Chong Kwong: “De nada vale fazeres a cachupa mais dope se a servires fria”

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Indi Nunez

“Chong Kwong” é o single de apresentação do primeiro projecto a solo de Vanessa Pires, rapper que recorreu aos “serviços” de SnakeDizzy (produção), X-Acto (captação) e Wilsoldiers (realização e edição de vídeo) para o seu regresso às rimas e batidas.

Depois de fazer parte da La Dupla entre 2003 e 2011, Chong Kwong, a “true blasian“, remeteu-se a um silêncio artístico de oito anos em que se dedicou aos estudos e à sua carreira profissional enquanto vivia em Macau e Hong Kong.

A canção que inaugura esta nova fase é um banger infeccioso recheado de referências às suas origens e a dose certa de braggadocio, colocando-se ao lado da promissora Nenny neste início de ano auspicioso para um rap nacional que se pretende mais diversificado.

Conversámos com a MC sobre a longa pausa, a (falta de) representação das mulheres no hip hop português e “Chong Kwong”.



Quero começar pelo pré-“Chong Kwong”. Fizeste parte da La Dupla até 2011 e depois paraste durante uma série de anos. O que é que levou a esta longa pausa?

Aquela pergunta! Eu precisava de me inspirar, beber influências, viajar, conhecer, absorver vibes e, acima de tudo, encontrar-me. Para que no momento em que trabalhasse no meu primeiro projecto a solo, ele fosse meu a 100%, todo ele Chong Kwong. Isto anda na minha cabeça há anos mas no ano passado pus as mãos na caneta for real e comecei a desenhar o álbum e todo o conceito por trás. Só queria ter uma certeza: quando as minhas ideias vissem a luz do dia, estar orgulhosa do meu trabalho above everything. Mas sem dúvida que existiram dois factores que contribuíram muito para essa pausa: criar o espaço na minha vida para investir o tempo e blood necessários para me aprimorar enquanto rapper e artista e sem dúvida encontrar as pessoas certas que vissem “aquilo” que eu queria fazer na música, que compreendessem a minha visão e fossem tão ou mais go-getters que eu. Longa pausa, mas com longa vida, I hope so

Ao contrário do que fazias anteriormente, o single de apresentação tem uma estética moderna e umbilicalmente ligada ao trap. Isto é o reflexo do que andas a ouvir? 

“Estética moderna” é um bom termo, apesar de eu acreditar que música, se é música, é intemporal. É claro que com a velocidade a que a música corre hoje em dia, é preciso ter um pouco pé de atleta (I mean it!) para acompanhar as tendências. Mas tendências são isso mesmo: tendências. Passam de moda. E eu espero que este single, “Chong Kwong”, tenha longa vida. Overall, eu não consumo géneros musicais, eu consumo vibes. Se a música tiver o embalo e as frequências certas, I’m all for it. Eu cresci rodeada de vários estilos musicais e aprendi desde cedo que música se sente e só depois se escuta. Não se cataloga. Gosto de entrar na minha playlist e senti-la. Viajar, crescer e ser maior com ela. Gostava genuinamente que as pessoas que oiçam a minha música sentissem o mesmo.

Fala-me um pouco mais sobre o processo de construção deste tema: quando é que começaste a construi-lo e como é que chegas a este beat do SnakeDizzy?

Eu já tinha ouvido grooves lixados do Snake e senti muito a vibe dele! Isto para te dizer que antes de chegar ao beat, cheguei ao produtor. Este passo é crucial para mim porque eu só trabalho com quem sinto a vibe. Podes fazer cenas dope mas se eu não sentir a tua vibe, não vai acontecer. Tem de existir casamento. Eu e o Snake nunca tínhamos trabalhado juntos, mas, logo que ouvi esse beat, percebi que era o início de uma relação musical dope! O Snake, para além de produzir muito hip hop, produziu muita música africana, trabalhou com vários artistas e eu senti que ele ia entender de onde eu venho e o que queria fazer. Eu nasci cá mas a minha família é metade africana, metade asiática e eu faço rap. Wtf, right? Então eu tinha de misturar tudo isso porque a minha música é fruto do que eu sou. Voltando atrás: eu apaixonei-me pelo beat do “Chong Kwong” assim que o ouvi. Bati mal quando o Snake me mostrou, for real! Vi literalmente materializado num instrumental aquilo que tinha na cabeça há anos sobre como seria o meu primeiro single. O Snake leu exactamente a minha visão e conseguiu perceber que ali naquele instrumental ‘tava a minha identidade.

