, ou numa complexidade de cadências, de camada em camada, que nos permite separar corpo e mente na pista de dança e abaná-los de acordo com o compasso de cada elemento. É como se “I Don’t Give a Fuck”, brincadeira sónica do produtor em que os subs se expandem visceral e intermitentemente de forma sucedânea, disputando espaços com um Microkorg ora muito rápido, ora muito lento, fosse em título um manifesto claro em relação a tudo o que acontece no disco: não interessa se estão para dançar, se estão para curtir um mental high qualquer, ninguém fica parado e o DJ não vê limites para conseguir isso.

 



Tudo isto cabe em Rashad e na sua actualização do juke dos 90s directamente para o futuro, onde ainda não chegámos. Será, de resto, por isso que ainda não é possível dizer que há algo datado neste registo, quando todo o caminho feito não chegou senão para abrir possibilidades. Esse é, provavelmente, o detalhe ainda menos falado sobre este registo: mais do que o firmar de um silogismo insofismável (o de quão impressionante Rashad realmente é), é o discorrer de argumentos associados ao colectivo de produtores Teklife, cada um deles a focar-se em elementos idóneos da figura essencial do movimento.

Além do habitual DJ Spinn, companheiro de dança e de produção desde os tempos de escola, Double Cup abre caminho para Taso, que em 2014 lança o seu primeiro volume de Teklife Till tha Next Life e mergulha nas vibes do hip hop para criar um footwork particularmente dopado por THC; para DJ Manny, que em 2015 incorre no sample de clássicos de jazz e de vozes sincopadas para o seu LP Day Dreaming; para o mais tradicionalista ghetto house de DJ Phil, onde inuendos vocalizados servem de catalisador para subs e ritmos em catadupa servem de matéria para o EP Road Trip, lançado em 2013; para o synth-based footwork de tendências suaves e ritmos não tão calmos de DJ Earl, que inicia nesse mesmo ano um frenesim de edições a desembocar num dos melhores longa-duração de 2016, Open Your Eyes; e para o britânico Addison Groove, aka Headhunter, que em 2014 mete cá para fora o Presents James Grieve, uma versão de sotaque britânico do som de Chi, com um piscar de olhos às correntes raver dos anos 90 londrinos, algures entre o garage e o jungle.

Enquanto estes artistas continuarem a empurrar a cultura da pista de dança para diante, não haverá passar do tempo que permita avaliar, de forma justa, a importância de Double Cup, ou de DJRashad. Continuamos a correr atrás dele.

 


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