O meu primeiro goal era fazer jus ao beat e brincar com ele like there’s no tomorrow. Acho que é o mínimo que um rapper pode fazer com um beat e isso também mostra muito respeito pelo produtor. Comecei a trabalhar nesta faixa o ano passado e poli-a até ficar do meu jeito antes de a mostrar sequer ao Snake. Eu sabia que era uma responsabilidade porque é um beat dope as fuck mas que te pode matar só com o primeiro kick. O Snake nunca me tinha ouvido e eu queria que ele ficasse orgulhoso de me passar o testemunho (tipo estafeta style [risos]). De nada vale fazeres a cachupa mais dope se a servires fria. Ele entregou-me um beat hot e eu tinha que lhe pegar fogo, basically.   

Tendo em conta que o rap feminino em Portugal ainda tem uma representação mainstream quase inexistente, como é que olhas para o panorama? Estás a par do que se está a fazer actualmente? Recentemente, a Nenny causou um pequeno terramoto com a faixa “Sushi”…

Rap feminino. Se soubessem como odeio esse termo … ninguém diz rap masculino, right? Então para mim é non-sense usar-se o termo “rap feminino”. O género é uma cena lixada (para não dizer outra coisa!) no hip hop mas eu desde cedo habituei-me a olhar para os meus peers de igual para igual e eu acredito que isso fez com que me olhassem e olhem com respeito também. É óbvio que há mais homens a rimar que mulheres e isso deve-se a mil e um factores (endless story). Mas também não vamos agora ser hipócritas e apoiar mulheres a rimar só porque não há muitas. E a qualidade fica onde? Pessoalmente, preferia que me dissessem que não sentem a minha cena do que se esforçarem por gostar dela só porque sou mulher. Porra, isso não é um elogio. Isso sim é inferiorizar o meu trabalho. Acredito em props reais e transversais a género. Eu gosto de ver quando se aperfeiçoa, se reinventa e se inova a arte, e rimar (e tudo o que isso envolve… atitude, flow, punchs, métrica, temas, visuals, etc.). É uma arte f*da e f*dida. É tipo puzzle. E eu vou sempre olhar com mais respeito para quem fizer um puzzle de 1000 peças do que um 100, porque também gosto que o façam comigo. Acho que eleva a fasquia e reaviva o verdadeiro, natural e genuíno sentimento de competição — que eu acho essencial e dope af no rap!

Claro que estou a par do que se está a fazer actualmente. Mad luv para a Nenny! Eu comecei a rimar praticamente com a idade dela e acho que tem talento e um futuro dope pela frente!

O que é que podemos esperar depois deste single? Vai fazer parte de um projecto?

Coisas doces, bebé! E claro, no doubt! “Chong Kwong” é o single de apresentação do meu primeiro projecto a solo. Desde o ano passado que estou a trabalhar 24/7, a criar dentro e fora de estúdio. Comecei a minha própria estrutura para tal, a minha label — a Blasian Drip (nome do meu canal no Youtube) –, onde posso voar com a minha imaginação e ter oportunidade de trabalhar e convidar outras pessoas talented as fuck, tipo, o Wilsoldiers (vídeo), o Snake (beats), a Thayline (a minha manager), a Soundsgood (booking). Estou neste momento 100% focada em dar corpo ao meu álbum mas sem pressas. Porque pressa é muito inimiga da perfeição, e eu sou mais amiga da perfeição (ainda que seja um mito) que da pressa. Depois quero obviamente convidar outros artistas para a Blasian Drip por isso também ando e vou estar atenta ao que tem saído e ainda vai sair.


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